08 agosto 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 3: Porque Nunca Mais Devo Pentelhar Com o Sammuel Durante a Aula (LO)

Pouco depois de deixarem os brincos no meu quarto, Tia Verônica nos chamou para jantar. Era quase 8 horas, e mamãe ainda não tinha chegado. Ela só foi chegar lá pelas 9 e trálálá...

Estranhei, porque geralmente ela chega lá pelas 7 e meia. Deve ter dado algum problema...

Mas, sem brincadeira, comi até meu estômago ficar em ponto de explodir – ok, nem tanto, mas que comi pra caramba, comi! O macarrão tava muito, muito bom...


Fui dormir tarde na segunda, arrumando meu material e separando o que era aproveitável do que não era, procurando canetas que prestassem em meio às tralhas no meu guarda-roupa, num baú velho ao pé da minha cama e nas dezenas de caixas espalhadas pela minha estante. Consegui uma quantidade que me surpreendeu. Separei umas cinco. E folhas de fichário, eu tinha de sobra.



Mas tive uns sonhos estranhos – provavelmente porque comi demais...

O sonho que mais marcou tinha eu, com uns vinte e tantos anos. Eu tinha asas de borboleta em tons de azul saindo das minhas costas. E tinha uma menina de uns três anos no meu colo, com pequenas asas de borboleta em tons de vermelho e azul-marinho. Seus olhos eram bicolores: um verde-folha e o outro azul-claro de céu de verão, e ambos tinham pontos azul-elétrico. E os cabelos eram ondulados, loiro claro com fios ruivos e avermelhados. A menina era linda e risonha. Um riso contagiante!

E então aparecia alguém que eu não podia ver o rosto nem as feições, pois estava rodeado de luz. Sorri para o ser luz, que se aproximou da menina.

− E eis que nasceu a Esperança. – disse o ser de luz, e foi aí que acordei. Quando ele falou Esperança, eu tive certeza de que não se referia ao sentimento/whatever, mas sim a alguém de nome Esperança.

Falando sério: é ou não é estranho?

Além disso, tenho a sensação de que era a mesma voz que falou meu nome quando desmaiei ontem...


Diferente do dia anterior, a terça foi relativamente chata. Passei a manhã em meu quarto, escrevendo, como costumava fazer. Estranhamente, Despertador parecia... Agitado. Latia pra qualquer inseto que aparecesse. Ou melhor, pra qualquer coisa. Garanto que ele não é assim.

Lá pelas onze e meia da manhã, Tia Verônica me chamou pra comer al-go antes de ir para o colégio. Cara, eu não fiz isso ontem! Será por isso que tive uma reação tão extrema?! Misteriosamente, meu irmão Devon tinha saí-do... Com uma garota. Que eu nunca vira. Para o cinema. Ver – eca – Eclipse – não sou uma Crepúsculo-maníaca e acho os vamps de Crepúsculo gays. Só porque gosto do Taylor Lautner não quer dizer que goste de Crepúsculo. Prefiro os vamps de Blade e de Drácula.

Alguma coisa aconteceu. Será que tem algo à ver com meu primeiro amigo, Sammuel? Crise de ciúmes? Vingança? Não creio...


Coloquei meus coturnos pretos – eu tenho uma coleção enorme de coturnos! – e um vestido pregado à partir da cintura até metade da coxa, bege com desenhos azuis indefinidos e de manga comprida, com a camiseta da escola por cima. Coloquei uma faixa vermelha na cabeça, prendendo parte dos fios para trás – meu cabelo estava mais rebelde que de costume e insistia em cair na minha cara, e completei meu visual com os brincos que tinham deixado na minha varanda – uma pessoa sensata provavelmente teria jogado-os no lixo.

Saí pouco depois para do colégio.


Estava chegando à escola – milagrosamente no horário – quando reparei em Sammuel, apoiado na parede pintada de azul-lago com o nome do colégio escrito em letras do meu tamanho num cinza-pedra legal. Ele estava com uma calça jeans escura com rasgos na altura dos joelhos e das coxas com um cinto que tinha uma caveira prateada com olhos cinza-tempestade de alguma pedra que eu desconhecia. Usava uma camiseta de manga comprida, cacharrel e azul e uma blusa sem manga e de capuz preta, com braceletes de couro com pregos. O capuz escondia seus lindos cabelos negros e espetados. Os olhos cinza tempestade se concentravam num livro de capa preta aveludada. Ele parecia diferente. Mais sombrio.

Um sorriso maroto se formou em meus lábios enquanto eu me aproximava devagar, tencionando assustá-lo. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro...

− Boa tarde, Stacy. – ouvi ele falar enquanto marcava a página com uma fita de cetim azul ligada ao livro, fechava-o e guardava no fichário, sem me dar chance de descobrir qual livro era.

− Boa tarde, estraga prazeres. – falei, aproximando-me normalmente. Como é que o filho da mão sabia que eu tava chegando? Enfim... Sammuel virou o rosto para mim, olhando-me de cima à baixo, em seguida erguendo as sobrancelhas. – Que foi que você tá me olhando com essa cara? – perguntei desconfiada, arrumando a alça da mochila no meu ombro.

Ele apenas sorriu de um jeito estranho, quase doloroso. Só então reparei nas olheiras embaixo dos olhos cinza tempestade. Ele parecia cansado.

− Você parece diferente, apenas isso. – ele respondeu, sinalizando para que a gente entrasse no colégio, antes que fechassem o portão. Estranhei o que ele disse. Me olhei no espelho hoje de manhã e, além do cabelo mais re-belde que de costume, estou como todos os dias... Ou seja: aberração.

− Diferente? Onde? – ergui a sobrancelha, parando na porta da sala. Àquela hora haviam poucos alunos na sala, mas todos me olharam com espanto. Primeiramente, por não ter chegado atrasada. Segundo, talvez realmente houvesse algo de diferente em mim, como Sammuel dissera.

Ele apenas ergueu os ombros, não respondendo e entrando na sala. Fiz uma careta, entrando logo atrás, sentando nos fundos. Sammuel sentou na minha frente.

Ah, mas eu faria ele me dizer! Esse cara não sabe do meu dom de pentelhar os outros!


Ao longo do dia, conversamos muito, buscando nos conhecer melhor. Eu descobri que, ao contrário de mim, ele odeia Biologia e não vai muito bem nessa matéria, por isso precisa prestar atenção na aula.

Planinhos maléficos estão rodando em minha cabeça...


Durante a sexta aula, de Biologia, eu fiquei pentelhando com Sammuel. Cutucando e beliscando suas costas, o pescoço, as orelhas... Ele bem que tentava se desviar, mas falhava. Eu tinha o dom de pentelhar – Devon tem o dom das pegadinhas, eu tenho o dom de pentelhar!

− Caramba, Stacy! Pára! – ele murmurou, tentando dar um tapa na minha mão, mas eu era rápida o bastante para me desviar. Sorri marota.

− Só quando você falar o que está diferente em mim! – murmurei em resposta, beliscando uma de suas orelhas. Ele inclinou o rosto naquela direção, e então fiz cócegas do outro lado. Dessa vez ele conseguiu segurar meus dedos. Eu tentei puxá-los, mas não consegui. Ele é mais forte do que imaginei! – Solta meus dedos! – murmurei irritada, me inclinando na mesa para que conseguisse fazê-lo no seu ouvido. Senti ele se arrepiar. Kukukuku – vixe, baixou o Ryuuku de Death Note agora... Sim, eu li Death Note.

− Só se prometer parar. – ouvi ele sussurrar com tom triunfante. Eu não via seu rosto, mas tinha certeza que ele estava com um sorriso insuportavel-mente lindo.

Resmunguei um impropério, falando que ia parar. Ele deixou um risinho escapar e soltou minha mão. Aproveitei para beliscar rapidamente sua orelha antes de trazer minha mão para trás rapidamente. Ri sacana quando ele olhou para trás de forma assassina. E então, ele movimentou a boca como se falasse “Você vai ver”. Opa. Retaliação depois da aula? Tô fora!


Depois da aula, para fugir da retaliação, simplesmente sai correndo, atropelando todo mundo – atraindo ainda mais olhares de inimizade, mas não liguei.

Helo, eu tenho instinto de preservação, sabe?!

Mas, eu não corri rápido o bastante. Ou alguma coisa me atrasou. Ou sei lá o que. Só sei que, no instante que sai para a rua, Sammuel me segurou pela mochila – que estava tristemente vazia, isso facilitava para que ele conse-guisse me segurar – e me puxou para um lado da rua que estava vazio.

− Me largaaaaaaa! – falei, tentando me soltar. Inútil. Sammuel é muito forte. Tipo, é mais forte que meu irmão!

− Não largo! – ele respondeu, rindo, me abraçando – ui! – e mordendo meu pescoço – argh! Isso é tortura, eu vou te denunciar pra polícia! Minha mãe é Sargento, sabia?!

− Páraaaaa! – tentei pisar em seu pé, mas, cara, ele tem o sexto sentido do Homem-aranha! Ele puxou o pé um segundo antes de eu atingi-lo! – Seu torturador de meia-tigela. – murmurei, e, bem, ele segurou minhas mãos, me impedindo de concluir meu intento de dar-lhe um tapa – ou socá-lo, como queiram.

− Como? – ele sussurrou na minha orelha, fazendo eu me arrepiar toda – grrrr, eu te odeio!

− Eu disse: torturador de meia tigela. – eu respondi, entre dentes, lutando para conseguir me soltar. Ah, desisto! Ele aperta meus pulsos cada vez mais... – O que você quer? – perguntei, usando meu melhor olhar de psicopata – eu treino muito na frente do espelho minhas expressões, pra garantir que vai ser “aquela” expressão “naquela hora”.

− Retaliação. – ele respondeu, calmo, usando um sorriso que me fez querer beijá-lo. Mas lembrar que ele estava me mantendo prisioneira fez a vontade passar. Pra que vou querer beijar um cara que fica prendendo meus pulsos quando eu quero estar saltitando por aí?

− Que tipo? – perguntei, fazendo cara de asco quando ele aproximou mais o rosto. E me beijou. Duh. Quem sou eu? Onde estou? Quem é minha mãe? Cara, ele beija bem! Ajunte a isso o fato de que ele é o primeiro garoto que conversa comigo e que a gente se conheceu ontem. E que esse é meu primeiro beijo, obviamente.

Ele se afastou, sorrindo sacana, me soltando.

− Pronto. – havia malícia em sua voz, enquanto ele se virava e ia embora.

E eu fiquei lá, com cara de besta, paralisada, por não sei quanto tempo. Tipo assim... Quem precisa ir pra casa quando se está lembrando de um beijo maravilhoso com um cara maravilindo?

Passara-se não sei quanto tempo, até que senti uma mão em meu om-bro, e me assustei ao ver Devon.

− Não me assuste assim! – berrei, recuando uns cinco passos. E então, com a ficha caindo, comecei a bater o pé e a grunhir. – Filho da mãe, chato, idiota...

Devon me olhou com aquela cara de “Ela tomou o remédio hoje?”.

− O que aconteceu, Stacy? – ele perguntou, quando me acalmei, se aproximando devagar.

− Nada. Só estou querendo matar o Sammuel. – respondi, azeda. Não esperei ele falar nada, me virando e indo embora. O Sammuel me paga! Caramba, tinha de fazer isso comigo?! Eu só queria que ele falasse o que tinha de diferente em mim! Não precisa me deixar desnorteada!

Ah... Quer saber?

Nunca mais fico pentelhando com o Sammuel durante a aula. Definitivamente.

Não estou afim de ser perder o rumo de casa por tempo indeterminado de novo!


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