26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 16: Ser

Bateram na porta com um ritmo característico, lento e metódico.

Sabri.

Louis ergueu a cabeça do livro — O Príncipe, de Maquiavel — e olhou na direção da entrada do quarto.

— Entre! — a porta se escancarou e o Bruxo andou na direção da poltrona onde Louis se acomodava. — Alguma novidade?

— Os demônios disseram que eles vão realizar o teste com Arely no fim de semana.

Louis fechou o livro e encarou Sabri, os olhos claros demais carregados de ansiedade.

Finalmente. A espera estava deixando-o agoniado, tanto quanto o fato de não conseguir mais se aproximar de Arely.

— Tem certeza?

Sabri girou os olhos com algo que ele julgou enfado.

— Claro que tenho, Louis. Sei controlar os demônios debaixo do meu comando. Agora, você disse que tinha um plano para quando o teste fosse ocorrer. Se importa em compartilhar agora?

O Vampiro sorriu de lado com algo de orgulho, antes de se levantar e jogar o livro em cima da cama. Cruzou as mãos nas costas de modo militar e se encaminhou para a saída do quarto, o Primeiro Bruxo logo atrás dele.

— Lembra que eu tentei dominar o subconsciente dela depois de apagar o Adrien das memórias dela?

Novamente o Bruxo girou os olhos.

— Claro que lembro. Você disse que Adrien te impediu, a salvou de morrer afogada no sonho provocado. — Sabri o encarou com um olhar enviesado. Se Louis tivesse sido mais cuidadoso quanto ao gêmeo, os problemas deles teriam terminado há tempos.

— Não foi por isso que falhou. Mesmo que ela tivesse se afogado... Não teria dado certo. — o Vampiro abriu a porta do escritório do qual tomara conta, depois que o padrasto se mudara definitivamente para uma das fazendas por influência de sua mãe. — Como você sabe, anoto tudo que encontro na mente de alguém que invado. Estava reanalisando o que vi na mente dela, antes do Anjo me expulsar.

Louis sentou-se à escrivaninha, apoiando os pés cruzados na mesa, ignorando a massa de papéis com anotações suas tentando entender o que se passara. Cruzou os dedos das mãos, os indicadores tocando a boca onde um sorriso esperto se mostrava.

— Então qual foi o problema? — Sabri sentou com as pernas cruzadas em posição de lótus na escrivaninha depois de empurrar alguns papeis para o lado, encarando o General com seriedade.

— O medo escolhido. Se afogar não é o maior medo dela.

As sobrancelhas do Bruxo se franziram. Louis ficou preocupado por um instante; Sabri estava com a mesma expressão de quando detestava ser enrolado. Era melhor apressar a explicação.

— Você invadiu a mente dela, todos os recantos. Como se enganou desse jeito?

— O problema é que ela própria acredita que se afogar é o seu maior medo. Mas não. Quando invadi a mente dela de novo, pouco antes do Anjo aparecer, peguei partes das interações dela com Adrien no plano espiritual. — abriu um sorriso cheio de dentes. — O maior medo dela está longe de estar relacionado à própria segurança.

Os olhos de Sabri brilharam com entendimento, endireitando a coluna.

— Se ela mesma não tem ideia do real pavor dela... — o Bruxo começou.

— O teste vai falhar. E conhecendo Adrien, ele vai se afastar por um tempo e dar à ela tempo para descobrir o maior medo, confiando na proteção dos clãs, e vai à Catedral. É quando vamos agir.

Sabri balançou a cabeça em afirmativa, pensativo, antes que a expressão se tornasse curiosa.

— Qual o maior medo dela?

Louis sorriu como apenas um Vampiro seria capaz de sorrir, os olhos azuis escurecendo para vinho-tinto.



O gelo na planta dos pés trouxe um alívio indescritível, apesar do frio querendo se espalhar para o resto de seu corpo. Entretanto, estava aliviando as tenebrosas e doloridas pontadas. Era capaz de aguentar um pouco de frio com uma recompensa tão boa.

— Você é um anjo, Allan. — resmungou, afundando a cabeça no travesseiro macio e relaxando. Ouviu um riso abafado, e ergueu um pouco a cabeça para conseguir encará-lo.

— Não tenho certeza se anjos gostam de comer carne crua. — ele brincou. Arely pensou em atirar o travesseiro nele, apesar de ter rido, mas exigia mais força para puxá-lo de debaixo de sua cabeça do que ela tinha.

— Anjos ajudam as pessoas e lutam contra o mal. Você faz isso. Não discuta. — Resmungou, encolhendo os braços debaixo das cobertas e estremecendo quando o Lycan afastou as pedras de gelo de seu pé.

— Está melhor? — ele perguntou em voz baixa, e Arely parou para refletir por um momento.

Sua cabeça não martelava mais. Os pés e as mãos não estavam cheios de pontadas dolorosas. Não respirava mais em fôlegos curtos, como se o ar não alcançasse os pulmões, e não sentia mais a própria pulsação contra os ouvidos. E estava relaxada.

— Sim. Muito melhor. Aposto que o chá de hortelã ajudou muito. — murmurou, um tom alegre e feliz na voz. Ouviu um riso de Allan quando ele cobriu seus pés e levantou da cama.

— Chá de hortelã é milagroso em crises de estresse. — ele deitou ao lado dela por cima do cobertor, dessa vez deixando-a entre ele e a parede. Arely imaginou que ele queria impedir que ela quase quebrasse a cabeça de novo.

Ele a encarou por alguns minutos, os olhos verde-musgo impedindo que as vozes a arrastassem de novo. Ou pelo menos tentando. O silêncio físico contribuía para que o barulho interminável em sua cabeça ganhasse força e aumentasse o poder de sedução do conhecimento que as vozes traziam, os pedaços de informação se enroscando em torno de sua consciência como trepadeiras.

Precisava falar algo. Permanecer sã, por mais algum tempo. A primeira voz a incentivava. Dizia que faltava algo, que precisava fazer algo.

— Como está a sua mão? — ele perguntou, repentinamente, e Arely arregalou os olhos, antes de lembrar que socara Adrien. Sufocou um risinho.

— Bem. Doeu na hora, mas agora está normal. Deve ser coisa de Mensageira. — foi a vez dele rir levemente, se ajeitando na cama até que seus rostos ficassem nivelados.

— Como você está, com essa história da maldição? — ele perguntou com cuidado depois de mais alguns minutos, as sobrancelhas levemente franzidas.

Arely se encolheu mais debaixo do cobertor, até o queixo estar praticamente entre os ombros, ao ouvir a pergunta. Presumiu que o próprio olhar devia carregar assombro e medo.

Aquela maldição era cruel de uma forma mesquinha e arrogante. Forçar alguém à imortalidade e à incapacidade de amar, e então forçar alguém amar essa pessoa e a vê-la morrer em seus braços...

Estremeceu ao lembrar o detalhe da maldição que dizia que Adrien morreria em seus braços.

— Irritada com Adrien por ter escondido de mim. Aterrorizada e surpresa com o quanto alguém é capaz de ser mesquinho para fazer essas coisas com alguém. — fechou os olhos por um instante, a escuridão de suas pálpebras trazendo certo alívio. — E destruída por saber que essa maldição me impede de ao menos pensar em retribuir o que você sente por mim. — murmurou, e então sentiu uma das mãos abençoadamente quentes de Allan em seu rosto e a testa dele contra a sua. O ritmo da respiração dele batendo em seu rosto era tranquilo e a acalmava.

— Não estressa com isso, Ly. Não diz o ditado que não se escolhe quem se ama? — ouviu um riso amargo na voz dele, e abriu os olhos, franzindo as sobrancelhas.

— O que primeiro se sente é atração. Deixar essa atração evoluir para amor depende de você. Deixar esse amor te consumir depende de você. Sim, somos capazes de escolher quem amamos, mas as pessoas estão muito fechadas no objetivo de serem felizes a qualquer custo ou qualquer balela do tipo para notarem que amar alguém ou não depende também de uma escolha sua. — fechou os olhos de novo, soltando a respiração. — Essa opção de temperar atração e emoção com razão me foi arrancada, Allan. Não fosse isso...

— Não fosse isso o quê?

Arely abriu os olhos de novo e tirou uma mão de debaixo do cobertor, envolvendo a lateral do rosto de Allan com ela. A barba estava por fazer e fez cócegas, mas era uma sensação boa.

— Não fosse essa maldição, pode ter certeza que eu te amaria. Adrien não chega aos seus pés. — Allan riu, afastando um pouco a testa da dela, mas inclinando o rosto em sua mão.

Será que existia uma forma de quebrar aquela maldição? Porque, Deus, ela queria ser capaz de amar Allan mais do que como um amigo. Parecia correto. A sensação era de se estar num labirinto feito de árvores e diante de uma parede mais fina, feita de galhos finos, capaz de ver do outro lado o seu objetivo... Mas sem ter como cortar os galhos e abrir passagem.

Ela odiava a sensação. Se pudesse, estrangularia a Bruxa que lançara a maldição.

— Eu vou descobrir um jeito de desfazer a maldição, ou pelo menos de anular o efeito sobre mim, Allan. — começou a despejar as palavras, encarando-o fixamente. — E então, vamos dar uma chance à... Nós. Mas se encontrar outra pessoa antes, não vou interferir. É sua escolha.

Allan puxou uma respiração longa, encarando-a de volta, e então sorriu. Arely quis sentir a mesma falta de ar que sentia quando o Observador sorria, mas... Nada. Era um sorriso ainda mais bonito, cheio de uma esperança estranha, de fé e carinho e, apesar de tudo, felicidade. Os de Adrien eram bonitos, mas faltava algo. Os sorrisos dele eram quebrados. Sombras do que já tinham sido.

— Não precisa ter pressa, Ly. Sei que vai conseguir contornar essa maldição. Sou capaz de esperar por você. — ele respondeu, e beijou sua testa.

Arely quis chorar de raiva de si mesma.

Ela não merecia a fé que ele colocava nela.



Desligou o telefone e girou a cadeira giratória, apoiando o aparelho no queixo de forma pensativa. Mais uma família nômade confirmara que iria para um dos pontos de encontro. Agora só precisava da confirmação de Sabri de que ele e os outros dois Bruxos tinham tido sucesso na experiência.

Mal pensou no Bruxo com cara de criança e a porta do escritório se abriu, dando passagem à Sabri que alcançou a mesa com passos rápidos, se jogando na cadeira o outro lado, parecendo satisfeito quando afundou no estofamento.

— E então? — o Vampiro perguntou, e um sorriso se abriu no rosto do outro.

— Conseguimos. Você estava certo, afinal, quanto a utilizar um monte de almas para forçar a abertura de um portal.



Arely estava sentada na poltrona, encolhida, os pés em cima do assento e os braços cruzados, o olhar fixo diretamente à própria frente. Mergulhada no meio das vozes e do que quer que apenas ela enxergava por conta do outro destino possível de sua alma.

— Qual o seu maior medo, Arely? — sentado no sofá, inclinado para frente, com os cotovelos apoiados nas coxas, Adrien aguardou uma resposta para a pergunta. Os lábios da Mensageira se mexeram, respondendo a pergunta, mas nenhum som saiu. — Não ouvi a resposta.

— Me afogar. — veio a voz em tom baixo. O olhar continuava parado, mas ganhou um ar assustado. O que ela estava vendo agora? Ou talvez estava imaginando o pior medo se realizando?

Adrien virou-se para Ruby ao seu lado; percebeu os lábios franzidos e a raiva no olhar dela. Ela não gostava de ter de fazer aquilo com Arely.

— Existe alguma piscina que podemos usar para o teste? — antes mesmo de terminar a pergunta, a ruiva balançava a cabeça em afirmativa.

— Minha tia, Emanuele. Tem uma piscina na casa dela. O clã usa para ensinar os mais jovens a nadar.

— Bom. Vamos amanhã durante o fim da tarde. Avise pra ela. Não vou querer ninguém lá além de nós.

Ficaram em silêncio por um tempo, observando a Mensageira e seu olhar fora da realidade. Adrien estava acostumado com aquilo. Embora ele mesmo tivesse encontrado apenas cinco Mensageiros no total, contando com Arely, vira outros que Hayato e outros Observadores haviam treinado. A garota na poltrona era a mais calma de todos que ele já vira. Mas Ruby, ele percebia, estava incomodada em ver Arely daquele jeito.

No momento que Ruby se levantou, ele imaginou que para guiar Arely ao próprio quarto, a porta da sala se abriu e Allan entrou. O Lycan carregava alguns ferimentos no rosto e nos braços, já quase totalmente fechados; a camiseta e a calça jeans estavam com rasgos abertos, sujos de sangue — vermelho e roxo — e terra. Usava apenas um par de chinelos, ao invés dos tênis com os quais saíra. O cheiro de Vampiro e Bruxo nele era pungente e agitou sua fera.

Franziu as sobrancelhas com o estado do herdeiro do Alfa dos Carvalho, ignorando o olhar atravessado que ele lhe dirigiu.

— O que aconteceu? — sua aprendiz foi mais rápida, e Allan girou os ombros em seguida.

— Vampiros e dois Bruxos nômades entraram no nosso território. O que consegui capturar e interrogar antes de cortar a cabeça disse que Louis convocou todas as famílias nômades para pontos de encontro específicos, alegando que descobriu como abrir portais para a Catedral. — a expressão de Allan fechou ainda mais. — Como os Observadores vão pra lá, afinal? Como qualquer um vai pra lá?

Suspirou. Estava demorando para aquela pergunta aparecer. Além disso... Como os Bruxos tinham demorado em descobrir como forçar a abertura de portais. Achava que eram mais inteligentes.

— Os Velhos Líderes e Guerreiros entram automaticamente ao enfrentarem seus testes. Ou seja, quando Arely enfrentar o seu medo de se afogar, a Catedral se abrirá para ela no mesmo instante, enquanto ela ainda está na água, e a levará para lá. Os Observadores são capazes de abrir portais em locais considerados sagrados, independente de qual povo considere esse lugar sagrado, por causa da nossa ligação com a Catedral. O que faz o local ser sagrado é a crença que existe ou já existiu quanto a esse lugar. Eu prefiro usar igrejas protestantes, mas cemitérios, terreiros, sinagogas, mesquitas, igrejas católicas, mosteiros, templos aos ancestrais, templos em ruínas e muitos outros também servem... Diversas possibilidades. Através desses portais, podemos levar outros conosco. — deu uma pausa, respirando fundo. — Vampiros e Bruxos dependem de portais naturais, que se abrem de tempos em tempos e não são muito estáveis. — riu um pouco. — Só acho estranho eles demorarem pra perceber que esses portais se abrem em locais com muitas mortes no mesmo momento.

— Qual a ligação? — Ruby inclinou a cabeça para o lado, curiosidade em seu olhar.

— Muitas almas e espíritos fazendo a passagem ao mesmo tempo. Ao que parece, precisam passar pela Catedral antes. Normalmente uma alma só provoca um rasgo de poucos segundos ao atravessar, mas muitas ao mesmo tempo provocam um rombo que pode levar dias para se fechar, e que pode ficar intermitente. Se fecha, mas se abre depois de um tempo com a mais leve perturbação.

Louis matara muitas pessoas para conseguir abrir o portal, e mataria mais ainda, se pretendia abrir mais de um. Mas porque ele já estaria começando a reunir os Vampiros e Bruxos? Deixaria Arely e os demais para trás? Não. Não fazia sentido. Ele planejava alguma coisa.

Se levantou e andou na direção da porta por onde Allan entrara.

— Aumente a segurança em torno da casa. Volto em duas horas. — falou por cima do ombro antes de sair.



— Entendi. Vou avisá-lo. Sede dos Assaliah, correto? Obrigada por avisar. — Desligou o telefone sem fio, e com uma careta encarou o relógio pendurado na parede marcando duas e meia da manhã. Mais de cinco horas desde que Adrien tinha saído, e nem sinal do Lycan ainda.

— Quem era? — a voz de seu irmão a alcançou, e Ruby suspirou, controlando a raiva que sentia do Observador pelo sumiço. Virou-se, apoiando as costas no sofá e fixou o olhar no irmão.

— O Alfa dos Maisha. Reunião de emergência dos Alfas da cidade por causa das famílias nômades de Vampiros e Bruxos entrando. — viu os ombros do irmão caírem com a notícia. Não o culpava. Também estava ciente da hora que o pai fora dormir nas últimas semanas, desde que os Observadores tinham convocado os clãs para partirem para a Catedral. Muitos preparativos a serem feitos.

— Eu vou avisá-lo. Fica de olho na Arely? — Ruby balançou a cabeça em afirmativa, vendo o irmão sumir no corredor.



Adrien entrou na sala, espanando poeira do que restava da camiseta e da jaqueta, manchadas de sangue vermelho e roxo. Apesar do sangue e dos farrapos que usava, não parecia ter qualquer ferimento.

Ruby levantou-se do sofá e parou diante dele, encarando-o e barrando sua passagem.

- Pensei que “em duas horas”, significava dez da noite, e não duas da tarde do dia seguinte.

O Observador a afastou com uma mão, girando o outro ombro lentamente enquanto avançava casa adentro.

- Tive problemas para conseguir informações das famílias que entraram na cidade. Ninguém queria falar. Acabei tendo de provocar um pouco de confusão no território da família onde Louis mora pra conseguir algo de útil.

- Valeu à pena? – seguiu atrás dele, vendo-o se deixar cair no sofá com um gemido de dor. Ruby pensou consigo mesma que era uma benção o sangue já estar seco, ou sua mãe iria mata-lo por manchar o tecido bege escuro.

- Sim. Consegui descobrir onde Louis abriu um portal para a Catedral. Consegui fechá-lo, mas alguns Vampiros falaram sobre ele ter aberto um segundo. – deu de ombros. – Ainda assim, não descobri o que ele pretende. Ninguém tinha uma mínima pista.

Qualquer conversa que pudessem ter foi interrompida por um grito curto, seguido do som de algo caindo. Ambos reconheceram a voz de Arely.

- Allan não fica pajeando ela vinte e quatro horas por dia agora? – Adrien perguntou para a garota, não parecendo realmente querer sair dali. Ruby fez uma careta para a frase dele.

- Ele cuida dos ferimentos resultantes do seu treinamento, tenta manter ela nesse mundo e é a única coisa que realmente a ajuda durante os pesadelos. – Ruby o respeitava como quem estava treinando-a como Observadora, mas ele sabia ser irritante e acabar com sua normalmente pouca paciência, isso ela tinha de admitir. – Allan teve de sair para cuidar de alguns assuntos do clã, já que o nosso pai ainda não voltou da reunião de emergência dos Alfas.

Adrien girou os olhos e então se levantou, dando passos lentos para o corredor que levava aos quartos. Ruby o seguiu, mas logo passou à frente dele e o impediu de entrar no quarto, cruzando os braços.

- Não recomendo você entrar aí, Adrien. Desde ontem à noite ela está mais mergulhada nas vozes do que nunca. – o Observador franziu as sobrancelhas para ela.

- Ainda assim, preciso verificar. – ele novamente a empurrou para o lado com uma mão, abrindo a porta e entrando no quarto de Arely.

A garota estava encolhida num canto, abraçando as próprias pernas, os olhar fixo na cama bagunçada. Adrien se aproximou devagar, se abaixando perto dela. Esticou a mão para tocar seu braço, mas parou a meio caminho, quando a Mensageira pulou para longe, encarando-o com olhos desvairados enquanto se arrastava para o outro lado do quarto, gritando.

- Não me toque!

Adrien virou-se, mantendo o olhar sobre ela. Ruby permaneceu na porta, observando a cena com a garganta apertada.

- Que péssimo Observador você é, Adrien! Esperança de morrer ou esperança de matar Louis são as únicas coisas que o mantêm ligado à Catedral! São esperanças, afinal! – Arely deu uma pausa, os olhos castanhos girando pelo quarto, vendo algo que apenas ela via, antes de voltar a focá-los nele.

Ruby pensou consigo que Adrien parecia imaginar que devia ter escutado o que ela falara e permanecido longe. Na opinião dela, desde quando Arely o enfrentara sobre a maldição, o Observador devia tomado mais cuidado ao se aproximar da garota. Ela sabia como a raiva de uma mulher era perigosa, e especialmente a raiva de Arely, que apenas a escondia mais que qualquer um.

- Você abandonou-os! Guillermo matou, e resistiu por quase um ano à tentação de deixar um espírito de demônio entrar no lugar, aprisionado por Louis! Mas você – apontou um dedo para Adrien, cuja expressão, Ruby notou, era de terror. – achou que ele estava perdido e o abandonou! Lílian se jogou de um precipício assim que matou, seu corpo para sempre um presente aos mares! E isso porque você sequer foi atrás dela quando desapareceu! Rachel e John foram a mesma coisa! “Sempre terá outros Mensageiros para serem encontrados.” NÃO! Seu desapego fez com que eu fosse a única Mensageira dessa geração, e se falhar, a última! Diga que a culpa é da maldição! Diga e seja covarde em admitir que você não quer sequer tentar encontrar e treinar Mensageiros e que só lhe importa matar Louis desde que Elizabeth se matou!

Ruby viu Adrien se levantar devagar, usando a parede como apoio, sem desviar o olhar de Arely. A Lycan sentiu o coração apertar por ver o estado da garota, tão diferente do que conhecia.

- Acha que eu não sei?! Se Gabriel não tivesse te dito o que fazer e que sou a última, você também teria desistido de mim, depois de tudo que fez! – o Observador começou a recuar na direção da porta, e Arely estendeu os braços em cruz, ajoelhada no chão e olhando para cima, diretamente para seu rosto, embora não parecesse realmente enxerga-lo. – Assustado?! Só estou sendo o que você queria que eu fosse: uma Mensageira!



Saiu do quarto praticamente correndo, não esperando Ruby fechar a porta; ela o alcançou na sala, onde ele parou e cruzou os braços.

- Eu avisei. – ela resmungou, um olhar de censura nos olhos cinzentos.

Anjos, ele realmente ganhara a inimizade da aprendiz nas últimas semanas. E Arely sem dúvida o mataria se pudesse e tivesse chance.

- Sim, você avisou. – resmungou de volta, a fera murmurando ao fundo que devia coloca-la no lugar e ensiná-la a não desafiá-lo. Ignorou. Não precisava dar outro motivo para ela surtar com ele. Agora, tinha de se focar no fato de Arely estar completamente mergulhada nas vozes e não parecer sequer se esforçar para sair, mas de um jeito estranho. Não era a insanidade que ele estava acostumado. Era... Diferente. Ela parecia quase sã enquanto gritava com ele. – Vou trocar de roupa. Avise a sua tia que vamos agora pra lá. Arely precisa realizar o teste logo.

Ouviu um bufo de Ruby enquanto se virava para ir para o outro prédio. Quando olhou por cima do ombro para ela, o rosto da ruiva exibia sarcasmo.

- Agora que percebeu? – ela falou, e dessa vez a fera foi mais insistente quanto a mostrar para Ruby parar de agir daquele jeito.

Infelizmente, não podia culpa-la por trata-lo como um filhote que mal aprendeu a controlar a transformação. Ele que fora um completo idiota ao se tratar da Mensageira.



Cheiro de dia ensolarado, de serragem e de gengibre. Essa combinação exótica e agradável e insana – afinal, como era capaz de dizer cheiro de dia ensolarado? – se enroscava por entre as vozes e a alcançava, apesar da muralha que elas eram ao seu redor. Aquele aroma a chamava, a incitava a prestar atenção em algo mais. Então percebeu uma voz, um barítono suave, que não estava apenas em sua cabeça, chamando seu nome com carinho.

Conhecia aquela voz e aquele cheiro. Conhecia quem possuía ambos. Era alguém que não a fazia sentir necessidade de gritar os segredos mais profundamente enterrados na mente dessa pessoa que as vozes lhe sussurravam. Quem era mesmo?

A primeira voz, sua própria voz tristonha, a empurrou numa direção. Para fora de entre as vozes. Resistiu, as demais se enroscando em sua mente como gavinhas e trepadeiras, tentando fazê-la ficar. A que a empurrava o fez com mais insistência, arrancando as outras de sua mente momentaneamente.

- Por quê? – conseguiu resmungar enquanto era forçada para o mundo são, onde não tinha acesso a todo o conhecimento, todo aquele maravilhoso conhecimento, que as vozes lhe davam.

“Porque eu sou quem sempre te fará fazer o que precisa ser inegavelmente feito.” A voz respondeu, e então a jogou do labirinto de vozes.



Allan segurava seus ombros com firmeza, falando seu nome num tom baixo de voz. Piscou e se encolheu, confusa com a luz que atingia seus olhos, por cima dos ombros do Lycan. Ele parou de falar e então sorriu.

- Bem vinda à lucidez. – brincou, e ela não conseguiu se impedir de rir. Admirou o sorriso dele por um instante, tentando entender como conseguia trocar a capacidade de ver tal sorriso por tudo que as vozes lhe contavam, mas logo desistiu de tal empreitada. As vozes, as malditas vozes, continuavam sussurrando e se enroscando em sua mente, tentando arrastá-la. Tão tentador...

- O que aconteceu? – Arely perguntou, sentindo a garganta seca. Não se lembrava da última vez que bebera água. Sinceramente, não conseguia lembrar de muita coisa dos últimos dias, além de descobrir a maldição, gritar e socar Adrien e a promessa que fizera ao Lycan diante dela.

Allan respirou fundo, e por um instante ela sentiu as mãos em seus ombros apertarem.

- O teste da Catedral. – ele murmurou, e só então a Mensageira olhou ao redor e engoliu em seco.

Estavam na área de uma piscina coberta, janelas amplas no topo das paredes de cinco metros de altura deixando entrar o sol de meio de tarde que a cegara pouco antes. A piscina devia ter cerca de cinquenta metros de comprimento.

Encarou a água límpida, visualizando o fundo simples de azulejos azuis distorcidos. Estremeceu ao se imaginar debaixo de toda aquela água, incapaz de respirar, e quis sair correndo.

- Só preciso entrar, certo? – murmurou para ninguém em particular, a garganta apertada.

- Não. Como seu maior medo é se afogar, então é o que vai acontecer. – a voz de Adrien a respondeu. Allan ficou tenso ao seu lado, e não o culpava. Seguiu o som da voz do Observador, vendo-o caminhar na direção da piscina de braços cruzados, usando um conjunto de bermuda e camiseta com as cores desbotadas.

Allan a soltou; respirando fundo, Arely girou no lugar e observou Adrien entrar na água e andar até o meio da piscina, de braços cruzados. A Mensageira o encarou, fechou os olhos e respirou fundo, antes de dar o primeiro passo.

Em um segundo, Ruby estava ao seu lado e a ajudou a descer pela borda da piscina. A água penetrou pelo tecido das roupas de moletom; estava quente, mas ainda assim, sentiu sua pele se arrepiar. Com uma careta, mal sentindo as pontas dos pés tocando o fundo, andou na direção do Observador. Ele a fez ficar de frente para Allan e Ruby, ainda no seco, uma mão no alto de suas costas.

Arely começou a falar. Começou a perguntar como aquilo funcionaria.

Não teve tempo.

Sem aviso algum, a outra mão de Adrien estava logo abaixo da junção do pescoço com o tronco, pressionando suas clavículas para trás, empurrando-a para dentro do abraço quente e sufocante da água.

O líquido entrou por sua boca e narinas, o cloro queimando seu caminho. Fechou os olhos, sentindo-os arderem por conta da substância. Se debateu e tentou sair da água, as mãos, pés e joelhos encontrando o ar frio acima, mas Adrien manteve sua cabeça debaixo da água sem misericórdia, sem ligar para o quanto ela chutava e estapeava.



Allan soltou um suspiro irregular quando Arely finalmente tossiu, o peito se erguendo quando ar encheu seus pulmões uma vez mais. A virou de lado, com cuidado, uma das mãos esfregando as costas da garota enquanto ela cuspia água e tentava regular a própria respiração.

O Lycan ergueu o olhar para Adrien, sentado na borda da piscina de costas para ele, Ruby ao seu lado, não porque queria. Por ela, o tinha ajudado a trazer Arely de volta.

Quando a Mensageira parou de tossir e a respiração estabilizou, embora ainda fosse pesada, Allan a fez se sentar antes de puxá-la para um abraço, controlando a própria força para não esmaga-la e quebrar algo. Afundou o rosto no pescoço dela e respirou fundo. O cheiro de cloro invadiu suas narinas, mas logo abaixo estava o aroma de fogo e terra queimada. Devagar, sentiu os braços dela o envolverem e uma das mãos apertar sua nuca e provavelmente se enroscando nos cachos ruivos.

- Obrigada. – ela resmungou em sua orelha. Allan sentiu o corpo relaxar, mas apertou o abraço.

- Sempre que precisar, Ly. – sentiu os lábios delas se esticarem num sorriso tímido contra seu pescoço quando ela deixou que ele apoiasse todo o seu peso.

Deus, ele realmente tivera medo de perdê-la. Quando Adrien a empurrara para debaixo da água, e ela continuara ali, se debatendo e se afogando, ao invés de sumir e ir para a Catedral como o Observador dissera que aconteceria, Allan sentiu a garganta apertar. E quando ela parara de se mexer... Ele não queria nunca passar por aquilo de novo. Era como se tivessem arrancado seu coração do peito.

Fora a fera, é claro, berrando em sua mente para estraçalhar Adrien por fazer aquilo.

Ruby saíra do estupor primeiro que eles, berrando para Adrien trazê-la para a margem. O grito dela o fizera agir também e começar a tentar reanima-la no instante que o Observador a colocara no chão frio e seco. Sua irmã começara a ajuda-lo, mas Adrien a chamara. Se ele viu e simplesmente ignorou o olhar assassino que ela lhe dirigia, Allan não sabia.

- O que aconteceu? – ela perguntou, a voz ainda rouca e fraca, após menos de três minutos.

- Você não entrou na Catedral. Quase morreu. Adrien... Ainda não falou qualquer coisa sobre. – se forçou a responder e enrolou a própria língua para não xingar o loiro com o palavrão que lhe rondava a mente.

- Ah. – ela resmungou, e os braços em seu pescoço apertaram. Ela parecia lúcida, provavelmente como consequência de quase morrer. – To morrendo de frio, Allan... – E sem dúvida amedrontada. Ela não tremia apenas por causa do frio, mas por causa da experiência medonha que fora obrigada a reviver, ele não tinha dúvida, afinal ela lhe contara sobre quando ainda era uma criança e quase se afogara.

Com cuidado, tirou uma das mãos das costas dela e passou por debaixo dos joelhos de Arely, antes de se levantar.

- A mana deixou umas roupas secas pra você lá dentro mais cedo. – sentiu ela balançar a cabeça em afirmativa contra seu ombro, mas não falou de novo. A garganta devia estar doendo como o inferno. Faria um chá enquanto ela tomava um banho quente e se trocava.



Estava esperando Arely do lado de fora do banheiro, com uma caneca de chá de hortelã aquecendo suas mãos, quando Adrien e Ruby entraram, quase meia hora depois que a Mensageira entrara no banho.

- O que aconteceu? – a pergunta saiu num tom irritado e hostil, que não negava a raiva que sentia do Observador.

- Arely não enfrentou o maior medo dela. – ele respondeu, de braços cruzados. Allan travou a mandíbula, rangendo os dentes, se controlando para não ataca-lo.

- Uma ova. Ela praticamente morreu afogada. – espremeu por entre os dentes.

A porta do banheiro se abriu; Arely, usando as roupas que Ruby trouxera para ela, saiu, olhando com algo de desconfiança para o Observador. Allan estendeu a caneca para ela, que deu um leve sorriso enquanto a pegava.

- Não, não enfrentou. Se tivesse, tinha sumido da piscina segundos depois de eu a empurrar para dentro. O maior medo dela não é se afogar. – nesse momento, ele direcionou os olhos de bronze derretido para a garota. Arely tomou um gole do chá quente antes de responder, as sobrancelhas franzidas.

- Pra mim, meu maior medo sempre foi me afogar. Se não é, não tenho ideia do que realmente seja. – a voz de Arely saiu um pouco tremida. Allan viu as sobrancelhas de Adrien caírem com a declaração, enquanto cruzava os braços.

- Você tem pouco tempo, então é melhor descobrir logo qual é realmente seu maior medo. – ele então voltou a atenção para Allan e Ruby. – Vamos deixar Arely na casa dela com os Lycans cuidando da segurança dela e então ir para a Catedral. Ruby precisa conhecer o lugar como Observadora, e você, como quem vai liderar os Carvalho. Vamos precisar do seu Beta também.

A frase do Observador o pegou desprevenido. Arregalou os olhos verdes, enquanto abria e fechava a boca, antes de finalmente falar.

- Meu pai é o Alfa dos Carvalho, não eu.

- Mas confio mais em você do que nele. – Adrien respondeu simplesmente, erguendo uma das sobrancelhas com descaso. – Você coloca a mão na massa sem medo quando precisa, ele não.

- Nisso eu concordo com Adrien, Allan. Você é mais indicado pra liderar o clã. Você bem dizer tem feito isso desde quando o pappa e o tio ficaram presos nas burocracias das relações entre os clãs. – Ruby apoiou a decisão de Adrien, para a sua surpresa. Era óbvio para Allan que ela discordava e muito com o Observador quando o assunto era Arely, mas de resto, parecia que já pensava mesmo como uma Observadora: passava por cima de praticamente qualquer um, se necessário.

- Mas...

- Eles têm razão, Allan. – Arely começou, uma das mãos tocando seu braço, tensionado e terminando num punho. Lentamente, deixou o toque tímido dela relaxar seus músculos, enquanto encarava os olhos cor de chocolate. Havia algo diferente ali. Como brasas querendo voltar a queimar. – E acho que seu pai vai concordar. Mesmo porque nem todos irão para a Catedral lutar. – a voz se aprofundou, de um jeito estranho, que o fez pensar no som de caramelo fervendo e borbulhando. Num estalo, entendeu que ela falava mais como Mensageira que como humana. – Crianças não preparadas para a guerra nunca deveriam entrar na Catedral. Nunca mais entrarão. E alguém precisa garantir a segurança delas aqui, porque nem todos os Vampiros e Bruxos vão para a Catedral. – no começo, havia um leve sorriso enfeitando os lábios dela. Ele tinha sumido. Lentamente, ela virou a cabeça até encarar o Observador. – Não é mesmo, Adrien?

Allan sentiu a mão em seu braço ficar tensa, as pontas dos dedos se fincando em sua pele. A temperatura dela também subira. Era como se ela queimasse por dentro. Arely escorregara lentamente para o meio das vozes e sua insanidade devido à falta de controle e ele sequer percebera.

Estava ficando pior.

Ergueu a mão contraria ao braço e segurou a tensa da garota. O ato a fez olhar para ele. Tirou a mão de seu braço e com cuidado, antes de puxar Arely devagar em sua direção, até passar um dos braços pelos ombros dela. Ela relaxou contra ele.

Voltou a atenção para Adrien. O maxilar do Observador estava frouxo, e o olhar em seu rosto parecia, na opinião de Allan, assombrado. Segundos depois, percebendo que era observado, o loiro fechou a expressão.

- Vamos. Temos de correr. Arely não tem muito tempo.

Enquanto os outros iam na frente, Allan voltou para a cozinha e deixou a caneca vazia na pia, pensando quais pecados Adrien escondia e que Arely o fazia confrontar.

Ruby lhe contara sobre mais cedo. Que como Arely falara sobre os outros Mensageiros que Adrien encontrara e o papel dele em suas mortes e transformações. Aquilo sobre crianças na guerra fora mais contido. Mirado para acertar, e não berrado para que todos soubessem. Era como se as vozes tivessem um propósito, como se estivessem tão irritadas quanto Arely pela forma como o Observador ocultara coisas dela, e quisessem fazê-lo pagar por isso.


Num primeiro momento, ficou preocupado com o impacto disso na Mensageira, desses conhecimentos e ataques. Mas depois pensou melhor. Ela era forte. Aguentava.