26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Interlúdio: CISMA

“Waiting for my damnation — your prosecutor's here
In my own accusation — you can't run from yourself
Oh we're living these lies all alone
So come on and throw the stone”

“Esperando pelo minha danação — seu acusador está aqui
Na minha própria acusação — você não pode correr de si mesmo
Oh, nós estamos vivendo essas mentiras totalmente sozinhos
Então venha e atire a pedra”

(Blood on My Hands – Xandria)

Observou a mansão se erguendo em meio às casinhas organizadas à distância, a inexistência de uma muralha destacando a vila Lafayette, uma sensação de saudosismo preenchendo seu peito após quase dez anos fora daquela dimensão. Sentiu uma mão em seu ombro, e sorriu para seu mestre Leonardo.

— Preparado, Adrien? — o Observador sorria de modo encorajador. O Lycan mais novo limitou-se a acenar afirmativamente.


— Por que não conversa com a aniversariante? — Tomás bateu em seu ombro, uma taça de vinho nas mãos, sentando ao lado de Adrien. O “rapaz” engasgou com o conhaque, olhando para onde Elizabeth, a irmã caçula da esposa humana de Joseph, estava sentada entre a irmã e o pai. A garota, que estava completando 15 anos, tinha os cabelos negros e encaracolados presos com uma rede de pérolas brancas, os olhos verdes, intensos e vívidos se destacando na pele pálida. E não apenas isso. Era uma Mensageira, com seu dom palpitando em sua voz cada vez mais forte conforme seu aniversário de dezesseis anos se aproximava, quando a barreira entre espíritos cairia. Era somente por causa daquilo que ele e Leonardo estavam permanecendo na vila que pertencia ao clã Lafayette.

Do outro lado do salão, viu Elizabeth sorrir em sua direção, discreta, os lábios rosados mexendo-se de forma tão suave quanto pétalas de rosas cor-de-maravilha ao vento, e sorriu em resposta quase sem pensar, sua fera interior praticamente o intimando a falar com a garota. Ignorando-a, olhou para o velho amigo e irmão de transformação.

O tempo parecera não passar para Adrien quando se analisava sua forma física, mas com Tomás, a história era outra. O Lycan não era mais tão magro, deixara a barba crescer de forma respeitosa e, estranhamente, agora parecia mais um Lafayette do que nunca, embora Joseph e outros Lycans viessem encorajando-o a começar seu próprio clã. Casado já era, com uma moça elegante de língua afiada e rápida de um clã Lycan menor, de Florença, que naquele instante praticamente pulava de mesa em mesa tal qual um beija-flor, lançando sorrisos e alegando tentar encontrar o par ideal para todos os solteiros, presentes ou não.

— Por que acha que eu deveria? — perguntou acima do som da animada música. Tomás sorriu, tomando mais um gole de vinho, antes de responder.

— Acredite quando digo que é como se as mulheres Lycan a tivessem criado, e não simples humanas. Exatamente o seu tipo. — Tomás ainda sorria quando apontou na direção da garota. Vislumbrou a esposa de Tomás, com cabelos de um castanho escuro como árvores sombreadas e um vestido à moda veneziana se inclinando na direção de Elizabeth e falando algo que trouxe um profundo vermelho as bochechas da garota enquanto relanceava o olhar em sua direção.



— Adrien, respire. — Tomás voltou a falar, rindo do nervosismo do amigo, que naquele instante parecia ser mentalmente o mesmo rapaz de dezessete anos que a aparência indicava. Mas não podia falar muito. Ficara, talvez, até pior quando se casara — e só tivera Joseph para acalmar seu nervosismo, coisa que realmente devia ser abolida por lei: se você precisava acalmar um batalhão antes de uma guerra, ele era a escolha; se precisava acalmar o noivo... Enfim, era melhor o Alfa ser proibido de tal tarefa. Ele realmente não sabia as frases certas para isso.

— Falar é fácil, não é você vai ter parentesco com o mestre Joseph... Você tem ideia do que é imaginar os filhos dele me chamando de... Tio? — resmungou, tenso e nervoso, balançando-se sobre os próprios pés, tentando espantar a carga de adrenalina que o percorria. — Especialmente com uma garota que sabe tudo que você fez, faz e vai fazer... — soltou um grunhido que podia ser de desgosto, parando de se mexer. Andou até a janela do quarto, espiando o jardim que separava a mansão das casas dos humanos e Lycans que formavam a vila. A decoração da festa terminava de ser arrumada pelos criados, correndo como abelhas operárias pelo lugar.

Tomás girou os olhos, a dica de um sorriso nos lábios meio cobertos pelo bigode e pela barba.

— Fique aí surtando, Adrien. Vou fazer algo mais útil, como verificar as coisas na cozinha. — saiu do quarto, a tempo de ouvir o riso de Adrien, ao lembrar que, quando falavam aquilo, nos tempos de recém-transformados, era sinônimo de que iam surrupiar algum doce ou salgado delicioso, sem que os cozinheiros os vissem, antes das refeições. Imaginar Tomás fazendo isso, com a aparência respeitável que adquirira, sem rir, era impossível.



Tinha terminado de descer a escada, decidido a pegar qualquer coisa na cozinha que lhe desse uma calmante overdose de açúcar, quando um criado esbarrou de leve em seu ombro. Continuou andando, virando a cabeça de leve para observar o criado que começara a subir a escadaria. Apesar da pele de brancura quase como ossos nus e de andar de forma meio encurvada, como que querendo se esconder, não havia nada que fizesse-o estranhar o criado, nem mesmo o cheiro, mesmo que não pudesse ver seu rosto. Dando de ombros, continuou seu caminho rumo à cozinha.

Tomás vinha voltando, flocos de açúcar cobrindo a barba, enquanto mastigava alegremente um pedaço do pão doce polvilhado com açúcar. Sorrindo ao ver Adrien, estendeu um pão-doce para o velho amigo, mas antes que o Observador pudesse pegar a guloseima surrupiada, enrugou o nariz, praticamente colando-o ao ombro direito de Adrien, antes de se afastar, os lábios repuxados num esgar.

— Você está cheirando à sangue. — resmungou.

Adrien franziu as sobrancelhas enquanto contorcia o pescoço para cheirar o casaco cinza-chumbo onde Tomás o cheirara. O cheiro era leve, férrico, e ao mesmo tempo o enjoou e deixou a fera exultante, enquanto sua mente viajava para o criado que esbarrara nele. Que não lhe deixara ver o rosto, com a pele parecendo um marfim polido. Não sentiria o cheiro de sangue à distância, era muito sutil. A conclusão o atingiu, e no segundo seguinte, corria na direção do quarto de Elizabeth, o coração batendo na garganta enquanto sua mente imaginava se ela estava bem, deixando um confuso Tomás para trás.



— O QUE VOCÊ FEZ?! — seus olhos se focaram em quem à pouco se passara por criado, e entendeu porque escondera o rosto, agora coberto do sangue vermelho de Elizabeth desde o nariz e escorrendo pelo pescoço, morrendo na camisa branca de algodão, o cheiro mais para ferrugem o deixando zonzo e a fera, atenta. Ele sempre se lembraria daquele rosto que invocava todas as noites antes de dormir, para que nunca esquecesse o irmão gêmeo.

Louis nada mudara. Talvez tivesse ficado com os cabelos e pele mais claros, mas só, embora os olhos brilhassem como vinho-tinto naquele momento. Os ossos continuavam recobertos de músculos magros. Continuava com as feições mais alongadas.

Continuava a parecer ter quinze anos, mesmo que não se vissem há mais de dez.

Os olhos de Adrien brilhavam bronze e voltavam ao azul, quando ele olhou de novo para Elizabeth, uma das mãos cobrindo o pescoço dilacerado pelos dentes de Louis, apoiando-se fracamente na parede, os olhos piscando, lacrimejantes, entrando e saindo de foco. Sentiu seu peito se rasgar por dentro com a cena. Como se alguém estivesse arrancando seu coração com as mãos nuas enquanto ele batia, cada respiração e batida enviando pontadas agudas. Olhou de novo para Louis, um sorriso de lado esticando os lábios finos do Vampiro.

Deixou a fera assumir o controle da batalha que se seguiu. Avançou na direção do irmão gêmeo, e os dois se atracaram numa violenta troca de socos, mordidas e garras que cresciam voluntariamente, suor e sangue ensopando-os.

Por um instante, conseguiu imobilizar o Vampiro, jogando-o no chão de pedra polida, puxando-lhe os braços para trás, um de seus joelhos pressionando suas costas para baixo, enquanto suas mãos seguravam os pulsos. O elegante casaco e camisa estavam destroçados, ensopados de sangue, e os cortes que as unhas de Louis tinham provocado ardiam, e naquele momento, em que conseguiu vê-las mais atentamente, entendeu o motivo: tinham sido recobertas com prata. Louis contorceu-se como uma cobra, arranhando os pulsos de Adrien, conseguindo se libertar quando o Lycan uivou de dor, totalmente consciente de que estava cheio de cortes que demorariam a fechar e que doíam mais que qualquer outro ferimento que já levara.

Por um instante, enquanto rolava no chão para escapar das garras de Louis, imaginou por que Tomás não o seguira, e sentiu o peito apertar de novo com medo pela vila. Algo acontecera. Algo muito sério. Ergueu-se num pulo, virando-se para Louis numa posição ameaçadora.

Quando o Vampiro se ergueu do chão, foi possível ver que ele não estava muito diferente, embora as marcas que cobriam seus braços fossem mais de mordidas fundas, destinadas a arrancar pedaços de carne se Adrien tivesse tido tempo suficiente para aprofundar mais as mordidas e puxar o rosto com força para longe.

— COMO PÔDE MORDÊ-LA?! — mal reconheceu a própria voz, tão cheia de ódio estava. Seu peito se erguia num ritmo irregular enquanto ele lutava para conter a fera. Não podia se transformar tão irritado. Não tinha ideia de quão habilidoso de fato seu gêmeo era, e isso podia significar perder. Isso se não perdesse o total controle e, após vencer Louis, saísse matando à torto e a direito.

Louis pulou para trás, assumindo novamente posição de luta, o peito se erguendo de forma ritmada, levantando o rosto para que mostrasse um sorriso vitorioso e sarcástico.

— Talvez porque você se recusou a seguir Savino! — Adrien rosnou com a resposta, sentindo os dentes de lobo perfurarem suas gengivas enquanto os outros dentes foram recolhidos. Era cada vez mais difícil conter a transformação, mas sabia que ainda não perdera o controle ao ver seu reflexo no espelho do quarto, com seus olhos ainda azul-claro.

— Foram eles que mataram o pappa! Como queria isso?! — voltou a avançar, e de novo estavam rolando no chão enquanto se espancavam.

Daquela vez, foi Louis quem levou a melhor: estava em cima do Lycan, quando Adrien tentou socar seu rosto e desviou; com a abertura, jogou um dos cotovelos com toda a força que possuía — e que não era pouca — bem no estômago do irmão gêmeo, onde as costelas começavam a se afastar. Sentiu os músculos cederem e ouviu Adrien tossir com falta de ar quando a força do golpe forçou o suco gástrico por seu esôfago, o ácido clorídrico queimando-lhe por dentro. Com Adrien sem fôlego por alguns instantes, estendeu as garras da mão direita para o lado esquerdo do peitoral do Lycan, bem onde sentia o coração pulsando rapidamente, alguns fios mantendo a camisa no corpo, com o local descoberto. As pontas tocaram a pele morena de sol e começaram a perfurar tão facilmente como ele cortaria manteiga.

Adrien urrou de dor quando sentiu as garras revestidas de prata cortando-o e, tão logo pode, agarrou os dois braços de Louis, afastando-os, batendo sua cabeça na do Vampiro com tanta força que sentiu outro corte se abrir. Se fosse humano, provavelmente ambos teriam conseguido um traumatismo craniano. Enquanto Louis ainda estava atordoado, jogou-o para o lado e se levantou. Antes que pudesse sequer pensar no que fazer, a voz de Elizabeth soou.

— PAAAAAAREM!

Sua postura era ereta e orgulhosa, apesar do sangue que cobria quase completamente o colo pálido. Seus olhos, antes de um verde tão brilhante, agora eram de um azul-claro, tão claro que era quase leitoso, frios, preenchidos de maldade e ódio. Parecia que nada restara da antiga Elizabeth. Isso ficou ainda mais evidente quando sorriu de forma maligna, antes de começar a falar.

Adrien via seus olhos no reflexo do espelho. Havia uma dor profunda neles, uma dor que nada nem ninguém seria capaz de descrever, ou até mesmo de entender. Nem mesmo ele era capaz de descrevê-la.



Tomás parou ao lado dele diante dos quatro principais túmulos em meio ao cemitério ao lado da igreja da vila. Estivera certo em temer pelos demais enquanto enfrentara Louis. Vampiros e Bruxos tinham atacado-os durante o final da preparação da festa. Várias pessoas, a grande maioria criados, tinham morrido. Sentia seu peito apertado, o ar passando fracamente através da garganta, enquanto forçava-se a permanecer diante dos túmulos, culpando-se e martirizando-se. Havia muita dor e tristeza nos olhos que agora seriam eternamente cor de bronze.

Joseph, Leonardo, Elizabeth e sua irmã mais velha, a esposa de Joseph.

Seu segundo pai, seu mestre, sua eterna amada e sua segunda mãe. Conhecia a maior parte dos criados mortos, e sentira tais mortes, mais por aqueles que ficavam que por qualquer outra coisa. Mas não com aqueles quatro. A morte deles era como se espinhos entrassem e saíssem de seus pulmões a cada respiração.

Joseph e Leonardo, atacados por uma horda de Vampiros e Bruxos enquanto conversavam na biblioteca, separados de outros Lycans e alguns Observadores. A esposa de Joseph, morta na cozinha junto de outra dezena de criados. E Elizabeth, que parara de respirar em seus braços, depois de amaldiçoá-lo por algum motivo que ele nunca saberia. Louis fugira no instante em que Elizabeth fincara a faca de ferro puro, uma das poucas coisas capazes de matar Bruxos, em si mesma. Ela sabia o que ia acontecer, afinal, adquirira a faca, embora ainda tentassem entender como tinham descoberto onde a vila ficava. Mas porque ela nãos os avisara? Ele não sabia, e não tinha ideia se um dia saberia a resposta.

Virou-se para Tomás, vendo a mesma dor da perda por trás dos olhos do irmão de transformação, e o abraçou com força.

— Você vai cuidar bem do clã, não vai, irmão? — com a morte de Joseph sem a existência de herdeiros, houve uma discussão sobre quem assumiria o cargo de Alfa — mesmo que pouquíssimos Lafayette tivessem sobrevivido ao ataque. A maioria acabou por concordar que Tomás era o mais adequado porque, querendo ou não, tinha sido educado por Joseph por mais de dez anos, e tinha se transformado num filho para o Lycan desde que fora transformado. Mesmo que não tivesse o sangue dos Lafayette, a alma era de um, estando em pauta uma mudança no clã, uma renovação, em que deixariam as antigas raízes para trás e fundariam novas raízes à partir de Tomás.

Tomás sorriu de leve, os olhos permanecendo inexpressivos por causa da tristeza.

— Claro que vou. — afastou-se, fitando Adrien nos olhos. — E você vai vingar mestre Joseph, certo? — apertou os lábios numa linha fina, e Adrien sorriu de leve.

— Pode levar um milênio, Tomás, mas vou. — sabia que aquilo era mentira, por causa da maldição. Mas que iria fazer tudo que pudesse para tal, iria.

O novo Alfa balançou a cabeça em afirmativa e afastou-se um passo, dando um aceno rígido de despedida com a cabeça.

Adrien suspirou e virou-se na direção da saída da vila, onde um grupo de Observadores o esperava. Os Lycans tinham uma aparência variada, mas os Drachen, não. Todos tinham aqueles traços orientais de olhos estreitos e puxados, e um deles se destacava devido ao cabelo branco caindo até os ombros com alguns fios vermelhos aparecendo e olhos que, como o dele, eram bronze derretido. Era tão alto quanto Adrien, o corpo com músculos medianos, usando vestes típicas de seu país em tons de azul-gelo, terra e preto, se apoiando numa bengala de madeira escura de ébano com diversas pedras preciosas pequeninas e brutas incrustadas ao longo da superfície irregular, como se fosse um galho pego ao acaso. Aproximou-se do Observador, que acenou de leve para ele.

— Está pronto, Adrien?

O Lycan balançou a cabeça numa rígida afirmativa.

— Sim, Hayato.

Hayato suspirou, enquanto seus olhos que demonstravam a sabedoria de milênios acenaram para os outros Observadores e para a única carroça carregando suprimentos.

— Então vamos para a Catedral. Os demais nos encontrarão lá para a batalha que se aproxima.

O grupo começou a se mover pela estrada de terra. Hayato mancava um pouco por causa de algum ferimento antigo, lembrando Adrien de Joseph, pois apesar de mancar, era ele quem ditava o ritmo rápido, o andar de um soldado em cada passada. Aquela comparação só fez o peito de Adrien doer mais, e os olhos, arderem com lágrimas não derramadas.



Só quando ninguém na vila Lafayette poderia ver ou ouvir o grupo, Hayato falou com Adrien, a voz com uma suavidade consoladora.

— Pode chorar agora, Adrien Padovani. Nenhum de nós irá julgá-lo, pois sua perda foi grande. — Adrien o olhou apreensivamente. — Lágrimas não são um sinal de fraqueza para nós, Observadores, como Leonardo deve ter te dito. São um sinal de que nossas almas estão vivas. — um sorriso preguiçoso se espalhou por suas feições. — E enquanto nossas almas estiverem vivas, nós temos esperança, independente de qual seja a esperança. — bagunçou um pouco os cabelos loiro-avermelhado, e Adrien sentiu a verdade por trás das palavras de Hayato, o Observador mais velho vivo, com recém-completados quatro mil anos como Observador — Adrien nem sonhava em saber quantos anos de vida o Drachen possuía.

Fungou uma vez, e enquanto caminhavam em direção ao portal para a Catedral, lágrimas silenciosas escorreram por seu rosto como rios solitários. As lágrimas que não se permitira derramar pelo bem de Tomás e de sua esposa, pois alguém tinha que segurar o novo casal Alfa dos Lafayette enquanto choravam suas perdas. Alguém que não fosse do clã. Alguém que não usasse aquilo contra ele para desmoralizá-lo. Alguém de fora, para quem as intrigas entre clãs pouco importavam.

E jurou novamente que Louis nunca teria paz depois daquilo.

Embora já fosse fazer isso por ser quem era...


Era sua tarefa como Observador, afinal de contas.