20 junho 2016

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 6: De Novos Comandos e Transformações

Guiou a cadeira pelo corredor com tranquilidade, pensando em pedir que Davi fizesse algumas melhorias para deixá-la mais rápida – quase virar churrasquinho nas mãos dos Demônios estava influenciando grandemente sua decisão. Parou diante de uma porta de aço blindada que mais parecia a porta do cofre de um banco. Manobrando a cadeira, conseguiu alcançar sem dificuldades o buraco de fechadura no batente. Encaixou sua chave e, após uma sequência de giros para a esquerda e para a direita, a porta se abriu para fora. Aumentou a abertura ao puxar o objeto de metal, guiando a cadeira para entrar na sala, a porta se fechando atrás de si sozinha.

Era uma sala grande, de pé direito baixo, com estantes e mais estantes se estendendo pelas paredes e dividindo o lugar em muitos corredores, quase como uma biblioteca. No entanto, ao invés de livros, as prateleiras de metal, divididas em pequenos compartimentos, como um armário de colégio, possuíam globos-arabescos, com vidros blindados fechando-os nos pequenos quadrados, com placas de metal com uma combinação de letras e números gravados acima das fechaduras. Muitos estavam vazios, agindo, ironicamente, como fantasmas para a Shaman, relembrando-a o que ocorrera três dias antes.

Esses globos-arabescos, feitos de um vidro cristalino e transparente, com uma aparência fluída semelhante à água, estavam presos em suportes de madeira onde o nome do ser preso estava queimado em letras fluídas e com alguns arabescos enfeitando-as, e outros arabescos subindo desde esse suporte e se espalhando pelo vidro, coloridos e tão sinuosos que faziam Alanna se lembrar dos efeitos que a magia dos seres que pertenciam às castas dos Fae, Devas¹, Amesha Spentas², Peris3, entre outros, costumava provocar ao ser realizada.

Mas mais do que o exterior, era o que se encontrava dentro desses globos-arabescos gerados por magia que chamava a atenção. Campos verdejantes, montanhas de pedra, cordilheiras que pareciam os Andes, serras, praias, florestas, desertos de pedra e de sal... Diversas eram as paisagens que, ao se olhar do ângulo certo, pareciam ir até o horizonte. E no meio desses cenários, seres variados. Alguns possuíam belezas inumanas enquanto permaneciam quietos naquele cenário, mas ao perceberem alguém olhando-os de fora, se transformavam de forma horrenda, alguns voando na direção do vidro e ali ficando, em suas formas diminutas e ameaçando quem estava do outro lado com gestos e palavras que ninguém podia ouvir. Outros eram terríveis por natureza e davam sorrisos sugestivamente perniciosos enquanto faziam gestos como se fossem traficantes oferecendo drogas ou até mesmo como escravos que imploravam liberdade.

- Vão dormir. Nem os Demônios libertaram vocês; vão continuar presos por um bom tempo. – Alanna parou, observando um serzinho aparentemente feminino, miúdo mesmo quando diminuído pelo feitiço, com a pele morena de sol toda enrugada e manchada, com alguns pelos longos e negros descendo da cabeça até os joelhos atrofiados; se apoiava num cajado muito mais alto que ela, com cocos cobrindo os seios, uma coroa de orquídeas na cabeça e folhas aparentemente de coqueiro amarradas na cintura como uma saia. Estava no meio de um campo de orquídeas brancas e amarelas em flor com um vulcão cuspindo fumaça ao fundo. A velha tentava fazer uma expressão de coitada, estendendo a mão de forma suplicante para a Shaman, que relanceou um olhar para o suporte de madeira, onde “Menehune4 Corrompida” estava gravado, antes de falar. – Vocês aprontaram tanto com humanos e não-humanos que até mesmo quem manda nos seus mundos quis que fossem presos. E agora querem piedade? – semicerrou os olhos e mostrou os dentes, acompanhando o gesto com uma careta que ela pretendia ser como a de um felino ao tentar afastar um invasor. A velha começou a fazer-lhe gestos obscenos enquanto batia o cajado no chão, as flores ao redor morrendo a cada batida, arabescos negros se erguendo delas e deixando formas fantasmagóricas que lembravam a morte e os submundos antes de se desvanecerem.

Alanna ainda se preocupou em mostrar a língua para a tal Menehune antes de continuar a guiar a cadeira pelo corredor.

Quando chegou à quarta encruzilhada sem ver sinal de Glen, que tinha lhe ligado pedindo ajuda mais cedo, desistiu de tentar achar a Druída com seus próprios esforços. Girando os olhos, colocou as mãos em volta da boca.

- Glen! Cadê você?! – gritou, e então fez silêncio, aguardando a resposta da garota, que não demorou.

- Corredor F, estante 10!

Alanna fez um muxoxo de desânimo enquanto virava a cadeira por entre o labirinto, prestando atenção às letras e números gravados nas colunas e laterais das estantes. Bastou o tal “F” aparecer para ela saber que estava no corredor indicado. À distância, ela viu Glen, se equilibrando numa escada, a bengala apoiada na estante, um tablet na mão e observando, concentrada, as placas de metal de cada compartimento. Assim que viu a cadeirante vindo em sua direção, ela acenou discretamente antes de descer a escada com cuidado.

- Precisando de ajuda?

- Você não faz ideia! – Glen deixou o tablet num dos degraus mais altos e se apoiou em outro, uma expressão de puro desespero nos olhos de trevo de quatro-folhas. – Não sei como eles tiraram as prisões de seus lugares, mas o sistema não acusou a abertura dos compartimentos! Tenho de verificar compartimento por compartimento... – ela estava prestes a chorar, Alanna percebeu, por isso segurou a sua mão, fazendo-a deslocar o foco.

- Davi não sabe qual o problema? – perguntou, vendo a Druída franzir os lábios e balançar a cabeça em negativa.

- Ele está justamente tentando descobrir qual foi o problema, mas nós dois já estamos desconfiando de que os Demônios usaram algum feitiço que permite atravessar sólidos...

Alanna semicerrou os olhos com desconfiança.

- Essas estantes são à prova de feitiços. Não é possível que uma pane no sistema ou falte de energia explique o problema? – cruzou os braços, pensativa, olhando para os compartimentos ao seu redor.

- Se fosse algo assim, Davi já teria descoberto, mas isso não aconteceu. Acho que tem trabalho interno envolvido...

- Achei vocês duas! – a voz do referido Feiticeiro interrompeu a conversa das duas.

Alanna ergueu uma sobrancelha quando viu que ele usava o uniforme da Ordem, exclusivo para reuniões anuais, visitas de oficiais de outras unidades e outras situações similares. O conjunto de calça social cinza-grafite e cacharrel cinza-claro caía bem no corpo magro e esticado do rapaz, apesar de seu jeito atrapalhado, e combinava muito bem com o cinto cheio de bolsinhos onde ele guardava uma infinidade de coisas que um Feiticeiro precisava e com o suporte no antebraço esquerdo onde a varinha estava presa. Além disso, ela reparou que o brasão da Ordem do lado esquerdo do peito se destacava muito; olhando com atenção, ela pode ver círculos e triskles estilizados parecendo se formar e se desfazer no ar, suave e discretamente. Algum feitiço, provavelmente.

- Por que está com o uniforme? – Glen perguntou mais rápido que Alanna, puxando sua bengala e se afastando da escada, mancando um pouco, graças à perna esquerda um pouco mais curta devido à paralisia infantil, andando na direção do filho de Melinda. Davi parecia, definitivamente, um pouco irritado.

- O novo comandante está chegando! Por que vocês ainda não colocaram o uniforme?

As duas garotas se entreolharam com estranhamento, Glen parando de andar, mas foi Alanna quem falou.

- Hoje? Nilton me disse que ele chegava no fim de semana... – murmurou, sentindo um frio na barriga.

O Feiticeiro girou os olhos.

- É, era pra ser isso, mas, de acordo com o próprio comandante, a situação está muito crítica para enrolar tanto. Não receberam a mensagem que enviei hoje de manhã? – ele semicerrou os olhos, colocando as mãos na cintura de modo quase cômico.

Quase imediatamente a mão de Glen voou para o tablet, os dedos voando pela tela touchscreen, entrando no email que a Stella Bianca fornecia aos membros e vendo a dita mensagem que, por estar há horas concentrada em descobrir quais globos-arabescos tinham sido levados, ela não vira. Soltou uma espécie de “Ghn!”, um som que Alanna associou a um Vampiro sendo queimado pela luz do sol. Era um som igualmente desesperado.

Quase imediatamente, os alto-falantes da unidade começaram a ecoar uma música estranha e de relativo mau-gosto, antes que a voz de Nilton aparecesse, solicitando que todos se apresentassem ao centro da unidade para receberem o novo comandante em alguns minutos.

- É, não tem jeito... Me desculpem, meninas, mas vocês não tem tempo de ir até os dormitórios se trocarem... – Davi limitou-se a falar antes de acenar sua varinha na direção delas – nenhuma sequer vira quando ele sacou o objeto.

Arabescos e linhas sinuosas de tons de cinza, preto e outras cores envolveram a Druída e a Shaman. Em pouco mais de trinta segundos, as roupas comuns – e no caso da cadeirante, o uniforme do colégio – foram substituídas por suas versões pessoais do uniforme da Stella Bianca, de acordo com seus dons e, em alguns casos, espécie. Para Glen, uma longa túnica cinza-claro de algodão, com um simples cinto de couro amarrado na cintura e bordados cinza-grafite de motivos celtas na gola e nas mangas; para Alanna, uma calça social cinza-grafite e uma camiseta de gola alta sem mangas cinza-claro, com um colar de dentes e sementes em volta do pescoço e uma pena das cores da Ordem no meio da trança-raiz que o feitiço de Davi deixara impecável – embora ela soubesse que não fosse durar muito tempo.

- Vamos ou vocês duas querem enrolar mais ainda? – Glen apenas jogou o tablet para Alanna antes que os três começassem a se enredar por entre o labirinto de estantes a caminho da saída.



As duas garotas deduziram que Davi tinha usado um feitiço que ou desacelerou o tempo, ou acelerou o trio, porque não tinha como eles chegarem ao Salão do Poço em menos de vinte minutos, mas era o que tinha ocorrido. A maior parte do que tinha restado da unidade e que já tinham voltado de suas missões já estava ali, usando seus uniformes de cinza-grafite e cinza-claro, ao redor do poço de Teju Jagua, com uma abertura na direção da porta do elevador. Glen e Davi foram para o lado oposto ao que tinham chegado, enquanto Alanna se colocava ao lado de Nilton, que assim como o Feiticeiro, estava mais próximo da caixa de metal.

O Vampiro virou o rosto para Alanna, franzindo o nariz de tal forma que a garota o associou a um morcego, mesmo sabendo que Vampiros e morcegos apenas tinham em comum o fato de serem Mamíferos.

- Você está cheirando à magia Fae... – em seguida, semicerrou os olhos escuros que tinham um tom de brilho roxo.

A respiração de Alanna acelerou um pouco, de modo meio desesperado, quando vislumbrou as olheiras que enfeitavam seu rosto, e presumiu que ele tinha dormido e se alimentado menos do que falava naqueles três dias – ela não pudera ficar de olho, já que ele nem mesmo saíra da unidade, tendo encarregado Davi de levá-la e buscá-la no colégio. Eles nem mesmo tinham voltado para a própria casa desde segunda.

- Não vi a mensagem falando que o novo comandante chegava hoje. Nem eu e nem Glen. Davi teve de apelar quando você nos chamou pra cá... – a voz saiu num fio, vendo então seu rosto relaxar um pouco, embora ele continuasse com os ombros tensos. Segurou sua mão, tentando transmitir carinho com o toque. – Você não se alimentou nem dormiu direito ultimamente, não é? – perguntou baixinho, vendo-o sorrir de modo triste, enquanto os ombros caíam, o movimento fazendo a capa cinza-grafite ondular.

- É tanta coisa pra arrumar... Um monte de situações suspeitas precisando ser investigadas, Demônios para rastrear... Tava tentando adiantar o máximo de coisas possíveis pro novo comandante... – Alanna balançou a cabeça em negativa.

- E tentando se matar no processo? Pai, por favor, hoje a gente vai pra casa e você vai dormir a noite inteira. – procurou que sua voz tivesse um tom de quem não aceitaria uma negativa como resposta.

Nilton riu de leve, apertando sua mão e se inclinando até pousar um beijo em sua testa. Quando se endireitou, soltou a mão da filha e a deixou descansar no ombro dela.

Mal ele tinha feito isso, o elevador soltou um apito que indicava que o novo comandante tinha chegado. Segundos depois, a porta se abriu, e Joyce, uma Lunantishee, uma Fada da casta dos Fae Guerreiros, saiu, suas asas de energia em tons de amarelo-sol, preto e azul-escuro a levando suavemente alguns centímetros acima do chão, o uniforme com um corte tão sóbrio que parecia uma armadura, com uma aljava pendurada na cintura e um arco de ameixeira nas costas. Era ela quem tinha ido buscar o novo comandante no aeroporto de Cumbica e guiado-o até a unidade.

- Annanda Ravi, Sacerdotisa de nono grau e nova comandante da Oitava Unidade. – Joyce anunciou, baixando até o solo e parando em posição de sentido.

Alanna franziu as sobrancelhas, imaginando o quão ruim as coisas estavam para o Conselho decidir que os Sacerdotes não ficariam mais apenas na primeira unidade, como era há tempos. Pelo olhar no rosto dos demais membros, imaginou que eles pensavam, se não a mesma coisa, algo muito similar.

A mulher que saiu do elevador após ser anunciada pela Fada tinha um andar decidido, e mesmo que sua altura fosse mediana e não usasse saltos, possuía um ar de autoridade que todos ali tinham de admitir que nem mesmo Helena possuía. Eles não sabiam se era por causa do olho esquerdo opaco, com uma cicatriz começando quase no topo da testa, atravessando-o e terminando quase no queixo, clara, quase prateada, se destacando contra a pele escura, uma marca de guerra carregada de forma orgulhosa pela Sacerdotisa, ou se por alguma outra coisa. O olho direito, de um cor-de-mel claríssimo e mais fácil de ser percebido como amendoado, complementava o ar indiano que seu tom de pele, bochechas arredondadas e lábios grossos evocavam. O cabelo negro, trançado como se fosse uma coroa ao redor de sua cabeça, brilhava como couro tratado. Usava um vestido cinza-claro de gola alta, sem mangas e que ia até os joelhos, com um cinto cinza-grafite onde uma corrente de prata com ponta de dardo serrilhada estava enrolada.

Annanda parou alguns passos à frente de Joyce, que automaticamente passou para a posição descansar, e então deslizou o olho bom pelos membros sobreviventes da oitava unidade. Parou seu olhar em Nilton e Alanna, e então deixou um sorriso pequeno, um pouco duro, mas sincero, esticar os lábios.

- Estou honrada em me tornar a nova comandante desta unidade da Ordem, e lamento profundamente a morte de Helena. Ela era uma boa amiga minha, e alguém que merecia todo e qualquer respeito que vocês tinham por ela. Espero que eu consiga me provar merecedora de pelo menos um pouco do respeito de vocês. – suas palavras, um português carregado de sotaque, mas compreensível, permitiram que outros sorrisos surgissem nos rostos ao redor do poço. Em seguida, com as mãos cruzadas nas costas, fez uma reverência não muito profunda, ato que foi respondido do mesmo jeito pelos demais. – Estão dispensados. De preferência, quero que todos vão descansar um pouco, afinal, se Joyce bem me informou, amanhã é o memorial em honra dos mortos. – sorriu pequeno de novo, enquanto os membros faziam de novo pequenas reverências e se retiravam, com exceção de Nilton, Alanna, Davi e Glen.

- Prazer em conhecê-la, Senhora. Sou Nilton Anderson, Investigador-Chefe. – o Vampiro estendeu a mão para Annanda, que a apertou com força, antes de apontar para a Shaman. – Esta é minha filha, Alanna Cruz Anderson, Shaman de segundo grau, majoritariamente investigadora. Davi Kairos, Encarregado-Chefe dos sistemas mágicos e tecnológicos. E Glen Hoyt, Druída de quarto grau, investigadora e diplomata de maior nível sobrevivente.

- Prazer em conhecê-los. E podem me chamar de Annanda. Deixem as formalidades para as situações formais. – sorriu de leve antes de deixar seu rosto adquirir uma máscara de seriedade. – Agora, por favor, me guiem ao meu escritório, preciso que me contem tudo que preciso saber antes de liberá-los para uma boa noite de sono.

Alanna não conseguiu se impedir de soltar um risinho ao constatar que ela tinha percebido as olheiras de Nilton.



Segunda de novo.

Foi isso que se passou pela cabeça de Alanna quando o celular a acordou de manhã. Ainda pensou em apertar o botão de “soneca”, mas seu pai abriu a porta segundos depois, acendendo a luz e dizendo “Bom-dia, Flor do Dia”, num tom tão animado, que ela quase quis chorar.

Quer dizer, fazia apenas uma semana que Helena tinha morrido, junto de mais um monte de gente que ela conhecia desde pequena. Porque tanta animação?

Ainda estava escondida debaixo do cobertor quando sentiu o colchão afundar com o peso de Nilton, e então, ele puxou o tecido de cima dela, expondo seu rosto amassado e cabelo mais embaraçado que nunca. Ele sorria de um jeito triste, que a fez perceber que ele também estava sentindo aquela segunda, mais do que sua voz animada ao desejar-lhe bom dia indicava.

- A gente tem de pegar a Vivian.

- Eu sei. – ela resmungou, fungando, sentindo os olhos marejarem. Ele pareceu pensar um pouco antes de falar.

- A Annanda me liberou hoje, uma folga por ter segurado as pontas até ela chegar... Que tal ir no Ibirapuera, ou quem sabe no MASP, depois do almoço? Você escolhe. – Ele sorriu, animador, enquanto colocava uma das mechas rebeldes de Alanna atrás da orelha. Um sorriso tímido se abriu nos lábios finos.

- Posso chamar a Vivian?

- Claro.

- E vou poder almoçar alguma porcaria de fastfood?

Ele riu, puxando-a para um abraço.

- Claro. Vamos nos empanturrar de Whooppers, batata-frita com ketchup e Coca-Cola e virar dois gordos que não conseguem nem sentar na cama! – e então, Alanna começou a rir descontroladamente quando Nilton começou a fazer-lhe cócegas.

Quando ele parou e deixou-a respirar, ela suspirou, sentindo-se acalmar com o cheiro de eucalipto e limão penetrando por suas narinas e alcançando o cérebro.

- Sente falta dela?

- Claro. – ele fez uma pausa reflexiva. – Além disso, pra quem vou pedir socorro na próxima vez que você se apaixonar ou algo do tipo? Agora sim é que posso ser considerado pai solteiro... – seu tom de voz era o mais piadista possível. Ela não sabia de onde ele estava tirando inspiração para fazer tantas piadinhas em tão pouco tempo, mas agradecia.

- Oras, tem a Mel... – resolveu entrar na brincadeira. Ouviu o pai bufar com sua sugestão.

- Ela tem muitos protegidos pra ajudar, além de uma visão muito romântica da coisa... Preciso de ideias de como afastar os tais da minha princesinha sem sujar as mãos de sangue. Melinda vai é te incentivar a ir atrás do idiota ou vai me incentivar a matá-lo...

Alanna só pode rir com como ele parecia um daqueles pais-corujas que ela via na TV e ouvia as meninas do colégio falarem.

Não que ele já não fosse um pai-coruja, mas na maior parte do tempo ele levava mais para o lado Vampiro da coisa – mate todos que ameaçarem sua prole. Era raro ele levar para o lado mais humano.



Bufou; Vivian estava demorando mais que o normal para sair de casa. Se ela demorasse mais ainda, acabariam se atrasando para a aula. Ok, a diretora era sua Fada Madrinha e provavelmente acobertaria as duas, mas, ainda seria um saco chegar no meio da aula.

De repente, a garota apareceu, vindo com passos pequenos de quem não queria ir, parecendo cansada, os olhos um pouco vermelhos. Alanna franziu as sobrancelhas ao ver o estado da amiga; será que ela estava gripada? Não seria surpreendente, o inverno já tinha entrado e o tempo só esfriava a cada dia que passava. Se fosse o caso, ainda bem que faltavam apenas duas semanas de aula.

Vivian praticamente se jogou no banco do carro, se encolhendo ao colocar o cinto de segurança e abraçar a própria mochila. O “bom-dia” saiu num sussurro e Alanna quase não ouviu. A pele da garota estava pálida, e bolsas arroxeadas apareciam debaixo dos olhos vermelhos por veias dilatadas.

- Vivian? O que aconteceu? – A Shaman se inclinou na direção da amiga, preocupada, cutucando-a no ombro por cima do encosto do banco. Uma espécie de resmungo surgiu da garganta da menina antes de responder.

- Não sei... Não estou me sentindo bem... Tudo que como não para no estômago... E não consegui dormir direito... Só vou hoje porque tem prova. – a resposta foi um murmúrio. Logo em seguida, Nilton ligou o carro, parecendo um pouco animado, embora os ombros, Alanna percebeu, estivessem tensos.

- Quer ir lá em casa depois da aula? Alanna tem estado meio jururu, cansada de ganhar de mim no Banco Imobiliário... Podíamos jogar juntos. – ele sorriu para Vivian.

A Shaman franziu as sobrancelhas. Eles não iam no MASP ou no Ibirapuera? Por que ele estava mudando os planos? Percebeu um sorriso minúsculo surgir no rosto da garota.

- Seria ótimo, Niltin. Gostou da ideia de mais desafio, Alanna? – a integrante da Stella Bianca apenas sorriu, dando um tabefe leve na cabeça de Vivian.

- Vai ser um desafio no dia que você parar de precisar de calculadora! – se o jogo deixasse Vivian melhor, bem... Ela já tinha perdido muita gente que amava recentemente. Não precisava adicionar mais uma à lista.



- Vivian, você pode ir entrando? Quero falar rápido com a Alanna... – mal falou isso, a menina de pele pálida acenou a cabeça com um sorriso pequeno e desanimado, levando a própria mochila e a da amiga, e atravessou o portão do colégio.

- O que aconteceu, pai? Por que mudou os planos? – a voz da garota saiu baixa, mas exigente. Nilton deslizou a mão pelo cabelo, olhando ao redor com cuidado, antes de se abaixar com um joelho no chão ao lado da cadeira de rodas.

- Vivian está se transformando. Não sei como ela foi infectada, mas vai precisar de um Vampiro adulto por perto e sangue quando a transformação se completar, caso contrário, vai acontecer uma catástrofe.

O queixo de Alanna caiu. Ela abriu e fechou a boca várias vezes, tentando falar, o cérebro pensando rápido.

- Transfusão de sangue. Ela teve uma anemia brava anos atrás. Deve ter recebido sangue infectado...

- Faz sentido. É tempo suficiente para o DNA do vírus Vampírico se implantar em todas as células, já que só agora os hormônios que ativam esses genes estão sendo produzidos. Embora seja estranho... Os clãs tomam muito cuidado pra isso não acontecer. Não querem uma superpopulação que acabe com as brincadeiras deles. – Nilton parou, suspirando um pouco aliviado.

- Se é o caso... Quer dizer que as chances dela sobreviver à transformação são altas. – Alanna mordeu o lábio, relaxando quando o pai balançou a cabeça em afirmativa.

Se Vivian tivesse se infectado depois da puberdade, a transformação seria muito súbita e dificilmente ela sobreviveria, devido à existência de dois tipos de células em seu corpo: as infectadas e ativas com o DNA Vampírico e as células originais e saudáveis. Seu corpo teria uma resposta imunitária contra as células infectadas fortíssima, que provocaria hemorragias e dores intensas. Frequentemente, esses casos eram confundidos com Dengue ou outros tipos de febres hemorrágicas e até mesmo doenças autoimunes. Raramente a pessoa infectada sobrevivia à perda de sangue. Por outro lado, caso a infecção já tivesse atingido o sistema imunitário quando a transformação começasse, a resposta exagerada não existiria, e a possibilidade de sobrevivência do infectado seria mais alta. Essa foi uma das primeiras coisas que Alanna aprendeu ao ter Nilton como pai e perguntar sobre a transformação em Vampiro.

Por fim Nilton se despediu de Alanna, esperando a garota entrar no colégio antes de voltar para o carro. Tinha de preparar as coisas para quando Vivian chegasse.



- Pode me passar toda a grana! – a garota de cabelos pretos exclamou, estendendo a mão para Vivian quando a garota parou no Morumbi com quatro hotéis construídos. A loira fez cara de choro enquanto contava o “dinheiro” que devia pagar para Alanna.

- Você me faliu! – resmungou com voz chorosa, entregando tudo para a garota.

- E eu ganho no Banco Imobiliário mais uma vez! – a cadeirante berrou, jogando todo o papel que se fazia passar por dinheiro para cima. As duas ouviram o riso de Nilton vir da cozinha, em consequência da reação de Alanna.

Vivian se levantou do chão e se jogou no sofá, os braços cruzados e o rosto fechado, irritada por ter sido falida por Alanna pela segunda vez no dia – além, é claro, de já não estar se sentindo muito bem. A cadeirante, ainda acomodada no chão com as costas apoiadas no sofá, apenas ria enquanto guardava o jogo, mas no interior estava preocupada.

Vampiros em transformação, normalmente, ficam gradualmente mais violentos, até perderem o controle e atacarem o mamífero mais próximo em busca de sangue, ensandecidos pela sede. Vivian estava relativamente calma; cansada e ficara longe da comida que Nilton comprara, mas calma.

Ela não se lembrava de ouvir falar de Vampiros que não tinham ficado violentos durante a transformação; era quase impossível, considerando a sede crescente. Não gostava disso.

Ainda estava perdida em considerações quando sentiu um arrepio subir pela espinha. Um aviso. Todos os anos crescendo na Stella Bianca e vendo espíritos dos mortos e falando com eles tinha aguçado seus instintos.

Se jogou no chão, as pernas sem saírem do lugar onde ela tinha colocado mais cedo, sentindo o ar se movimentar acima dela antes de ver a garota loira cair do outro lado da mesa de centro. Vivian se virou para ela, os olhos de um tom púrpura, repletos da sede que tantas vezes vira nos olhos de Nilton, mas com o ar selvagem e animalesco que ela nunca vira no pai. Pela expressão do rosto e pelos estudos na Stella Bianca, Alanna sabia que recém-transformados eram incapazes de reconhecer a realidade e as pessoas ao redor. A sede era tudo.

Vivian se ergueu, os lábios cortados pelos dentes pontudos recém-crescidos e entreabertos, com um fio de saliva misturada com sangue escorrendo pelo queixo; olhos brilhantes e selvagens enquanto a fitava, parecendo considerar tentar dar outro pulo em sua direção. Ensandecida.

Vivian saltou em sua direção de novo, mas no meio do caminho Nilton apareceu e jogou a garota por cima do ombro, não parecendo incomodado pelos chutes no peito e socos nas costas. Ainda assim, guiada pelo instinto primordial Vampiro, a loira não tentou atacá-lo com os dentes; o cheiro entregava que ele era velho e muito forte para ela sequer tentar algo.

Alanna forçou os próprios braços a erguerem seu tronco, sentada com as costas apoiadas no sofá. Observou Nilton levar Vivian para o interior do apartamento, percorrendo o corredor que saía da sala e entrando no próprio quarto. Pela forma que o rosto da melhor amiga se contorceu, a Shaman sabia que o quarto do Vampiro estava recoberto de magia vampírica que conteria Vivian.

Não gostava disso. Magia vampírica de contenção era dolorosa. Sua melhor amiga não merecia passar por isso. Mas precisava.



Quase uma hora e dois litros de sangue jogados goela abaixo depois, a loira recuperara seu autocontrole, embora Nilton ainda não tivesse quebrado seu nome dos feitiços de contenção e deixado-a sair do quarto. Os lençóis da cama estavam rasgados em tiras e espalhados pelo quarto, assim como a espuma do travesseiro e do colchão. Apenas as grossas cortinas tinham escapado. O instinto percebia o calor do sol do outro lado, reconhecia o perigo.

E as paredes e o chão cobertos dos símbolos usados na magia vampírica, feitos de sangue misturado com o que quer que fosse. Algo que Nilton fizera durante a manhã.

Alanna absorveu tudo isso da cadeira de rodas enquanto observava Vivian sentada no canto mais afastado do quarto, os joelhos dobrados e o rosto escondido neles. Nilton estava parado ao lado da Shaman, próximo da porta. Ele apertou seu ombro, andou até Vivian e então se ajoelhou ao lado dela.

Devagar, a garota ergueu a cabeça e fixou o olhar nele. Os olhos verde-castanho possuíam agora uma discreta teia de roxo se espalhando pelas íris, visível apenas quando muito próximo. As lentes dos óculos haviam rachado em meio ao ensandecimento da sede, uma das lentes transformada numa teia de vidro rachado, com a outra relativamente mais intacta. Ao redor da boca havia manchas de sangue, resultado de rasgar as bolsas entregues por Nilton com os dentes.

- Desculpa. – murmurou com um fio de voz, como se quisesse que um buraco se abrisse e a engolisse.

- Pelo quê? – Nilton deixou a voz risonha, como quem diz que não existe o que ser desculpado. Ele queria deixar por aquilo mesmo, não entrar em detalhes com Vivian sobre um momento tão traumático. Ela não deixou.

- Por ter destruído seu quarto. Por ter tentado atacar a Alanna. – aqui a voz de Vivian quebrou e ela parecia prestes a chorar. – Por ter arranjado um monte de problemas.

O Vampiro balançou a cabeça em negativa antes de puxar a garota para um abraço apertado, o topo da cabeça dela enfiado debaixo do queixo dele.

- Não é sua culpa, Vivian. Você passou por algo que não devia ter passado. – ele resmungou, uma das mãos alisando o cabelo da garota e a outra esfregando um dos braços. Quase imediatamente Vivian o abraçou de volta, escondendo o rosto em seu peito, o barulho de soluços mal-contidos alcançando a Shaman.

Alanna sabia que o cheiro de eucalipto e limão de Nilton ajudaria a acalmá-la, então sorriu de leve e saiu do quarto, indo para a cozinha.


Quando estivesse mais calma, Vivian precisaria de uma boa dose de chocolate para ouvir as explicações que tinham para dar.

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1 - Devas: No hinduísmo, divindades regentes da natureza, nem bons nem maus, mas que podem ser manipulados pelos humanos.  Seriam seres feitos de luz e invisíveis aos olhos humanos.
2 - Amesha Spenta: Termo em avestano para uma classe de entidades divinas no Zoroastrismo que literalmente significa "Imortal (que é) santo"/"Imortal sagrado". Existe um uso restrito do termo que se refere às seis "fagulhas divinas", que seriam as primeiras seis emanações do Criador não-criado, através das quais todas as criações seguintes foram alcançadas.
3 - Peri: De acordo com a mitologia persa, são belas e aladas fadas em forma de espírito que se categorizam entre anjos e espíritos malignos que algumas vezes visitam o reino dos mortais. Em fonte mais antigas, são descritos como agentes do mal aos quais foram negados o paraíso até que cumpram sua penitência; depois, passam a ser benevolentes.
4 - Menehune: Na mitologia Hawaiana, um povo descrito como anões em questão de tamanho, que vivem nas florestas profundas e em vales ocultos das ilhas do Hawaí, longe dos olhos dos humanos normais. É dito que eles eram ótimos artesãos, e a lenda diz que os Menehune construíram templos, estradas, casas, canoas e viveiros para peixes, sendo que algumas dessas estruturas que o folclore Hawaiano atribuem aos Menehune ainda existem, tendo vivido nas ilhas antes que os colonos chegassem.