09 abril 2016

Revendo "Jurassic World"...

... E pensando que as pessoas que que falam que o filme foi raso com roteiro precisam pesquisar mais sobre transgênicos e pensar mais sobre como somos apenas mais uma espécie dentre milhões que já pisaram na Terra.

Sério.

Ano passado, na época que o filme saiu, assisti no cinema, mega animada porque sou uma fã de Jurassic Park desde pivete, e era a semana do meu aniversário. Pô! Melhor coisa, impossível! Na época, vi tantos elogios, como pessoas falando que o roteiro era o básico, raso, apenas por conta de usar um dinossauro híbrido pra criar o caos, que apenas os dinossauros realmente valiam a pena. E é claro, pessoas falando que a jornada da Claire no quesito "descobrir a importância da família" ou coisa do tipo era clichê e enfraquecia a personagem (isso não vai ser o foco nessa postagem. Talvez futuramente eu aborde sobre como acho ridículo falar que esse tipo de descoberta diminui o personagem). Ou algo assim, não lembro os termos exatos.

Bem, vamos por partes. O post vai ser longo.

Ano passado, vendo o filme no cinema e mega animada, não parei pra pensar muito nesses argumentos, mas agora, reassistindo com calma o filme e após o último semestre de Biologia, onde fiz afinal as aulas de Biossegurança (culpem quem montou a grade do curso, só consegui pegar a matéria no último semestre por conta disso), percebo uma porrada de coisas, incluindo um aviso gigantesco contra os transgênicos, especialmente se o tal envolve espécies extintas.

Primeiro: não sou contra os transgênicos. Também não posso me falar uma pessoa muito a favor. Estou na linha do "tem de ter cuidado".

Mas ok. Vamos trabalhar com conceitos antes de tudo. O que é um transgênico?

Um transgênico é um animal, planta ou microorganismo que possui um gene de um outro animal, planta ou microorganismo adicionado ao seu DNA. Espero que lembrem das aulas de biologia sobre gene e DNA, porque se eu for explicar aqui, vai demorar mais ainda e vou dar nó na cabeça de vocês. Qualquer dúvida, pesquisem no Google :) Um exemplo de transgênico é a soja transgênica resistente a herbicidas a base de glifosato. Entretanto, se um gente do animal, planta ou microorganismo é apenas silenciado (desligado), então esse organismo não é considerado transgênico; um exemplo disso é o tomate longa-vida: o gene responsável por uma determinada enzima, que leva ao amadurecimento do tomate, foi desligado, o que leva ao tomate amadurecer mais lentamente.

Primeiro ponto sobre transgênicos: eles demoram para serem feitos. Não é fácil pegar o gene que você quer e inseri-lo num determinado organismo. O laboratório onde fiz estágio, entre outras coisas, descobre as funções de genes do fungo Paracoccidioides brasiliensis (um fungo felladamãe que se instala nos pulmões e que o tratamento não é garantido), e existem duas formas pra isso: silenciar um gene em específico, e ver o que acontece com o fungo, ou inserir esse gene numa bactéria, induzir a produção da proteína que esse gene codifica (não vou entrar em detalhes sobre isso porque é-um-inferno) e caracterizar a tal proteína. E uma porrada de coisas pode dar errado nesse processo todo, especialmente o antes, onde tu não tem certeza que a sequência que tu colocou na bactéria é realmente de um gene funcional, já que é um algoritmo computacional que prediz esses genes.

Isso tudo pra descobrir o que o gene faz. E depois que tu descobriu e achou o que você quer, pra inserir no organismo que você quer modificar, é outros quinhentos que também demora pra ter resultados.

Ok. Tu conseguiu inserir o gene, fazer o seu híbrido! IHA! Hora de provar para quem vai dar permissão da comercialização que o produto é seguro. Uma porrada de coisas devem ser testadas e provadas e entregues num relatório ao órgão responsável. No Brasil, o tal órgão não tem um laboratório para rodar seus próprios testes e verificar a veracidade das informações. Legal, não?

E é aqui que eu realmente quero fazer o meu ponto quanto à "Jurassic World". Não é na questão da segurança da jaula e etc (que, venhamos e convenhamos, o povo foi bem besta de entrar na jaula antes de chegar as coordenadas baseadas no localizador do bicho), mas sim na produção do Indominus rex. Quando se trabalha com híbridos, não importa de quê, não se pode ter essa história de "secreto" quanto a de quais organismos os genes inseridos vieram. Por quê? Porque não sabemos como os genes inseridos vão interagir com os genes pré-existentes. Uma porrada de genes produz muito mais que apenas uma proteína. Não sabemos sequer se foi apenas o gene que queríamos que foi inserido, mesmo que a gente faça todos os testes que servem para verificar isso. Tem um organismo transgênico comercializado, não lembro qual no momento, que testes realizados por um outro grupo encontraram genes que foram inseridos no organismo além do que alegavam, e que o produtor desse transgênico não tinha ideia de que estavam ali. A produção de transgênicos ainda não é uma ciência exata, e fica claro que no universo de Jurassic World também não é. Todos esses pontos convergem no Indominus rex: alguns genes inseridos tinham alguns determinados objetivos, como ajudar no crescimento ou a se adaptar ao clima tropical, e no final tiveram efeitos completamente inesperados.

E na questão dos efeitos inesperados, acrescento outra coisa: quando um transgênico é feito, entre os testes de segurança realizados (ou que deveriam ser realizados) está que, as diferenças entre o organismo natural e o transgênico podem ser frutos pura e simplesmente o que era intencionado. A planta só pode ter resistência ao herbicida A, que é o que o gene ocasiona. Se ela tiver só isso, beleza; se tiver mais diferenças, esquece, não é seguro.

Mas... Como que você vai verificar isso, quando o organismo está extinto, e mesmo os que você cria, não são exatamente como deveriam porque você já está usando DNA de outras espécies para preencher falhas? Como você tem certeza de que apenas a característica A ou B se alteraram? Não tem como, mesmo fazendo todos os testes para verificar os genes presentes, porque essas porcariazinhas interagem de maneiras inesperadas.

O laboratório do Jurassic World não é fiscalizado. Não presta contas a ninguém que não sejam os patrocinadores do parque e quem quiser usar os dinossauros como armas. Eles não precisam de um real controle de qualidade. E quando se trata do Indominus rex, eles não precisam realizar uma porrada de testes provando que apenas o que eles queriam se alterou, e nada além, para ganharem permissão para usarem o animal como atração.

Sou uma pessoa que acredita em livre mercado, porque a concorrência, querendo ou não, gera mudança (para pior ou para melhor), mas também sei que, especialmente com a ciência, se não houverem limites escritos e que são vigiados, a coisa entorna de uma forma que só Jesus na causa, porque a ganância da humanidade não tem fim. E foi preciso Hitler e as experiências com humanos ocorridas nos campos de concentração para isso ser finalmente notado no mundo da ciência. Obviamente a Segunda Guerra não foi a única razão, mas abriu os olhos; nos EUA, existiu uma experiência para verificar a evolução de uma determinada doença (não lembro agora qual, me desculpem; acho que era sífilis, mas realmente não tenho certeza); falaram para as pessoas que estavam dando vacinas a elas, mas na verdade não. Se lembro corretamente, estavam infectando-as sem o consentimento delas. Pesquisem sobre o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinque para compreenderem mais essa questão de experimentação humana e porque presos não são usados em experiências de medicamentos e todo o mais. (Digo isso com ênfase porque, num congresso que fui, numa das palestras sobre experimentos de medicamentos para Esclerose Lateral Amiotrófica ou ELA, algumas pessoas abordaram sobre como seria mais fácil assim)

A outra questão que eu queria abordar, ainda em relação a Jurassic World, não demanda tanta coisa a ser escrita. Eu espero.

O homem se acha no topo da "cadeia alimentar". Primeiro que "cadeia alimentar" está errado, o correto é "teia alimentar", porque todo mundo depende de todo mundo (e é por isso que não sou vegetariana: do meu ponto de vista, o problema não é comer carne, o problema é não respeitar o animal que fornece essa carne. Isso entra em questões sobre o abatimento que abordo em outra postagem, se existir a oportunidade). Segundo que nós somos apenas parte dessa teia, e quer queiramos, quer não, existem parasitas que podem levar à nossa morte (Oi, Trypanossoma cruzi), e quando morrermos (independente de como), serviremos de comida para uma porrada de microorganismos. Isso se não servimos de comida para algum outro formidável predador, como um tubarão branco ou um tigre.

E todos os remédios e armas e afins que desenvolvemos são a nossa forma de nos adaptarmos e sobrevivermos às coisas que podem nos matar e como conseguimos comida. Alguns animais se camuflam, outros fogem, outros produzem veneno e mais uma porrada de técnicas. O homem usa ciência e religião (para diversos povos, a caça tem fundo religioso em como e quando é realizada). Essas são as armas que desenvolvemos usando nossa inteligência.

O problema é que isso tudo nos subiu à cabeça e nos fez esquecer que também somos presas. Tudo na Terra é presa e predador ao mesmo tempo, especialmente os animais (as plantas entram nisso mais por conta de suas "versões carnívoras"). E a criação e fuga do Indominus rex em Jurassic World lembra ao estúpidos do filme que, não importa o tamanho de suas armas ou de sua inteligência, algo irá te matar. Pode ser um predador formidável como o dinossauro híbrido do filme, pode ser um parasita maldito que conseguiu entrar no seu corpo e nem parece grande coisa assim, pode ser que tu já esteja velho e cheia de doenças da idade ou ainda com uma arma. Não importa. Você vai morrer. Somos novos na história da Terra. Terrivelmente novos. Na história do Universo, então, nem se fala. Somos pequenos.

E histórias em que o homem se torna a presa e é impotente para realmente vencê-la por si só são necessárias para nos lembrar que somos nada e que sempre vamos precisar evoluir e evoluir se quisermos sobreviver, correndo sem sair do lugar, como toda espécie na Terra. Apenas uma outra espécie nesse mundão de Deus, um pouco inteligente, a ponto de criar uma porrada de coisas, sim, mas a longo prazo... Nada.

E depois disso tudo (a cabeça de vocês deve estar girando, isso se leram até aqui :v), eu digo: Jurassic World é um bom filme. Não sei se estou vendo demais na questão de transgênicos e na questão sobre "sermos presas", mas... É o que penso. É o que enxerguei. E por conta disso, acredito que a franquia Jurassic Park é boa e devia receber um pouco mais de valor: por mais que, cientificamente atualmente, a forma como a franquia se propõem a recriar dinossauros seja impossível e cheia de erros e apenas ficção, é um "aviso" real e válido.

E fiquem com essa filosofia fruto de madrugada + Jurassic World. xD