12 março 2016

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 4: De Águas Sagradas

Antes de entrar no corredor onde a Súccubo sumira, nos abaixamos e Helena pintou as pontas dos dedos de minhas mãos com o carmim do sangue, pronunciando um feitiço que nos guiaria instintivamente até o Demônio. Particularmente, eu torcia que não houvesse mais nenhum outro na unidade, mas considerando que nenhum dos sobreviventes estavam soltos, provavelmente existiam mais alguns, garantindo que permanecessem onde quer que estivessem, sem causar problemas. Tomara que Davi não tenha problemas.

Minhas pernas finas nos levaram rapidamente pelos corredores de pedra, os tênis rangendo vez ou outra com o atrito, mas no geral, Helena sabia se movimentar silenciosamente, mesmo com um corpo estranho.


Depois da terceira curva que fizemos, ainda não tínhamos visto sinal de vida, e foi quando os reflexos de Helena nos salvaram: um dardo semelhante a uma agulha atingiu o ponto onde minha cabeça estivera milésimos de segundos antes.

Víramos meus olhos de cores piscantes na direção de onde a arma viera, vendo a Súccubo ali, a expressão do rosto assassina. Podíamos ouvi-la rangendo os dentes de raiva enquanto abaixava a frente do corpo de modo felino e predador. Ouvimos a seda se rasgar, e uma cauda longa com um ferrão ameaçador na ponta surgiu atrás dela.

A filha da mãe conseguiu materializar parte do corpo real no corpo hospedeiro...

Inferno. Ela é realmente poderosa...

Vai piorar... a voz de Helena sussurrou em minha mente, e engoli em seco, vendo Éris arranhar a parede com as unhas, tirando areia, acumulando-a em sua mão num montículo. Na outra mão, ela usou a unha do polegar para cortar a pele do indicador, deixando duas gotas de sangue caírem na areia enquanto sussurrava palavras na língua dos Demônios que eu nunca aprendera e quero continuar sem aprender. Quando terminou – menos de dois segundos –, ela assoprou a areia na nossa direção.

A areia com sangue não voou interminavelmente nem caiu no chão logo em seguida. Ela pareceu triplicar de quantidade enquanto se acumulava em pleno ar até que as formas de uma Esfinge, com seu rosto de mulher, asas de águia e corpo de leão se delinearam. Rugindo de forma amedrontadora, o ser conjurado voou na nossa direção rapidamente, crescendo gradativamente.

Helena nos tirou da rota de colisão da Esfinge, voltando pelo caminho que tínhamos percorrido. Enquanto ela corria, controlei minha cabeça e olhei para trás, meus olhos se arregalando quando vi a Esfinge aterrissando momentaneamente na parede para se impedir de desacelerar, pulando e girando com a ajuda das asas para continuar em nossa perseguição, o lugar estreito não a atrapalhando em nada.

Pelo Ciclo. Ela era esperta demais.

Devolvi o controle total do meu corpo para Helena, sentindo-me amedrontada.

Uma Esfinge. Eu estava sendo perseguida por uma Esfinge.

Cara, Esfinges pertencem ao Primeiro e ao Quarto Mundo – ok, só as do Quarto Mundo possuíam asas. As únicas que eu conhecia eram as guardas das unidades um, dois e cinco. E elas eram muito legais, me ensinaram muito sobre seus mundos. E adoravam brincar com crianças como se fossem grandes gatos – com bolinhas de lã e de papel e lasers e coisas do tipo. Ser perseguida por uma tendo tantas lembranças legais com elas é... É... Um inferno? Sim, um inferno.

Saímos no salão central. Sem parar de correr, Helena saltou sobre o poço e arrancou a blusa de um dos Demônios mortos, mergulhando o tecido na água sagrada e ficando preparada, na direção de onde a Esfinge viria, afastada do poço.

Segundos depois, o ser de areia emergiu do corredor, rosnando e voando rapidamente em nossa direção, disposta a cravar aquelas apavorantes unhas no meu pescoço, peito ou qualquer lugar do tipo... Enfim, no meu corpo.

Nossa boca voou, sussurrando palavras, conectando a água do poço à que encharcava o tecido. Helena movimentou a blusa como se ela fosse ondas se erguendo do mar, e a água do poço fez o mesmo, rodeando a Esfinge e engolindo-a, seu grito enquanto explodia e se desintegrava me deixando surda. A areia que caiu dentro do poço queimou, virando vapor e deixando de existir.

A água do tecido evaporara como consequência do feitiço, por isso, Helena deixou o pedaço de pano cair, postando meu corpo em posição de luta e esperando.

Coisa que não fizemos demais: nem bem meio minuto tinha se passado desde que Helena destruíra a Esfinge e Éris saiu de dentro das sombras do corredor, saltando o poço tão facilmente quanto a Glaistig com quem eu dividia o corpo tinha feito, rosnando e espumando como um cão raivoso, seu movimento de pernas – com os pés agora desnudos – rápido demais para Helena previr que ela pretendia aterrissar em cima de mim.

Despenquei no chão, a Súccubo em cima, um joelho de cada lado de meu tórax, seu peso me oprimindo, o ferrão do rabo voando na direção do meu rosto. Helena virou a cabeça, o aguilhão atingindo o chão, e então virou de novo, a ponta mortal atingindo a pedra uma segunda vez.

Antes que a terceira investida me matasse e enviasse Helena para sabe-se lá onde, a Glaistig sussurrou para a terra. A pedra ondulou debaixo de nós, especialmente ao meu redor, erguendo Éris e a atirando para o poço. Com um grito agudo, asas monstruosas e vermelho-vivo de pterodátilo rasgaram a pele humana e o tecido vermelho; habilidosamente, a Súccubo manobrou no ar e pousou no muro de proteção, ofegando, nos encarando, sentadas no chão do outro lado do poço.

Agora que ela parara, pude perceber que ela não tinha possuído alguém, mas sim mascarado sua forma real, vestindo a pele de alguém, literalmente. Até lutar contra Helena, ela tinha controlado seu poder muito bem, para que ele não degradasse a pele que a mascarava; mas agora, usando magia e liberando partes de seu corpo real, a pele efervescia em alguns pontos, derretida e raspada em outros, expondo o couro duro, avermelhado, maleável e com poucos pelos que era o que ela realmente era. No rosto, apenas um dos encantadores olhos azuis e orientais permanecia, o outro um horrendo globo úmido, a pele parecendo rasgada ao redor dele, a íris de um vermelho venenoso, similar à coloração do mar quando ocorre a maré vermelha, a pupila horizontal e fina como um abismo que ia até as profundezas da terra. Aquele olho estava fixo em mim, preenchido com ódio, malícia e maldade.

Helena nos ergueu. Fracamente, eu sentia meu corpo dolorido, e gemi só de imaginar a dor real e sem barreiras que eu sentiria quando a Glaistig partisse.

Encaramos a Súccubo, que deslizou uma das garras que surgira em suas mãos com o derretimento da casca pela água, atirando as gotas aderidas em nossa direção, os lábios ainda humanos suspirando magia.

A água, mesmo sagrada, ainda era água, sujeita à magia quando em pequenas quantidades, como Helena provara minutos antes. Aquelas gotas se transformaram em vespas fatais que voejaram em nossa direção habilmente, forçando Helena a fazer malabarismos e a correr para não ser atingida: os ferrões injetariam água sagrada, que a expulsaria de meu corpo e me deixaria à mercê de Éris.

Enquanto corríamos, Helena esfregava o meu indicador e polegar febrilmente, sussurrando a mesma palavra seguidas vezes. Pude ver pela ligação entre nossas mentes que ela estava tentando acender fogo entre meus dedos.

Mas meu corpo era humano sem dotes mágicos, além dos de Shaman, e a tarefa que ela tentava realizar, mil vezes dificultada graças a esses fatos.

Por isso, enquanto tentava desenfreadamente evitar as vespas de água, não percebemos quando a Súccubo pairou sobre nós e então caiu com violência.

Do fundo de minha mente, só pude observar como nós e Éris nos engalfinhamos, ambas tentando desesperadamente ganhar vantagem sobre a outra enquanto rolavam no chão de pedra, trocando chutes, pontapés, mordidas e arranhões. Por vezes, a Súccubo conseguia ficar por cima, em outras, Helena é quem superava Éris. Mas nenhuma superava a outra exatamente. Ambas eram muito fortes, muito determinadas em qualquer que fosse o objetivo.

Mas em algum momento, Helena vacilou. Se por estar lutando com um corpo estranho, por não estar mais viva ou por qualquer outro motivo, não sei, mas ela vacilou, e Éris se aproveitou disso. Se ela bateu a minha cabeça no chão ou sussurrou um feitiço de atordoamento, não tenho ideia, mas ela conseguiu deixar a mim e a Helena aturdidas.

Só percebi que a Súccubo estava me jogando no poço quando senti a água lamber minha pele ao atravessar o uniforme.



Quatro Demônios de médio escalão jogavam cartas tranquilamente, supostamente, guardando a sala onde os sobreviventes estavam presos. Davi engoliu em seco, vendo as presas anormamente grandes que se entrecruzavam fora das bocas, e os olhos de tons venenosos de verde e azul. Se não estivesse gastando tanta energia no feitiço de invisibilidade, poderia tentar lutar contra os seres, mas como a situação não era essa, só podia torcer para que alguém dentro da sala estivesse em condições de acabar com os guardas.

A porta que eles guardavam era a da sala de reunião. Ironicamente, uma das que tinha a porta mais resistente de todas na unidade. Com o sistema eletrônico quebrado, pelo que ele percebia, somente magia destrancaria a fechadura.

O Feiticeiro tinha acabado de pegar sua varinha e se preparava para abrir a porta, quando ela estremeceu e o fez saltar em seu lugar, temendo que ela explodisse de dentro pra fora – mesmo que ele soubesse que isso não aconteceria.

Me deixem sair, para que eu possa me embebedar com seu sangue e mandá-los de volta para o buraco de onde saíram! — Davi engoliu em seco uma segunda vez ao reconhecer a voz de Nilton.

“Ele não tomou o remédio, e pelo jeito também não se alimentou nas últimas horas...”, esse pensamento cruzou a mente do rapaz, sentindo as mãos suarem.

Não era novidade para ninguém na ordem que Nilton era um Vampiro, ironicamente, bipolar: na maior parte do tempo, se ele tomasse os remédios e não ficasse muito tempo sem tomar sangue, era um “rapaz” muito civilizado, que não se entregaria aos instintos assassinos típicos da maior parte da sua raça. Se não fizesse nenhum dos dois por um tempo prolongado, se tornaria o Vampiro mais amedrontador, forte e assassino que já tinham ouvido falar – de fato, antes de começar a tomar os remédios, receitados ironicamente por um psiquiatra recém-transformado em Vampiro de seu antigo clã, fugir e acudir à Stella Bianca, essa era a fama que ele tinha carregado por um longo tempo.

Davi sabia que, nos últimos sete anos, o Vampiro tinha tido algumas recaídas, nas poucas vezes que ele e Alanna tinham sido capturados em missões. Todas essas vezes, quem os tinha capturado queria usar o poder da filha adotiva do Vampiro de alguma forma – Shamans eram raros nos tempos modernos, e um com a capacidade de Alanna, mais ainda: necromantes eram loucos para terem o próprio Shaman de estimação. Todas as vezes, quem o tinha feito terminava com os pedaços espalhados por alguns quilômetros, e Nilton saía ensopado de sangue e carregando Alanna protetoramente nos braços. A garota podia não ser filha de sangue dele, mas isso em nada alterava o fervor paterno com o qual ele protegia a Shaman. Ele mataria um país inteiro se isso significasse que ela estaria bem.

Era quase pior que um Fae da casta dos Padrinhos e Madrinhas. Eles matariam um planeta inteiro. Nilton não estava nesse nível, ao menos não ainda.

Davi previu que a cena de Nilton ensopado de sangue carregando Alanna se repetiria, assim que destrancasse a fechadura quebrada. O Vampiro tinha bons motivos para reproduzir tal cenário.
Deu de ombros.

“Ele vai limpar os Demônios restantes e salvar a Alanna, livrando o meu pescoço dos instintos super-protetores da minha mãe, e é isso que importa.”, e agitou a varinha na direção da porta.

Só torceu para que Nilton não o confundisse com um inimigo.



A porta explodiu para fora, batendo na parede com um estrondo e tremendo nas dobradiças. Dois Demônios ainda tiveram tempo de se erguer e olhar na direção da sala, mas logo estavam caídos no chão, sangue se acumulando debaixo deles e com enormes aberturas provocadas por garras e presas nos peitos e nos pescoços. Nenhum deles sequer viu o que exatamente os atingiu.

Davi deixou o feitiço se desvanecer enquanto se aproximava dos quatro corpos, Nilton agora visível após não se movimentar mais na sua velocidade sobre-humana. Ele estava de cócoras, segurando um dos corpos, se alimentando do líquido rubro, e seus olhos escuros brilhavam em tons de roxo, especialmente quando seguiram os movimentos do Feiticeiro. Ele parou de sugar o sangue, lambendo os lábios antes de falar.

— Você está com o cheiro da Alanna... Cadê a minha filha? — deixou o corpo cair e se levantou, encarando Davi com um ar que mesclava preocupação e instinto assassino.

— Três Demônios a levaram para uma tal de Éris... E os outros?

— Lá dentro, feridos... — Nilton movimentou o braço ao apontar para a sala, e Davi viu um corte profundo que se fechava rapidamente no bíceps. — Vou atrás dela, você cuida deles.

Davi só teve tempo de afirmar com a cabeça antes de Nilton sumir atrás da Shaman.



Foi fácil encontrar o rastro da filha. Só precisou seguir o de Davi e então o da Súccubo Éris por um tempo. O cheiro da garota estava mesclado em partes iguais com o de Helena, por isso Nilton logo chegou à conclusão de que o poder de Shaman tinha emergido numa crise e agora ela dividia o corpo com a antiga líder da unidade.

Tinha a sensação de que, mesmo com toda a sua velocidade, não estava indo rápido o suficiente para salvar a filha e capturar Éris – ele sabia que precisavam descobrir o que os Demônios queriam e que apenas a Súccubo tinha a resposta completa. Seu instinto, fazendo suas entranhas se apertarem, encolherem e se retorcerem, dizia que ele teria de escolher.

Bem, ele também sabia que, se tivesse de escolher, seria uma escolha fácil de fazer.



Quando emergiu no salão central, viu Éris na beira do poço olhar para ele com horror preenchendo suas feições ao ver todo o sangue que ensopava suas roupas – provavelmente, sentindo o fedor de enxofre dos outros Demônios mortos também – e então correr na direção do elevador, encolhendo as asas e se enfiando no cubículo, a porta de metal se fechando às costas dela.

Nilton praticamente voou para o muro de proteção, ignorando a Súccubo, se inclinando e vendo Alanna afundando através da água límpida, mexendo os braços desesperadamente, as últimas bolhas de oxigênio subindo e explodindo na superfície.

Respirou fundo e então mergulhou atrás da filha, sentindo o sangue impuro nas roupas queimar em contato com a água sagrada.

Com algumas braçadas na direção do fundo, alcançou Alanna, cujos olhos tinham se fechado e o corpo tinha parado de lutar. Com um braço, enlaçou o corpo pequeno da filha, passando-o debaixo das axilas da garota, e com os outros membros, se impulsionou para cima.

Não parou para apreciar o ar entrando por seus pulmões, nadando para o muro e puxando Alanna consigo tão rápido quanto conseguia, por perceber que mesmo com o ar, seus pulmões não tinham começado a trabalhar. Uma vez que estava em terra firme, iniciou o processo de massagem cardíaca e respiração boca a boca – ele nunca imaginou que teria vontade de agradecer Helena e Melinda por obrigarem-no a saber como realizar tais técnicas.

O Vampiro estava quase perdendo as esperanças de trazer a criança de volta, quando ela de repende tossiu e cuspiu água, o coração começando a bater num tranco. Com cuidado, ele a virou de lado e massageou suas costas, esperando que ela recuperasse o fôlego. No instante que a respiração dela adquiriu um ritmo normal, Nilton a puxou, abraçando-a com força e enterrando a cabeça dela em seu peito, soltando a própria respiração, sentindo lágrimas de alívio se formarem em seus olhos.

Alanna o abraçou de volta, com pouca força, sentindo-se fatigada. O sangue nas roupas dele ainda queimava e evaporava por causa da água do poço, mas ainda assim, ela o via e sabia o que aquilo significava.

— Esqueceu o remédio? — perguntou num tom fraco e brincalhão, a voz quase sumindo, sentindo-se protegida nos braços do pai.

— Pois é... Uns Demônios aí devem ter roubado... — respondeu no mesmo tom, a voz preenchida com falsa calma. Um riso fraco escapou dos lábios de Alanna.

— Por um instante, achei que eu já era, pai... — murmurou, se apertando ainda mais contra o tronco do Vampiro, lembrando de quando ele tinha acabado de adotá-la e a única forma de fazê-la dormir, mesmo com Helena lendo para ela, era acomodá-la ali, sentindo o cheiro suave de eucalipto e limão que emanava dele e a sensação de segurança que ela sentia quando abraçada por ele. Como se estivesse envolta numa muralha intransponível.

— Não importa a distância ou o que eu tenha de enfrentar... Eu sempre vou te salvar, filha. — a apertou mais forte contra si quando sentiu ela apagar, e deixou algumas das lágrimas presas em seus olhos escorrerem quando os fechou, beijando de leve o topo da cabeça de Alanna.


Deu-se alguns minutos para se controlar, antes de envolver os braços dela em torno de seu pescoço e pegá-la no colo, um braço nas costas e outro nos joelhos, e levá-la para Davi – feitiços de cura podiam não ser seu forte, mas ele ainda podia usar a magia para extrair a água dos pulmões da garota.