11 agosto 2016

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 7: De Missões e Mortos-Vivos

Alguém bateu de leve na porta da sala. Com um suspiro, já imaginando quem era, Annanda fechou o relatório com um movimento lento, antes de apoiar os cotovelos na escrivaninha, o queixo encostado nas mãos entrelaçadas.

- Pode entrar! – a porta se abriu, e o Investigador-Chefe entrou, fechando a porta atrás de si, como mandava o protocolo.


- Mandou me chamar, Sacerdotisa? – Nilton perguntou, sentando na cadeira estofada do outro lado quando ela acenou para o móvel. Annanda analisou com cuidado o olhar cansado no rosto moreno, a teia púrpura nos olhos escuros um pouco mais destacada que o normal. Treinar a nova vampira da unidade em magia vampírica devia estar sendo realmente desgastante, apesar da ajuda de Davi: o Feiticeiro recebera permissão dos líderes dos Faes Padrinhos e Madrinhas para ter um protegido como teste, e Vivian acabara por ser a “sorteada”.

- Mandei, Nilton. – deslizou o relatório que lia para o outro lado da mesa, acenando de leve para a pasta. O vampiro, com as sobrancelhas franzidas, o pegou e abriu. – Como estão as habilidades de Alanna?

Nilton virou uma página, as rugas na testa se aprofundando e a boca se torcendo em algo que ela julgou preocupação.

- Boas. Os surtos dos poderes dela já estão durando alguns dias, se o espírito não for expulso de uma vez, como foi no dia do ataque. Glen acha que vão se estabilizar logo, talvez antes do aniversário de catorze anos. – ele deu uma pausa ao virar a página, os olhos arregalando e aproximando o rosto. Annanda tinha uma ideia da parte que ele alcançara. – Isso é um... Zumbi? Esqueleto? Corpo possuído por espírito? Animado por necromante? Ghoul? Parece uma mistura de tudo, mas definitivamente não tem olhos de demônio, então não é um Ghoul...

De fato, ele alcançara a foto.

- Não conseguimos identificar com exatidão. Parece uma espécie de morto possuído, mas age mais como um corpo animado por um necromante, com a inteligência e consciência de um demônio. Estamos chamando de “Sem Pele”, por enquanto. Termine de me descrever as capacidades de sua filha. – Nilton balançou a cabeça de forma ausente, passando a falar como um robô, envolvido como estava no relatório.

- A mira dela é muito boa e a mão é firme quando tem de atirar. Enxerga coisas que outros não costumam enxergar, quando se trata de algo relacionado à magia realizada por humanos. Tem se controlado bem quando divide o corpo com espíritos dos mortos. Não os deixa tomar todo o controle. Sabe praticamente tudo que a Ordem recolheu sobre os Primeiro, Segundo e Sétimo Mundo. Está bem avançada nos conhecimentos do Terceiro. A parte investigativa também anda muito boa. – falou conforme lia, até afinal erguer o rosto do relatório e encará-la. – Por que pergunta?

Annanda suspirou. Agora vinha a parte difícil. Alanna estava a uma semana de fazer catorze anos. Era uma boa idade para começar a investigar sozinho na Stella Bianca, quando se crescia na Ordem, mas Alanna era uma das Espirituais com maior deficiência entre todos que estavam ali. Isso deixava o poder dela mais forte, claro, mas era um empecilho quando não dividia o corpo com alguém. E ela ainda não tinha um espírito que a acompanhava a todo lugar, como Shamans e Druídas costumam ter.

- Quero enviá-la num missão solo. – respondeu a pergunta, apoiando as costas no encosto confortável e cruzando os dedos sobre o cinto do vestido. O vampiro pareceu ainda mais desconfiado, fechando cuidadosamente o relatório. – Quero que Alanna vá para o México investigar o aparecimento desses Sem Pele. Sozinha.

A teia púrpura em meio ao preto ficou mais espessa, as narinas se dilatando. Um pai Vampiro e bipolar preocupado com a filha.

Não podiam ter escolhido outro para a tarefa de criar a Shaman? Alguém menos explosivo, que não precisasse de sangue, preferencialmente? Onde Helena estava com a cabeça ao decidir isso?

- Ela vai fazer catorze agora. E é uma cadeirante.

- E uma Shaman acima de tudo. – deu uma pausa e se inclinou na direção dele, os braços cruzados sobre a escrivaninha. – Não pode protegê-la de tudo, Nilton. Uma hora ela tem de começar a investigar sozinha. Julgo que esse é um bom momento. Além disso, estamos com falta de pessoal por causa do ataque. Você tem de cuidar e treinar uma Vampira recém-transformada, mas Alanna está sendo treinada nisso há anos. Temos de... Como é que vocês dizem em português? Ah, sim, agilizar.
Nilton franziu os lábios, uma careta no rosto, e baixou o olhar para o relatório em mãos, colocando-o sobre a mesa e empurrando de volta para ela.

- Então é melhor colocar eu numa outra missão também, ou é bem capaz de eu ir atrás dela.

- Eu sei. – Annanda pegou outro relatório em cima da escrivaninha e entregou ao Vampiro. – Um informante nosso falou de umas atividades estranhas no Chile. Quero que vá para lá com Vivian.



Alanna observou Vivian, agora sem óculos por causa da transformação, desenhar os símbolos da língua vampírica usando o próprio sangue misturado com o que ela dissera ser um tipo de cogumelo em pó, com o auxílio de um pincel fino, no rosto e nos braços. Pousou o pincel na tigela onde recolhera o sangue, estendeu os braços e pronunciou o feitiço, como Nilton ensinara.

O sangue pareceu escurecer e se tornar espesso como se fosse tinta, antes de começar a escorrer pelo resto de sua pele, desenhando outros símbolos, sumindo debaixo da roupa leve e manchando o tecido. Quando a garota terminou de pronunciar o feitiço, o sangue pareceu secar e então ser absorvido, sumindo até mesmo da roupa.

- Acha que deu certo? – a Shaman perguntou, estralando os dedos das mãos com nervosismo.
Vivian deu de ombros.

- Só vou saber se tomar sol. – se aproximou da janela da sala, uma cortina marrom cobrindo-a e barrando o sol de meio de tarde. Com uma das mãos, afastou a cortina, luz solar penetrando pela abertura, e estendeu o outro braço para a luz fria de inverno.

Alanna prendeu a respiração, esperando ver bolhas vermelhas começarem a surgir na pele de Vivian, seguidas de fumaça e fogo. Ao invés disso, a pele permaneceu intacta, os símbolos desenhados antes aparecendo contra a luz, mas suaves. A Shaman não teria notado se não soubesse que estavam ali antes.

A loira deixou a cortina cair, antes de pular pela sala, rindo em comemoração.

- Pronto, Viv. Agora você não depende mais que Nilton faça os feitiços de proteção em você. – riu junto, batendo algumas palmas.

Vivian parou de pular e se jogou no sofá, enquanto Alanna girava a cadeira de rodas para observá-la de frente, cruzando as mãos sobre o colo.

- Mas é só o começo. – espreguiçou-se e colocou os pés em cima da mesa de centro, cruzando os braços atrás da cabeça. – Nilton disse que um feitiço para me proteger do sol é o básico do básico em magia vampírica.

Alanna balançou a cabeça em negativa, um leve sorriso nos lábios.

- Pelo que sei, dominar um feitiço vampírico em menos de um mês é uma proeza, ainda mais sendo recém-transformada, Viv. – suspirou, olhando para o teto. – Além disso, você agora é uma Vampira. Tem todo o tempo do mundo, ainda mais com a Stella Bianca te escudando dos clãs e Davi te protegendo.

Um sorriso apareceu nos lábios da vampira, e como Alanna, Vivian passou a olhar para o teto.

- Ainda parece muito louco tudo isso, Alanna. A forma como meus pais aceitaram... Viktor trabalhando na Stella Bianca também...

A Shaman voltou a olhar para a amiga, o sorriso sumindo e uma seriedade estranha surgindo nos olhos cinza-chumbo.

- Por mais que o que aconteceu com você seja trágico... De certa forma, não dá pra negar que precisávamos de ajuda.

Vivian baixou o rosto, os olhos verde-castanho com a teia púrpura encarando-a com tranquilidade; havia um brilho límpido nas íris, um brilho de calma que ela sempre tinha, mas antes, por causa dos óculos, era mais difícil de enxergar.

- O que aconteceu comigo seria um real problema se eu não tivesse você e Nilton. Mas eu tenho. Conhecer você foi providencial, Alanna. Deus sabe o que teria acontecido se vocês não estivessem aqui.

A porta do apartamento se abriu quase repentinamente, e Vivian se ajoelhou no sofá para olhar por cima do encosto, enquanto Alanna ajeitava a cadeira de rodas.

- Hei, meninas. Tudo tranquilo por aqui? – Nilton trancou a porta e deixou a mochila que carregava em cima da mesa de jantar, antes de tirar a jaqueta de couro e pendurá-la nas costas de uma das cadeiras.

- Vivian dominou o feitiço para se proteger contra a luz do sol. – Alanna anunciou com um sorriso, vendo o rosto da amiga se avermelhar.

Nilton parou de tirar algumas coisas da mochila e olhou para elas, surpresa nos olhos negros, antes de rir.

- Que ótima notícia! Desse jeito, vamos ter de procurar algum vampiro mago pra te ensinar logo, logo, já que não sou um especialista! – voltou à tarefa de esvaziar a mochila, ainda rindo.

- Não precisa, seu Niltin... O básico tá bom... – Vivian começou, se encolhendo no sofá.

O vampiro apoiou as mãos na mesa, observando-a com seriedade, mas com os lábios ainda esticados num sorriso pequeno.

- E desperdiçar seu talento pra magia vampírica, Viv? – Nilton deu a volta na mesa e parou na frente da garota, segurando os ombros dela com firmeza. – Você é inteligente e tem um talento natural pra magia. Isso não é muito comum entre os nossos. Não desperdice.

Um sorriso pequeno esticou os lábios vermelhos, e então Vivian balançou a cabeça em afirmativa. Nilton abriu um enorme sorriso e beijou a testa da garota, antes de se endireitar e voltar para a mesa.

As duas deram a volta no sofá e foram até a mesa, curiosas com as sacolas que o vampiro tirava da mochila. Cheiro de comida vinha delas.

- O que você trouxe? – Vivian foi a primeira a se manifestar, sentando numa das cadeiras à mesa. Nilton sorriu com a pergunta.

- Subway, é claro. – estendeu uma sacola para cada. – Frango defumado com cream cheese para você e frango teryaki para Alanna. Os seus favoritos.

Piscou para as duas garotas, antes de pegar duas pastas beges do último compartimento da mochila.

- E missões. Annanda quer você numa missão solo depois do seu aniversário, filha. – estendeu uma pasta para a Shaman, enquanto segurava a outra, mostrando-a para a recém-transformada. – Pessoas desaparecidas junto de seres não identificados avistados ao sul da Sierra Madre. Aparentemente um tipo de morto-vivo. Parabéns, filhinha, vai conhecer a terra de seus ancestrais. – havia uma certa ironia em sua voz. Alanna sorriu com tristeza: era a forma dele de demonstrar o desagrado de que ela iria numa missão solo, sem ele para protegê-la e provocar um massacre se precisasse. – Já eu e você, Vivian, estamos indo para o Chile. Muitos meninos recém-nascidos e primogênitos sumiram desde que a base foi invadida. Alguns bruxos velhos demais e maléficos demais estão entre os seres aprisionados que os Demônios levaram. Annanda desconfia que foram soltos e irão criar Invunches. Quer que impeçamos isso.

Alanna viu a amiga franzir as sobrancelhas enquanto abria o embrulho do sanduíche.

- O que é um Invunche?

A Shaman engoliu o que mastigava, vendo o pai sentar do outro lado e abrir o próprio lanche, de peito de peru. Parecia deixar a tarefa de responder a pergunta para ela. Suspirou antes de começar a falar.

- Basicamente, um homem deformado com o corpo coberto de pelos. Bruxos da região do Chile que fazem magia para o mal os criam a partir de meninos recém-nascidos usando rituais bem grotescos e os usam para vigiarem suas casas e como instrumentos para causar o mal. Antes faziam isso com qualquer um, mas a crença na região de que só meninos recém-nascidos que são o primeiro filho de alguém podem ser usados acabou influenciando e limitando esse aspecto da magia desses bruxos. – lambeu o molho de maionese que pingara no dedo antes de continuar. – Quando a Stella Bianca prendeu esses bruxos uns cento e cinquenta anos atrás, não sobrou quem soubesse criar um Invunche. Se esses bruxos continuarem soltos, vai ser o caos, com risco do número de feiticeiros corrompidos aumentar.

Vivian apertou os olhos, parecendo confusa, e engoliu antes de falar.

- Bruxo e Feiticeiro não é a mesma coisa? E o que você faz não é um tipo de magia?

- Não. Bruxos são humanos capazes de realizar magia através de rituais; ficaram extremamente raros nos tempos modernos. Feiticeiros, como o Davi, são mestiços de humanos e Faes, ou humanos com alguma outra espécie mágica, e a magia que realizam é a magia do pai ou mãe mágico: magia Fae, magia Djinn, etc. Já Alanna, Glen e Annanda são Espirituais. A magia nelas é intrínseca e não precisa ser liberada e conduzida na forma de rituais, o que faz o leque de habilidades delas ser reduzido em comparação ao de um bruxo ou de um feiticeiro. – Nilton começou a explicação, dando mais uma mordida no lanche e engolindo antes de continuar. – Por exemplo. Um bruxo, com o ritual apropriado, pode ver os espíritos dos mortos, comandá-los e até mesmo abrir o próprio corpo para eles por um determinado tempo. Também é capaz de amaldiçoar alguém a, sei lá... Ter uma doença incurável. Alanna pode falar e ver os mortos e comandá-los, embora o último com dificuldade, naturalmente, sem a necessidade de rituais, e pode dividir o corpo com o espírito de um morto por tempo indeterminado. Mas só. Mesmo que tentasse aprender outro tipo de magia, não conseguiria, embora espíritos de mortos capazes de realizarem magia possam fazer essa magia quando ocupando o corpo dela.

- Caramba. Que confusão. – a loira resmungou, decidindo se concentrar em devorar o próprio sanduíche. Alanna e Nilton sorriram de lado.

- Você não sabe da metade. Mas fica mais fácil com o tempo. – a Shaman comentou, antes de também se concentrar no próprio lanche.



No dia 13 de Julho, foi feita uma comemoração simples na Stella Bianca, em comemoração aos 14 anos de Alanna e pela estabilização de seus poderes. Melinda aparecera, para surpresa de todos: a Fae não pisava dentro de prédios da Stella Bianca desde quando abandonara a Ordem, alguns séculos atrás.

Melinda entregara um colar de presente para a protegida. Era uma peça bonita e única, feita de contas de jade e com um pingente circular: um espelho fino de obsidiana emoldurado em ouro. Melinda recomendara que Alanna não o tirasse nem para dormir, o que seria estranho se ela não fosse uma Fae madrinha: Alanna só conseguia pensar que ela com certeza encantara o colar com algum tipo de feitiço de proteção.

E no dia seguinte, Alanna embarcou para o México, com a estranha sensação de que os problemas seriam maiores do que imaginavam.



Alanna passou metade do voo de 10 horas para a Cidade do México comendo; era uma consequência da estabilização de seu poder que Glen a avisara: agora seu poder não estava mais num estado intermitente, o que significava mais energia para sustentar tanto a ela como a esse poder – e ao que quer que os espíritos fizessem quando em seu corpo –, o que significa uma fome de leão. A outra metade do tempo dividiu entre dormir e revisar os arquivos relacionados à missão em seu smartphone.

Havia algo de estranho com as imagens dos nomeados “Sem-Pele”. Os corpos estavam em variados estados de decomposição, a maioria com a pele e a carne carcomida até os ossos, entretanto outros eram praticamente recém-mortos, caracterizados apenas pela palidez e lábios roxos, o que era normal para qualquer tipo de morto-vivo. Mas os olhos... Não eram de cores vibrantes e vivas, que indicariam a possessão do corpo por um demônio, e sim de cores normais, típicas; olhos humanos. Também não eram inteligentes mas opacos de vontade, o sinal de que um espírito de um morto ou da natureza o ocupava, forçadamente ou por vontade própria. E muito menos opacos e estúpidos, indicando que eram apenas corpos animados pelo poder de um necromante. Nenhum desses se alimentava de carne humana ou de cérebro humano, esses tipos de mortos-vivos existiam apenas nos cinemas.

Eram olhos inteligentes e independentes, e, acima de tudo, de fome. Os olhos do corpo em si, carregando uma expressão esfomeada de vida, no entendimento de Alanna. Era um olhar que encaixava com os relatos: um deles fora visto atacando uma pessoa como os típicos zumbis de Hollywood. Esfomeados da vida correndo debaixo da pele humana.

Um novo tipo de morto-vivo, surgindo como resultado da popularidade dos zumbis criados por Hollywood?

Era possível; a sensibilidade dos Vampiros ao sol vinha se tornando mais forte com a popularidade de seus filmes e livros, estavam começando a se tornar sensíveis à prata, e ela já ouvira um relato ou outro de um recém-transformado que ao invés de queimar, brilhava ao sol – fora quando os clãs vampíricos tinham decidido que era hora de dar um jeito de acabar com Crepúsculo, e estavam tendo sucesso; ela não os culpava. O poder da crença dos humanos era mais forte do que muitos imaginavam, e ninguém queria que sua fisiologia passasse por mudanças tão radicais.

O estranho era que o aparecimento desse novo tipo de morto-vivo estava restrito ao sul da Sierra Madre, no México. Considerando o nível de popularidade dos zumbis comedores de gente ao redor do mundo, os relatos deviam estar mais espalhados.

Alanna fechou os arquivos e guardou o smartphone no bolso interno da blusa, pensativa. Não fazia sentido. Ou esses “Sem Pele” eram um novo tipo de morto-vivo cujo aparecimento, por alguma bizarra razão, estava restrito ao México, ou se tratava de algum ser pertencente ao Sétimo Mundo nunca descrito antes, o que também seria bizarro.


Com um suspiro resignado, decidiu se entregar ao sono nas últimas horas de voo.