“So I run and hide and tear myself up
Start again with a brand new name
And eyes that see into infinity”
Start again with a brand new name
And eyes that see into infinity”
“Então eu corro e me
escondo e me despedaço
Começo outra vez com um novo nome
E olhos que veem até o infinito”
Começo outra vez com um novo nome
E olhos que veem até o infinito”
(Capricorn [A Brand New Name] — 30 Seconds to Mars)
Mês do Grifo, 5613 desde a Guerra dos Espelhos
O felino de
pelos longos e alvos saltou para o colo da garota que não deveria ter mais do
que dezoito anos, fazendo o sino de opala branca pendurado no pescoço tilintar
de forma ritmada e melodiosa. Ele ronronou, brincando com os cabelos negros e
lisos que pendiam de dois rabos-de-cavalo descendo de modo suave ao lado do
rosto da garota, intrigado com as pequenas placas de ferro penduradas nas pontas.
Ela riu, nervosamente, mas agradecida.
O vestido que
usava era de cetim azul-marinho, com um corpete azul-celeste definindo seu
tronco; em seus pés, botas negras e sem saltos quase se fundiam à coloração
escura de sua pele. Os olhos cor de esmeralda pareciam brilhar nas trevas como
as íris do gato em seus braços, mas não com alegria, e sim com temor.
Uma mão, da cor
do leite, esguia de dedos longos, pousou em seu ombro meio desnudo, num gesto
encorajador. A garota suspirou, parecendo soltar todo o ar que vinha prendendo,
antes de olhar para cima, para o ser de cabelos tão brancos quanto a pele e
olhos opacos, cinzentos, nebulosos, uma falsa impressão de cegueira. Um sorriso
suave brincava nos lábios do ser, os olhos deslizando por seu rosto como o
toque suave e tranquilizador de um pai no rosto do filho após um pesadelo.
— Respire. Se
acalme, ou seu controle mental e espiritual ficará deficiente... — ela respirou
fundo, e então balançou a cabeça afirmativamente de forma firme, provocando
como resposta um sorriso mais largo.
— Foram três
anos, Shamal... Pergunto-me se o Reino mudou muito... — a garota respondeu, e o
felino em seus braços miou, erguendo a cabeça e concentrando os olhos brancos
no movimento da boca da jovem, as orelhas eretas e atentas; a voz dela era
suave, delicada, de soprano, e cada sílaba parecia ocultar uma canção
individual quando em sua voz, e parecia ser justamente essa canção que o gato
captava. — O tempo com vocês passa de forma tão diferente do que lá, fora das
florestas e longe das árvores... — virou-se de lado, para a linha das árvores
logo à frente; além da floresta, havia grama e flores silvestres, iluminadas e
parecendo brilhar devido à luz da manhã. Sentiu seu estômago afundar. Tinha
medo de ir para aquela área ensolarada. E tinha motivos para temer.
— Não mudou
muito... Você conseguirá se adaptar logo... E, se houver qualquer problema, o
Meltem aqui pode nos chamar sempre... — o ser sorriu para o gato, a mão que
estivera nos ombros dela se movendo para acariciar os pelos alvos do felino que
se alongou, apreciando o carinho.
Ela sorriu,
covinhas se formando em seu rosto.
— Tem razão. — olhou
de novo para o sol, piscando os olhos verdes, mais brilhantes e um tanto
marejados. — Estará tudo bem enquanto ninguém me ver à luz do sol, certo,
Shamal? — perguntou, a voz tremida, como se estivesse segurando as lágrimas
acumuladas com todas as forças.
— Exatamente.
Sua forma verdadeira permanecerá oculta fora da luz do sol, ou até que alguém
use um encanto para desfazer o que fizemos; duvido que aconteça, já que a Tkan
é um encanto só nosso... — deu uma pausa pensativa. — Não deixe que percebam
que você não possui Reflexo. Podem pensar que você é uma Zhuran fugitiva, ou
algum habitante desconhecido do Espelho. Isso poderia lhe trazer problemas. — então
ele abriu um sorriso, empurrando de leve o ombro da jovem. — Vá. Já deixamos a
estalagem arrumada. Agora só depende de você.
Ela balançou a
cabeça minimamente numa afirmativa, antes de se virar e começar a andar para
fora das árvores. Meltem estava aconchegado e ronronando em seus braços, o sino
tinindo de leve como o vento balançando por entre cristais, esse som ajudando
seu coração a não acelerar demais.
Após colocar um
pé para o sol, virou-se para Shamal, sorriu de novo, e saiu da linha da
floresta, a luz solar banhando-a e mostrando aquilo que a magia escondia:
cabelos cacheados e dourados, semelhantes a fios de ouro torcidos, olhos
vermelhos e brilhantes como poças de sangue, a pele de um tom pálido como areia
numa praia ensolarada, com finas linhas douradas percorrendo-a como raios, num
padrão intrincado que parecia reluzir com o sol.
E quando
adentrou o prédio de madeira, fora da luz natural, voltou a ser a moça de pele
escura, cabelos negros e olhos verdes que deveria ser dali em diante.
Cinco meses depois — Mês do Senhor-Prata
Os altos portões
cinzentos de pedra entremeada com encantos gravados com oricalco se fecharam às
suas costas.
O Cavaleiro-Monge
montava um hikmat, e o grande réptil quadrúpede se remexeu, impaciente, as patas
dianteiras e mecânicas tom de cobre batendo contra a pedra bege da estrada. Não
gostava do barulho alto e áspero das trancas de carvalho sendo passadas do
outro lado dos portões, como garras arranhando metal. O som também o
desagradava.
O homem respirou
fundo o ar límpido da noite que se aproximava, levemente úmido, dizendo-lhe que
ia ser uma das raras noites de chuva no deserto; há três anos não sentia aquele
cheiro sem a interferência do aroma salgado e ácido do oricalco incrustado no
Mosteiro-Prisão que parecia queimar seus pulmões a cada lufada de ar ou do
cheiro de fumaça das forjas subterrâneas de vidro.
Girou o botão do
monóculo preso em seu rosto pálido pela falta de sol, a lente ficando opaca e
escondendo um dos olhos, virando o rosto para identificar os pontos de
referência daquela região que conhecia como a palma da mão devido ao seu
treinamento como Guarda-Real, decidindo seu rumo. Ignorou a areia fina e pálida
do deserto que dava forma à boa parte do vidro do Reino, brilhando em tons de
vermelho, amarelo e laranja com a luz do findar do dia, como se o deserto
estivesse em chamas, e voltou-se para o caminho de pedras que se bifurcava
alguns metros antes do deserto, um indo em direção ao norte, e outro para o
sul.
O hikmat
balançou a cabeça, os chifres ligados por
um espesso couro se agitando e os cantis pendurados nos mesmos chacoalhando, o
barulho de água o alcançando; a cauda longa e cheia de espinhos ao final bateu
contra o chão, pontuando a vontade do animal de se movimentar e gastar energia.
O
Cavaleiro-Monge sorriu, esfregando o couro marrom-escuro do pescoço do hikmat,
procurando tranquilizá-lo, algumas mechas castanhas e onduladas se soltando do
rabo de cavalo frouxo quando se inclinou, ocultando parcialmente a cicatriz de
queimadura em forma de ômega em sua testa; um toque de seus calcanhares no
local certo da sela guiou a montaria para a esquerda, o sul, na direção do
Bosque de Prata, a outra mão ajeitando a capa bege e puxando o capuz sobre sua
cabeça para protegê-la do frio que logo se manifestaria.
— Vamos lá,
Pzia. Temos um longo caminho pela frente.
Oimenso ser
lupino e negro andava com o nariz colado a terra seca e cheia de pedras,
procurando o rastro infantil e adocicado do pedaço de roupa que a mulher tinha
praticamente colado ao seu focinho mais cedo. A grossa corrente de prata, presa
numa coleira do mesmo material em seu pescoço, do outro lado era segurada
firmemente pela mão da mulher, enluvada em couro de linceu.
Os olhos dela,
olhos escuros de pupilas claras, estavam atentos à noite ao redor. Sabia que o ser
lupino, estava completamente concentrado no cheiro do garoto desaparecido e da
Dama-da-Noite que o levara. Ela tinha de permanecer atenta ao redor, para o
caso de alguma Dama ou Senhor aparecer — eles eram abundantes naquela região e
a maioria era pouco amigável em situações normais, e menos ainda quando seus
territórios eram invadidos. Além disso, algum Devorador, Coral ou até mesmo um
Lobo de Ferro podia ter decidido migrar nos últimos tempos.
A mulher, uma
Zhuran, possuía um cabelo comprido e preso em tranças finas com pequenas
engrenagens de cobre, prata, ouro e mitril nas pontas, os fios cor de alcatrão
na maior parte — marrom-escuro ou negro, dependendo da iluminação —, com
algumas mechas e fios avermelhados como seiva de jatobá. As tais tinham sido
arrumadas num coque meio frouxo, com algumas mais caídas e outras soltas,
balançando no ritmo cadenciado de seus passos, em conjunto com a aljava
recheada de flechas e com o arco desarmado.
A mão livre segurava
uma pistola de energia espiritual com cano simples, engatilhada e preparada. A
única evidência real de sua presença era o verde da energia espiritual envolvendo
a pistola e o brilho avermelhado de brasas e pôr do sol de sua armadura de
vellum, tão escura era a sua pele.
De repente o ser
parou e ergueu a cabeça, atento, os olhos azuis brilhando com a luz suave das
três luas ao se fixarem em determinada direção, os músculos rijos de expectativa.
Ela entendeu: não estavam muito longe.
Aproximou-se; a
cabeça do ser, sobre as quatro patas, batia na altura de seus seios. Ela
esfregou o pescoço peludo, sentindo o suor abaixo da coleira que o acompanhara
desde que ela o capturara, dez anos atrás, enquanto soltava a corrente, que
caiu no chão com um baque.
— Estou logo
atrás de você, Sigried. — murmurou contra a orelha peluda e se afastou dois
passos. Com dois segundos que suas mãos abandonaram os pelos negros, Sigried
começou a correr, seguindo o rastro.
Começou a correr
atrás enquanto enrolava a grossa corrente e a passava sobre um braço e o
pescoço, as engrenagens nos saltos das botas se mexendo a cada passo para lhe
dar suporte, se adaptando às irregularidades do terreno e mantendo-a erguida e
rápida de uma forma que as solas retas e inflexíveis dos sapatos não-Zhurans
nunca conseguiriam.
Já tinha perdido
Sigried de vista há dois minutos, tendo certeza de que estava na direção certa
pura e simplesmente devido à queimação constante e não muito intensa das marcas
de raios em seu antebraço esquerdo, quando um uivo longo de dor a alcançou.
Sentiu o coração
saltar no peito, inconscientemente aumentando a velocidade. Sigried nunca
uivava. Nem dez anos atrás, quando ela o capturou e o treinou para obedecê-la,
quando ainda era uma aprendiz de Zhuran. Nem mesmo quando o encanto que os
ligou e marcou tanto seu antebraço esquerdo como a pata dianteira direita de
Sigried foi realizado.
Ele sempre tinha
estado em silêncio.
Num instante
estava pisando em pedras rachadas, quebradas e cobertas de limo e musgo,
aparentemente organizadas como um piso. As pedras acabaram de repente, caindo
uns dez metros de altura para outro chão de pedras, estas, de mármore
relativamente intacto. Não parou, saltando e rolando ao alcançar o mármore para
amortecer a queda. Olhando ao redor antes de voltar a correr, reconheceu o
lugar como um templo abandonado para os seres dos Espelhos. Fazia sentido que o
rastro levasse para lá — provavelmente era o único lugar em muitos quilômetros,
além da cidade de onde tirara o garoto, que possuísse uma superfície reflexiva
grande. Talvez a Dama-da-Noite quisesse arrastar o menino para o Espelho — ou
até mesmo já tivesse arrastado. Logo voltou a correr, as marcas parando de
queimar gradativamente.
Parou de
repente, o queixo caindo com surpresa. O garoto que procurava estava caído,
seco, morto, as marcas no rosto de onde os dedos-raízes da Dama-da-Noite tinham
penetrado se erguendo, destacadas contra a pele, mas apesar do horror da cena,
não fora isso que a deixara surpresa — seus oito anos como Zhuran tinham feito
Asa ver coisas tão ou mais terríveis que aquela.
Foi Sigried,
mais adiante, mancando para longe da Dama-da-Noite, a cabeça e a pata dianteira
esquerda cobertos de sangue, uma coluna que antigamente sustentara o teto do templo
caída e também coberta de sangue. A Zhuran deduziu rapidamente que a Dama
atirara o ser contra a coluna, de forma violenta o bastante para provocar
estragos terríveis nele, tão intensos que lhe arrancaram um uivo. A mulher só
podia imaginar vagamente quanta dor ele sentia.
Respirando fundo
e se armando de frieza, mirou na mulher com pétalas grandes e brancas saindo da
cabeça esverdeada, os braços e pernas em tons marrons terminando em raízes.
Atirou, mas o ser do Espelho percebeu, pulando na direção de Sigried, a energia
espiritual somente raspando as pétalas da cabeça.
Bufando, começou
a avançar na direção dos dois, o desespero lentamente subindo por sua garganta
como vômito quando Sigried caiu, ganindo de dor pela pata ferida e ossos quebrados;
as raízes dos pés da Dama-da-Noite avançaram na direção dele, passando por
debaixo de pedras quebradas e amarrando-o ao chão, antes de quebrá-las na ponta
dos dedos e correr na direção do Lobisomem, e então, estendeu as raízes das
mãos para tocarem as laterais do crânio.
A Zhuran viu as
raízes penetrarem alguns milímetros na pele de Sigried, e deixou seus instintos
adquiridos com anos de prática assumirem o controle para que protegesse seu
companheiro de batalhas: mirou e atirou, mirou e atirou. Um buraco se abriu em
cada olho sem íris, seiva espessa e de tons marrons escorrendo enquanto as
raízes atrofiavam e caía sobre si mesma numa confusão de membros retorcidos,
seiva e pétalas murchando e caindo, as extensões castanhas que amarravam o ser
afrouxando lentamente.
Com um suspiro
de alívio, Asa correu na direção de Sigried, parando ao vê-lo em cima de um
espelho, o sangue manchando a superfície regular e reflexiva que mostrava não o
gigantesco ser lupino, mas um rapaz nu de cabelos e barba desgrenhados, imundo,
cheio de cicatrizes e coberto de sangue, também desacordado. Mas não foi isso
que a fez parar. Estava acostumada com o reflexo humano: era ele que dizia que
Sigried não era um simples lobo, mas um Lobisomem.
O que estava no
mármore branco que rodeava o espelho a fez parar: palavras antigas na sinuosa
língua dos Primeiros Reflexos pronunciavam um encanto esquecido no tempo. Um padrão
diferente daqueles que ela memorizara em seus tempos de aprendiz. Um portal que
ela desconhecia o efeito.
Antes que sequer
pensasse em fazer alguma coisa, algo ocorreu: o rapaz no espelho e o Lobisomem
em cima começaram a arquear-se e a se contorcer, um dobrando de tamanho, o
outro diminuindo.
Após algum
tempo, o Lobisomem estava no espelho, e o rapaz, em cima dele, pelos negros
colando ao sangue que começava a coagular.
— Merda. — foi a
única coisa que encontrou caminho para fora da boca de Asa.
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