26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 13: Exigir

Uma brisa balançou seus cabelos, trazendo o cheiro do sangue humano em suas mãos direto para seu nariz, mais intenso e fazendo a sede se revolver em seu interior. Uma careta contorceu o rosto de Louis, os olhos brilhando no meio da noite densa no Bosque dos Buritis. Alguns metros à sua esquerda, uma jovem morta, a terra bebendo do sangue que escorria de seu pescoço e ombros e que ele desprezara.

Logo depois do que ocorrera com seu espírito, tanto a sede como a vontade de caçar tinham retorcido suas entranhas, exigindo obediência. Bastara ouvir as novas dos Bruxos, de que Arely fora vista em São Paulo, e a confirmação do que ele já sabia, que seus dons tinham despertado, para sair da casa, deixando a bagunça para o trio, alegando que o desmaio fora falta de sangue decente, direto da fonte.

E ali estava ele. A sede não saciada, mas com um corpo ainda quente próximo, a pele dilacerada por seus dentes e garras.

Virou os olhos azul-leitoso para a jovem, contemplando os cabelos castanho-chocolate, sem viço e quebradiços, a pele pálida cobrindo um corpo quase esquelético e os olhos castanhos arregalados numa expressão de puro terror. Marcas de agulhas acenaram de seus braços descobertos.

A sede era tanta que ignorou quando seu nariz lhe falou sobre o sangue contaminado, avançando em cima da garota de forma quase descuidada. E só depois que passou a cuspir o líquido com um sabor insosso de drogas que reparou nos traços da mulher.

Se colocasse mais carne nas bochechas e cor nos lábios, seria uma cópia quase perfeita de Arely.

Esfregou as mãos juntas num tique nervoso quando a imagem da garota lhe oferecendo o pulso invadiu a mente, sentindo uma súbita vontade de gritar de frustração e de derrubar todas as árvores do parque, especialmente quando ouviu um risinho identificado como de Elizabeth.

Apoiou a testa nas mãos, os olhos encarando a terra entre seus joelhos.

Não era burro. Sabia que não era o primeiro Vampiro a passar por algo do tipo, fosse uma maldição — a aliança entre Vampiros e Bruxos era tênue, e facilmente os que se alimentavam de almas amaldiçoavam os que necessitavam de sangue — ou algo natural — embora fosse extremamente raro e costumasse terminar num banho de sangue de pessoas similares e próximas ao alvo humano.

Não era “amor”, como aqueles romancezinhos adolescentes de hoje em dia falavam. Era obsessão, doentia, do tipo “Se não posso ter, então, ninguém mais tem”; geralmente, tal sentimento era recíproco: o humano que atraía tal atenção costumava ter algo obscuro o bastante para torna-lo um excelente candidato a sobreviver a transformação, além de quase naturalmente procurar tal fato. Era algo destinado a acontecer, pode-se dizer. Mesmo nos casos de maldições.

Mas, Inferno, sentia pelas mariposas revoando em seu estômago que não era apenas uma espécie de chamamento por alguém cujo espírito era tão obscuro quanto o próprio. Com isso ele podia lidar. Isso não surpreenderia o trio de Bruxos que o esperava na mansão, não enfraqueceria sua liderança.

Elizabeth não lhe amaldiçoara com obsessão. Amaldiçoara com amor, algo que imaginou que nunca mais sentiria depois de sua transformação. Havia a obsessão, mas o outro sentimento também estava ali. Por vezes, a Bruxa infiltrava pensamentos e imagens sobre Arely em sua mente, muitos docemente obscenos, mas os que mais o atormentavam eram as que eles estavam lado a lado como um “casal feliz”, governando uma Terra dominada por demônios a mando do Senhor do Inferno, os olhos dela de um tom puro de azul como o céu, mas com o característico brilho maléfico dos Bruxos. Os sorrisos que ela dava nessas imagens ao ver o sofrimento alheio fazia Louis querer entrar em definitivo nessas visões e beijar a Mensageira — uma Bruxa na visão — até deixá-la sem fôlego.

“Nunca a terá... Sabe disso...”

Ergueu a cabeça, os dentes rangendo, ao ouvir a voz de Elizabeth.

A ideia de nunca tê-la apenas para si o atordoou, e o fez mandar às favas o fato de saber que era tudo fruto da pequena parte tomada de seu espírito. Não importava como começara, mas sim a vontade quase incontrolável de simplesmente pegar o primeiro voo para São Paulo, sequestrar Arely e torna-la na Bruxa de suas visões ao mordê-la.

Mas sabia que assim ambos acabariam mortos. Sem dúvida nenhuma Adrien estaria com ela o tempo inteiro depois do que acontecera, e se não ele, a filhote chamada pela Catedral. E existiam os primeiros Bruxos. Iriam depô-lo de seu posto ao tomar conhecimento de algo assim, pacificamente ou não.

Mas, afinal, nada mais justo: Adrien tivera Elizabeth. Já estava na hora de ele ter alguém, e Arely, bem... Era a “candidata” perfeita.

Tudo bem, teria de esperar. Como sempre.

Mas até lá... Sua mente começou a formar planos e planos, ignorando os risos histéricos de Elizabeth.



Pouco depois de responder a mensagem, o grupo apareceu e se espalhou na mesa para tomar o café, enquanto Dona Rita desaparecia por alguns minutos nos quartos e então passava pela cozinha rumo à área de serviço externa com um cesto de plástico cheio de roupas de cama. Eles eram os únicos na pensão; os demais moradores tinham saído cedo para trabalhar ou simplesmente sair e aproveitar o dia desde cedo.

Quando terminaram, Alexandre, Arwen e Sílvya tiraram a mesa e arrumaram a cozinha, enquanto Adrien e Ruby puxavam Arely com delicadeza para a sala de estar. O Observador tinha percebido o olhar meio vago e até mesmo perdido da garota ao entrar na cozinha. Perguntava-se o que exatamente estava se passando na cabeça dela.

Sentaram nos sofás, Arely e Ruby num, ele noutro, de frente para elas, e estavam preparando para iniciar o que provavelmente seria uma longa conversa quando a garota virou-se para Ruby.

— Allan enviou uma mensagem. Está preocupado. Respondi falando que você ia ligar depois e explicar tudo.

A Lycan suspirou, se levantando enquanto pegava o celular do bolso, vendo uma dúzia de mensagens e duas chamadas não atendidas — todas do irmão. Com a constatação, lançou um olhar de desculpas para o mestre e foi para a cozinha.

Adrien viu-se sozinho com Arely. Bufou de leve, se deixando cair contra o encosto do sofá, querendo que Ruby estivesse ali. O sexto sentido dela era melhor para lidar com a garota. Estava, novamente, se preparando para iniciar o diálogo, mas não precisou.

— Adrien... Você sabe por que eu consegui curar eles e a mim mesma? — a voz dela saiu num sussurro tenso, e ele se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Tenho minhas suspeitas... — ele ia contar a verdade. Ia mesmo. Mas aquele jeito de falar e olhar...

Anjos, ela tinha acabado de fazer 15 anos. Não apenas por causa da idade, mas ele podia perceber, ela ainda não estava pronta. Não estava pronta para enfrentar o treinamento de Mensageira, e muito menos para a responsabilidade de ser uma Mensageira, de ser a pessoa com maior voz na Guerra. Provavelmente, o dom da cura não teria se revelado tão já se não fosse o veneno que começara a correr em suas veias e artérias. Mas agora... Uma vez que era possível curar alguém, os demais dons tendiam a aparecer mais rápido. Ele devia começar a prepará-la...

A vulnerabilidade e o ar perdido em suas íris parou sua língua. Ele não podia jogar aquela carga nos ombros dela, não ainda. Sabia que Arely era forte e enfrentaria o que fosse colocado diante dela sem reclamar. Era sua natureza. Mas era muito recente… Seu psicológico não ia aguentar.

— Quais suspeitas? — ela perguntou, se inclinando na direção dele, a voz ainda tensa, mas agora com algo de curiosidade.

— Não se preocupe com elas agora. — sorriu de leve. — São só suspeitas.

Viu-a morder o lábio, estralando os dedos inconscientemente. Ela devia estar realmente alterada, pois nunca observara aquele hábito nela.

— É por causa do que eu fiz ontem que os Vampiros estão atrás de mim? — ela era realmente inteligente, e não estava de todo errada. Lentamente, ele balançou a cabeça em afirmativa, acrescentando um “Provavelmente”. Ela soltou o ar, e então ele viu os olhos castanhos marejarem.

Rapidamente, ele trocou de sofá e sentou do lado dela, envolvendo seus ombros.

— Apesar do que aconteceu ontem, nós vamos te proteger, Arely. Não prometemos?

— Prometeram. — sua voz saiu um fio fino e embargado pela força que ela fazia em não deixar as lágrimas caírem.

— Então. Não precisa se preocupar muito. — colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha dela, vendo um sorriso pequeno e tímido puxar os cantos de seus lábios. — Vamos proteger você e seus pais.

— Vou cobrar, viu? — ela falou, a voz um pouco mais forte e tranquila.

— Eu sei que vai. — respondeu, sorrindo, antes de abraçá-la de modo fraternal, a cabeça dela se aconchegando na curva de seu pescoço ao abraçá-lo de volta.

Ficaram assim por alguns segundos, até ele perceber que ela dormira. Deu um sorriso minúsculo ao levá-la de volta para o quarto da prima, feliz porque agora ela realmente iria dormir, ao invés de ficar quase em coma. Ela precisava descansar de verdade.



Arely trincou os dentes, a mandíbula travada, enquanto tentava se concentrar na aula de História. Apenas tentava, de forma quase inútil, ignorar a multidão de sussurros ao pé da orelha.

No começo, logo após o ferimento que quase a matara, tinha sido somente a sua própria voz, triste, fria, distante e estranha, a lhe sussurrar conselhos ou como agir, muitos dos quais ela não entendia o motivo. Ainda assim, tinha sido fácil de lidar, embora, ao que parecia, o que quer que lhe acontecera bloqueava as visitas de Adrien aos seus sonhos. Ele mesmo lhe dissera isso, antes que saíssem da Pensão da Dona Rita.

Ela sentia falta dessas visitas. Era mais fácil conversar com ele nessas ocasiões; falar face a face era mil vezes mais complicado quando se tratava dele. Fazia Arely sentir de fato com quinze anos; toda sua maturidade precoce parecia escorrer por entre seus dedos quando o coração acelerava. Nem mesmo sua língua colaborava: ela mais balbuciava do que falava algo coerente. O cérebro não ficava atrás, e a sensação de borbulha provocada por borboletas no estômago a fazia querer se encolher num canto em posição fetal até que parasse.

Detestava se sentir tão vulnerável, incapaz de usar corretamente sua inteligência, a coisa que mais gostava nela mesma. A sensação que tinha era de tentar digitar com os dedos dos pés: impossível.

Então, quando ela, seus pais e Ruby estavam no carro, voltando para Goiânia, uma nova voz surgira. Era uma voz infantil, mas com um timbre sombrio de quem sabia demais, mais do que gostaria de saber. Essa voz acrescentara curiosidades mórbidas, indesejadas e bizarras sobre lugares por onde passara e pessoas que ela vira.

Conforme os dias e semanas passaram, novas vozes e informações sugiram, umas se sobrepondo às outras, e agora, no final de agosto, acreditava estar enlouquecendo.

Eram muitas vozes diferentes sussurrando uma infinidade de informações à quase todo momento, e ao mesmo tempo, desviando sua atenção e deixando-a enjoada. Desde que passaram a ser cinco vozes — momento em que ela desistiu de contar — que ela não comia direito, nem conseguia se concentrar completamente em coisa alguma por mais de dez minutos. Era quase tão ruim quanto falar cara a cara com Adrien. Ou melhor, era pior; pelo menos falar com Adrien não lhe fazia querer correr para o banheiro, vomitar o que nem existia no estômago.

Aliás, as vozes e a conversa com Adrien não eram as únicas coisas estranhas. Allan estava estranho com ela; mesmo Ruby percebera.

Ele se afastara; sempre que estavam no mesmo ambiente, ele procurava ficar longe dela, mal a olhava e ainda parecia estar se esforçando para ignorá-la. Aquele afastamento a machucava; ela não sabia se o abraçava forte e perguntava o que acontecera ou se o socava e xingava. E por vezes se xingava: devia ter permanecido distante, caso contrário, não estaria passando por tais problemas agora.

Completando o seu inferno pessoal, sonhos ainda mais estranho que antes a atormentavam — quando conseguia dormir. Eles pareciam não possuir sentido algum, martelando dia após dia em sua cabeça, nunca se desvanecendo, até que, repentinamente, de um jeito estranho e bizarro, se cumpriam.

Ela não tinha certeza se tudo aquilo estava enlouquecendo-a ou se significava que ela já estava louca. Arely estava começando a achar que a tendência era piorar e piorar, porque, afinal, não conseguiria ignorar as vozes para sempre.

Decidindo que sua cota de tentar ouvir o que a professora falava enquanto uma multidão sussurrava dentro de sua cabeça, sem serem seus próprios pensamentos, tinha sido ultrapassada, cruzou os braços sobre a mesa e apoiou a testa nos membros, fechando os olhos. A infinidade de vozes em sua cabeça, umas mais altas, outras mais baixas, pausas e intervalos ocasionais, não parou; às vezes, ela conseguia pegar um trecho ou outro, mas eram tão curtos, tão isolados, que o significado lhe escapava.

Soltou um suspiro, sentindo-se cansada e virando a cabeça para que um dos olhos observasse o resto da sala. Ruby, do outro lado do local, olhava-a com preocupação. Sem pensar duas vezes, girou a cabeça novamente, dessa vez voltada para a parede, e fechou os olhos, tentando cochilar um pouco. Mesmo dormir estava ficando cada vez mais difícil, e ela aproveitaria cada pequena oportunidade.



Com os olhos castanhos fixos nas borboletas pregadas no teto, luminescentes no escuro, Arely ouvia com vaga atenção os sussurros e murmúrios, tentando usá-los como uma música de ninar, mas não estava tendo sucesso nessa empreitada. O sono podia estar puxando suas pálpebras pra baixo, mas as malditas vozes não a deixavam adormecer. Um mês depois da primeira ter surgido, eram tantas que já estava enlouquecendo.

O celular tocou, Exile do Tristania preenchendo seu quarto. Com um suspiro desanimado, a garota girou na cama e estendeu a mão para o criado mudo, atendendo o aparelho e encostando-o à orelha.

Arely?

— Oi, mãe. Tá tudo bem? — resmungou, o sono aparecendo na voz.

Agora à noite é o funeral de um rapaz da igreja. Eu e seu pai já estamos indo pra lá. Quer que a gente passe aí pra te pegar? Já aviso que provavelmente vamos ficar a noite toda...

Arely estremeceu. A palavra “funeral” bastou para trazer à frente de seus olhos o massacre que acontecera em São Paulo e o que ela fizera.

Não. Sem dúvida alguma, ela não ia.

— Valeu, mãe, mas vou ficar em casa. Segunda semana de setembro... Começaram as provas, sabe... — não era mentira. As vozes mal a deixaram se concentrar no que estava lendo e escrevendo. Não sabia sequer como conseguira terminar as tais provas e voltar para casa.

Entendi, filha... Bom descanso. — se despediram e então Arely desligou o celular.

Jogou o aparelho no criado mudo, voltando a se virar para observar o teto. Seu estômago apertou com fome, e Arely, por um momento, quis chorar: não estava com o mínimo ânimo de sair do quarto e ir até a cozinha. Além disso, previa que, o que quer que comesse, não cairia bem, e então ela ficaria um bom tempo conversando com o próprio estômago, isso se não vomitasse de fato.

Não sabia o que era pior: a sensação de vazio que permaneceria até que ela comesse, ou o enjoo que a esperava no momento em que comesse.

Enrolou ainda um tempo, até que a fome a fez se levantar da cama e descer a escada.



Abriu a geladeira e encarou o interior do objeto gelado e o que tinha dentro. As vozes continuavam, pareciam até mais altas. Engoliu em seco; apenas de olhar já estava começando a sentir seu estômago se remexer de forma desagradável. Ironicamente, ele ainda insistia que estava vazio e que ela devia comer.

E as vozes... Deus, elas estavam insuportáveis. Pelo que parecia, outras tinham chegado durante a semana...

Engoliu em seco, os olhos descendo para a garrafa de vinho na porta da geladeira. Nem ela nem seu pai bebiam, mas Maria gostava de tomar um copo pequeno de vez em quando.

Mordeu o lábio inferior conforme a tentadora ideia se infiltrava na parte da mente que ainda lhe pertencia.



Encarou a casa escura com as sobrancelhas loiras franzidas com algo de consternação, desligando o celular quando o telefone do outro lado deu sinal de ter tocado pela décima vez. Com um suspiro preocupado, estralou o pescoço; aquela tinha sido sua terceira tentativa de falar com Arely, e diferente das outras duas vezes, não tivera paciência de esperar até cair na caixa de mensagens.

Estava com a sensação de que algo estava terrivelmente errado com a garota, e não era algo recente. De fato, desde que tinham retornado de São Paulo que ela agia de forma estranha... Quando conversavam, às vezes parecia não prestar realmente atenção ao que estava sendo dito, como se estivesse em outro mundo. Ruby também notara: o avisara que Arely estava mais distraída que o normal nas aulas.

Se perguntara, por um tempo, se era efeito do afastamento de Allan, se ela estava pensando, tentando descobrir porque ele se afastara. Se fosse o caso, então Adrien tinha parte da culpa: ele recomendara ao Lycan que era o melhor a fazer, se a fera dele estava realmente tão fascinada com a garota.

Mas então percebeu Arely perder peso, cada vez mais apática, e começou a achar que o problema era totalmente diferente, e se fosse o que pensava naquele momento, merecia ser destroçado membro por membro pelo feitiço mais cruel e doloroso que Hayato pudesse pensar por sua estupidez em demorar tanto para falar com a garota sobre o que ela era.

Bufando, olhou ao redor rapidamente antes de pular o muro e caminhar pela garagem até a porta da sala, que se abriu rangendo com um leve empurrão.

Franziu o nariz e arreganhou os dentes quando o cheiro forte de álcool alcançou seu nariz, e incentivado por esse cheiro, acelerou os passos; implorava que Arely não tivesse feito o que o cheiro o fazia pensar, que o estágio dela não fosse tão avançado a ponto dela apelar para isso.

A encontrou no tapete felpudo da sala de TV, esparramada com a barriga para baixo, quase como se estivesse dormindo, uma garrafa de vinho vazia num canto do chão, e outra meio cheia próxima à mão direita. Adrien gemeu interiormente quando viu que ela tomara vinho, sabendo que ela estava qualquer coisa, menos dormindo.

Se fosse cerveja, licor, champanhe ou qualquer outra bebida, estaria tudo bem. Mas vinho não tinha sido considerado sagrado em diversas religiões à toa: a bebida atuava de modo estranho no corpo dos Mensageiros, tornando-os ainda mais receptivos às mensagens, ou tornando as mensagens mais altas; ninguém chegara a um consenso sobre essa atuação do vinho. Era a única bebida que sabiam ser capaz disso; as demais provocavam letargia e silêncio das mensagens.

— Pensa mais baixo... Tem uma voz aqui que gosta de contar o que os outros pensam... Ou mais de uma. Elas já parecem tudo igual. — a voz da garota estava arrastada, conforme falava mais para o tapete que para ele, um antebraço levantado balançando de forma capenga enquanto o indicador fazia um “não”.

Adrien soltou um suspiro e se aproximou, ajoelhando ao lado da garota; primeiro afastou a garrafa que ainda tinha algo da bebida antes de virar o corpo de Arely. A luz ainda estava apagada, mas ainda assim ela franziu as sobrancelhas e fechou os olhos com força apenas com a da rua que entrava pela janela.

— Justo vinho, Arely? — a voz saiu num tom que era uma tentativa falha de piada, recebida com uma careta azeda da Mensageira.

— Cala a boca, Adrien. — ela resmungou, tentando afastar a mão dele com um tapa quando ele começou a levantá-la, mas errou por cerca de dez centímetros. — Que porcaria de vozes são essas? — bom. Arely não era uma bêbada boca-suja. Ele não estava a fim de ouvir uma infinidade de palavrões; Alexandre adolescente com seu colorido vocabulário de baixo calão bastava para duas ou três vidas.

— Quando você estiver sóbria, explico tudo. Prometo. — respondeu assim que conseguiu pegá-la ao estilo noiva — já que ela quase caíra e o levara junto quando a colocara sobre as duas pernas — e começou a subir as escadas.

Arely tentou se livrar dele, sem muito sucesso e quase caindo no meio dos degraus; Adrien andou até o quarto dela e entrou sem hesitação no banheiro privativo. Jogou a garota sentada no boxe, ouvindo um “ai” indignado quase cinco segundos depois, e então se esticou para desligar o aquecedor do chuveiro e girar a torneira.

A torrente gelada atingiu a cabeça de Arely em cheio, e ela abriu e fechou a boca como um peixe algumas vezes antes de tentar se levantar, as roupas ensopadas e o álcool em seu sistema dificultando a tarefa.

Era uma cena engraçada, por mais que Adrien se odiasse por rir dela naquela situação que era culpa puramente de sua negligência. Esperou alguns segundos, e logo ela conseguira ficar de pé, se apoiando nas paredes, os olhos castanhos confusos e desfocados, embora virados na direção dele.

— Vou pegar uma roupa pra você enquanto se seca. — ela ainda estava bêbada, mas nem de longe como ele ficara na noite de seu noivado quinhentos anos atrás, e isso porque era um Lycan. Mas ela era uma Mensageira. Eles se recuperavam rápido, mesmo dos efeitos do álcool, especialmente quando eram jogados debaixo de água fria corrente; uma cachoeira teria sido mais eficiente, mas o chuveiro bastava.

O Lycan fechou a porta do banheiro e abriu o guarda-roupa, pegando a primeira muda de roupas limpas que viu e estendendo-a por uma fresta da porta quando ouviu o chuveiro ser desligado. Não precisou esperar muito, embora tenha precisado apoiar a garota até a cama quando ela abriu a porta e deu o primeiro passo, parando de se apoiar na parede.

— Porcaria... Tá mais difícil de pensar que o normal... — ela resmungou, sentando no colchão e colocando uma mão no rosto, cobrindo um olho e metade da testa, antes de se deixar cair pra trás.

Balançando a cabeça, Adrien jogou as duas pernas para cima e começou a endireita-la na cama. Em momento algum Arely ajudou, limitando-se a usar o antebraço para cobrir ambos os olhos, e ele não a culpava; devia estar sendo infernal se concentrar nos próprios movimentos. Estava prestes a sair do quarto e deixá-la tentar dormir um pouco quando ouviu a voz meio arrastada.

— Fica. Fala comigo. Não vou conseguir dormir com tanta coisa sendo dita na minha cabeça. — o Observador, por um instante, considerou limitar-se a dizer “bom sono” e ignorar o que ela tinha dito. Seu sexto sentido disse que era o melhor. No final, acabou por suspirar de modo derrotado e ir contra o que era melhor: deu as costas para a porta e sentou de lado na cama.

— Sobre o que quer falar? — perguntou, vendo Arely sentar com movimentos lentos e encará-lo na altura dos olhos.

— Qualquer coisa. Capaz de depois nem lembrar. — sorriu de leve com a resposta. Muito pelo contrário: ela lembraria bem até demais. Amnésia alcoólica não era algo que Mensageiros precisavam se preocupar, embora todo o resto que o álcool trazia sim.

Pensou um pouco, o queixo apoiado numa mão e encarando o rosto sonolento e com olheiras profundas que ele não tinha reparado antes.

Hayato devia castiga-lo por ter sido tão relapso.

— Por que não falou com ninguém sobre as vozes? — os ombros se ergueram e baixaram de novo, a boca torcida numa careta de “tanto faz”.

— Achei que estava desenvolvendo esquizofrenia ou qualquer coisa assim e pensando em ir num neurologista, até que começaram os sonhos, e aí esses sonhos começaram se cumprir... — dessa vez, o nariz se torceu. — Então eu fiquei sem saber o que fazer.

Visões. Os poderes estavam se desenvolvendo muito rápido. Estava surpreso por ela ainda estar tão lúcida nesse estágio. Elizabeth já estava quase louca quando as visões iniciaram, e até ter conseguido realizar o teste e pisar na Catedral, já praticamente não reconhecia qualquer um que não fosse ele ou Leonardo. Estava tão violenta que tinha sido necessário afastá-la da convivência com as outras pessoas.

Arely era mais forte do que pensava. Tinha subestimado-a.

— Por um tempo, achei que você estava tão distraída por tentar entender o afastamento de Allan, afinal, é impossível não perceber que ele tem te evitado.

— É porque ele está apaixonado por mim. — as sobrancelhas dela se franziram, enquanto as bochechas pálidas se coloriam de vermelho e os lábios se torciam com algo de desgosto. — Uma das vozes ficou alta demais quando bebi e me falou. Disse também que ele não entende de onde isso veio. Que foi muito repentino. — ela desviou os olhos castanhos dele para as próprias mãos, e Adrien olhou para longe de seu rosto. Não queria ver o que estava no rosto dela sobre aquele assunto. Era pessoal demais. — Acho... Acho que é melhor assim.

O Observador sentiu um arrepio de preocupação subir pela sua coluna enquanto o pensamento de que devia ter saído do quarto mais cedo cruzava sua mente.

Lábios macios e inexperientes pressionados contra os seus. Adrien fechou os olhos, mais por instinto que por qualquer outra coisa, e por um instante considerou retribuir o gesto, mas logo se amaldiçoou por apenas pensar nisso. Arely era jovem. Inexperiente. Uma Velha Líder. E peça de uma maldição. Não merecia que um beijo fosse retribuído sem sentimento.

A fera a queria. Como queria. Ela quase o convenceu, quando ele ergueu as mãos para segurar os ombros da garota e afastá-la, mas daquela vez ele resistiria aos impulsos da fera.

Com delicadeza, empurrou Arely para longe; ela abriu os olhos, o rosto vermelho, e ele percebeu ela engolir em seco.

— Desculpe, Arely. Mas não posso. — viu os olhos marejarem e ela respirar fundo para se impedir de chorar. Adrien se odiou por fazer aquilo com a Mensageira.

— Por quê?

— Te explico. Prometo. Mas…

— Quando eu estiver sóbria. — Arely completou com um tom sarcástico não-característico. O Lycan se encolheu, sabendo que a culpa era apenas dele.

Sabia da maldição sobre sua cabeça. Sabia que Arely era a quarta Mensageira da maldição. Sabia que a garota diante dele era jovem, mesmo que madura, e que nunca se envolvera em relacionamentos que iam além da amizade. E ainda assim permanecera no quarto quando tudo nele dizia que era melhor ter saído.

— Sim. — respondeu com voz fraca, se levantando e praticamente correndo para fora do quarto, fechando a porta atrás de si. Com as inibições fracas por culpa da bebida, sabia também que não demoraria para Arely começar a chorar. Ele não podia estar com ela, ver essas lágrimas, sendo o único motivo delas.

Antes mesmo de alcançar a sala de leitura que o quarto da avó da garota tinha se transformado, pode ouvir alguns soluços, antes que eles fossem sufocados, provavelmente pelo travesseiro.

Se deixou cair na poltrona da pequena sala e afundou o rosto nas mãos, em parte para impedi-las de tremerem.

Ele queria ser capaz de amá-la de volta. Queria ensinar a ela como um relacionamento entre duas pessoas podia trazer a sensação de plenitude. Queria desfrutar com ela os prazeres da carne. Queria tantas coisas.

Mas querer e poder são duas coisas completamente diferentes, e ele simplesmente não podia.

Merda de maldição.



A cabeça doía um pouco, mas não como imaginava que doeria pelo que ouvia outras pessoas falando, quando abriu os olhos. A luz da rua entrando pela porta-balcão também não incomodava tanto quanto tinha feito antes de adormecer.

Sentou-se lentamente e olhou o horário no relógio, franzindo as sobrancelhas: dormira menos de duas horas. Havia também uma mensagem de sua mãe, de alguns minutos atrás, avisando que mais uma hora e saíam do funeral.

As vozes agora estavam no seu normal; elas estavam tão altas quando estava bêbada que mal conseguia pensar por si própria. E ainda assim não estavam altas o suficiente para impedir a estúpida ideia de beijar Adrien.

Quando lembrou do momento, gemeu com a própria burrice, escondendo o rosto nas mãos. Como podia encará-lo agora, sabendo o que tinha feito e o que sentia com mais clareza? Como podia obrigá-lo a interagir com ela depois de ter, bem dizendo, o obrigado a dizer nas entrelinhas que o sentimento não era recíproco?

Torceu que ele tivesse ido embora. Que “sóbria” significava “dia seguinte”. Ainda assim, por causa da possibilidade dele ainda estar lá, pulou da cama e andou até a porta, mesmo com o cérebro rodando e fazendo-a ver estrelas. “Seja forte”, disse para si mesma ao abrir a entrada e parar debaixo do batente.

De onde estava, podia ver Adrien esticado na poltrona da sala de leitura, um livro de capa dura em mãos. Não conseguia ver o título, mas imaginava, pelo tamanho e cor, que devia ser uma edição antiga de Júlio Verne. Quando ele ergueu a cabeça e fixou os olhos de bronze derretido nela, Arely imaginou se ele conhecera o escritor pessoalmente. Ela também parou por um minuto, suspirando, coçando a cabeça e sentindo o rosto aquecer com constrangimento. Não tinha ideia de como seria a conversa, mas não seria confortável como costumava ser falar com o Lycan.

Respirou fundo, tomando coragem; ergueu a cabeça e entrou na sala de leitura, sentando no chão com as costas apoiadas na porta de um dos armários. Viu Adrien fechar o livro com calma antes de deixá-lo no chão ao lado de seus pés. Só então ele voltou a encará-la, e ela tinha a impressão de estar tão desconfortável quanto ela com aquilo.

— Tem alguma pergunta específica, antes que eu comece? — o bronze-derretido piscou, e Arely suspirou.

Sim, ela tinha uma pergunta.

— Você sempre soube, não é? — sua voz saiu suave e tranquila, como que já sabendo a resposta. Viu Adrien baixar o olhar para as mãos entrelaçadas sobre as pernas cruzadas, enquanto ela abraçava as próprias pernas.

— Sim. Sempre soube o motivo do interesse de Louis em você e como você pôde curar aquelas pessoas e a si mesma. — o tom baixo da voz fez Arely pensar que ele estava envergonhado por sempre saber a resposta e não fornecê-las.

— Você tem mais ou menos uma hora antes dos meus pais chegarem. — avisou, e ele se limitou a balançar a cabeça em afirmativa antes de começar a falar.



— Você é o que chamamos de “Mensageira”. Parte de seu espírito de vida não é humano, e sim celestial. Mesmo com os dons que isso traz adormecidos, Mensageiros ainda possuem um sexto sentido apurado, cicatrização e coagulação mais acelerada que o normal, alta resistência a venenos e doenças, e às vezes, sonhos premonitórios provocados pelas ondas e auras do plano espiritual, mas a maioria só as tem após os poderes despertarem.

— Quais são os dons? — ela baixou a cabeça, concentrando o olhar nos próprios pés descalços e nas unhas roxas com o frio. Ele acreditou que merecia isso.

— Cura quase instantânea, em si mesmo e em outros, por usar o próprio espírito para isso. As visões, se já não as tinha, e se a resposta é sim, ficam ainda mais fortes. Saber mais coisas que qualquer outra pessoa, sobre praticamente tudo, por causa das vozes... Eu acredito que essas vozes são o Espírito Santo. Outros Observadores acreditam que são outra coisa. — Adrien deu de ombros, e só então ela ergueu os olhos chocolate-ao-leite, encarando-o, mas não falou. — Visões de passado, presente e futuro quando dormem, mais claras do que as vozes. Expulsar demônios e espíritos atormentados e malignos. Amaldiçoar ou abençoar alguém dependendo das palavras usadas, apenas por causa do peso dessas palavras, sem realmente usar algo como magia. — as sobrancelhas de Arely estavam franzidas, os lábios franzidos com irritação.

— Pra quê tudo isso? Qual o objetivo?

— Liderarem a Guerra contra Vampiros, Bruxos e Demônios, por causa das visões e do que ouvem. Isso torna os Mensageiros os melhores estrategistas. Também são os principais curandeiros; a feitiçaria Drachen é realmente muito boa, mas não se compara à cura realizada por aqueles como você. Eles não conseguem resgatar alguém da quase-morte como você fez com Alexandre. — finalmente, relaxou na poltrona, quando Arely mudou de posição, as pernas cruzadas em posição de lótus, parecendo mais confortável.

— E essa Guerra acontece por que...

— Porque eles, Vampiros, Bruxos e Demônios, querem libertar o Inferno na Terra. Precisam do Guardião das Portas para abri-las, mas se vencerem as batalhas, se vencerem à nós, Observadores, vencem a Guerra e as Portas se abrem, porque não existe mais um Guardião que mantê-las fechadas. — fez uma pausa para respirar, e percebeu outra pergunta chegar aos lábios de Arely. Dessa vez, imaginava que pergunta era. — Te contarei mais sobre o Guardião e sobre os outros Velhos Líderes e Guerreiros, mas antes temos de nos focar em outra coisa. — a boca secou, sabendo pelo que Arely passaria.

— Em quê?

Adrien levantou um dedo da mão, inclinando as costas para a frente e encarando-a.

— Treinar seu espírito. Você gastou muito de si mesma quando realizou as curas em Julho, e isso quase te matou. Um Mensageiro experiente pode curar até mil pessoas em estado grave com metade do que você usou. Hayato já me contou de um que curava dez mil e o espírito permanecia praticamente intacto. — levantou outro dedo. — Treinar sua mente. Você só vai ganhar real controle sobre as vozes ao realizar o teste, mas precisa aprender desde já a como peneirar as informações importantes em determinado momento; isso vai ajudar a te manter sã. — mais um dedo. — Novamente treinar sua mente, mas não para se manter sã, mas para pensar como um militar em cujas mãos estão as estratégias do exército. — baixou a mão, piscando os olhos de bronze-derretido. — Alguma pergunta?

Ela olhou ao redor por um momento, pensativa, antes de fixar o olhar nele de novo.

— Que teste é esse que você mencionou?

— Qualquer Velho Líder, Velho Guerreiro e Observador só está completo quando pisa na Catedral; uma espécie de dimensão à parte, onde as lutas mais encarniçadas da Guerra são travadas. Mensageiros perdem a sanidade lentamente até conseguirem pisar lá. — respirou fundo, preparando-se para explicar aquilo. Aquilo pelo qual Mensageiros precisavam passar era deveras cruel, em sua opinião, por mais que entendesse os motivos do teste ser como era. — Mas para pisarem lá, Mensageiros precisam enfrentar seu pior medo. Seu maior medo é perder o braço? Então cortamos seu braço no momento que você está preparado para isso. No momento que isso acontece, que você enfrenta seu medo e o supera, a Catedral o chama, entendendo que você é forte o bastante para liderar a Guerra. É quase instantâneo entre enfrentar o medo e ser levado para a Catedral.

Percebeu ela engolir em seco. Ele também não gostava daquilo. Quem gostaria de enfrentar seu pior medo?

Infelizmente, ele sabia que nenhum dos testes era bonito. Cada um tinha suas peculiaridades para enlouquecer quem o fazia.

— Quando começamos? — a voz dela estava firme, mais firme do que ele imaginava ser possível.


Ele tinha de parar de subestimá-la por sua idade.