20 setembro 2015

Alanna: Os Sem-Pele - Capítulo 3: De Súccubos e Glaistigs

Adentraram a central da unidade.

Era um enorme salão circular, dois ou três ou talvez ainda mais andares de distância do chão até o teto abobadado. No centro, havia uma espécie de poço largo e fundo, de água límpida e cristalina que parecia reluzir na penumbra, pedras de mármore azul formando os baixos muros de proteção. No teto, um enorme afresco de uma gruta onde um lagarto gigantesco com sete cabeças de cachorro-do-mato parecia arrastar o corpanzil, rodeado de frutas, mel e abelhas, as cabeças mais ou menos no centro, acima do poço, latindo e rosnando, quase parecendo querer afastar qualquer um do local.

Alanna sabia quem era aquele: Teju Jagua, a divindade guarani – na verdade, um espírito da Natureza divinizado pela crença, como muitos outros espíritos ao redor do mundo – das grutas, cavernas e lagos, e o motivo dele estar ali era não apenas por aquilo ser considerado uma caverna com um lago, mas porque aquele lago transformado em poço era sagrado em honra a ele. A garota o conhecera pessoalmente, ainda pequena, numa das reuniões anuais que a Stella Bianca mantinha com os mais poderosos de cada um dos Sete Mundos para garantir a paz.

Engoliu em seco, acrescentando outro fato à corrente de acontecimentos: faltava dois meses para essa reunião; por causa disso, a Ordem estava em polvorosa com os preparativos, muita gente saindo e entrando à todo momento. Se existia um período em que as defesas ficavam mais fracas, era nessa época, perto da reunião. Além disso, caso esses seres dos Sete Mundos deixassem de considerar a Stella Bianca forte o suficiente para lidar com os mais problemáticos, de mantê-los presos, provavelmente os acordos começariam a se desfazer. Com isso, a Ordem não seria requisitada para lidar com os casos que envolviam humanos, o que provavelmente começaria a gerar ocorrências cada vez mais graves, em que os segredos dos Sete Mundos estariam perigosamente em risco. Além de passarem a deixar de ter ajuda de muitos não-humanos. Uma consequência provável seria uma guerra entre humanos e não-humanos.

Isso a fez começar a teorizar de o que, exatamente, os Demônios queriam.

Não podia ser uma simples vingança. Até onde ela sabia, eles tinham mais coisas com as quais se preocupar do que vingar um ou dois Demônios enviados de volta ao buraco de onde eles saiam ou até mesmo mortos, dependendo de quem os enfrentara. Estavam ocupados demais corrompendo almas e espíritos, embora ninguém soubesse a verdade exata de porque o faziam, apenas teorias, que não eram poucas.

Sentiu-se ser sacudida para fora de seus pensamentos, e olhou ao redor, vendo dezenas de Demônios, constatando uma invasão em massa que a fez estremecer. Viu alguns – mais do que ela gostaria – com globos-arabescos nas mãos, jogando-os de uma para a outra. Globos-arabescos ocupados. Pelo que ela via à distância, alguns dos piores seres que já tinham andado pelo Sétimo Mundo.

Engoliu em seco, sentindo os músculos tensos, quando um Demônio quase deixou o globo-arabesco de Ao-Ao cair.

“Deus... Se Ao-Ao se libertar... Os homens já maltratam demais uns aos outros, sem ele caçando-os e outros arranjando problemas...”, o pensamento cruzou a mente de Alanna, que sentiu uma gota de suor frio escorrer pela fronte, antes de ser sacudida de novo e ter de olhar para frente.

Os Demônios, ainda a segurando, pararam diante de uma mulher, dona de um longo cabelo escuro, preso numa trança lateral. A pele era amarelada, complementando os olhos puxados e azuis e os malares altos. Tinha bem um metro e oitenta de altura e um corpo atlético coberto com um vestido de seda de gola alta sem mangas com uma abertura do lado direito que começava quase na cintura, vermelho com bordados orientais dourados, e os pés encaixados em sapatos pretos de salto. Uma beleza selvagem e perigosa que fez Alanna pensar nas Sirenes que encontrara acidentalmente na Grécia aos dez anos.

Deduziu que aquela era Éris, consideravelmente poderosa, julgando o corpo em perfeito estado que conseguira possuir – ah, Alanna podia perceber, aquele corpo não era dela. Se fosse, os olhos não seriam tão humanos, provavelmente existiria um par gigantesco de chifres saindo da testa, e a pele seria coberta de escamas. Essa era a aparência que a maior parte dos Demônios que apareciam na Terra com o próprio corpo tinham. Provavelmente, ela não tinha poder suficiente para materializar seu corpo real.

Éris andou em sua direção, o tectec dos saltos no chão de pedra deixando Alanna irritada – ninguém usava salto alto na Ordem; complicava lutas e fugas.

Ela parou diante da garota e se abaixou um pouco para encarar melhor seus olhos, antes de abrir um sorriso de dar mais arrepios que o de um dos Demônios que a encontrara.

— Então é você a Shaman de quem me falaram. — ela estendeu a mão e colocou uma mecha do cabelo cacheado de Alanna no lugar. O toque do Demônio fez um arrepio gelado subir pelas costas da garota ao sentir o poder estalar nos dedos dela. Mais do que presumira a princípio. — Posso ver como você ficará bela no futuro. De um jeito tranquilo, etéreo, imaterial e inumano, como uma Shaman deve ser. — balançou a cabeça, sorrindo de um modo satisfeito. — Uma pena que nunca vou poder usar seu corpo como hospedeiro... Seria um espécime ótimo para ganhar Almas...

Ela se levantou e se afastou, começando a andar ao redor do poço, uma careta deformando seu rosto ao olhar para as águas sagradas.

Alanna, por outro lado, sentiu as palmas das mãos suarem, enquanto dor de cabeça começava a se infiltrar em seu cérebro ao ligar os pontos.

Uma Súccubo.

Uma Súccubo liderara a invasão à Oitava Unidade. Isso explicava estar possuindo um corpo de uma mulher incrivelmente bonita: ela tinha poder mais que suficiente para materializar sua aparência real, mas ela não era o ideal para corromper os humanos.

Piscando, incrédula, e gravando bem a sensação que a energia da Demônio causava nela, lembrou o que Nilton lhe ensinara, antes mesmo da Ordem: a estirpe das Súccubus e dos Ínccubus não saiam do buraco dos Demônios há tempos, pelo simples fato de os humanos terem se deturpado de tal modo, que eles não precisavam mais agir frequentemente para arrecadarem Almas desse jeito.

Ainda assim, ali estava, uma Súccubo diante dela, um ser classificado pela Ordem como pertencente aos Terceiro e Quarto Mundo, onde sua estirpe mais atuava no passado, que possuía a bizarra capacidade de deduzir como ela ficaria quando adulta.

E alguém falara sobre ela, Alanna, uma simples garota com dons de Shaman, para a mulher.

Sentiu o queixo afrouxar, os lábios ficando entreabertos quando viu a Súccubo apoiar as mãos no muro de proteção e olhar com raiva para o poço sagrado.

— Aquela Glaistig se negou a me contar onde esconderam... — tocou a água com a ponta do dedo, recuando-o rapidamente quando o som de queimado como água em chapa quente se espalhou e um fio de vapor subiu do poço, trincando os dentes. — Olhei os globos-arabescos um por um, e eles não estavam neles... Mas também não estão soltos no mundo, então foram aprisionados. — franziu os lábios, os olhos semicerrados. — O único lugar onde podem ter escondido os globos-arabescos deles é no fundo deste poço. — olhou para o teto, mostrando os dentes numa careta selvagem para a pintura de Teju Jagua. — Maldito. Você e todos os outros que estão nos atrapalhando, são uns malditos, que ficam compactuando com os humanos, ao invés de seguirem com suas existências patéticas em busca de não se desvanecerem no Ciclo dessa Dimensão medíocre...

Aquele monólogo estava deixando Alanna assustada.

Ela não sabia quem estava escondido no fundo do poço, mas podia formular um motivo: eram muito fortes, muito perigosos. Seres de poderes que poderiam ser usados para causar problemas demais na Terra. Daí a necessidade de esconder as prisões no fundo de um poço sagrado em honra à Teju Jagua. Ele era um entre diversas divindades da água que não gostava de Demônios, entre outros seres. Se a Súccubo ou qualquer outro dos seres ao redor tentassem entrar na água e alcançar os globos-arabescos, eles seriam expulsos dos corpos que ocupavam pelo poder que permeava a água. E se tentassem usar seus corpos reais, seriam mortos como que envenenados. De fato, a água do poço funcionava como um exorcismo sem necessidade de palavras: fosse um espírito da Natureza, dos mortos ou um Demônio que ocupasse um corpo, seria expulso no momento que o corpo submergisse.



Alanna, involuntariamente, trincou os dentes, enquanto deixava a cabeça cair e os olhos se arregalarem, sequer piscando. Desde a coluna, uma queimação tinha começado a se espalhar para o seu corpo, logo após uma pequena sensação de choque ter se espalhado desde as têmporas. Primeiro, alcançou as pontas dos dedos. Depois cobriu seu pescoço, e então avançou pela cabeça, até alcançar o centro da testa, quando queimou de repente como o fogo que alcança uma banana de dinamite, explodindo-a. Seu corpo relaxou por completo, pendendo quase como um peso morto sustentado apenas pelos Demônios, os pequenos choques se espalhando continua e constantemente, até pararem de serem sentidos.

A garota respirou fundo, tentando normalizar a respiração, notando sua percepção dos poderes e espíritos ao redor se refinar.

Adivinhou que aquele seria o único milagre que receberia: uma crise.

Ergueu a cabeça devagar, olhando ao redor, a sala mais cheia do que antes. Os olhos cinza-ferro marejaram ao reconhecerem tantos membros da unidade, tantos de sua família, ali, olhando para ela com tristeza, uns se arriscando a acenar, outros com lágrimas prateadas e brilhantes escorrendo pelos rostos imateriais, levemente semitransparentes.

Espíritos.

Um monte de membros da unidade mortos.

A maioria logo pareceu brilhar e então se apagar como uma estrela morrendo segundos depois que ela os viu, e aquilo fez a cadeirante morder o lábio com força, uma gota de sangue escorrendo: estavam apenas esperando que ela, a Shaman do lugar, visse seus espíritos antes de fazerem a Passagem.

Ver a sala se esvaziando a fez sentir tanto alegria como desamparo, sentindo-se cada vez mais sozinha.

Seu único consolo?

Nilton não estava entre eles. Não apenas ele, mas a maior parte dos não-humanos pareciam estar vivos. Provavelmente, a Súccubo ou quem quer fosse tinha planos para eles.

Mas havia um não-humano que ela queria que estivesse vivo: Helena, a Glaistig, que vinha andando em sua direção com os cascos imateriais de cabra, as asas de libélula parecendo se desfazer em névoa à suas costas e os globos luminosos de seu poder e vida rodopiando entre os cornos curvados e ramificados de cervo, deixando linhas coloridas que se entrelaçavam, parecendo mais sólidos que o corpo de mulher; esguia e com poucas curvas, de olhos inclinados de tons de castanho-outono e cabelos ruivos suavemente ondulados que emolduravam seu rosto.

Helena tinha aparecido junto de Nilton no orfanato e dado-lhe um lar. Helena tinha lhe ensinado a falar escocês, sua língua mãe, e lhe ensinara muito do Quarto Mundo. Helena tinha socorrido Nilton diversas vezes – afinal, ele nunca cuidara de uma criança com, querendo ou não, necessidades especiais... Ou melhor, de criança nenhuma –, aparecendo no apartamento apenas para ler alguma história para que Alanna pudesse dormir ou organizando uma festa surpresa de aniversário na Ordem. E, embora Nilton não admitisse, a garota sabia que ele pedira socorro à Glaistig quando Alanna estivera “apaixonada” por um colega de escola quase um ano atrás. Não era a cara do Vampiro saber o que dizer à uma garota de treze anos em tal situação, especialmente quando ele subitamente emendou o assunto de educação sexual – aquilo era definitivamente coisa dela.

Helena era a mãe que ela não se lembrava de ter.

A Glaistig sorriu, os dentes afiados parecendo um pouco errados no rosto de traços suaves, enquanto se abaixava para olhar Alanna nos olhos, a mão imaterial e semitransparente erguendo seu rosto.

Olá, querida. — a voz suave e amorosa de Helena ecoou na mente da Shaman, os lábios se movendo como se ela falasse. Mas som nenhum saía: Alanna a escutava apenas com a mente, onde seu pode de Shaman repousava. Aquilo confirmava: ela estava morta, de fato. Isso doeu mais do que ver todos os outros espíritos de antes. — Não chore, Alanna. — Helena tentou enxugar as lágrimas que escorreram devagar pelo rosto escuro, sem sucesso.

Eles te mataram. — Alanna projetou o pensamento na direção dela, e a mulher balançou a cabeça em afirmativa. — Por que, Helena?

Ela sorriu com tristeza.

Porque me neguei a ir pegar os globos-arabescos que ela queria no fundo do poço.

Como? Você é poderosa. Antiga.

Quebraram meus cornos e arrancaram as minhas asas antes que pudesse reagir.

Saber disso fez a raiva borbulhar no sangue de Alanna. Sem os cornos, o poder e a vida de Helena se dispersaram no plano físico. Ela se tornara mortal e sem poder nenhum. Sem as asas, ela não tivera chance de fugir. Tornara-se vulnerável.

Quem está no poço?

Helena olhou para o objeto sagrado, séria, antes de sua voz ecoar a resposta.

Tau. Ah Puch. Vucub Caquix. Supai. Outra dezena cujo nome se perdeu, mas tão terríveis quanto esses.

Alanna engoliu em seco. O que quer que os Demônios planejassem, não podia ser boa coisa, afinal, queriam envolver alguns dos espíritos divinizados mais perigosos e poderosos do Sétimo Mundo, que diferente de outros tão poderosos e perigosos quanto, não possuíam muitos escrúpulos ou preocupação com anonimato. A Shaman gastara muito de seu tempo aprendendo sobre o Sétimo Mundo ao lado de Teju Jagua, Nilton e Boiúna, uma das divindades que participava das reuniões anuais. O conhecimento sobre aqueles que Helena dissera o nome vinha tão naturalmente à sua mente quanto a linguagem que falava ou ouvia: era um conhecimento entranhado em si.

Supai, antes, para os incas, não era tão preocupante, mas a influencia que o catolicismo tivera sobre sua crença o modificara terrivelmente: passara a ser apenas mal, e não imparcial. Tau, entretanto, já era considerado o espírito do mal para os guaranis, e sua falta de escrúpulos apenas piorara. Vucub-Caquix e seu falso-sol já era apresentado como fonte de angústia para os maias, e ser considerado um deu do submundo maia não ajudara. E a popularidade de Ah Puch, outra divindade do mundo dos mortos, com os maias não era exatamente boa por ter matado Itzamna, senhor da noite e do dia, criador do mundo e etc etc etc.

Não era à toa que os globos-arabescos estavam em águas sagradas.

Ela vai descobrir uma forma de consegui-los cedo ou tarde, Helena.

Eu sei.

Ela tinha de impedir. Não tinha ideia de onde Davi e os demais estavam. Era a única capaz de fazer algo.

Se você controlar meu corpo, pode usar o seu poder no mundo físico? — ela nunca tinha se deixado possuir pelo espírito de um não-humano. Não sabia se era possível o que ela estava sugerindo.

Se seu corpo e seu poder forem fortes o bastante, sim.

Então, Helena, eu te dou permissão para adentrar o meu corpo.

A Glaistig sorriu, se levantando e indo até as costas de Alanna.

Tem certeza?

Vai logo.

A garota sentiu as mãos frias da morte que tomara o espírito de Helena tocar suas costas. Respirou fundo, fechando os olhos e fazendo como tinha sido ensinada e tinha treinado tantas vezes, abrindo com um pouco de dificuldade o portão de aço que fechava os altos e grossos muros que protegiam seu corpo e mente da possessão.

Quase imediatamente, o espírito de Helena mergulhou em seu corpo, o frio sobrepujando o calor do poder que permeava sua pele.

Elas não eram mais Helena e Alanna. Elas eram apenas uma. Dois espíritos num único corpo.



Helena pareceu se maravilhar com a sensação de respirar de novo, de sentir o ar entrar e sair de nossos pulmões. Era uma sensação que todos os espíritos que possuíram meu corpo antes compartilhavam. E nem fazia muito tempo que ela tinha morrido...

É por causa desses momentos em que meu corpo e mente não são somente meus que vejo a dádiva que é viver e agradeço-a todos os dias.

Gastamos algum tempo sincronizando nossos pensamentos, o espírito de Helena aprendendo a dar ordens ao meu corpo. Através dela, pude sentir meus dedos do pé se flexionarem e relaxarem enquanto ela os testava. Mas eu, Alanna, continuava não os sentindo.

Nossos sentidos estavam quase sincronizados quando o som dos saltos da Súccubo chegou em intervalos aos nossos ouvidos. Helena, já controlando meu corpo completamente, manteve os olhos fechados e inclinou a cabeça para a esquerda como ela sempre fazia quando queria ouvir algo com mais atenção.

— Vigiem-na. Vou trazer um daqueles pra cá e tentar convencê-lo a trazer os globos-arabescos. — os sentidos apurados da Glaistig captaram o som das vértebras e músculos se movimentando quando a Súccubo olhou para o lado. Não apenas isso. Nós podíamos ouvir o som do ar entrando e saindo de seus pulmões e dos pulmões dos outros Demônios, assim como podíamos identificar a pulsação, o sangue correndo acelerado pelos vasos, o tum-tum de seus corações, tão tentador...

Foco, Alanna.

Helena pode ser de uma raça da categoria dos Vampiros, que precisa de sangue para viver, mas você ainda é humana. Você ainda possui dentes teoricamente incapazes de penetrar pele e um sistema digestivo que não suporta muito sangue.

Ouvi o riso suave de Helena após eu me repreender, me fazendo deixar um sorriso de lado surgir nos meus lábios. Eu precisava me focar e não dar controle total à Helena. Mesmo que eu confiasse nela, eu sabia que seus instintos de se alimentar de sangue ainda seriam fortes, pois tecnicamente ela estava ferida e precisava de sangue – muito sangue – para se curar.

Eu devia estar preparada para isso, mas estava acostumada a convidar espíritos de humanos, e não de não-humanos.

Burra.

É por isso que a maior parte dos Shamans morre cedo: por não se preparam para coisas do tipo.

— Vocês, levem esses aí para a base. Temos de soltá-los, informá-los dos planos e ganhá-los para a causa.

Houve uma resposta coletiva e positiva, e então os passos se misturaram, embora nós ainda pudéssemos localizar os tectec e determinar sua direção, contrária à dos outros Demônios.

— Temos de impedi-los, Helena...

— Os que eles estão levando, ao menos a maioria, se vocês trabalharem duro nos próximos meses e em conjunto com os habitantes do Sétimo Mundo, serão presos facilmente. Mas ela não pode conseguir os do poço. Se um deles sequer se soltar, teremos muitos problemas.

Se Helena não estivesse controlando meu rosto, eu teria mordido o lábio, irritada e inconformada. Mas eu sabia que ela estava correta.

Nosso alvo era Éris.



Apesar de nós duas estarmos ansiosas por agir, esperamos, com impaciência, até que restassem apenas uns poucos Demônios. Teríamos a surpresa ao nosso lado, mas ainda assim, Helena não queria arriscar a integridade do meu corpo, especialmente considerando que, embora ela pudesse mexê-lo, ela era insensível à dor, pressão e todo o mais relacionado ao tato, e a minha sensibilidade nessa área era limitada por natureza e agora estava debilitada, já que eu não tinha controle total.

Eu ainda esgano quem criou essas regras de interação corpo-hospedeiro/espírito. Elas são, simplesmente, irritantes e atrapalham um bocado.

A Glaistig abriu meus olhos originalmente cinza-ferro, mas que eu sabia que estavam intercalando a cor original com o castanho-outonal de Helena constantemente, em consequência da sincronização de nossos sentidos. Por isso, ela tinha mantido-os fechados. Os invasores estranhariam essa alternância de cores, isso se não soubessem o que significava.

Com cuidado, viramos o pescoço, mantendo a cabeça baixa, contando quantos Demônios tinham permanecido no salão central. Helena ergueu uma sobrancelha ao contar somente dez.

Ou a Súccubo acreditava que eu não podia fazer nada, ou era muito confiante mesmo.

Quase me dá pena.



A Glaistig se permitiu suspirar, a cabeça caindo de novo, mole acima de nosso pescoço, se concentrando, enquanto procurava a porta que permitiria seu poder passar do mundo espiritual para o mundo físico. Ela estava tendo dificuldades em achá-la sozinha, então segurei sua mão e a guiei pelo labirinto que eu construíra em meus treinamentos para proteger minha mente.

Era aquele labirinto que permitia que eu continuasse sendo eu mesma, mesmo sendo uma Shaman. Uma vez que eu passava a dividir meu corpo com outro espírito, o cerne de meu ser ficava vulnerável. É a primeira lição que todo Shaman, Druída ou Sacerdote que têm a oportunidade de treinar com um mestre aprende – que pode ser de qualquer um dos três, já que a única diferença real é com o que interagimos. Em seguida, nós aprendemos a proteger nosso cerne de todas as formas possíveis e imagináveis: labirintos com armadilhas, caixas cheias de trancas, armas mentais das mais diversas, tudo que nossa mente pudesse invocar podia proteger nosso cerne. Os mais habilidosos de nós conseguem dividir a mente em diversas partes, assim, se o espírito tentar dominá-lo, haverá outros pedaços intocados.

Por que isso é realmente necessário?

Porque nenhum de nós sabe de fato as intenções de um espírito até dividirmos o mesmo corpo, e ainda assim, não é garantido. Esses espíritos podem tentar matar a mente do hospedeiro e controlar em definitivo o corpo. Além disso, mentes fracas não conseguem expulsar o espírito quando querem.

Mesmo que fosse Helena, eu assumira um enorme risco ao deixá-la entrar.

Eu nunca nem mesmo vira a porta que procurávamos, mas, quando a Glaistig entrara, eu pude sentir essa entrada se formar. Instintivamente, eu sabia que era a entrada que deixaria o poder de Helena percorrer o meu corpo.

Paramos diante da abertura. Diferente da que impedia os espíritos indesejados de entrarem, um sólido portão de aço no meio dos muros altos e espessos, aquela era simples. Pouco mais de dois metros de altura, um e meio de largura, sinuosos arabescos vermelhos e azuis emolduravam o batente, se espalhando até o muro de pedra. Não havia de fato nada que barrasse a entrada.

Apenas uma fita de seda roxa, as pontas partindo dos lados do batente e fechando num laço no meio do branco além dos muros.

Helena soltou minha mão, se aproximando da fita e puxando uma das pontas, o laço se desfazendo, todo o poder que tinha sido dela em vida inundando meu corpo como um tsunami, ameaçando me arrastar e destruir as defesas que protegiam minha mente quando tudo aquilo ameaçou explodir.

E então, a Glaistig dominara todo aquele poder facilmente.

E eu já não pude controlá-la de todo...

Hmmm... Eu devia ter tomado um pouco mais de cuidado...



Nossa cabeça se ergueu de repente, nossos sentidos atentos e mais sincronizados e afinados que nunca. Os músculos de nossos braços se contraíram, enquanto Helena começava a se erguer.

Ainda vi os Demônios olharem para nós com surpresa, antes que Helena moldasse meus lábios em seu sorriso sádico e sedento e liberasse sua fúria sobre os monstros.

Imaginei como eles deviam se sentir, vendo uma pivete de treze anos, com as pernas mais finas que paus de pega-vareta e um metro e meio de altura pulando sobre seus peitos, derrubando-os com mais força e peso do que eu deveria possuir e estraçalhando seus rostos, gargantas e tórax apenas com as unhas, que nem estavam tão compridas assim.

Depois do choque inicial, com dois deles sangrando e convulsionando no chão, eles tentaram nos impedir, mas Helena foi muito mais rápida, meus pés saltando com tanta naturalidade quanto seus cascos de cabra teriam saltado por cima da cabeça de vários deles para alcançar o que se escondia no fundo. Ele despencou no chão como uma fruta podre, e então nós arrancamos seu esterno e abrimos suas costelas, expondo os pulmões se enchendo lentamente e o coração, que ainda palpitava.

Helena pegou aquele coração, minhas mãos menores que as suas tendo dificuldades em acomodar o órgão, muito maior do que uma simples imagem num livro daria a entender, e se levantou num pulo, virando-se para olhar para os Demônios restantes, que tinham recuado de novo e nos olhavam de modo cauteloso.

De novo senti meus lábios se abrirem num sorriso sádico e sedento.

— Vocês invadiram meu lar e mataram minha família. Vão pagar por isso. — a voz de Helena saiu junto da minha, sincronizadas de tal modo que, ao ecoarem nas paredes do salão, ganharam um ar absurdamente ameaçador, que me fazia pensar num humano possuído por um Goa’Uld em Stargate.

Um ou outro Demônio, que pareciam ser da mais baixa categoria possível, engoliram em seco, mas nenhum agiu de fato. Apenas ficaram lá, esperando, preparando magias ou sei lá o quê.

Helena não deu chance para eles. Duas palavras saíram sussurradas de minha boca quando ela usou magia de Glaistig: a primeira ligou o coração em sua mão aos corações dos Demônios restantes; a segunda fez os órgãos explodirem dentro de seus peitos, a pressão expulsando os ossos e músculos e restos de órgãos e sangue para fora. Um pouco caiu no poço, e logo foi transformado em vapor. Outro tanto respingou em mim, e o resto, se espalhou pelo teto, paredes e chão.


Helena não conseguiu se impedir de sorrir enquanto virávamos na direção do corredor onde Éris entrara.