02 março 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 32: Mas Era Tarde

Uma semana. Esse foi o tempo que levei para me acostumar à todas aquelas visões que me invadiam quando tocava muitos fios da Teia de uma vez. Ainda não tinha dominado minha essência completamente, e a desperdi-çava, segundo Galagöa. Ela e as demais Aranhas não usavam pingentes e eles não faziam falta alguma para elas.

Mas para mim fazia. Eu era PÉSSIMA no controle da essência COM pingente, imagine SEM o bendito!


Elas me falaram que fiquei desacordada mais ou menos uma semana também. Ou seja, a Lua Cheia estava se aproximando.

Várias vezes pensei em me teleportar pra Terra. Mas lembrar que eu ainda não dominara o teleporte muito bem me fazia desistir da ideia. Corria sério risco de acabar no vácuo...

Perguntei sobre os brincos, e Galagöa perguntou como meu cabelo es-tava. Na hora, não entendi, mas eu tinha percebido que ele estava bem menos rebelde. Mais dócil, por assim dizer.

Minha mestra então explicou que eu tinha muita essência – tanto que ela confirmou o que Sammuel disse, falando que minha essência fica trinta centímetros distante de mim – e que não a usava toda. Então, ela tinha de escapar pra algum lugar. Caminho encontrado? O meu cabelo! Por isso eu tinha aquela juba que nada domava!

E os brincos serviam justamente para isso: para ajudar a controlar minha essência. Não como os pingentes, mas de forma diferente e que eu não sei explicar. Segundo ela, pelo menos até eu aprender a controlar minha essência por mim mesma.

Aranhas Lunares são especialistas em ligações entre seres e pessoas, por isso perguntei como funcionava um pacto entre alguém e um demônio. Ao perguntarem por que eu queria saber, disse sobre Adriane e o Arquidemônio.

Elas falaram que é uma linha mais grossa de Teia que se enrola no pul-so do demônio e no pescoço do solicitante do pacto, dizendo basicamente que a alma do tal pertence ao demônio.

Perguntei se havia como quebrar esse pacto, e elas relutaram muito em responder. Mas, afinal, responderam: era necessário enxergar o fio e possuir uma arma capaz de tocar a Teia ou um feitiço realmente forte que fosse capaz de arrebentá-la.

Ou seja, minha ideia de quebrar o pacto foi por água abaixo. Não tenho nem um nem outro pra facilitar as coisas.


Com a orientação de Galagöa, comecei a vasculhar o Tempo, atrás de algo que me fosse útil. E descobri algo muito interessante e legal: não preciso de um mestre nessa época para aprender determinados feitiços. Era bem difícil e cansativo procurar a visão do passado que mostrasse algo que me ensinasse, mas não impossível.

Assistindo outros realizando os feitiços ali, numa visão, era como se houvesse um professor do meu lado. Consegui aprender telepatia desse jeito! Ok, ainda era horrível e tinha de praticar muito, mas aprendi!

Tentei ter visões de Anastásia, mas elas estavam bloqueadas. Galagöa disse que era por causa do Livro Branco de Anastásia. Como as memórias da Fada estavam nele, ninguém tinha acesso à qualquer visão relacionada à ela à menos que houvessem essas instruções no livro – o que explica as visões com ela e Cairu: ela deixou instruções para que eu as tivesse.

O que era um saco, porque não sei o motivo exato pra isso.

Quando não estava praticando magias velhas conhecidas mas que não vão muito com a minha cara ou Tecendo o Destino, procurava olhar aqueles que eu amava.

Mas, estranhamente, não encontrei Rashne no começo. Era como se ele não estivesse na Terra.

Quando não o encontrei, me desesperei, achando que o pior tinha acontecido, mas Galagöa me tranquilizou: disse que existiam outros planetas habitados universo afora e que não estavam ligados à Teia, e que se Rashne estivesse me procurando – e ele com certeza estava, ou não teríamos uma ligação tão profunda – devia estar num desses planetas.

Ela então me ensinou como usar o fio que nos ligava para encontrá-lo. E encontrei.

Pude ver como que através de seus olhos e fiquei surpresa com a quantidade de formas de vida que ele visitou tentando me encontrar. E muito surpresa também com a quantidade de idiomas que ele falava! Só lamentei não conseguir usar a telepatia pra falar onde estava por causa da distância...

Ele lá, me procurando do outro lado do universo, e a Gnoma maldita me mandou somente até Kolshö...

Adriane me paga por me fazer ficar tanto tempo longe de Rashne.


As Fadas ficavam mudando de lugar, com Adriane, Kai e o Arquidemônio perseguindo-os. Mesmo que fossem apenas três, eles tinham um Arquide-mônio entre esses três. E Arquidemônios são BEM poderosos. Mais porque sugam os poderes daqueles que matam do que por qualquer outra coisa.

Tipo assim... São capazes de explodir algumas pessoas se isso fizer parte do pacto. Ou se der na telha. Isso pra falar do mínimo.

Além disso, havia a Gnoma. Um ataque direto, em massa e preventivo à ela poderia ser considerado um ato de guerra por parte das Fadas e daria uma desculpa para Oberon nos atacar. E isso definitivamente seria um problema se acontecesse. Então, a única coisa que podiam fazer era fugir.

Eu tinha de voltar logo para a Terra e ajudá-los. Um caso isolado de uma Fada contra um Gnomo não seria um ato de guerra. E eu sabia que era eu que devia enfrentá-la e acabar com ela.


Tinha algo que eu fazia enquanto as Aranhas Lunares dormiam. Galagöa falara que era perigoso se entregar à visões forçadas por tocar a Teia, mas sem Fëna e Savën – que eu descobrira com alívio que Devon conseguira pegá-las antes de Adriane através de visões – eu precisava ter visões do pre-sente e do futuro de algum jeito.

Eu andava para longe das casas brancas das Aranhas, me acomodava numa cratera e tocava vários fios da Teia ao mesmo tempo, deixando que as visões certas se destacassem e me invadissem.


Ela possuía os cabelos negros com fios como que grisalhos e mechas brancas. Os olhos eram bicolores: um azul-elétrico, indicando que um dos pais era um Vampiro, e o outro era cor de estrela, indicando que o outro era um Mago. A pele era clara, mas conforme a luz mudava, a cor da pele também mudava. Segurava um bastão de Mago que, ao invés de feito da madeira dos pingentes, parecia ser feito das costelas de alguém. Sua expressão era algo entre séria e altiva, dando-lhe um ar de majestade.

E então, notei: eu já sonhara com ela. Antes de meus poderes desperta-rem. Um sonho onde eu realizava seu parto e havia um Lobisomem apoiando-a! Como é possível?!

À suas costas, uma tempestade furiosa se dava, enquanto ela ficava ali, de pé em meio à uma ilha de pedra, a longa capa azul esvoaçando ao vento.

E então, ela gritou, caindo de joelhos. Não ouvi seu grito, emudecido pe-la tempestade. Seus olhos perderam as pupilas e seus dentes viraram as pre-sas de um animal selvagem, enquanto o bastão se desmontava e cobria seu tronco como se fossem suas costelas.

Seu grito então virou um rugido que superou a tempestade, e do meio desta, voando em direção à garota, veio um ser imaterial como um espírito de poderosas e longas asas que sustentavam um enorme corpo cujo rosto selva-gem passava majestade e crueldade. Um Dragão dourado cuja testa brilhava como se ali houvesse uma coroa de diamantes.

O Dragão voou direto na direção da garota e encobriu minha visão por breves segundos. E quando pude ver de novo, não havia mais garota.

Apenas um enorme e majestoso Dragão de olhos vermelho-rubi com ris-cos azul-fogo, mas pontos que indicavam as cores anteriores, e sem pupilas, com presas, e a testa brilhando como se ali houvesse uma coroa que indicasse tratar-se de uma Majestade. O tom de vermelho de seus olhos me fez lembrar a filha de Aaron... Aquele vermelho seria a cor dos olhos dos Dragões?

Um verso ecoou em meio aos trovões...

“A Segunda era o Caminho para encontrar.”


À suas costas um deserto azulado se estendia, vazio e solitário, quase como o solo de Kolshö – e talvez fosse Kolshö. Sua pele negra reluzia com a luz fantasmagórica que envolvia a seringa prateada com um líquido vermelho em seu interior que estava em suas mãos. Possuía um corpo cheio de curvas e agraciado com sensualidade, alta e com ar de guardiã e de guerreira. Sua ex-pressão era séria e carregava a vontade de proteger, o cabelo negro-azulado e cacheado caindo até o meio da coxa. E seus olhos... Azulados com um halo verde ao redor. Tão intensos e brilhantes que tive certeza: ela era sangue-puro.

Uma mão de sombras tentou alcançar a seringa, mas ela não permitiu. Mais sombras a atacaram; uma segurou o pulso da mão que segurava a serin-ga. Tentava soltar-se do aperto e não deixar que tocassem o objeto. Então, soltaram-na, e a física fez seu trabalho, fazendo que a força acumulada tentan-do soltar-se permitisse que a moça fincasse a agulha em seu peito.

Tirou-a rapidamente, a seringa caindo no chão, mas não quebrando-se, mas o que quer que houvesse tinha penetrado-lhe as veias. Apenas um pouco.

Começou a suar. Levou as mãos à cabeça, puxando os cabelos como se isso fizesse a dor que eu via em seus olhos passar. Gritou, e seu grito pareceu ainda mais trágico naquele cenário desolado. E o grito virou um uivo.

Enquanto sua pele se rasgava e expunha uma pelagem negra e reluzen-te, seus olhos fizeram uma expressão insana. E não havia mais a jovem, ape-nas a majestosa e gigantesca loba de pêlos negros.

Pêlos negros que ficaram rajados de azul, as pupilas tornando-se prata.

E ela também estava no sonho da jovem mestiça que eu realizara o parto. Estava ali, andando e nos rodeando, como que protegendo a mestiça em meu sonho.

Palavras desenharam-se na areia.

“A Terceira era a Guardiã do Caminho.”


Um inferno de lava e fogo girava ao seu redor.

Ela apenas ria de modo insano, controlando-os com movimentos suaves de suas mãos ao seu bel prazer.

Os olhos eram verde-pântano, o globo ocular também de um tom esver-deado. O cabelo era ruivo, mas de um tom que possuía reflexos verdes. A pele era branca e cheia de sardas, a tatuagem de uma chama cobrindo o lado es-querdo do pescoço e a bochecha esquerda. Rosto de feições belas e cruéis, com um ar de menina mimada pelo pai.

Uma faca de gelo saída de algum lugar atingiu-lhe a barriga e o inferno acalmou-se, enquanto ela levava a mão à faca e a derretia.

E quando o inferno se acalmou, pude ver um rapaz. O cabelo dele era avermelhado, repicado de forma que parecia que sua cabeça estava em cha-mas. Seus olhos eram de um castanho-alaranjado-avermelhado que parecia uma chama viva. Como se seus olhos fossem brasas. A pele era morena como a de alguém que passa muito tempo perto do Fogo. Tratava-se de uma Sala-mandra. E ao redor dele, acalmou-se um mar furioso. As feições de ambos eram muito semelhantes.

E então, os olhos dela entraram em chamas, sua tatuagem começou a mexer-se, o medalhão em seu pescoço pegou fogo, e ela ergueu os braços de forma que ficou em posição de cruz.

As chamas e a lava começaram a subir e a se reunir às suas costas. Um pássaro de Fogo formou-se e começou a falar, a voz da jovem acompanhando num cantar afinado e belo como o de uma Sereia. E eu sei que se tratava de uma Banshee por seus olhos. Ou seja, ela estar afinada era algo bem “Wooow”.

Atrás do rapaz formou-se um monstro do mar feito de Água. O medalhão dele começou a ondular como se fosse feito de água, e seus olhos brilhavam como uma luz no fundo de um lago. Ele também estava em posição de cruz.

E ele também começou a cantar. E suas vozes cantavam no mesmo rit-mo a mesma canção. O pássaro e o monstro começaram a rodeá-los numa dança hipnótica e confusa que dava a sensação de que eles a conheciam de tempos imemoriais.

E lembrei que eles também estavam ali na visão do parto. Às minhas costas. Ele com uma mão em meu ombro, me passando calma, e ela também com as mãos em meus ombros, me passando força.

Palavras feitas de Fogo e Água se entrelaçando se destacaram.

“E a Quarta era a Voz que o despertaria.”


Tentei soltar a Teia depois de três visões chocantes, mas não tive muito tempo. Outra visão se destacou.

E antes isso não tivesse acontecido.


Vovó lutava contra Adriane, cuja máscara tinha se quebrado ao meio. Vovó ia vencer. O olhar da Gnoma demonstrava medo.

Já se preparava para fincar a espada feita de madeira através de magia em seu peito.

Adriane sorriu, e a ponta de uma espada apareceu no peito de vovó. Ela olhou para a lâmina e sorriu tristemente, caindo quando a espada foi retirada. Kai sorria macabramente, lambendo o sangue da lâmina.

O Arquidemônio surgiu, dando-lhe um tapinha nas costas.

− Uma Fada à menos.


Voltei a realidade gritando, soltando a Teia como se ela me desse cho-que, lágrimas escorrendo por meu rosto.

Tentei sair correndo, mas um par de braços me envolveu e me apertou contra um corpo cujo cheiro reconheci imediatamente e abracei de volta, cho-rando em seu peito como quando nos conhecemos.

− Eles vão matá-la, Rashne. Vão matá-la e não vou fazer nada. – ele apenas me consolava, murmurando que tudo ia dar certo e que eu não preci-sava me preocupar. Quando me acalmei, ele me afastou e sorriu-me, limpando o rastro de lágrimas.

− Não sei o que você estava fazendo ou o que viu, Stacy, mas tudo vai dar certo. Tenha fé. – ele me beijou e então encostou sua testa na minha. – À propósito... Desculpe por demorar. – percebi que ele tinha colocado um escudo contra o ar tóxico de Kolshö ao redor de si mesmo. Senti a magia, e agradeci por ele fazer isso.

Eu ri, acariciando seu rosto que estava com a barba por fazer. Ele pare-cia cansado, mas de alguma forma, aliviado. Como se me encontrar tivesse tirado um peso de seus ombros.

Mas lembrar da minha última visão me fez fechar os olhos com força e me afastar. Ele não entendeu, mas respeitou meu desejo.

Fiquei de costas para Rashne e concentrei essência na ponta de meus dedos, murmurando Malëí. Mal pude ver a Teia diante de meus olhos, comecei a tecê-la loucamente, buscando os acontecimentos corretos para a visão onde vovó morria.

Parei apenas quando senti alguém puxar minhas mãos, me devolvendo à realidade com violência. O resultado antes que eu fosse arrastada para a realidade era que Adriane diria ao Djin para que fosse cuidar de mim. Esperava sinceramente que fosse o suficiente.

Galagöa me olhava com um misto de raiva e preocupação. Rashne es-tava do meu lado, o braço envolvendo meus ombros.

− Stacy... Eu disse que é perigoso se entregar as visões. – abaixei a ca-beça de forma culpada, olhando para baixo. – Descobrimos coisas que preferi-ríamos nunca ter descoberto. Entende agora o que digo?

Eu sabia que tinha me arriscado. Sabia que eu podia me perder em meio às visões e ficar louca como tantos outros antes de mim. Mas eu precisava saber. Precisava ver.

E acabei por ver a morte de vovó.

Sim, eu entendia a parte de ver o que não queria ver.

Mas era tarde. Eu já tinha visto.


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