07 novembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 17: Rashne

Logo depois que Sammuel foi para a cozinha, Eshe apareceu e sentou no apoio de braço da poltrona.

− O que aconteceu? – ele perguntou com um tom preocupado. Eu nem reparei na cara de Sammuel quando ele saiu; talvez algo na expressão dele tenha ativado o sensor de super irmão de Eshe. Ok, isso soou muito estranho.

Suspirei e fiquei quieta por alguns segundos antes de responder.

− Seu irmão que é idiota e não sabe definir o que sente por mim ou por uma Elfa chamada Hadassa. – Eshe provavelmente não esperava que eu dis-sesse aquilo, porque o cabelo dele ficou azul-marinho e a pele ficou translúcida à ponto de eu ver veias azuladas correndo por ele.

− Como sabe e o que sabe sobre ela? – ele perguntou num sussurro velado, como se tivesse medo que alguém ouvisse. Arre!

− Sei por que tive três visões com ela, e só sei que ela pode estar ou ser possuída por um RedEyes e que você e ela provavelmente vão casar pra sim-bolizar uma união entre clãs ou coisa assim. E que o casamento pareceria um enterro.

Os cabelos dele ficaram brancos e a pele ficou ainda mais translúcida, se é que tinha como.

− Sammuel ama demais a Hadassa. Quando estamos longe de você, ele não fala em outra pessoa. O tio dela quer que ela case com alguém do nosso clã de Doppelgängers, preferencialmente comigo, mas não sei por quê. Sammuel é tão válido como eu para uma união entre os dois clãs porque, apesar de ser totalmente Elfo, cresceu entre os Doppelgängers. Isso o torna um dos nossos. – aquilo era completamente novidade pra mim. Se o tio da Hadassa era o Elfo que disse que a união de clãs estava feita, ele não é confiável – eu não fui com a cara dele, isso garanto. – Mas a Hadassa corresponde ao sentimento do Sammuel, e se eles se casarem, o tio dela não pode falar nada contra por causa das tradições Élficas. – eu tinha a sensação que ele estava chegando ao ponto que queria. E também de que não gostaria do que ia ouvir. Pelo menos parte de mim não ia gostar... – Só que... Quando você e ele estão perto um do outro, é como se Hadassa fosse varrida da mente dele. Eu já o avisei, mas ele ignorou o que eu disse. – para de enrolar e fala logo! Tá com medo da minha reação?! Minha reação vai ser pior se você não falar o que ta na ponta da sua língua e você não quer dizer! – Fadas e Elfos possuem uma atração natural entre si. Às vezes essa atração pode se transformar em amor real, mas é muito difícil. E eu já percebi que meu irmão sente uma forte atração por você, mas antes de te conhecer, ele já amava a Hadassa. Nunca vai passar de uma forte atração. – ele falou tudo isso com cuidado, como que com medo de o que eu faria.

Por alguma razão, me senti aliviada – bem, parte de mim, mas eu con-segui calar essa parte que não estava aliviada com um soco bem dado. Mesmo que doesse um pouco saber que tudo o que acontecera fora algo influenciado por uma atração entre raças, eu sabia o que era certo. E nós ficarmos juntos com certeza não era certo.

Eu e Sammuel não tínhamos nascido para ficarmos juntos. Eu sentia que a razão para Hadassa ser possuída seria uma tristeza profunda por ver Sammuel ao meu lado se eu permitisse que nossa relação ficasse do jeito que estava antes de tudo isso. Tipo assim, ela gostava demais dele e com certeza faria de tudo pra acabar comigo se ele me escolhesse – ainda mais se eu sou-besse que ele já a amava. Tipo, eu ia conseguir uma inimiga pro resto da vida.

Sammuel era de Hadassa. Eu não tinha o direito de tirá-lo dela, não sa-bendo o que eu sabia. Se eu não soubesse... Talvez houvesse chance para nós dois.

Além disso, eu tinha a sensação de que estaria estragando planos nada bons se eles se casassem. Ou melhor: escolhendo não ficar com o Sammuel. Tipo um plano à longo-prazo.

Olhei para Eshe, cuja expressão ainda era de medo, e sorri.

− Fico feliz que tenha me contado. Eu precisava saber a verdade, ou acabaria enlouquecendo. – me levantei, o abracei pelo pescoço e beijei sua bochecha bem forte. Percebi ele ficar muito vermelho e o cabelo ficar rosa-choque. – Você é o melhor amigo que eu poderia pedir!

O soltei e sorri, falando algo que expressou que minha boca era mais rápida que meu cérebro. Típico...

− Eshe... Você se sente atraído por mim? – perguntei séria, e vi ele rir, enquanto sua pele ficava do tom normal de moreno e o cabelo prateado.

− Não... Puxei mais pro lado Doppelgänger em muitas coisas.

Sorri maliciosamente antes de perguntar.

− Então, por qual raça os Doppelgängers sentem atração natural? – pu-xei-o pelo pescoço até a cozinha. Alessa tinha chamado falando que o almoço estava pronto.

Eshe riu de um jeito meio bobo. Parecia lembrar de alguém que ele gostava e muito. Ou pelo menos... Se sentia atraído.

− Lobisomens. Lobisomens e Doppelgängers possuem uma atração na-tural muito forte... – ele adquiriu um tom sonhador antes de falar. – Phelan... To pra conhecer uma lobisomem mais linda e sexy que ela... Ainda mais sendo tão natural... Tipo, ela nem percebe a quantidade de Doppelgängers, Lobisomens e todo o resto que ficam babando quando ela está treinando luta corpo-a-corpo com aqueles collants... – wow! Isso definitivamente é o máximo de taradice que eu ouviria do meu melhor amigo – ele não é do tipo que fala muita taradice como o Sammuel ou o meu irmão. Ele é até meio inocente comparado aos outros dois.

− Ihh... Esse tom é de quem tá apaixonado... – brinquei, vendo-o ficar não muito vermelho e com algumas mechas rosa-choque no cabelo. Eshe precisa aprender a não deixar as emoções afetarem a aparência dele! Fica na cara como ele está se sentindo! Tá vendo porque dá pra falar que ele é um tanto inocente comparado aos nossos irmãos?

Quando entrei na cozinha, Eshe se desvencilhou do meu braço e foi sentar ao lado de Sammuel, que não me olhou. Eu ia me sentar quando vovó me olhou de modo repreensivo.

− Que foi? – ergui uma sobrancelha ao perguntar.

− Vai comer armada? – ela apontou para as adagas que estavam penduradas no meu cinto. Sorri amarelo. Ok, é má-educação minha a primeira refeição na casa da namorada do meu irmão ficar carregando minhas adagas...

− Já volto! – fui correndo até o quarto, e coloquei Fëna em cima da cama.

No entanto, quando peguei Savën para colocá-la junto da outra adaga, senti-me ser arrastada pela já familiar sensação das visões.


A visão estava diferente. A jovem elfa chamada Hadassa ainda estava com suas roupas coloridas, mas estava feliz, não o semblante triste de antes. E quem estava a sua frente, o Elfo com quem se casaria, não era Eshe. Era Sammuel, tendo Eshe sorridente ao seu lado como padrinho, ou o que quer que fosse, e tinha uma jovem Elfa do lado da noiva, e tive a impressão de ver vovó entre os outros convidados no “palco”. O Elfo que presidia a cerimônia, dessa vez, parecia estar com vontade de cuspir em Sammuel e sair dali rápido – e tive um prazer mórbido de vê-lo daquele jeito, como se eu sentisse que ele merecia aquilo...

Senti um aperto no peito ao ver a felicidade mais pura nos olhos de Sammuel e desviei o meu olhar – olha o lado que gostava demais dele se ma-nifestando! Avistei a mim mesma baixar os olhos marejados do outro lado, en-tre os mais próximos do palco. Acho que eu realmente estava gostando do Sammuel quando o chutei... Mas é melhor assim. Uma hora essa dor vai embora...

De um lado, estava Devon, que parecia preparado para me segurar se fosse necessário, com Alessa ao seu lado. E do outro, alguém que não estava ali antes, alguém que eu não conhecia, com os dedos de uma mão entrelaça-dos nos meus, e eu percebi ele apertar a minha mão, como que consolando. Ele me olhava com... Carinho e tristeza? Quase como se gostasse de mim, mas estivesse triste por ver que, naquele instante, meu coração batesse com tristeza por ver Sammuel se casando com uma que não fosse eu. Ao menos, essa era a sensação que a eu do sonho me transmitia.

Era um rapaz, mais alto que eu uns dez centímetros ou mais, magro e com músculos um tanto acentuados, mas, ainda assim, com um porte que era como um felino, a pele morena de sol, um pouco mais escura que a de Alessa. O cabelo era de um loiro bem claro, um pouco mais claro que o da mestra de Devon, repicado e curto, com uma mecha mais comprida do lado direito com um negocinho dourado prendendo – juro que pensei que ele era um aprendiz de jedi vindo de StarWars por um instante... Os olhos eram azul claro contor-nados por preto, tipo o Kohol egípcio, mas sem puxar. Eram... SkyEyes, como os de Alessa. Senti uma estranha ternura por aqueles olhos. Como se soubes-se que era alguém em quem eu podia confiar. Como se eu soubesse que, o que quer que houvesse entre nós, não era influenciado por causa de uma mal-dita atração natural entre raças.

E não havia nenhuma voz com desejos de sangue e morte.


Despertador me olhava com uma espécie de sorriso. Sorri de volta e a-cariciei a cabeça dele.

− Vamos, Despertador. Tenho certeza que Alessa preparou algo especi-al pra você. – e então sai do quarto, voltando para a cozinha, tendo certeza que agora as coisas estavam bem encaminhadas.

Doía ver Sammuel se casando com a bela Elfa? Doía, não vou negar. Mas aquilo era certo. Ver toda aquela felicidade me fazia sufocar o sentimento que eu tinha pelo Elfo e que ia além da amizade.


Eu ia entrar na cozinha quando alguém tocou a campainha. Alessa estava servindo a mesa junto com Devon, segurando uma travessa cheia de algum tipo de carne com um molho diferente e que cheirava muito bem. Deve ser alguma comida típica do meu mundo que eu ainda não provei...

− Stacy, atende a porta pra mim, por favor? – ela pediu, ao que eu ba-lancei a cabeça afirmativamente. Atender a porta não faz mal a ninguém...

Eu já ia abrir a porta quando alguém gritou do outro lado.

− Caramba, Alessa! Abre logo essa droga de porta! – a voz me parecia familiar, embora bem mais irritada do que eu me lembraria – embora eu não conseguisse lembrar onde a tinha ouvido... Cabeça de vento.

Alessa vinha vindo da cozinha quando eu girei a maçaneta e abri a porta.

E vi o queixo dele cair, e acho que o meu também caiu.

É que, tipo assim, era o cara da visão que Savën acabara de me dar! O cara loiro, alto e de olhos claros rodeados por Kohol. E os olhos dele estavam rodeados por Kohol. E tipo assim, ele era MUITO MAIS GATO ao vivo! Talvez porque a blusa azul de manga comprida contornava muito bem, obrigado, a-queles lindos braços torneados, aquele peitoral definido e aquelas costas lar-gas. E a calça jeans? Caía tããããooooo bem nele... Ok, lado tarado, cale-se!

Alessa passou por mim e fez com que eu e ele acordássemos. Sério. Eu não esperava vê-lo tão já. Fora o fato de que ele era um colírio para os olhos...

− Por que raios você não se teleportou pra dentro de casa, Rashne? – ela ralhou, enquanto puxava ele pra dentro. Assim que ele entrou, fechei a porta.

− Um pequeno erro de cálculo... Por pouco não bati a cabeça na calha. – ele respondeu, e percebi pelo tom de voz que ele ainda estava meio “Aaahnn?”.

Achei melhor eu ir logo para a cozinha e caçar um lugar perto de papai ou de vovó.


Assim que sentei, Alessa e o carinha loiro entraram.

− Esse é o meu irmão mais velho e um Fravartin completo, Rashne. Ele acabou de voltar do Iraque. Estava atrás de um artefato pro pai. – E foi o que ela disse, antes de ir sentar do lado de Devon. A comida toda já estava servida em cima da mesa.

E só então percebi que o único lugar vago era à minha frente. E que Rashne já ia sentar-se nele.

Droga.

Eu não queria ter de ficar o almoço todo o encarando.


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