08 fevereiro 2017

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 8: De Ruínas e Jaguares

Alanna analisou com cuidado as páginas e fotos que o informante, Abel, lhe entregara quando chegaram a casa dele em Puerto Vallarta, já praticamente fora da cidade, local onde ela ficaria hospedada. A mãe dele era uma mexicana comum, funcionária pública e negociadora da Stella Bianca com o governo mexicano, enquanto o pai pertencia a um dos povos nativos do país ele não contara qual. E fora entre esse povo que Abel aprendera suas habilidades de Bruxo Branco chamados também de “Magos” , enquanto descobria como ajudar a Ordem com a mãe. Não era um integrante oficial, mas era um bom informante e capaz de manter os seres do Sétimo Mundo da região calmos sem muitos problemas no período entre reuniões.


Uma das fotos mostrava o que parecia a entrada de uma construção, decorada com esculturas-relevos ao estilo asteca de jaguares nas laterais e o que parecia uma noite estrelada acima. A entrada estava fechada com uma pedra que carregava uma representação que ela reconhecia como sendo de Tezcatlipoca, um dos principais espíritos divinizados pelos astecas. Ela não o conhecia pessoalmente; pelo que membros antigos da Stella Bianca falavam, ele não era um grande fã das reuniões e aparecia cerca de uma vez a cada cinquenta anos, apesar de ser um dos que mais contribuíam para manter o segredo dos Sete Mundos oculto dos humanos comuns. As representações estavam desgastadas pelo tempo e cobertas com musgos e trepadeiras em alguns pontos, mas eram reconhecíveis.

Que lugar é esse, Abel? Não é uma ruína conhecida pelos humanos... Pelo menos não ainda... perguntou em espanhol enquanto estendia a foto por cima da mesa da cozinha, na direção do Bruxo. Abel levou a frigideira, onde terminava de preparar uma quesadilla recheada com queijo, com ele, quando se virou para pegar a imagem.

Ah, sim. A Stella Bianca encontrou esse lugar não muito depois da queda dos Astecas, ainda em 1521, mas estimam que data do início do império Asteca, uns duzentos anos antes. O lugar continua do jeito que foi encontrado. o mexicano devolveu a foto para a brasileira e virou-se para o fogão de novo. Um Shaman, na época, disse que sentiu alguns mortos lá dentro, e um Feiticeiro detectou encantos e feitiços típicos da região para trancar os espíritos dos mortos num lugar por tempo indefinido, desde que o lugar não seja, bem, profanado. A Ordem achou prudente não mexer e tem mantido o lugar oculto desde então. Afinal, deve ter um motivo esses encantos e feitiços.

Alanna ergueu as sobrancelhas com a explicação, voltando a encarar a foto.

Pela decoração da entrada, diria que se tratava, talvez, do túmulo de algum sacerdote de Tezcatlipoca ou de Guerreiros Jaguares. Considerando que os Astecas tinham o costume de cremar ou de enterrar seus mortos debaixo ou ao lado das casas, quem quer que estivesse enterrado e selado ali devia ser ou muito importante, ou muito temido. Talvez ambos. Nesse caso, talvez a decoração fizesse parte do feitiço: Tezcatlipoca estaria vigiando o lugar. Pelo menos na crença de quem o construíra, setecentos anos antes.

O que isso tem com os tais Sem-Pele? perguntou quando Abel colocou a última quesadilla num refratário de vidro.

O Bruxo, antes de responder, colocou o refratário com as quesadillas no meio da mesa e passou um prato para Allana.

Então. Como deve ter lido no relatório, tentei os procedimentos padrões para me livrar de mortos-vivos: exorcismos para demônios e espíritos, facas espirituais para o caso de um espírito forçado, um contra-feitiço para dissipar o poder de um necromante... Nada funcionou, e quase morri em algumas dessas. Então, passei a segui-los, na medida do possível. Abel respondeu enquanto comia e olhava feio para a lentidão com a qual Alanna mastigava, mais preocupada com os tais “Sem-Pele” que com colocar algo no estômago.

Nada funcionou? o relatório antes de entrar no avião mencionava apenas os exorcismos para demônios. Abel ainda não devia ter tido tempo de mandar uma versão atualizada, que incluísse a tal ruína e as outras tentativas.

Nada. Mas posso afirmar que não são os zumbis de Hollywood que resolveram aparecer depois de tanto tempo: quando mordem alguém, a pessoa não se transforma, e cá entre nós, tá difícil pra manter esses ataques longe da mídia. E também são inteligentes, como se fosse um espírito ou um demônio dentro, mas nenhuma outra característica bate com esses casos. Então, é alguma outra coisa. o homem terminou a quesadilla e partiu para outra. Então. Todos que consegui localizar e seguir passaram pela ruína da foto. Pararam e tentaram entrar, mas pelo jeito os feitiços são mais fortes do que parecem, porque não conseguiram. Depois disso, continuaram penetrando nas florestas que cobrem a Sierra Madre. Não me arrisquei a segui-los a partir daí, por conta do risco de emboscada. Eles são muito inteligentes.

Alanna fez uma careta enquanto mastigava e analisava a foto. Bocejou logo depois de engolir. Mesmo dormindo durante o voo, estava exausta, e estar fora de seu fuso-horário não ajudava. Ao menos não faltava muito para anoitecer.

Voltou a encarar a ruína que parecia ser em honra à Tezcatlipoca.

Abel...

Hm? o Bruxo resmungou, a boca cheia.

Vou ligar hoje pra Annanda e pedir permissão pra entrar nesse lugar. Se ela der, vamos amanhã de manhã. Por um momento, a Shaman jurou que Abel cuspiria a quesadilla sendo mastigada. O quê?

Tem certeza, Alanna? Esses feitiços todos lá, mais os mortos lá dentro e esses mortos-vivos tentando entrar... Não me parece boa ideia... encarando-a com os olhos castanhos ligeiramente puxados, Abel parecia procurar colocar, cuidadosamente, uma expressão limpa no rosto moreno. Mas a Shaman não perdeu o leve tremor na mão segurando uma quesadilla.

Alanna suspirou, batendo os farelos da massa da quesadilla das mãos antes de cruzar os braços em cima da mesa.

Não temos onde começar, Abel. Você disse antes, no relatório, que não existe um padrão para quais mortos voltam assim. Não sabemos o que provoca isso, o que eles exatamente são e nem para onde vão. A única pista é essa ruína asteca. bateu com o indicador direito na foto do lugar. Meu palpite é que tem algo lá que o responsável por esses “Sem-Pele” quer. E ele ou ela vai conseguir cedo ou tarde. Prefiro chegar antes.

Abel suspirou, terminando a quesadilla com um olhar desanimado.

Você tem razão. Claro que tem. Mas ainda acho isso muito arriscado para apenas dois. o mexicano cruzou os braços em cima da mesa como Alanna, e apoiou o queixo neles. Lembre que sou um Bruxo Branco, não posso fazer feitiços e encantos que machuquem qualquer coisa, e que você é uma Shaman cadeirante e que não temos como saber se os espíritos dentro dessa ruína vão ser confiáveis para você deixá-los entrar se for necessário.

Alanna deixou um sorriso esticar seu rosto. Entendia a preocupação de Abel sem dificuldade.

Pode deixar. Vou tomar cuidado redobrado em deixar espíritos estranhos entrarem.

Ele apenas sorriu de volta.



Abel guiava com cuidado o jipe, subindo a Sierra Madre, através da estrada de terra aparentemente não muito usada, situação exposta pelas marcas de pneus rasas e raras.

A estrada passa na frente do lugar? Alanna perguntou depois de quase uma hora que a umidade da floresta os engolira.

Não. Temos de sair da estrada a pé e caminhar por uns dez minutos numa trilha secundária. Como a cadeira de rodas não passa, vou pedir pra um Elemental do ar te carregar.

Abel respondeu, com toda a calma que fugira de Alanna ao ouvir a parte “ser carregada por um Elemental”. Ela não gostava muito de ser carregada por alguém além de seu pai, quanto mais um ser que ela seria incapaz de ver. Não podia ser um Elemental da terra não? Ao menos seria visível.



Alanna viu Abel terminar de realizar a oferenda para um Elemental do ar, pouco antes de sentir um par de braços longos, carregados de uma sensação de ausência, como se não estivessem ali, envolverem sua cintura e puxá-la para fora do carro. O Elemental então passou a segurá-la contra a lateral do corpo, o tronco na horizontal em relação ao chão; ela se sentiu uma criança de cinco anos que aprontou fora de casa e está sendo carregada pelos pais para longe.

O mexicano se levantou, passando um colar de couro pela cabeça, com um vidro pequeno e cilíndrico, vazio e lacrado com cera pendurado: a ligação dele com o Elemental, que garantia que ele passasse ao Elemental o que precisava apesar da distância, e que impediria o Elemental de partir antes que ele deixasse; uma armadilha, por assim se dizer. Helena fora severa em seu treinamento para que ela entendesse o básico da magia usada por Bruxos, mesmo que ela fosse incapaz de usá-la. Abel atravessou a estrada e se embrenhou numa trilha quase invisível; o Elemental seguiu atrás, carregando a garota.

Cerca de dez minutos depois de começarem a percorrer a trilha, alcançaram a entrada do túmulo asteca. Mas mesmo bem antes de chegarem, Alanna foi capaz de sentir a presença dos mortos. Não eram poucos, mas, apesar do tempo presos, a sensação que provocavam nela estava longe de gritar “perigo”. Pareciam... Calmos. Era estranho encontrar espíritos que haviam ficado tanto tempo presos que não tinham enlouquecido.

Encararam a pedra e os altos-relevos nela e em volta por alguns segundos

Sabe como quebrar os feitiços e encantos, Abel? Alanna perguntou, os olhos cor de chumbo fixos nas representações de Tezcatlipoca. Havia algo nelas que lhe parecia familiar de uma forma estranha, mas não sabia dizer o que, exatamente.

Abel começou a tirar os objetos que utilizava em sua magia da bolsa a tiracolo, antes de sorrir para Alanna por cima do ombro.

Com certeza. Só vai demorar um pouco.

Alanna se resignou a observar Abel dar início a sua magia para quebrar e desfazer os feitiços protetores.

Alguns minutos tinham se passado quando ouviu um barulho vir das árvores mais atrás deles que destoava dos sons normais de uma floresta. Alanna se arrepiou ao lembrar que os Sem Pele iam até aquela ruína. Tinha a sensação de que era um deles que fizera o tal barulho.

Tentou sentir o espírito de algum morto na direção geral do som. Não sentiu. Então, provavelmente qualquer que fosse aquele tipo de morto-vivo, não era um ocupado pelos mortos. Ela esperava. Talvez aquela coisa fosse ocupada por um espírito dos mortos, que por alguma bizarra razão, ela era incapaz de sentir.

Acho melhor se apressar...   a garota resmungou, e outro som destoante surgiu ao mesmo tempo que Abel suspirava.

Parece que previram que íamos entrar... ele falou, mais para si mesmo do que para Alanna, e acelerou a quebra dos feitiços.

Alanna mordeu o lábio inferior, nervosismo começando a percorrer suas veias, e fazendo um pouco de malabarismo, alcançou a pistola semiautomática com balas especiais eram feitas de diversos metais fatais para os mais diversos seres e benzidas pelos mais diversos rituais; balas multiuso, como ela gostava de chamar na parte de trás do cós da calça.

A pedra fechando a entrada repentinamente começou a afundar, o barulho de pedra raspando contra pedra sobressaltando-a. Abel recolheu os objetos que usava em sua magia e ficou de pé; encarou a floresta por alguns segundos e então andou até ficar entre Alanna e as árvores. Por entre os troncos, galhos e arbustos, viram ao menos duas “pessoas”, sem dúvida alguma, os tais Sem Pele. Por alguma razão, ainda não tinham atacado. Talvez esperassem reforços? Essa possiblidade passou pela mente da Shaman e provocou um arrepio de medo ao longo de sua coluna.

Repentinamente, o Elemental começou a se movimentar na direção da porta quase totalmente aberta e da escuridão do outro lado, enquanto Abel tirava uma lanterna da bolsa a tiracolo e a enfiava na mão livre de Alanna.

Hein?! no momento que a lanterna estava nas mãos da garota, Abel tirou outra série de objetos da bolsa, relacionados à sua magia, e começou a executá-la. Alanna logo estava do outro lado da porta, se contorcendo para enxergar o que estava atrás dela. Onde a porta de pedra estava antes, uma superfície parecida com vidro fosco surgiu, embaçando sua visão, apenas os contornos do mexicano visíveis.

Vou atrasá-los enquanto você investiga aí dentro! A barreira não vai durar muito, então corre!

E então a silhueta dele sumiu.

A Shaman engoliu em seco e voltou a atenção para a frente. O Elemental parara de se mover, e à frente dela havia apenas escuridão que engolia a pouca luz que atravessava a barreira improvisada de Abel.

Com um suspiro, acendeu a lanterna e iluminou o que se mostrou um corredor largo e empoeirado, e pediu ao Elemental que a levasse em frente.



Alanna podia sentir os mortos rondando e percorrendo o lugar, embora ainda não os tivesse encontrado e fossem em menor quantidade do que imaginara a princípio, quando estava mais distante. Continuavam calmos, o que indicava que não pareciam ter ligação especial com a construção, como algum tipo de feitiço para que a protegessem.

Ainda percorriam o corredor, a lanterna na mão da Shaman iluminando as paredes ininterruptas e cobertas de pinturas e relevos e estátuas de Tezcatlipoca, Huitzilopochtli e, ela acreditavaMictlantecuhtli, mas não tinha certeza.

Após intermináveis quinze minutos, o corredor terminou numa câmara quadrada e grande de onde várias entradas com um metro de largura partiam. A parede logo à frente da saída do corredor continha uma espécie de altar com algo em cima, irreconhecível pela distância e falta de luz. Os espíritos que ela sentia estavam mais próximos, rodeando a câmara, as presenças intensas como agulhas entrando e saindo da pele. Do outro lado das passagens, sem dúvida.

Por favor, me leve até ao altar. o Elemental atendeu o pedido e se aproximou do objeto de pedra. Apesar da altura em que era segurada, a Shaman não teve problemas em alcançar o objeto que descansava sobre a superfície lisa, placidamente, com a mão que segurava a lanterna.

Um medalhão de ouro, pendurado numa corrente simples de couro. Apesar de sujo, ambos pareciam novos.

Colocou a lanterna e a arma sobre o altar e segurou melhor o medalhão com uma mão e limpou-o da grossa camada de pó com a outra. De um lado, estava gravado o sol em estilo asteca, e do outro, uma representação de Huitzilopochtli, o deus sol.

Algo no medalhão berrava “mágico, poderoso e perigoso”, e soube que era aquilo que os Sem Pele queriam, por qualquer razão que fosse. Oito anos com a Stella Bianca tinham apurado seu sexto sentido para isso, mesmo que sua magia teoricamente só servisse para espíritos de mortos.

Sem enrolar, passou o cordão de couro pela cabeça, e o medalhão descansou ao lado do presente de Melinda, no espaço entre os seios ainda pouco desenvolvidos. Estava prestes a pedir ao Elemental para voltarem, lanterna e arma em mãos, quando um espírito chamou sua atenção.

Eles estavam todos calmos, ignorantes de sua presença, seguindo com seus pós-morte como se o local continuasse o mesmo, sonolentos. Menos um. Um deles parecia ter acordado, a expressão correta era essa. Estava atento, e a sensação que provocava era uma agulha que se fincava num local errado da pele, muito funda, e se recusava a sair, diferente dos demais, ainda agulhas que entravam e saíam rapidamente, quase como acupuntura.

Aquele espírito percebera que ela estava ali, que algo mudara. Isso a deixou curiosa. O que o diferenciava dos demais mortos?

Por ali, por favor. Apontou para o corredor onde sentia o espírito, e o Elemental começou a se mover.

Uma escada estreita, que desceram por cerca de cinco minutos, antes de alcançarem uma câmara consideravelmente menor, sem dúvida nenhuma mortuária, considerando o túmulo simples e sem decorações no meio. Uma anomalia, considerando que as paredes continuavam decoradas, inclusive com textos em nahuatl que ela estava sem tempo e paciência de tentar traduzir.

Quem é você? a pergunta diretamente em sua mente sobressaltou a Shaman, tão concentrada com a aparência estranha da câmara mortuária que esquecera por um instante do espírito que fora procurar.

Pediu para o Elemental virar, e a luz da lanterna iluminou e passou através do espírito, perto de onde a escada terminara.

Era um homem, alto e magro, que ela julgava ter morrido quando tinha por volta dos vinte e seis anos. A pele moreno-avermelhada cobria músculos levemente definidos, mas que demonstravam uma força fácil. Não como os guerreiros europeus de filmes de Hollywood, mas mais como os nativos sul-americanos que ela conhecera com o passar dos anos em missões para a Stella Bianca.

O crânio de um jaguar mais especificamente de uma pantera , ainda coberto com a pelagem negro-azulada com insinuações de manchas negras, olhos verde-jade nas órbitas e penas coloridas na parte de trás protegendo sua cabeça e emoldurando o rosto sério. Peças de madeira protegiam partes do corpo como uma armadura, as presentes no braço direito com lâminas de obsidiana. Um chimalli colorido preso no braço esquerdo e um maquauhuitl seguro pela mão direita.

Cabelo liso, preto como piche, escapava por debaixo do crânio de jaguar e ia até pouco abaixo dos ombros, algumas mechas se mexendo para lá e para cá na ausência de vento, algo que o cabelo dos espíritos tinha mania de fazer e a única coisa em toda a interação que assustava Alanna. Os olhos do espírito, assim como os do crânio do animal, também eram verde-jade, uma luz de força e uma sombra de desconfiança neles, e rivalizavam atenção com a pedra de jade esculpida em formato de argola que estava pendurada no nariz.

O espírito de um Guerreiro Jaguar.

Meu nome é Alanna. Sou uma Shaman. E você, quem é? perguntou com cuidado, usando seu poder para sentir cuidadosamente o estado do espírito. Precisava estar preparada, caso ele se tornasse hostil.

O espírito olhou ao redor, o verde-jade de seus olhos por um instante ganhando um brilho confuso, no mesmo instante que Alanna sentiu como se algo batesse em sua cabeça por dentro do crânio, o que confirmava: o espírito estava realmente confuso. E então ele voltou a se focar nela, a confusão sumida e substituída por certeza.

Eu... Não sei. a resposta saiu quase suave, enquanto ele baixava o rosto e andava pela sala com passos lentos.

A certeza de que ele não sabia de nada. Lembrava à Alanna como ela e Vivian se sentiam antes das provas de gramática.

A Shaman procurou ignorar o fato de que entendia o sentimento e se focou no fato de que ele era um espírito com amnésia que não era loucamente violento. Raro. Raro demais. Espíritos que perdiam a memória a ponto de não lembrarem quem eram não tinham restrições; se tornavam violentos e os responsáveis por locais assombrados e todo o mais.

Então vou te chamar de Jaguar. falou com cuidado. Era algo simples, comum, relacionado ao que ele era, mas que podia desencadear uma reação não muito agradável. Mas uma doação de identidade necessária, que ajudaria a manter o espírito lúcido. Algo que o ajudaria a manter o foco. O que está fazendo aqui, Jaguar? perguntou, novamente com cuidado.

Esperando. a resposta veio surpreendentemente suave, para um espírito com amnésia.

Esperando o quê? dessa vez, Alanna jurava que ele se irritaria com suas perguntas, mas conseguiu apenas um rosto vazio de expressões olhando de volta para ela.

Alanna suspirou com descrença. O espírito era o único acordado, que notara sua presença, mas, apenas isso: ir atrás dele tinha sido perda de tempo.

Vamos embora, por favor. pediu ao Elemental. Começou a virar na direção da escada, acompanhando o movimento do Elemental; o aperto do braço invisível em sua cintura e o apoio do corpo do ser contra o dela sumiram repentinamente, e Alanna caiu sobre o chão empoeirado, duro e áspero com um berro de horror.

As mãos e os braços apararam um pouco a queda, impedindo que ela batesse com o nariz ou o queixo no chão, mas não que seus pulsos gritassem de dor com o impacto e que as mãos e os braços ficassem esfolados com o chão áspero. Não sentia as pernas e não tinha como olhá-las naquele momento, mas apostava que os joelhos também estavam esfolados, possivelmente sangrando, apesar da calça jeans. A queda não tinha sido grande, mas isso não significava que ela não tinha se dado terrivelmente mal.

Após alguns segundos, conseguiu empurrar a dor para um canto de seus pensamentos conscientes e se concentrar em descobrir o que acabara de acontecer. Algo acontecera com Abel, ou ao menos com a ligação entre ele e o Elemental, e o ser fora embora e a abandonara, porque nem queria ter carregado-a desde o começo, mas estava obrigado por um feitiço. Alanna soltou um suspiro conformado e mordeu a bochecha por dentro, tentando achar uma forma de sair que não envolvesse deixar um espírito entrar em seu corpo.

Repentinamente outro fato se infiltrou em sua mente: se o feitiço do Elemental se desfizera, a barreira também. Provavelmente. Um gemido que era de dor e desespero saiu por sua garganta, longo e baixo, ao concluir isso.

Estava ferrada. Não demoraria para os tais Sem Pele encontrarem-na. Não ia sobrar nem um fio de cabelo para contar história sobre a Shaman.

Os espíritos no interior do local, de calmo e impassíveis, passaram repentinamente para um estado mais violento e agitado, irradiando raiva e sede de luta e sangue. Jaguar incluso.

— Filhotes de Tzitzimime. — ouviu o espírito falar, e quando ergueu o rosto para ele, viu seu olhar focado de forma quase ausente na escada que levava à primeira câmara. Mas ele permaneceu no lugar, menos de quatro passos longe dela.

— Hei. — chamou, e ele fixou os olhos de pantera nela. Estranho, ele ser o único a permanecer imóvel. Todos os demais tinham começado a se movimentar para a entrada como um enxame de abelhas coordenado para defender a colmeia. — Por que você continua aqui? — ia pedir ajuda, mas aquilo lhe parecia o mais curioso, aquele outro comportamento anômalo. Ainda mais porque era óbvio que ele queria ir. De todo jeito, provavelmente não sairia dali viva, então pelo menos preencheria sua curiosidade.

— Não posso sair e te deixar desprotegida. — os olhos voltaram para a escada, e então ele passou à frente de Alanna, o corpo numa posição enganosamente relaxada que ela conhecia bem de tanto ver Nilton e outros da Ordem assumirem: era a pose de alguém pronto para a batalha ao menor sinal.

— Por que não? — a pergunta saiu antes que a Shaman pudesse pensar direito, quase como se seu cérebro e boca estivessem momentaneamente desconectados.

Jaguar virou o rosto para ela de forma repentina, um movimento rápido demais para os olhos. As íris dele pareciam ferver pela forma como brilhavam, raiva mal reprimida alcançando Alanna em ondas.

— Eu. Não. Sei. — a resposta veio lenta, pausada e baixa. Algo clicou no cérebro da humana e a garganta de Alanna deixou um novo gemido de desespero escapar.

Ele fora sacrificado debaixo de um feitiço que garantira que ele perdesse a memória e se sentisse obrigado a proteger algo, o que o impedira, como espírito, de enlouquecer por não saber quem era. Todos os espíritos ali deviam estar nessa situação. Provavelmente, proteger algo específico, como aquela construção. Mas se era a construção o foco, não fazia sentido ele se sentir compelido a protegê-la.

Forçou mais o cérebro, anotando no cenário mental que ele fora a o único a notar sua presença, a ser acordado antes dos outros. Algo em “Jaguar” era diferente dos outros espíritos. Talvez, ao invés de proteger o lugar, o feitiço para ele ditasse que ele deveria proteger o Shaman que o encontrasse? Com certeza não ela, mas um Shaman da época que ele morrera. Alanna nunca soubera de qualquer prática remotamente parecida entre os Astecas, de criar espíritos para protegerem Shamans, mas era a única coisa que fazia sentido. Outros povos possuíam essa prática, mas os Astecas... Era a primeira vez que encontrava algo que a sugeria.

Talvez ela pudesse usar isso para conseguir sair viva. E logo: sentia os espíritos que tinham ido à luta se aproximando, recuando, e logo berros inumanos e sem vida alcançaram-na, com certeza dos Sem-Pele, altos e com algo que a fazia querer se encolher.

— Preciso de ajuda. — Falou de repente, e Jaguar se virou para observá-la. Só então ele pareceu perceber que ela continuava com as pernas na mesma posição que estavam quando ela caíra e ligar aquilo ao fato de que um Elemental carregava-a mais cedo.

— Eu... Não tenho como te carregar. — Jaguar falou em tom de desculpas, mostrando as mãos semitransparentes. Alguém que existia em outra frequência que não a material e precisaria usar muita força para interagir com algo fora de sua frequência.

— Não precisa. Sou uma Shaman, esqueceu? — forçou o tronco para cima até apoiar o peso sobre o cotovelo esquerdo, embora o antebraço gritasse de dor, e estendeu a mão do outro braço; concentrando-se um pouco, abriu seu corpo para a possessão e escondeu seu próprio eu no labirinto, instintivamente.

O espírito virou-se totalmente para ela e fez uma expressão engraçada, encarando a mão estendida. Subiu os olhos para seu rosto, e então virou a cabeça e encarou a escada por um segundo. Só então trancou os olhos de jade com os de chumbo.

— Tem certeza disso, Shaman? — ele perguntou com cuidado, dando apenas um passo na direção da garota.

Alanna soltou um bufo impaciente e girou os olhos; a preocupação dele para com ela seria doce, algo que ela não costumava receber de espíritos ao oferecer seu corpo como receptáculo, se o tempo não fosse tão curto. Os berros dos Sem-Pele estavam mais próximos. Ou melhor, como o espírito chamara-os mesmo? Filhotes de Tzitzimime. Se o cérebro de Alanna não a enganava, havia Tzitzimime entre os seres que os demônios haviam levado. Teria de perguntar a Jaguar quando tivesse tempo o que aquilo significava, “Filhotes de Tzitzimime”.

— Sim, tenho certeza. — balançou a mão estendida uma vez, apontando vagamente para si mesma. — Vamos, não temos muito tempo.


Os olhos de pantera dardejaram pela sala por um instante, antes do espírito finalmente fixar o olhar nela de novo. Um segundo depois, Jaguar fechou a distância entre eles e tocou a mão estendida.