28 novembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 20: Dia de Sorte

Sabe... Tiro o chapéu pra Thaíze. Ela conseguiu arrumar meus horários – tenho dormido melhor, mas o índio com olhos de ametista continua apare-cendo nos meus sonhos – voltei a render no treinamento de magia e melhorei bastante com as adagas e também no corpo a corpo. Além disso, minha pele não tem mais mancha nenhuma e todo o mais – mas ainda sou meio tábua. Só meu cabelo continua igual. E minha voz tá mais afinada, ao menos pra cantar, embora para as Sereias continue a mesma voz de taquara rachada de sempre...

E minhas asas! Elas tinham parado de crescer, mas agora já passaram um pouquinho dos meus ombros! Até arrisco mexê-las de vez em quando... É bem diferente, mas é legal! Mal vejo a hora delas alcançarem o tamanho ideal para eu voar!

Despertador, só agora percebi, cresceu pra burro nos últimos meses! Ele batia na metade da minha coxa, mais ou menos, e agora já ta batendo no meu cotovelo! Nem dá mais pra ele dormir comigo, a cama é muito pequena... Uma pena, ele é ideal pra me esquentar nessas garoas de Primavera – Sampa, a terra da garoa...

Aliás, falando em esquentar, Rashne inventou de vir com umas indiretas meio diretas depois que eu comentei sobre Despertador não poder mais dormir comigo... – já disse, ele é bipolar.

Sério.

Ele levanta uma sobrancelha, dá um sorriso sacana e fala algo com du-plo sentido! Outro dia ele falou algo sobre uma “Visita noturna não autorizada para verificar se eu estava dormindo com cobertores suficientes, e, caso não, iria me esquentar no lugar da Mantícora”. Não fosse esse “não autorizada” e a parte do “esquentar”, a lerda aqui nem estranharia. Mas ele falou. E pra mim essa frase é, digamos... Muito do clube do duplo sentido. Eu ia responder de pronto que “Seria legal, porque eu tenho a mania de chutar os cobertores pra fora da cama”, mas fiquei quieta quando meu cérebro captou segundas, tercei-ras e quartas intenções na frase, no tom de voz e na pose. Não que a idéia não me agradasse. Muito pelo contrário.

Ok, mudemos de assunto e deixemos a taradice de lado – embora já te-nha me acostumado, já que vejo aquele ser todo dia, portanto todo dia eu pen-so em taradices.

Hoje eu tava chegando em casa depois de ir na Saraiva – resolvi gastar um tanto das minhas economias num novo lançamento chamado SacerdoteS, embora não se tenha previsão de quando a continuação sai, mas, dane-se – e aquele Vampirinho estranho que queria meus olhos na coleção dele tava me esperando no meio da rua, em frente à minha casa. Automaticamente, eu levei minha mão à altura da coxa. Thaíze me arranjara um tipo de bainha pras mi-nhas adagas pra eu colocar debaixo da roupa e me ensinou como sacá-las nem ninguém perceber – isso só ela podia ensinar, Rashne não tocaria nada no caminho dos meus joelhos à minha cintura. Sentir o cabo de Fëna me tranquilizou.

Ele se aproximou calmamente, e quando ficou à alguns passos, olhei ao redor rapidamente para ver como as coisas estavam – embora eu soubesse que a Teia ia dar uma ajudinha – e então saquei a adaga num piscar de olhos. Encostei a ponta no pescoço do Vampiro, e ele ergueu as mãos num sinal de paz.

Mas eu não abaixei a adaga.

− Veio pegar as cinzas da minha mãe quando a casa estava vazia? – eu perguntei, com um tom ameaçador que não deixava dúvidas que eu usaria a adaga se necessário. A convivência com gente acostumada a ser fria está me deixando igualmente fria... Que droga.

Mas, de fato, exceto por Despertador – e ele não conta quando se fala de Vampiros – minha casa estava vazia. Vovó tinha ido visitar Tia Verônica, Devon e Alessa estavam numa cidade do interior praticando magia de telepor-te, e papai, por insistência nossa, tirou uma folga na faculdade e viajou pra Ir-landa, rever alguns familiares e amigos.

− Calma, Fadinha. Só vim aqui te avisar pra tomar cuidado. – ele sorriu de um jeito calmo. – Agora que sabe quem está por trás dos ataques às Fadas, meu tio quer distância de vocês... É muito arriscado. Mas quando vocês morre-rem, ele vai conseguir o que quer. – Ele começou a se afastar, andando de costas. Eu achei que ia ficar por aquilo mesmo, mas ele parou e pegou algo num bolso. – Toma. Meu tio tem dezenas de cópias. Acho que você iria gostar dela. – e então, atirou uma foto rasgada na minha direção.

No meu reflexo para pegar o papel, abaixei a adaga e deixei de olhar para ele. Quando tentei achá-lo de novo, ele já tinha desaparecido numa das ruas que cruzavam com a minha.

E quando olhei para a foto rasgada, era mamãe ali, sorridente, vestida como uma Gueixa. Ser preto e branco não fazia jus à ela, mas era ela. E era isso que importava, Teorias.

Era a foto da minha visão do passado.


Fechei Teorias e coloquei-o debaixo do meu travesseiro.

Sorri meio boba para Despertador e então olhei para o porta-retrato na minha estante. A foto que estava ali antes era uma que tinha eu, Eshe, Devon, Sammuel, Despertador e Vovó, que eu fiz questão de tirar em Julho, na época que Eshe e Sammuel ficaram na casa da vovó. Agora era a foto que o Vampiro me entregou.

Ainda estou sozinha em casa, só eu e Despertador, que está olhando atentamente para o céu azul de primavera meio invernal ainda. Sem brincadeira, ele parece preocupado com algo. E isso me assusta.

Rashne já ligou avisando que vai atrasar – problemas com Duendes no Ibirapuera, foi o que ele disse – e Thaíze só volta amanhã de Ubatuba – como Sereia, ela tem de visitar o mar periodicamente, questões de saúde, sabe...

Huuummm...

Já sei! Vou fazer brigadeiro e então vou vigiar o meu vizinho da frente, pra conseguir provas de que ele é um pedófilo! Desde que essa loucura toda começou, não fiz mais isso!

Sim, eu devia era praticar magia, mas estou sozinha em casa. Como eu tenho muito controle sobre tudo que faço, não arrisco fazer magia quando não há ninguém por perto pra me socorrer caso ocorra um acidente. Ou socorrer os vizinhos, vai saber...


Desci os degraus de dois em dois – sim, sou louca, posso tropeçar, que-brar a perna e machucar o que tenho de asas, mas loucos não pensam nas conseqüências antes de fazer as coisas – e pousei no tapete fofo e azul da sala. Como sempre, segui aos saltitos para a cozinha.

Abri a geladeira e peguei alguns dos ingredientes. Quando fui colocá-los na pia, depois de fechar a porta com o pé, eles foram ao chão.

Mas que... Droga.

Como esse filho duma demônio desgramada e sem nada pra fazer da vida do Djin passou pelas proteções que todo mundo que freqüenta minha casa ergueu em conjunto?

Só porque Fëna, Savën, meus brincos e meu pingente estão no meu quarto...


O leite condensado já tinha se esparramado no chão da cozinha, junto do chocolate em pó, quando me virei e comecei a correr na direção da sala. Talvez eu alcançasse meu quarto à tempo de pegar minhas adagas... Mas não chamaria Despertador. Eu sei que a missão dele é me proteger, mas gosto demais dele pra arriscá-lo dessa forma.

Mas vou te contar, viu... Hoje é meu dia de sorte.

Por quê?

Porque tem uma mulher de altura um tanto mais baixa que a da média, formas generosas, cabelo curto e esvoaçante cor de goiabeira, com uma más-cara que tinha pontas se erguendo feito chifrinhos no alto, só mostrando os olhos dourados e orelhas muito longas e pontudas, sentada no meu sofá, numa pose de “Eu sou a Tal”. Ah sim, esqueci do escudo de mogno encantado em forma de folha e da espada longa e que lembra as espadas dos egípcios que aparecem no filme A Múmia.

Acho que não esqueci de nada não.

− Fadinha, Fadinha... Você tem me arranjado muitos problemas... – ela começou, na língua da Teia, numa vozinha fina e irritante que me fez confirmar minhas suspeitas: era ela na minha visão que eu andava pela floresta e ela aparecia. Você ta adiantada, viu? – Primeiro, espanta meu Djin com essa sua irritante aura de bondade; depois, impede ele de matar o Elfo e o Mestiço que estavam atrás dele, quase matando-o... E agora, aprendendo todos os tipos de feitiços. Pra quê? Tentando me enfrentar? – sua voz ia ficando cada vez mais grossa, selvagem e irritada. Eu tinha certeza de que ela estava me vigiando... A baixinha se levantou e andou na minha direção, colocando o indicador bem no meio do meu peito.

Ela, com sua pouca altura, me impunha um medo que ninguém nunca conseguiu impor. A aura dela era... Assassina. Mãe... Manda um help aí, plea-se?

Atrás de mim, o maldito Djin... À minha frente, essa GoldenEyes...

Epa.

Eu disse GoldenEyes?

Eu disse que hoje era meu dia de sorte.

A maldita Gnoma Caçadora que Aaron tanto fez pra não deixar me encontrar... Me encontrou.

Raios.


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