12 maio 2016

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 5: De Códigos de Segurança e Adeus

As mãos pálidas, cheias de sardas escuras, dançavam sobre o corpo magro de Alanna, distantes alguns centímetros. O espírito da Água sussurrava em sua mente que tinham feito um bom trabalho ao tirar a água de seus pulmões, e que, apesar de uma luta tão violenta contra uma Súccubo, ela não tivera danos internos, e os externos não ultrapassavam os limites que ela já se acostumara.

A garota suspirou, recolhendo as mãos lentamente e então se virou para a criança ao lado dela cujas características a faziam pensar num riacho murmurante e veloz, correndo por entre pedras quase em total silêncio. Os olhos verde-folha, com uma auréola mais escura de verde dividindo a cor mais clara em dois círculos, brilharam quando sorriu, a pele pálida e cheia de sardas das bochechas se erguendo e ocultando parcialmente os olhos que lembravam uma espécie de trevo de quatro folhas. Em seguida, fez uma reverência graciosa ao espírito, o cabelo liso, longo e ruivo, um tom forte de alaranjado, caindo sobre as laterais de seu rosto como uma cachoeira. O espírito fez uma reverência ainda mais graciosa antes de desfazer-se em água repentinamente, como um balão cheio de água furado por uma agulha.

Com a ajuda da bengala de ameixeira silvestre, movimentou-se até a cadeira de vime na parede ao lado da cama, o bip-bip dos aparelhos ligados à Shaman rodeando-a suavemente. Pouco depois de se acomodar e tirar um livro da bolsa pousada no chão, a porta se abriu, Nilton adentrando o ambiente quase estéril do quarto do setor médico da unidade.

- E então? – ele perguntou, parando ao lado da cama e colocando as mãos nos bolsos da calça, os olhos negros observando a expressão serena que a filha fazia ao dormir.

- Ela vai acordar logo. Davi agiu rápido e foi eficiente ao tirar a água dos pulmões. E ela não teve danos internos, então, pode relaxar. – ela sorriu, os lábios finos e rosados se esticando larga e despreocupadamente.

- Obrigado por verificar, Glen.

- Não precisa agradecer. Faria isso sem precisar pedir; ela é como uma irmãzinha pra mim, você sabe disso. – Glen continuava sorrindo, antes de se focar no livro sobre ervas medicinais que parecia ter no mínimo dois séculos de existência.

Nilton sorriu de leve para a Druída de meros dezesseis anos, mas que agia como se fosse bem mais velha, antes de focar no rosto de Alanna, sentindo seu coração bater num compasso mais tranquilo agora que Glen confirmava que a garota estava bem, apertando a mão por cima do lençol com carinho antes de sair do quarto.



Olhou de forma desolada para a tela do computador.

Duzentos e sessenta e sete mortos, com mais cinco em estado grave na enfermaria. Quase dois terços dos membros da oitava unidade.

A linha de comando? Praticamente inexistente. Ele, com seu cargo de “Investigador-Chefe”, muito abaixo do comando que era de Helena, era o único vivo com autoridade suficiente para dar ordens em todos os sobreviventes. Davi, Encarregado-Chefe dos sistemas mágicos e eletrônicos, vinha em seguida.

Para completar, não podia sequer ligar para a primeira unidade e informar os acontecimentos: ele não estava entre aqueles que tinham patente o bastante para saber os códigos necessários para aceitarem o que quer que ele dissesse.

Suspirou, se inclinando na cadeira giratória com enfado, tendo uma visão mais ampla da mesa anteriormente ocupado pela Glaistig que tinha lhe garantido proteção contra o clã.

Ao lado do computador, havia dois porta-retratos. O mais próximo era eletrônico e mostrava em sequência aleatória fotos dela com membros da unidade ou apenas eles, como a foto naquele momento, com ele, Alanna, Davi e Glen jogando WAR. No outro, uma foto dela com os comandantes das outras sete unidades, usando seus uniformes com o heptagrama com infinitos estilizados nas pontas, no meio de um ouroboros de duas cobras, uma branca e uma negra, o brasão da Ordem, do lado esquerdo do peito; cada um tinha uma das pontas ou o ouroboros mais destacados devido às cores, indicando à qual das unidades pertenciam.

Pastas e folhas avulsas de relatórios, junto de canetas coloridas, dividiam o resto do espaço com um telefone com fio.

Imaginou se ela teria deixado os códigos anotados na gaveta, por precaução. Estava prestes a abrir uma delas e vasculhá-la, quando o porta-canetas de metal vazio caiu com estrondo, rolando até alcançar a parede forrada de livros atrás dele.

- Entendi, Helena. Não mexer nas suas coisas... – murmurou, afastando a cadeira e se levantando, começando a andar de um lado para o outro no tapete persa, matutando como resolveriam o atual problema de falta de alguém preparado para lidar com o comando – algo que Nilton nunca se enganaria achando que estava apto.

Como as coisas tinham entornado tanto?



Quando Alanna abriu a porta do escritório de Helena e entrou com sua cadeira de rodas repentinamente, a expressão nos olhos de Nilton declarava que ele estava quase desistindo, se deixando cair no tapete e começando a chorar feito uma garotinha cujo bicho de estimação morrera. Ela já tinha visto a cena, quando ele acreditara que ela realmente estava morta poucos anos atrás, e lançou um agradecimento aos céus por ter chegado a tempo de evitar uma cena tão deplorável – seu pai não merecia descer tanto na escala de desespero, especialmente se estava tomando o remédio.

- Filha! – ele a cumprimentou efusivamente, enchendo seu rosto de beijos carinhosos e aliviados. Ela não sabia se por ter evitado a tal cena vergonhosa ou se por já estar acordada.

- Ok, ok, já entendi... – conseguiu se livrar do carinho excessivo com certa dificuldade, sorrindo tímida e agradecidamente.

Davi tinha lhe contado os resultados da invasão, antes de continuar a convocar de volta os membros que estavam espalhados pelo continente, realizando missões. Alanna logo percebera que Helena provavelmente ainda não fizera a passagem, sabendo que eles precisavam urgentemente dos códigos de segurança que apenas o comando possuía.

Puxou dois eletrodos do aparelho protegido por um tecido acolchoado que tinha sido preso às costas da cadeira. Com prática, colocou cada um numa das têmporas, apertando um botão no joystick que controlava o transporte.

Dois pequenos choques foram lançados, e outros em seguida em pequenos intervalos. A queimação familiar se espalhou desde sua coluna até a ponta dos dedos, e então sentiu-se ficar momentaneamente mole, se largando na cadeira.

Procurou regular a respiração, sentindo a constante corrente elétrica que o gatilho proporcionou, antes de erguer o olhar. Helena estava ali, abaixada à sua frente, sorrindo de leve.

- Precisamos dos códigos, Helena. – projetou na direção do espírito, que se ergueu e estendeu a mão.

- E vocês terão. – a Glaistig movimentou os lábios. Sorrindo, a Shaman estendeu a mão e tocou a que lhe era estendida, abrindo-se e deixando que Helena, mais uma vez, dividisse o espaço de seu corpo.



Senti-me bem ao sentir de novo a mente de Helena ali, junto da minha. Eu quase podia sentir seu espírito fazendo cafuné na minha cabeça, do jeito que ela fazia quando eu chegava de alguma missão.

Ela levantou nosso corpo da cadeira de rodas e soltou o gatilho das minhas têmporas – ele era apenas isso, um gatilho para incentivar o meu poder natural –, antes de caminhar até sua escrivaninha, minhas pernas finas e fracas pela falta de uso ainda parecendo não atrapalhar – essa capacidade que os espíritos têm de movimentar esses membros insensíveis sempre me fascinou.

Nosso corpo se acomodou na cadeira rotatória; Helena colocou o telefone no colo e então deslocou todo o meu peso para as costas até o encosto inclinar e ela poder colocar meus pés cruzados em cima da mesa.  Do mesmo jeito que qualquer um quase sempre a veria ao entrar em seu escritório.

A vi digitando o número de telefone da central e senti quando ela colocou o fone na minha orelha. Do outro lado, a voz de Joseph, um dos nove membros do Conselho da Stella Bianca e o responsável pela oitava unidade, atendeu ao telefone.

- Joseph, Oitavo Conselheiro falando. – a voz dele parecia distante, um tanto preocupada...

Será que aconteceu mais alguma coisa, além do ataque à minha unidade?

- Quem não sabe se controlar é tão sem defesa como uma cidade sem muralhas.

Os códigos de segurança são ditados populares? Estranho e... Interessante.

- Quem toma cuidado com o que diz está protegendo a sua vida, mas quem fala demais destrói a si mesmo. Alanna, é você? Sua voz está estranha... O que aconteceu? Perdemos contato com vocês desde ontem de manhã... E como sabe os códigos? – ele parecia mais atento, mais presente.

- É e não é Alanna... – Helena desenhou um sorriso triste em nossos lábios, olhando para Nilton de forma a pedir-lhe que saísse. Meu pai sorriu tristemente e balançou a cabeça em afirmativa enquanto fechava a porta atrás de si, apenas minha cadeira de rodas ocupando o meio do tapete. – Tenho tanta saudade de você e do nosso brotinho de gente... – nossa voz ganhou uma inflexão de tristeza, Helena enrolando o fio do telefone no dedo de modo distante.

- Helena...?uma pausa que julguei ter um tom de incredulidade. O quê...? – outra pausa, dessa vez mais longa. - Como?

- Demônios liderados por uma Súccubo chamada Éris nos atacaram. Não sei como eles entraram, mas estavam atrás dos globos-arabescos do poço... – nossa voz saiu baixa, enlutada. – Eles arrancaram minhas asas e quebraram meus cornos antes que eu pudesse reagir, e então me mataram quando me recusei a ajudá-los... – Helena tirou os pés da mesa e se endireitou, colocando o telefone em cima da madeira. – Se Alanna e Davi não tivessem aparecido, eles provavelmente teriam conseguido o que queriam...

Joseph ficou em silêncio por um longo tempo, nós duas ouvindo apenas sua respiração, antes dele se decidir a falar.

- Quantas baixas? E eles levaram outros globos-arabescos, imagino...

Helena ergueu o olhar para a tela do computador e mexeu o mouse, a tela se acendendo do descanso, e leu os números que Nilton tinha escrito minutos antes.

- Duzentos e sessenta e sete mortos e cinco em estado grave na enfermaria. - engolimos em seco. Ambas queríamos fazer isso.

Eu não tinha ideia de que tantos de nós estavam mortos. De que tantos que eram parte de minha família não existiam mais. Os Fae Padrinhos e Madrinhas deles vão pirar quando descobrirem, especialmente por não terem nem sentido quando o laço de sangue se desfez, caso contrário, estariam tentando entrar aqui desde muito cedo.

- A maior parte dos mortos são membros humanos da unidade... Dos que estão vivos, a maior parte estava ou está em missão... Davi está convocando-os de volta... – Helena fez uma pausa, olhando para o teto com arabescos de folhas e flores num tom opaco de cinza devido à ausência de um comandante, com ar tristonho. Eu gostaria de poder consolar seu espírito, mas não tinha ideia do que falar. – Eles levaram muitos globos-arabescos... Algumas Chichihuateteo, Kurupi, Ao Ao, Boitatá, e muitos outros seres cujos atos e poderes os colocam no mesmo nível dos Demônios... Não sei quantos ao todo. – senti a Glaistig franzir os lábios com desgosto, antes de baixar o olhar novamente e começar a traçar círculos com os dedos na superfície da mesa.

- Meu Deus... O que eles querem?a voz dele estava com um ar descrente e quase desesperado.

- Não sei, Jos... Só sei que você precisa enviar alguém para comandar a unidade e remanejar gente para repor o que perdemos... Nilton e Davi, que são os mais graduados sobreviventes, estão segurando as pontas aqui, mas não vão durar muito tempo...

- Vai ser difícil, Lena... Só a primeira unidade está intacta...

- Como assim? – só a primeira unidade intacta?

Espíritos...

As outras unidades também foram atacadas?

- A oitava unidade não é a única que foi atacada... Os Demônios deram o ar de sua graça nas outras também. Não conseguiram nem se aproximar da primeira por causa das defesas, mas conseguiram entrar na segunda, na sexta e na sétima e levar muitos globos arabescos... Na sétima, levaram até mesmo os que Agloolik, Akhlut e Sedna protegiam...

- E a terceira, a quarta e a quinta?

- A terceira e a quarta são as unidades com maior efetivo. Sofreram algumas baixas, mas os Demônios foram afastados. A quinta eles quase conseguiram. Foram afastados, mas baixas altas também.

- Mas no final, a oitava levou a pior, por sempre ter sido a com menos membros. - Irritada, a Glaistig trincou meus dentes tão fortemente, que cheguei a sentir medo que eles acabassem se quebrando.

- Infelizmente... Nas outras que eles conseguiram entrar, só conseguiram porque a maior parte das pessoas estavam em missão...Joseph fez uma pausa, talvez esperando que Helena dissesse algo, mas ela permaneceu teimosamente em silêncio. Você sabe que a culpa não é do remanejamento de membros, mas sim porque o recrutamento nas Américas sempre foi baixo. Tanto entre os humanos, como entre os seres dos Setes Mundos. Os que vivem no continente americano ajudam a Stella Bianca de modo informal, não se ligam à Ordem definitivamente, como nas outras unidades... E não estou nem falando dos Fae Padrinhos e Madrinhas.

- Eu sei, Jos... – a nossa voz tinha voltado ao tom tristonho. – Ainda assim, eles precisam de um novo comandante...

- E eu vou providenciar um novo comandante, ele deve chegar até o fim da semana. Mas quanto ao resto do efetivo, vão ter de se virar... Vou tentar encontrar gente da Sétima Unidade disposta a ajudar a caçar quem os Demônios levaram, mas não posso garantir nada... Acredite quando digo que a primeira está uma loucura por causa desses ataques sincronizados.

- Acredito... – aparentemente, não havia mais nada a dizer de fato, ao menos, relacionado à Stella Bianca. Mas havia um pouco de tensão no espírito de Helena. Havia mais a ser dito.

- Fala... – murmurei para ela, e seu rosto me sorriu suavemente no labirinto.

- Cuida bem do nosso brotinho de gente. Encontre uma Glaistig não-sanguinária para guiá-la durante as próximas metamorfoses e ensiná-la a se controlar quando a sede vier. Quanto mais cedo melhor... Falta pouco para a próxima...

- Vou fazer isso...Joseph parou, e eu pude perceber que a voz dele estava embargada. Era estranho para eu saber que os dois estavam juntos em segredo e contra as normas não-escritas da Ordem, e que inclusive tinham uma pequena Glaistig. Nada, absolutamente nada em Helena indicava tal fato. Imaginei quantas metamorfoses a filha dela tinha. Se ela tivesse o meu equivalente em anos...

Me senti culpada com essa possibilidade, porque indicaria que eu tinha tido mais tempo com Helena do que a própria filha dela.

- Helena...

- Sim?

- Posso conhecer sua filha?

Ela sorriu-me.

- Claro. Estava nos nossos planos trazê-la para a unidade em dois anos, quando ela aprendesse a controlar a sede. Não sei se vai continuar sendo esse tempo, mas você vai conhecê-la. – sorri para ela. – E não se culpe. Ela é minha filha de sangue, você é minha filha do coração, e amo as duas mais do que jamais amei a minha própria vida.

Mordi o lábio com sua declaração, sentindo meu peito apertar antecipadamente de saudades da minha... Mãe.

- Vou sentir sua falta... – Joseph falou após algum tempo. Sua voz me parecia a de alguém que chorara, e queria continuar chorando, mas se esforçava para não fazê-lo.

Helena moldou nossos lábios num sorriso triste, mas não respondeu o mesmo.

Ela não sabia o que a esperava no pós-passagem. Nenhum de nós que provávamos a mortalidade sabíamos. Era um mistério que deveria permanecer até quando morrêssemos.

- Amo você. – foi tudo que ela disse antes de desligar o telefone e deixar algumas lágrimas escorrerem pelo nosso rosto.

Respiramos fundo, Helena provando uma última vez a maravilhosa sensação de ar entrando e saindo de nossos pulmões. E então, a Glaistig abandonou meu corpo suavemente, o frio da morte que envolvia seu espírito me abandonando e cedendo lugar ao calor dos vivos, mas deixando, ainda assim, uma sensação de abandono e saudade.

Essa sensação aumentou quando a vi sorrir-me uma última vez com seus dentes afiados e olhos castanho-outono, segundos antes de se deixar fazer a passagem, se desfazendo em flocos de luz que se dissolveram no ar como vapor. Mal tive tempo de acenar em despedida.



Alanna observou o lugar onde o espírito de Helena estava segundos antes, deixando lágrimas caírem de seus olhos e morrerem na camiseta branca da enfermaria sem controle, fungando quando ficava mais difícil de respirar.

O telefone à frente dela tocou de repente, assustando a garota. Fungando de novo, puxou o fone do gancho e o colou à orelha.

- Alanna, Oitava Unidade. – teve de parar no meio da frase para pigarrear e recuperar a voz; além disso, ela pode perceber como sua voz estava chorosa e embargada.

- Ela já foi, Alanna? – a voz de Joseph a alcançou, e Alanna mordeu o lábio com força, sentindo a dor que se ocultava por trás da fala suave. A voz dele nunca tinha um som tão suave, tão liso.

- Já. – ambos ficaram em silêncio por alguns segundos. – Sinto muito, Joseph. – se forçou a murmurar, a voz saindo fraca, enquanto os olhos deslizavam pela lista de baixas na tela do computador, sentindo-se diminuir na cadeira a cada nome.

- Obrigado. – ele parou de novo, e ela pode ouvir quando ele respirou fundo e se recompôs. – Nilton é o membro de mais alta patente, correto?

Ali estava, a dureza à qual ela estava acostumada. Não pode se evitar de sorrir minimamente por saber que algumas coisas permaneceriam iguais.

- Sim, senhor.

- Coloque-o na linha, por favor.

Alanna olhou para sua cadeira do outro lado da mesa e deixou um som estrangulado sair da garganta.

- Só um instante, senhor... Helena esqueceu de me deixar na cadeira de rodas...


Antes de afastar o fone e gritar pelo pai, ainda ouviu Joseph rir e deixar um sussurro dizendo “A cara dela fazer isso” escapar.