17 abril 2014

Resenha: Feita de Fumaça e Osso

Editora: Intrínseca
Autor: Laini Taylor
Páginas: 380

"Era uma vez uma garotinha que foi criada por monstros.
Mas anjos queimaram a entrada para o seu mundo, e ela ficou completamente sozinha". pg 133

Ok. Hora de falar dessa história que realmente me marcou. (Talvez apareçam spoilers não intencionais, ok?)

Primeiro, a questão do fora do lugar comum: a história começa em Praga, capital da República Tcheca (ou Checa? Google me confundindo e inutilizando o que aprendi no colégio... ç-ç Sacumé, conferir se eu não estava errando o país... n.n'). É realmente uma bela mudança, com tantas histórias nos EUA ou na Inglaterra. Ares novos, muito bem vindos.

Depois, vem a questão dos personagens: Karou, a protagonista, com seu cabelo azul e seu jeito todo próprio de ser, outra bem-vinda mudança na onda de mocinhas frágeis; Zuzana, sua melhor amiga um tanto sem noção e fiel até o último fio de cabelo, uma das melhores personagens depois da própria Karou; Akiva, o "sofredor penitente", que foi uma outra excelente mudança, sendo um mocinho nada comum; e, é claro, a família de Karou, e alguns dos meus personagens mais queridos: Brimstone, Issa, Twiga, Yasri e o fofão do Kishmish. Existem outros personagens, claro, mas são esses que mais me marcaram no primeiro livro.

E, por último, o que realmente torna "Feita de Fumaça e Osso" tão único, tão "OMG!" e me arrancar gritos histéricos de fangirl como Mass Effect, Dragon Age, Verne e Tolkien fazem, é a história, que se desenvolve de tal maneira, que nem dá pra perceber quão rápido lemos as quase 400 páginas.

No âmbito da história, primeiro tem a questão da própria história de vida da Karou, de onde e com quem ela cresceu e o que ela faz (viajando ao redor do mundo em busca dos dentes para Brimstone). Depois, tem a questão do mistério de suas tatuagens de olhos - Hamsás - nas palmas das mãos e o que eles podem fazer com Akiva e os demais de sua espécie, seguido pela misteriosa catedral embaixo de onde ela cresceu. O suspense de "Para que são as marcas de mãos nos portais?".

E um dos pontos altos, especialmente na questão "romance": Quem é Madrigal, mencionada quando a narrativa está no ponto de vista de Akiva? O que, afinal, aconteceu com ele, com seu passado, para que soubesse a linguagem das ditas Quimeras, entre outras coisas? O que ele não quer que Karou saiba? O que, quando, como, onde? Um monte de perguntas, muito bem respondidas, num tom "Ah, Deus" devido ao que acontece, afinal, entre Karou e Akiva. A forma como ela reage, por causa do que ele fez, antes de descobrirmos tudo... Bem, nem dá pra culpá-la pela forma como reagiu. Aliás, foi algo muito racional, e admito que provavelmente reagiria do mesmo jeito no lugar dela.

Além disso, o gancho deixado pela Laini ao final do livro - Karou atravessando outro portal, já que os que iam para a loja de Brimstone foram destruídos - e deixando Akiva no mundo humano, para descobrir/redescobrir o lugar de onde veio e reencontrar sua família, é, na minha opinião, perfeito: a guerra Serafins x Quimeras ainda não está resolvida. Existe a questão do "pai" idiota e Imperador do Akiva. Existe uma pá de coisas não resolvidas. E é um belo gancho, especialmente por não sabermos, afinal, se Karou e Akiva lutarão um contra o outro, afinal, são de lados opostos, entre outras coisas.

A narrativa é intensa na medida certa. As descrições, medida certa também. Além disso, ambos trabalham em conjunto para criar o ambiente correto para a história. Não sei vocês, mas sou da opinião que cada história precisa de uma narrativa própria, uma identidade além da história e personagens em si. "Feita de Fumaça e Osso", assim como "Estilhaça-me", possui essa identidade própria.

E, é claro: a capa. Eu babo na capa. É linda, misteriosa. E a diagramação, que imagino que a Intrínseca tenha seguido o modelo do livro original, é outra coisa linda, especialmente por causa das separações das partes, com a pena e a frase. (O quote inicial é uma dessas separações). Ah, sim, a editora está de parabéns: tanto pela diagramação, quanto pela revisão. Ambos contribuem para a fluidez da leitura e para criar um "clima".

E um quote pra encerrar, nos deixando agoniados por ansiar a "verdade", e mostrando porque gosto tanto do Akiva: porque, mesmo Serafim, ele ainda é humano, com sentimentos que a Laini explorou muito bem:

"E se ele desaparecesse - se uma coisa tão pequena caísse no oceano -, e então? Karou nunca precisaria saber de nada. Ele poderia ficar com ela; poderia amá-la. E principalmente, se não houvesse osso da sorte, ela poderia amá-lo.
Era um pensamento tóxico, e encheu Akiva de ódio por si mesmo. Tentou reprimi-lo, mas o osso o provocava. Ela nunca precisa saber, o osso parecia dizer em sua mão aberta. E o Mediterrâneo lá embaixo, matizado, ofuscado pelo sol e tão profundo, confirmava.
Ela nunca precisa saber." Pg 267

Classificação final: