16 janeiro 2015

Elysium 1: Fenris Fenrir - Capítulo 3

- Desde quando temos mestiços de humanos nas bases? – se a voz de Tyvan era cheia de desprezo, a daquele Lobisomem puro era o desprezo na sua máxima expressão. Embora fosse apenas o tom que me dissesse isso. O rapaz falara na língua própria que os Lobisomens costumam usar, que é um tipo de variante do norueguês arcaico. Eu só aprendera o básico nas aulas de Língua das Raças, portanto afirmo com orgulho que entendi somente uma ou duas palavras – humano e base. O resto era mistério. Acho que vou me ferrar até aprender o dialeto usado pelos Lobisomens...

- Desde quando é isso ou ter um Lobisomem descontrolado matando à torto e a direito e dando motivos para os humanos tentarem acabar conosco pelos mesmos motivos que nos caçaram na Idade Média. – a voz de Joshua ecoou com um tom de repreensão, em minha língua-pátria, o português, o qual foi entendido perfeitamente pelo outro, considerando o quanto sua expressão azedou – deixando óbvio que o uso daquela variante de norueguês arcaico foi somente para que eu não entendesse –, para em seguida olhar na direção do major com uma mistura de rebeldia, surpresa e respeito. Mesmo ele, com toda a autoridade que exalava, respeitava Joshua.
E eu entendo. Afinal, autoridade não vale nada se você não for respeitado.
“Estou gostando mais ainda de Joshua...”
A fera não era a única...
- Não é porque o seu clã domina toda a sociedade Lobisomem atualmente e você é o próximo na linha de sucessão que vai poder fazer o que bem entender no Fenris Fenrir, Davi. A partir do momento que colocou os pés aqui, como recém-Transformado, para aprender a domar a sua fera interior, você é somente mais um Lobisomem. Ser um Kupfer, uma Asimí ou um Sonnenblume – nesse ponto Joshua lançou um olhar para Luís, que deu de ombros – significa nada. Enquanto você estiver aqui, seu clã de origem é somente um nome. – o final de sua fala foi afiado como uma faca, e percebi o nomeado Davi estremecer com a fala de Joshua.
A fala do Major me fez lembrar de minha aulas sobre os Lobisomens. Fazia uns dois séculos o clã dominante era os Kupfer, cujo ramo principal de puros de onde os seus Alfas vinham tinham como características os cabelos e olhos de tom acobreado. Davi era puro com cabelos e olhos acobreados com autoridade e inteligência suficiente para um líder – e Joshua afirmara que ele era o próximo na linha de sucessão. Ligando A mais B, eu só podia deduzir que Davi era o próximo Alfa dos Kupfer. Isso explicava sua atitude em relação à mim. E explicava como entendia o português. Eu não estranharia se ele fosse fluente em no mínimo dez línguas – seu futuro cargo exigia.
O desconcerto de Davi durou só alguns segundos. Logo, um sorriso jocoso surgiu enquanto voltava a me olhar.
- Não é a presença dele aqui que me preocupa tanto... É o depois, se ele sobreviver. – ele fez questão de falar em português, me analisando para descobrir que efeito a frase teria. O sotaque era leve, quase inexistente.
“Se ele sobreviver? Acho que quero mostrar pro senhor herdeiro que o mestiço aqui não é tão fraco assim...” Eu podia enxergar os olhos dourado-puro semicerrados, raiva e uma chama de ódio brilhando em seu interior, a saliva escorrendo mais abundante pelos dentes cerrados com a vontade de lutar. Eu tive que lutar e muito contra o instinto primal que minha fera despertou. Tão logo eu sentira sua vontade de lutar, de matar, eu quis fazer aquilo. Ela me influenciava de forma muito forte... Nossas vontades e espíritos estavam mesclados demais: éramos dois lados de uma mesma moeda.
- Nenhum clã vai aceitar um mestiço com um humano. Não com uma mistura tão recente; exceto se descobrirem de qual clã ele tem sangue. – o sorriso jocoso sumira, ainda em minha língua. Seus olhos dourado-cobre me analisaram. Eu pude sentir não apenas Davi, mas a sua fera me esquadrinhando, procurando por alguma fraqueza que estivesse exposta.
Tive vontade de rosnar, encorajado pela minha fera, mas resisti. Eu sabia, mais pela minha educação humana que qualquer outra coisa, que aquilo provavelmente faria Davi pular na cama e me atacar com aquelas garras. E com os caninos triplos nas duas arcadas que eu vislumbrara quando ele falou. Provavelmente a única coisa que impediria ele de arrancar minhas tripas pela garganta seria a coleira. Mas ele ainda podia me abrir as costelas arrancando o meu esterno, então só mantive meu olhar firme, até sentir a mão de Joshua em meu ombro. O olhei, um pouco surpreso.
- Qualquer clã vai aceitá-lo se ele demonstrar que tem o que quer que um dos clãs procure, Davi. – o Major me olhou de novo, sorrindo, antes de andar na direção de Davi, começando a guiá-lo para fora do quarto. Ele não falou até estar fora do quarto, mas Davi virou o rosto umas duas vezes antes de sair para me lançar um olhar mesclado de raiva e aviso.
“Joshua acabou de se transformar no meu herói.” Uma pausa. “Eu jurava que o tal de Davi ia avançar com as garras direto no nosso coração... Você vai deixar as unhas crescerem também, não vai, Amadeus? Odeio me sentir tão indefeso quando nessa fraca forma humana...”
Não consegui me impedir de rir com o pensamento desordenado da minha fera. O tom de animação me surpreendeu como se de repente uma criança estivesse me implorando por um doce. E eu conheço bem crianças implorando por doces. Ah, se conheço...
Senti um olhar me analisar, e voltei minha atenção para Luís. Os olhos dourado-claro me observavam, piscando de seu modo curioso. Inclinei de leve a cabeça, num gesto interrogador de por que ele me olhava daquele jeito.
- Você se controlou bem. À menos que a sua fera esteja dormindo ou seja calma demais, ela provavelmente provocou algo em você contra Davi. A minha tentou me convencer a atacá-lo! – riu no final e empurrou de leve o meu ombro. Sorri em resposta, balançando a cabeça.
- A minha também queria atacá-lo. Resisti com muito custo, e foi só por lembrar as possíveis consequências que rosnar ia gerar pra eu me controlar. – Luís franziu as sobrancelhas e abriu a boca para falar, mas fui mais rápido. – Nunca imaginei que estudar para ser diplomata ia me ajudar a seguir como Lobisomem. – com minha última frase, Luís gargalhou.
- É, não tem jeito! Vocês dois iam acabar se conhecendo e não se bicando muito, se você nunca se transformasse! – ele se levantou e me ajudou a arrancar os fios e agulhas ligados e espetados em mim. Quando o último saiu, me levantei, cambaleando um pouco, e antes de me firmar por completo, Luís jogou um braço pelo meu pescoço e me arrastou na direção da porta. – Vamos lá! Hora de uma excursão pela base, e depois te levo pro nosso quarto! – hein? Nosso? Foi a minha vez de franzir as sobrancelhas.
- Como assim, nosso quarto? – Luís parou, os olhos e dedos concentrados em digitar o código para abrir a porta no painel touch-screen. Ele me olhou e sorriu.
- Você é um recém-Transformado, e eu sou o veterano sorteado por Joshua para te vigiar e ajudar a controlar a fera e no que mais você precisar de ajuda pelo próximo ano. Por causa disso, vamos ser colegas de quarto, e provavelmente continuar como colegas de quarto depois disso.
“Contanto que ele faça só isso mesmo...” A fera rosnou de leve, e me controlei para não rir.
Pra eu ficar feliz mesmo, só me falta falar com Eliana agora...

A enfermaria ocupava os dois últimos andares do prédio por inteiro, um carpete branco cobrindo o chão e abafando nossos passos. As paredes eram todas de metal claro, prontuários eletrônicos em interfaces touch-screen flutuando nas portas, preenchidos ou não dependendo se os quartos estavam ou não ocupados.
Estávamos chegando ao elevador quando as portas de metal se abriram num zumbido mais suave que o do meu quarto, e uma maca flutuante com um porco do mato gigante e marrom, as presas inferiores se erguendo ameaçadoras, uma delas quebrada no meio como uma cicatriz de guerra, um exoesqueleto preto com conexões verde-folha cobrindo as costas e pernas, a traseira esquerda coberta de sangue, entrou na enfermaria, empurrada por um homem alto e mais avantajado que Davi no sentido “músculos”; ele tinha uma cabeleira vermelha que parecia fogo esvoaçando na cabeça, olhos verde-folha e estreitos, a pele morena e lisa, com poucos pelos, com um exoesqueleto das mesmas cores do que cobria o porco do mato, um centro de controle de armas e exoesqueleto e um monitorador de sinais vitais nos antebraços. Seus pés eram virados pra trás e sangue seco o cobria da testa até o queixo do lado direito do rosto.
O cheiro do sangue era férrico e doce, e deixou a mim e a fera enjoados. Não o sangue em si, mas algo mais além do cheiro de sangue. Tinha algo além que eu não conseguira identificar, mas que eu não gostei.
- Tyvan, seu lobo pulguento, aparece logo! – o médico saiu de um quarto pelo qual eu e Luís tínhamos passado, os passos apressados na direção do homem e do porco. Conforme o homem falava, vi que todos os seus dentes eram pontudos – Uns malditos Vampiros me emboscaram no caminho pra cá, quase não consegui fugir! – Tyvan se aproximou, examinando a pata coberta de sangue do porco. – Os desgraçados quase arrancaram a pata do Guaraci! – o homem continuou falando sobre a tal emboscada, até que Tyvan rosnou alto o bastante para parecer um leão rugindo, calando o outro cara.
- Vê se pára de falar por cinco minutos, Curupira. Eu vou cuidar do Guaraci, fazer os testes pra ver se ele não foi infectado e todo o mais. – Curupira continuou em silêncio, os lábios apertados com raiva. Tyvan deu um olhar para ele, e ergueu uma sobrancelha. – Depois dou uma olhada nisso aí. – Apontou com o queixo para a testa do homem. Olhei para o homem de cabelos vermelhos um pouco surpreso, não acreditando que eu estava diante do Curupira sobre o qual eu lera e ouvira nas aulas sobre as raças – mesmo com os pés invertidos provando que era ele sim.
Ele era o guardião da Floresta Amazônica, um guia das demais raças no território, e um vigia contra as raças mais... Indesejadas, por assim dizer. Ele era forte e lutava contra dez inimigos não-humanos facilmente. Além disso, era especialista em armadilhas. Era difícil acreditar que tinham emboscado-o. Ainda mais Vampiros, que cheiravam forte até mesmo para humanos.
“A emboscada foi muito bem feita...” Concordei com a fera com um resmungo.
Tyvan guiou a maca para um dos quartos, a porta se abrindo com um comando de voz e fechando assim que ele passou. Assim que o porco do mato não estava à vista, Curupira pareceu reparar em mim e em Luís, e sorriu de leve.
- É ele, Luís? – acenou com o queixo para mim, e o Lobisomem do meu lado riu enquanto respondia afirmativamente. – É melhor treiná-lo bem. Iara ficou curiosa por conhecê-lo. – olhou para os lados e então se aproximou, sussurrando. – Mais ainda do que o herdeiro Alfa dos Kupfer, e olha que eles tem um acordo de paz que ela renova à cada Alfa...
Luís assoviou com um tom surpreso.
- Melhor Davi não ouvir isso. – não foi a voz de nenhum de nós que disse isso.
Era uma voz de tom melodioso, mas afiado, quase como alguém que dá uma ordem disfarçada de sugestão, com um sotaque um pouco carregado. Era uma voz de mulher. E de mulher inteligente.
Enquanto nossas cabeças eram atraídas na direção da voz, que vinha do quarto que Tyvan saíra quando Curupira chegou, o cheiro nos alcançou graças ao sistema de ventilação.  Era uma mistura de orvalho, gengibre, baunilha e leite. Era atraente, mas com arestas afiadas e venenosas, como uma bela planta carnívora.
E ela mesma podia ser descrita assim.
O cabelo era loiro-platinado, liso e longo, e ela tinha amarrado-o num nó que só mulheres conseguem fazer sem a ajuda de grampos ou qualquer coisa assim, com alguns fios caindo no rosto de pele quase invernal. Os olhos eram dourado-claro, mas com algumas gotas de prata mais no exterior da íris, e o olhar num todo, afiado como uma navalha, penetrando direto em meus pensamentos para destrinchá-los. Ela devia ser um ano mais velha que eu, e era alguns centímetros mais alta também. A regata branca e a calça moletom cinza não faziam nada para esconder o corpo atlético e afiado como uma adaga para avançar rapidamente, matar e então retroceder. Estava descalça, o corpo numa posição que indicava preparação para o que eu acabara de descrever, acentuado pelas unhas de dois centímetros e meio de comprimento, e nem mesmo a coleira tirava dela o ar quase aristocrático que emanava. Ela, e sua fera, deviam ser rainhas na caça e no que mais ela fazia.
Ela andou na nossa direção com passos leves que mal amassavam o carpete, lançando um breve olhar indecifrável na minha direção, um leve erguer de lábio que demonstrou sua resistência em rosnar, antes de seguir seu caminho adiante, passando direto pelo elevador. Conforme ela se aproximava de mim e cruzava a minha frente, os pensamentos da minha fera ficaram mais fortes, intensos e se separaram quase completamente dos meus.
“Agarre-a.”
Hein? Você pirou? Ela vai arrancar o meu couro sem esforços com aquelas unhas...
“Agarre-a. Estou falando sério, essa fêmea é A fêmea. Se você não agarrá-la agora, eu vou me vingar na próxima vez que você se transformar...”
Rá! Como se eu fosse deixar você tomar o controle total pra isso! Além disso, sou novo demais pra morrer. Agora, cale-a-boca.
Aparentemente, isso bastou para fazer minha fera ficar quieta. Ou talvez a garota já estivesse longe demais e ele tivesse decidido que já era tarde.
Olhei para o lado e vi o que provavelmente era um reflexo de minha expressão em Luís: ele seguia a garota com os olhos, o queixo caído, um brilho de desejo no olhar e uma expressão de quem parecia lutar consigo mesmo. Mais um pouco e teria baba escorrendo por seu queixo.
Ouvi Curupira rindo, e nós dois nos viramos para ele. Discretamente, passei minha mão no queixo para garantir que eu não tinha babado. Foi um alívio descobrir que não – mas cheguei perto.
- O que nos infernos acabou de acontecer? – balbuciei para ninguém em especial, e Curupira se dignou a responder. Sério, ainda bem que aquela garota já estava afastada... Eu não sabia se ia conseguir controlar minha fera – e à mim mesmo – por muito tempo...
- Isso, meu caro mestiço, foi a incrível atração que as Lobisomens do clã Asimí exercem sobre os machos da sua raça! – ele continuava rindo, resmungando algo sobre “Eu devia ter gravado isso...”, o que me deixou muito tentado a terminar de arrebentar a cara dele – a fera apoiar a ideia veementemente só pra ter algo que socar não ajudou no meu autocontrole.
Eu tinha estudado sobre esse clã. Era o único clã formado apenas por fêmeas de Lobisomens. Eram, basicamente, as Amazonas da lenda grega. Eu lera sobre a incrível atração que elas exerciam, mas não tinha acreditado muito... Rá! E agora, eu experimentara essa atração em primeira mão... Droga.
- Eu não sabia que a herdeira da Alfa das Asimí era tão bonita... – Luís resmungou, em seguida dando tapas no próprio rosto que deixaram a pele vermelha. Antes que eu pudesse sequer pensar em ficar surpreso por saber que a Lobisomem que acabara de passar também era a próxima na linha de sucessão de um clã, Luís agarrou meu braço num aperto de aço e começou a me puxar para o elevador. – Até outra hora, Curupira. Vamos, tenho de te mostrar os campos de treinamento e te informar das regras da base antes de escurecer... – enquanto a porta do elevador se fechava, Luís olhou para o bracelete-relógio no pulso direito. – E também temos de passar nos laboratórios de tecnologia... E temos só três horas... – o elevador começou a se mover. – Droga.

O elevador parou no último andar, que Luís disse ficar no subsolo e que conectava os três prédios que formavam Fenris Fenrir, além das pontes de vidro. Alguns Lobisomens subiram e desceram ao longo dos andares, mas nenhum continuou até o subsolo. Todos, sem exceção, me olharam com um misto de curiosidade e raiva – eu era um mestiço com humanos, afinal... E uma das coisas que aprendi primeiro com minha mãe – que nem tive oportunidade de falar ainda – é que, dentre todas as raças, Lobisomens são os que mais possuem raiva acumulada contra os Humanos, devido às perseguições desde a antiguidade e das torturas que sofreram na época da Ascensão, além do desprezo por sermos completamente incapazes de usar magia, por nós mesmos termos caçados aqueles que eram capazes por puro medo do diferente.
Embora ela tenha me dito também que eles possuem certa raiva dos Elfos, acho que mais por incompatibilidade de gênios do que qualquer outra coisa, e ódio mortal dos Vampiros – mas desconfio que isso é algo geral às raças – que nunca se limitaram a sugar sangue apenas dos Humanos e por possuírem, até hoje, um prazer macabro em lutar contra os Lobisomens. Não sei onde exatamente a rixa começou – espero aprender, agora que vou ter total acesso à história das Raças, ou ao menos da que faço parte – mas é antiga. Muito antiga.
Descemos num saguão de teto alto, que me fez imaginar a que profundidade eu realmente estava, com o chão acarpetado de cinza-chumbo e paredes de um metal ligeiramente mais claro, completamente vazio. Não tive tempo de contar antes do Lobisomem magrelo com pinta de espião me puxar para um dos corredores, mas no mínimo seis saíam do saguão estéril.
O corredor não era muito diferente, pontuado por portas à intervalos desregulares, pelas quais passei muito rápido para ler as identificações acima, e outros corredores que pareciam seguir infinitamente. A impressão que tive era que eu passava por uma porta e por um corredor...
- As salas onde aprendemos a nos controlar ficam aqui, no subsolo. – Luís virou em um corredor de repente enquanto falava, e continuou andando e falando. – Assim como os laboratórios e as salas das poucas aulas teóricas. Os campos de treinamento e os dormitórios ficam nos prédios. – por um momento, virou o rosto para me olhar. – Primeiro vamos passar nos laboratórios tecnológicos; precisamos pegar o seu anel de identificação, configurado com os mapas da base, seus dados, seu DNA e todo o mais que vai precisar daqui pra frente. – enquanto falava, ele ergueu a mão esquerda, o que me fez reparar que um anel vermelho pôr do sol repousava no dedo médio, no formato da cabeça de um lobo monstruoso envolvendo a primeira falange quase completamente. – Cada um já possui um ao chegar numa base, e as cores indicam o clã. – atravessamos outro saguão, não tão vazio como o outro, embora os Lobisomens ali mal tenham nos reparado, ocupados demais revisando dados em interfaces espectrais ou falando no dialeto próprio uns com os outros, a grande maioria usando jalecos brancos, alguns com pingos de substâncias não identificadas – digam o que quiserem, Lobisomens também são cientistas, e muito bons por sinal – e continuamos andando por corredores, agora bem mais movimentados. – Para Lobisomens como você, sem clã, a cor padrão é dourado-claro. – me olhou por um instante, parando de repente diante de uma porta – Depois vou passar com você todas as cores. Se quiser sobreviver sem irritar todos os Lobisomens da base, é melhor decorá-las.
Ele já ia digitar algo na interface da porta, mas eu tinha de demonstrar que não era totalmente ignorante – eu sabia as cores de boa parte dos clãs. Minha mãe não ensinava História das Raças à toa, e eu já dominara tudo que era ensinado sobre os Lobisomens em Cultura das Raças, para a minha sorte.
- Já sei boa parte das cores. Cobre para os Kupfer, prata para as Asimí, vermelho pôr do sol para os Sonnenblume, azul-safira para os Kapuyt, azul meia-noite para os Gisher, verde-outono para os Vosien, branco para os Zuri... – recitei de cabeça os primeiros clãs que me vieram à mente, enquanto também buscava informações sobre cada um. Luís me deu um olhar crítico.
- Ok, então... Pequeno teste com as características de alguns clãs... – ele deu uma pausa e se virou para mim. Teste surpresa... Que coisa linda... Pelo menos era sobre o assunto que eu já tinha dominado. Eu teria me ferrado bonito se as perguntas fossem sobre os Totens ou os Elfos... – Kapuyt.
- Cabelos negros, olhos dourados com heterocromia incompleta de azul-safira, pele clara. Raciocínio rápido, boa memória, curiosos e inventivos. Grande maioria de cientistas, biólogos e inventores. Pouca ocorrência de magia. – Luís quase sorriu. Os Kapuyt não costumavam serem mencionados porque os Lobisomens queriam manter seus mais geniais cientistas bem escondidos. E sinceramente: eu não sabia muito além do que tinha dito.
- Zuri.
- Cabelos de cores variadas, geralmente com mechas brancas ou totalmente brancos, olhos dourado-fosco, pele variada. Mais mal-humorados que a maioria dos Lobisomens, mas inteligentes e trabalham bem sob pressão, com alguns casos de magia. Estrategistas, médicos de campanha, especialistas em tecnologia, pilotos, entre outras profissões que envolvam tecnologia e magia.
Luís acenou afirmativamente, enquanto eu refletia que Tyvan provavelmente era um Zuri. Suas características encaixavam, mas dependia se seus pais eram do mesmo clã e, em caso negativo, qual clã conseguira predominância para adotá-lo.
Política Lobisomem. Um inferno quando Lobisomens de clã diferentes decidem ter filhos. Ou quando mestiços, tipo eu, inventam de aparecer.
- Vosien.
O teste de fogo: um clã formado totalmente por mestiços e não muito mencionado.
- Cabelos de tons de castanho, olhos bicolores: um dourado, de tons variados, e o outro de tons de verde, geralmente outonal, pele parda. Mestiços com Ninfas da Terra. Neutros em questões políticas, inteligentes, pacíficos, com alto talento para magias de cura e relacionadas à terra. Médicos, estrategistas, magos de apoio em batalhas terrestres, especialistas em qualquer coisa que queiram.
O Lobisomem sorriu, passando um braço pelo meu pescoço e encostando o polegar na interface da porta.
- Melhor do que imaginei. Mesmo assim, vamos repassar os clãs e suas cores mais tarde. Alguns não são divulgados para os humanos... – o metal se afastou com um zumbido, e Luís me arrastou para dentro do que só posso dizer que era um laboratório de desenvolvimento tecnológico. Gigante. Movimentado. Do tipo que dois passos fora do caminho pré-determinado te fazem se perder até alguma alma caridosa resolver te guiar, porque eram bancadas, instrumentos e máquinas demais num único ambiente.
Acima de tudo, era estranho. Quer dizer, eu sabia que Fenris Fenrir era a principal base militar dos Lobisomens – existiam outras três, menores, uma no norte da Europa, que antes da base Americana ser construída, era a principal, outra no sul da Ásia, e outra no centro da África – mas não tinha noção da quantidade de atividade que ela abrigava. Para mim, o desenvolvimento tecnológico, químico e biológico ocorria nas nove cidades Lobisomens, em sua maioria. Foi isso que aprendi. E pelo jeito, aprendi errado – ou foi ensinado errado aos Humanos, ou nas cidades o nível de pesquisas era ainda maior.
Lobisomens com faces respeitosas de cientistas loucos, anéis brilhantes com interfaces espectrais ondulando em seus braços em cores variadas, andavam ou ficavam parados em bancadas, dados flutuando no touch-screen das mesas e nos espectros, enquanto ferramentas minúsculas controladas pelos dedos envoltos por luvas magnéticas e sensíveis manipulavam os sistemas delicados de alguma máquina em desenvolvimento, enquanto outros mais jovens corriam pelo lugar, levando dados, café, lanches, levavam broncas ou eram elogiados – os típicos aprendizes e estagiários; pelo jeito, as coisas não são muito diferentes nesse quesito: independente da raça, eles são explorados e ficam loucos por causa de seus professores e orientadores.
Alguns olhos de diversos tons se viraram para nós brevemente, indecifráveis, antes de voltarem ao que faziam, enquanto Luís me guiava através dos corredores espaçosos entre as bancadas, ainda com o braço no meu pescoço, provavelmente com medo de que eu acabasse esbarrando em algo. E eu não o culpo.
Uma garota que parecia ter a idade de Luís quase esbarrou na gente ao virar de repente na quina de uma das bancadas, um par de óculos de proteção em seu rosto aumentando seus olhos dourado-fosco, escorregando pelo nariz, letras minúsculas parecendo escorregarem pelas lentes e um pequeno fone em sua orelha ligado à haste por um fio fino; quando ela ergueu a mão para arrumar os óculos, vi o anel de identificação, branco, em seu dedo médio; o cabelo cinzento com mechas completamente brancas cortado repicado e rente à cabeça dando-lhe um ar ligeiramente respeitável. O topo de sua cabeça batia pouco acima do meu cotovelo, seu rosto possuía contornos fofos, e seu corpo era magro, parecendo pequeno no jaleco branco e largo, quase um vestido. Seus olhos tinham um brilho inteligente, e seu cheiro natural estava mascarado pelo aroma de metal, graxa e outras substâncias desconhecidas. Um vidro fino com circuitos em vermelho percorrendo suas beiradas, letras, diagramas e fórmulas flutuando no espaço interno estava em suas mãos.
- Ooh... Pra que tanta pressa, Gwineve? – O Sonnenblume ao meu lado perguntou, e os olhos de Gwineve faiscaram em sua direção.
- Porque o seu tio está me pedindo para realizar uma dúzia de tarefas ao mesmo tempo! – ela enfiou um dedo no peito magro de Luís, parecendo irritada e fazendo jus à fama de mal-humorados dos Zuri, me fazendo perceber por um instante que seu português não possuía sotaque – ela provavelmente cresceu na cidade Lobisomem que foi construída na ilha de Marajó durante a Queda, a única cidade Lobisomem na América do Sul, Rav. Luís parecia particularmente divertido com a cena, enquanto eu me sentia ouvindo o velho ditado do meu avô sobre minha avó: Nos menores frascos, não estão os melhores perfumes... Mas os piores venenos. Se adequava perfeitamente nela – na minha avó e na garota. – Onde já se viu! Eu construo os equipamentos que impedem os militares como você de morrerem em campo! Não configuro anéis de sem clã! Além disso, quem hoje em dia é sem clã?! – ela provavelmente ia falar mais alguma coisa, mas o rapaz sufocou um sorriso enquanto seus olhos deslizavam na minha direção. Gwineve franziu as sobrancelhas e pela primeira vez ela me notou, dando um pequeno gritinho e pulando sem sair do lugar.
“Bonitinha... Mas, sei lá... Muito irritada e baixinha... E Luís já está de olho, então... Continuo com a loira.”
Essa é boa. Minha fera dá palpites sobre namoradas...
Que história é essa de “Luís já está de olho”?
“Você é um retardado que não presta atenção nos seus sentidos? O cheiro dele ficou pior do que quando a loira passou na nossa frente, os hormônios estão explodindo dentro dele! Até a fera dele concorda com a escolha e está tentando chamar a atenção dela! Aliás, eu não estranharia se eles já não tivessem algo...”
Outra coisa me chamou a atenção. E não foi a parte sobre o cheiro de Luís na frente de Gwineve – que eu decidira ignorar se estava ou não mais forte.
Pior do que quando a Asimí passou? E o meu cheiro naquela hora...
“Pior do que o dele agora... Você gostou do que viu tanto quanto eu... Talvez mais...”
E elas percebem?
“Qual seria o sentido de ter um cheiro tão forte para atrair fêmeas se elas não percebessem?”
Merda.
Joguei a informação mais recente para escanteio, procurando me concentrar no que estava diante de meus olhos, decidido à, assim que tivesse a oportunidade, refletir mais sobre aquela história de cheiro e mulheres...
- Esse aqui é o Amadeus... – Luís bateu em meu ombro, ainda me mantendo próximo, e a Zuri aproximou-se um pouco para ver meus olhos de perto, os próprios piscando em seu rosto fofo lentamente de forma curiosa e surpresa, ficando nas pontas dos pés.
- Você... Você é um mestiço... Com Humanos... – ela concluiu, depois de descer o rosto um pouco para farejar perto do meu ombro. Afastou-se rapidamente, seus olhos aumentados pela lente ainda piscando com curiosidade. E então ela deu um pulo animado, e acho que só não bateu palmas por causa do vidro fino em suas mãos. – Shara já sabe?! Ela vai ficar ansiosa por examinar seu DNA! – ela abriu um sorriso. – Não sei se você sabe, mas faz realmente muito tempo desde que tivemos um Lobisomem do seu tipo! A maior parte vai te direcionar raiva, mas pode ter certeza de que nossos cientistas genéticos, como Shara, vão é ficar ansiosos por te conhecer! – ela ainda estava animada, os olhos inquietos e parecendo querer sair correndo.
- Por quê? – me peguei perguntando, a fera fazendo coro ao fundo.
- É que, apesar do que dizem, existem muitos Humanos com sangue de Lobisomem e de outras Raças nas veias, mas ninguém descobriu ainda o que provoca o gatilho pra esse Humano mostrar características das duas raças, por isso quando mestiços de qualquer raça com Humanos surgem, provocam tanta comoção! Os geneticistas vão ficar loucos para comparar seu DNA antes e depois da primeira Transformação com o DNA de mestiços que nunca se transformaram! Atualmente, é um dos principais alvos de pesquisa das raças, tentar descobrir o que diferencia mestiços como você de mestiços que são eternamente Humanos comuns!
Luís riu ao meu lado, e Gwineve o olhou de forma que considerei assassina.
- Joshua previu isso, Gwineve. Shara já tem as amostras, e imagino que o anel que você estava configurando é do cara aqui, então falta pouco. – ele fez uma pausa pensativa, o polegar esfregando o queixo. – Se bem me lembro, o Major disse que ela e os demais agiram como “Lobisomens atrás de carne crua na lua cheia”...
- E ela não me disse nada?! Como ela me deixa de fora de uma notícia dessas?! – Gwineve estava de novo em sua máxima expressão do lendário mal-humor dos Zuri. – Seu tio está esperando por você mais ao fundo, você conhece o caminho! – deu uma pausa, os olhos semicerrados perigosamente. – Agora, com licença, mas tenho de fazer uma visita aos laboratórios genéticos! – antes de partir, me deu um pequeno sorriso. – Seja bem vindo, Amadeus, e não ligue para os idiotas que te insultarem por ser um mestiço! Concentre-se em fazer aquilo que você nasceu para fazer, e ninguém vai poder falar algo contra você!
Ergui as sobrancelhas com as últimas frases dela. Era irônico que um Zuri parecesse querer que eu desaparecesse, enquanto outro me dava boas vindas...
Pensando bem, Tyvan parecia querer que todo mundo desaparecesse...
O rapaz ao meu lado voltou a me puxar, um leve sorriso ainda enfeitando seu rosto, e com o aviso da minha fera, reparei que ele parecia mais feliz também.
- Então... Qual a história? – perguntei enquanto continuava sendo arrastado pelo pescoço... Pelo jeito, a coleira é feita de modo especial para, apesar de ser de prata, não queimar em contato com a pele dos Lobisomens, afinal, nós realmente somos alérgicos à prata, e nem Luís aparentava sentir algo, nem eu sentia algo, além daquela sensação estranha de que a coleira parecia cantar em contato com a minha pele.
Ele me olhou, piscando meio surpreso antes de falar.
- A primeira Transformação dela foi no mesmo ano que a minha, na mesma semana, na verdade... – ele sorriu de leve. – Nos conhecemos na enfermaria... Ela te deu aquele conselho porque não é uma Lobisomem típica... No começo, a maior parte das pessoas a insultava, por ser baixinha e sua fera não ter uma aparência muito ameaçadora... – como alguém com aquele gênio não tem uma fera ameaçadora? É inconcebível! – Então, teve uma missão numa das cidades em ruínas, e alguns Gnomos armaram uma emboscada e atacaram o grupo com bombas de fumaça de nitrato de prata. – Luís fez uma pausa dramática que me deixou ansioso. Fumaça de nitrato de prata mata Lobisomens quase instantaneamente, queimando a traqueia e os alvéolos do pulmão e avançando para a corrente sanguínea, além de queimar as pupilas, os ouvidos e a pele. – Eles estavam com um novo sistema automático nos exoesqueletos, que com a presença de fumaça de nitrato de prata, cria uma malha flexível que cobre toda a cabeça, filtra o ar e permite ao militar enxergar. Gwineve tinha conseguido implantar esse sistema com sucesso nos exoesqueletos, sem interferir na armadura de mitril ou em qualquer outro sistema. A inteligência dela salvou a vida daqueles Lobisomens, e por causa disso ninguém mais a insultou... – ele sorriu de leve. – Ela fez o que nasceu pra fazer, e ganhou o respeito de todos os Lobisomens. Ela quer que você faça o mesmo...
Dei um cutucão nas costelas dele com o cotovelo.
- Você gosta dela... – murmurei, e ele deu um sorriso culpado, nem negando nem afirmando a “acusação”, antes de contar um pedaço que eu não esperava.
- Eu estava nessa missão... A inteligência dela salvou a minha vida, e, embora eu não compactuasse com os insultos, eu também não a defendia, mesmo tento conhecido-a na enfermaria e sabendo que ela era inteligente pra caramba... Acho que ainda me sinto meio culpado... E ela ser tão carrasca comigo não ajuda... – Ele confessou num resmungo.
Fiquei um pouco surpreso por descobrir que ele estava na tal missão, mas ele não me deu chance de falar nada, me puxando para a bancada mais distante, onde um homem de cabelos de um tom de loiro amarelo que apontava para todos os lados estava sentado, de costas para o resto do laboratório, inclinado sobre o móvel, concentrado. Na parede ao lado, uma porta de um metal mais escuro estava fechada, a interface touch-screen pedindo um código para se abrir.
O Lobisomem finalmente me soltou para se aproximar do homem, batendo as mãos com certa força nos ombros largos que esticavam o tecido do jaleco ao máximo. O cientista pulou de pé e tive a impressão, quando pegou a mão de Luís, que ia torcer o braço do meu “novo colega de quarto” e falar para ele implorar por misericórdia. Não era difícil de imaginar aquele cara fazendo algo do tipo.
Ele tinha a mesma altura do mais jovem, mas provavelmente o triplo de massa muscular; as sobrancelhas grossas e longas acima dos olhos dourado-claro e as costeletas e a barba longa o faziam parecer quase um protótipo de homem das cavernas, além de acrescentarem uns bons dez anos em sua aparência. Antes de ver que quem o interrompera fora Luís, o Lobisomem olhara ao redor de modo desconfiado, mas ao fixar o olhar no magrelo, um sorriso enorme e até meio estranho se abriu por entre o emaranhado que cobria praticamente metade de seu rosto, para então dar um abraço “de urso” no rapaz – é estranho falar que um Lobisomem deu um abraço de urso em alguém... Meio paradoxal.
- Luís! Meu sobrinho idiota, há quanto tempo não vem ver seu tio?! – soltou Luís, os dedos das mãos grandes se movendo para mexer no cabelo despenteado.
- Na verdade, você que deu uma de ermitão de novo e se isolou nos laboratórios... Há quanto tempo não faz a barba? – segurei o riso que quis subir pela minha garganta quando o mais novo puxou os pelos claros da barba, um gemido de dor escapando de seu tio.
- Não puxa! E... Umas duas semanas? – o homem semicerrou os olhos, pensativo, e Luís balançou a cabeça com ar desolado.
“Acho que tá mais pra dois meses...”
Totalmente de acordo.
- Tio Ben! A tia Stella vai te matar, e depois vai me matar, se te ver assim! – Luís parecia sinceramente com medo. Stella deve ser o típico estereótipo de esposa Lobisomem que praticamente cospe fogo feito um Dragão quando irritada – que é praticamente sempre. – Depois que pegar as coisas do Amadeus, você vai pro seu quarto. Se cuidar. E só sai de lá amanhã. Ou eu conto pra tia Stella. – foi a vez do mais novo semicerrar os olhos, parecendo ameaçador na direção do cientista.
Achei, por um instante, que Ben fosse, sei lá, brigar, falar que ia ficar lá, no laboratório, ou qualquer coisa parecida. Ele se limitou a fazer uma espécie de biquinho e começar a digitar algum código na bancada que criou um espectro protetor no que quer que ele estivesse trabalhando.
- Estraga prazer... – resmungou, fazendo Luís girar os olhos, antes de se virar para mim, um sorriso de novo aparecendo por entre os pelos desgrenhados. – Então você é o nosso mais novo mestiço! – sua mão grande bateu em meu ombro, apertando e me puxando com ele na direção da porta. – Meu nome é Bernardo, mas todos me chamam de Ben. – ele digitou algum código na interface, me arrastando para dentro da sala branca, Luís logo atrás. – Seu anel de identificação está quase completamente configurado... Falta só alguns dados... – ele olhou na direção do sobrinho e deu uma piscadela marota que fez um arrepio subir pela minha coluna.

Ben andou até a porta ao lado da bancada e encostou a mão direita no metal. Segundos depois, uma luz verde piscou e, enquanto ela deslizava para o lado, o Lobisomem recuou um pouco e agarrou meu braço, me puxando para dentro da sala. Senti Luís seguir logo atrás de mim, mas isso não ajudou a subjugar um leve pavor que se espalhou pelo meu cérebro.