10 setembro 2016

Precisamos falar sobre o Suicídio

Gabrielle participa no facebook de uma iniciativa da Camila Villalba, o "BLU" - Blogueiros Literários Unidos. Por esse mês ser o mês da prevenção ao suicídio (http://setembroamarelo.org.br/), surgiu essa ideia de uma postagem no dia 10 - que até onde pesquisamos, é a data específica - em todos os blogs do BLU falando sobre livros que tratam do assunto do suicídio.

Eu infelizmente não conheço livros que tratem do assunto, por mais que diversos personagens passem por situações complicadas, nenhum trata do suicídio. Pelo menos não até onde me lembro. Consequências dos gêneros que costumo ler, imagino.

Entretanto, eu posso falar um pouco sobre... Mais especificamente uma experiência pessoal. Antes vou falar um pouco sobre o Setembro Amarelo em si antes.

Bem.

Vamos lá.

http://setembroamarelo.org.br/


O suicídio é um problema de saúde pública; um problema em situação de tabu, ocasionando um aumento de suas vítimas. De acordo com o site do Setembro Amarelo, são 32 brasileiros por dia que morrem assim, uma taxa maior que a AIDS e a maior parte dos tipos de câncer. Aqueles que pensam em suicídio raramente buscam ajuda e as pessoas próximas raramente veem os sinais. A iniciativa Setembro Amarelo (http://setembroamarelo.org.br/) busca conscientizar as pessoas e retirar esse tabu em torno do assunto.



2012 entrei na faculdade. Biologia bacharel. Meu sonho era trabalhar em laboratório. Hoje... Me desencantei. Ainda exercerei a profissão se surgir a oportunidade, mas... Me desencantei com laboratórios.

De 2012 a 2014 foram anos extremamente complicados para mim. Em parte por causa da faculdade, em parte pela situação em casa; se eu tivesse enfrentado apenas um ou outro, provavelmente as coisas teriam sido melhores no meu psicológicos, mas não, foi ao mesmo tempo e não foi fácil. Admito que só atravessei esses anos viva graças à minha fé, graças à Deus, à Jesus e ao Espírito Santo.

Na faculdade, como cristã protestante, às vezes passei por situações de zombaria para com a minha fé e até mesmo de certa hostilidade; particularmente sempre procurei me manter neutra quanto à expressar minha opinião, porque cada um é cada um (no começo falava mais sobre a minha própria fé, depois parei), então essas situações me atingiam um pouco. Uma vez uma colega falou que não fazia sentido alguém ser cristão e acreditar em evolução, e não importava o que eu falasse, mantinha certo tom que incomodava. Parecia esquecer que foi um padre que sugeriu a teoria do big bang e que Darwin, até onde se sabe, era cristão.

Em casa, minha vó morava com a gente na época. Ela era extremamente teimosa, se recusava a seguir corretamente a dieta que ela precisava fazer por causa da diabetes e da pressão alta, e desrespeitava meus pais de forma que me deixavam profundamente tristes. Dizia para minha mãe que ela não gostava dela, simplesmente porque a minha mãe não deixava ela comer qualquer coisa que ela quisesse (porque ela não podia comer aquilo); como era minha mãe que fazia tudo pela minha vó, a sogra dela, indo atrás de médico, fazendo comida e afins, isso machucava a minha mãe e muito. Meu pai, o filho da minha vó, era ferido ainda mais, pela falta de respeito e amor que minha vó demonstrava: por mais que meu pai falasse que não tinha dinheiro, ela insistia que queria que ele construísse um quarto-e-cozinha pra ela nos fundos, mentia descaradamente sobre fazer a dieta corretamente (achamos diversas vezes notas fiscais de bom-bocado e outros no lixo do quarto dela e afins), e sobre outras situações (como jogar lixo no terreno do vizinho e no telhado de casa e falar que não foi ela, mesmo com testemunhas). Ela não tinha nada, a cabeça era perfeita. Era teimosia mesmo.

Eu via meus pais sendo machucados pela minha vó, pelo comportamento e pelas palavras dela, e isso me destruía por dentro. Eu queria ajudar, mas não sabia como. Isso se juntou à situação da faculdade, onde cada vez mais eu me desencantava pela ciência no Brasil, e foi me moendo por dentro de uma forma que eu não sei quantas vezes eu considerei o suicídio. Fugir daquilo tudo.

Cada vez que o desespero chegava nesses níveis, era Deus que me impedia. Me fazia lembrar de como isso machucaria ainda mais os meus pais do que tudo aquilo que eles estavam passando. Apesar do que já li sobre "quem pratica suicídio não é covarde" e afins, eu me via como covarde por considerar isso. Como eu era capaz de abandonar os meus pais num período tão complicado? Como eu seria capaz de fazer isso com eles, que sempre me amaram e me criaram da melhor forma possível? Era isso que sempre me parava, que me impedia de realmente pensar profundamente em executar aqueles planos. Isso e a minha cadela Kyara, sempre disposta a me alegrar e a me amar, mesmo no fim de sua vida.

Durante todo esse período, eu só tinha Deus. Apenas a minha fé me mantendo sã. Eu não contei para ninguém. De fato, apenas recentemente contei sobre essa situação, num testemunho muito atrapalhado e curto na igreja e para a minha mãe. E agora, no blog.

Em 1º de Janeiro de 2015, quando voltávamos de Uberlândia para Goiânia da virada do ano, paramos numa CCB (a igreja que frequento) numa cidade no meio do caminho para congregarmos. Na palavra veio que aqueles anos tinham sido difícieis, (2011, quando a situação com a minha vó começou a se intensificar, 2012, 2013, 2014), mas que 2015 ia ser diferente. Digam o que quiserem de mim, mas me agarrei naquela palavra. Eu não aguentava mais.

Em 2015, alguns meses depois dessa palavra, minha vó foi morar com a minha tia em São Paulo Capital, como ela queria há tempos e já vinha atormentando para ir desde quando minha tia casou de papel passado com quem antes ela apenas morava junto. O resto do ano foi complicado por conta do quadro de saúde da minha vó e afins, mas mentalmente eu estava mais leve. Não tinha mais gritaria pelo meu pai perder a paciência com a teimosia da minha vó, não tinha mais eu abraçando a minha mãe enquanto ela chorava por algo que a minha vó fizera ou dissera, sem saber o que fazer. A faculdade continuou um saco, com uma professora que seriamente me tentava a jogá-la pela janela, e na minha família eu sentia uma imensa de socar a minha tia quando ela colocou a minha vó numa casa de repouso e sumiu com o dinheiro da mãe (minha vó recebia pensão por um filho que tinha carteira assinada quando morreu e do ex-marido. Dois salários mínimos), mas sem todo o estresse que a teimosia da minha vó causava em casa, minha saúde mental melhorou.

Além disso, em julho de 2015 também comecei a praticar Krav Maga, por ter aberto a academia da Federação Sulamericana pertinho de casa. O bem que isso me fez mentalmente, praticar exercícios físicos, descontar a raiva que a tal professora despertava no que minha instrutora me ensinava e ensina, não dá pra explicar. Um alívio além e melhor do que o alívio que escrever e desenhar sempre trouxeram.

2015, para mim, de fato foi mudança, apesar de tudo. Minha saúde mental melhorou muito. Graças à Deus. Quando eu vejo alguém falar zombeteiramente que "religião é uma muleta" (mas se referindo especialmente ao cristianismo), eu tenho vontade de falar "A melhor muleta que existe. Foi o que me impediu de me matar." Imagino qual seria a expressão no rosto dessa pessoa. Por mais que existam aproveitadores da fé de alguém, às vezes é apenas isso que ajuda alguém a continuar lutando.


Eu não sei como cada um de vocês vive. Eu não conheço as suas lutas e dores. Mas, se você pensa em se matar, como eu pensei diversas vezes, eu imploro: não. Eu sei que não sou uma das melhores pessoas para dar conselhos e desabafar, mas estou disponível aqui, para falar com você e ouvir e dar o meu melhor. Existe a sua fé, em que quer que ela seja e independente de qual denominação que você frequente, eu sei que existiram companheiros de fé dispostos a te ajudarem ou, como no meu caso, se apoiar em Deus e em Jesus ou em qualquer que seja a divindade na qual você acredite. Existe o CVV (http://www.cvv.org.br/) também, caso você não seja do tipo religioso, ou se a sua fé não está sendo o suficiente. E também médicos, porque sempre existe a possibilidade de depressão provocada pela falta de determinados hormônios. Não importa a ajuda, procure-a, por favor.

Se dê uma chance. Dê uma chance aos outros de te resgatarem. Eu sei, esse mundo é difícil e tem hora que a gente pensa que seria melhor morrer porque ele já não presta, mas sempre, sempre tem algo para nos lembrar que a vida é bela. O riso de um recém-nascido, o abraço de amigos e irmãos e pais e parentes, o latido e o miado de filhotinhos, o perfume de uma flor, a lambida carinhosa de um cachorro ou um gato se esfregando no nosso rosto para nos marcar como família. Tanta, tanta coisa bonita e boa para tentar nos ancorar. Não desistam, por favor.



"It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles or where the doer of deeds could have done the better. The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat." (The Man in the Arena - Citizenship in a Republic; Theodore Roosevelt)

"Não é o crítico que conta; nem aquele que aponta como o forte tropeça, ou onde os atos de um homem prático poderiam ter sido melhores. O crédito pertence ao homem que está em ato na arena, cuja face é marcada por poeira e suor e sangue; que luta valorosamente, que erra, que vacila uma vez e de novo, porque não há esforço sem erro e fraqueza; contudo aquele que realmente se esforça para agir, que conhece grandes entusiamos, as grandes devoções, que se entrega a uma causa valorosa, que na melhor hipótese conhece no fim o triunfo de uma grande realização, e que na pior hipótese, se ele falha, pelo menos falha enquanto ousa grandemente, de tal forma que seu lugar nunca será com essas almas frias e tímidas que não conhecem nem a vitória nem a derrota." (parte tradução minha, parte daqui: https://trupedasmuiezinha.wordpress.com/tag/man-in-the-arena/)


Lembrem-se: todos nós estamos na arena, sujos com poeira e suor e sangue. Nós que consideramos o suicídio em algum momento apenas estamos muito cansados de tal arena muitas vezes incapazes de ver que existe a possibilidade de termos ajuda, esquecemos que não estamos sozinhos. Eu imploro: não esqueçam que não estão sozinhos. Sempre terá alguém para te ajudar a continuar sobrevivendo e ousando na arena. Seja para alcançar vitória ou derrota, mas alcançar algo, ao invés de permanecer na angústia e na ansiedade do "E se... E se eu não tivesse desistido? E se eu tivesse pedido ajuda? Eseeseeseese....".

Por favor. Peçam ajuda. Não importa a quem, mas peçam.


Setembro Amarelo: ttp://setembroamarelo.org.br/

CVV: http://www.cvv.org.br/


E encerrando a postagem, fiquem com esse belíssimo trabalho da Lindsay Stirling, The Arena, meio que baseado em "The Man in the Arena".


Outras postagens do BLU:

Sonhos, Imaginação e Fantasia: 10 dicas para escritores que querem abordar o suicídio

The Nerd Bubble: [Especial Setembro Amarelo] Precisamos falar sobre o Suicídio

DNA Literário: Precisamos Falar Sobre o Suicídio



Sobre como a situação com a minha vó se concluiu, caso esteja curioso: Em 2016 agora, dia 21 de fevereiro, um dia antes da apresentação do meu TCC, minha vó morreu; por causa do TCC, eu não pude ir, e de certa forma foi melhor assim, porque se eu visse a cara da minha tia era capaz de querer praticar Krav Maga nela. A saúde da minha vó em consequência de uma dieta desequilibrada, não-ideal para um diabético com pressão alta, decaiu rapidamente e de acordo com o próprio neurologista veio junto um processo de demência fulminante: o que deveria ter acontecido em dez anos aconteceu em poucos meses. Por isso, por ter sumido com todo o dinheiro da poupança da minha vó que ela ajuntara enquanto morou comigo e com meus pais e por ter mexido nessa conta da minha vó após a morte dela, nós cortamos relações com essa tia. E se eu a encontrar é capaz de socá-la