26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Epílogo: Canto À Vida

“Canto alla vita
Alla sua bellezza
Ad ogni sua ferita
Ogni sua carezza”

Canto à vida
À sua beleza
A toda as suas feridas
Toda as sua carícias.

(Canto Alla Vita – Giuseppe Dettori)

A porta se abriu, devagar. A moça de olhos verdes e cansados a encarou, aguardando Hayato entrar. Sabia que era o Observador Drachen. As vozes tinham lhe contado no instante em que ele chegara ao corredor.

- Você me enviou uma mensagem urgente, Elizabeth. – o Drachen sussurrou, fechando a porta atrás de si antes de mancar com a ajuda da bengala até a poltrona diante da Mensageira. – O que aconteceu?

Elizabeth lambeu os lábios secos e cruzou os braços com firmeza em torno de si mesma antes de falar, o olhar um pouco perdido.

- Tive uma visão, Hayato. Em cerca de quinhentos anos, nascerá uma Mensageira. A última. – virou o rosto para o Drachen, focalizando o olhar em seu rosto. – E nenhum Observador a encontrará. Estarão em ruínas. Estará prestes a enlouquecer quando chegar aos dezesseis anos, e Louis, o irmão gêmeo de Adrien, um Vampiro, a encontrará e a transformará numa Bruxa. E eles... Se amarão, de uma forma estranha, e trarão o Inferno sobre a Terra.

O Observador baixou o olhar de bronze derretido, algumas mechas do cabelo branco-puro se soltando da trança e caindo sobre o rosto exótico. Pensativo e sem dúvida alguma sentindo o peso de seus milhares de anos.

- Existe uma forma de impedir isso? De garantir que ela seja encontrada por um Observador? – a voz soou, parecendo vir de todo canto da sala de estudos. Ele devia estar abalado com a visão que ela tivera, para deixar que a própria magia influenciasse tanto o ambiente ao redor.

- Adrien. Ele precisa chegar até lá. E precisa ser eu a amaldiçoa-lo à eternidade. Meu espírito de Bruxo não fará a passagem enquanto a maldição não se completar. Garantirá que as coisas aconteçam. – deu uma pausa, sentindo os olhos marejarem. Quando voltou a falar, a voz tremia. – Mas preciso colocar outras coisas na maldição, ou Adrien provocará uma guerra entre Observadores e Clãs Lycans.

Hayato franziu as sobrancelhas, intrigado.

- Como ele seria capaz disso?

- Ele... Se apaixonará pela Mensageira. Mas, sem encontrar Louis num momento tão intenso, ela amará o herdeiro Alfa de um clã. E Adrien o matará, porque Lycans não foram feitos para a eternidade e esta o afetará muito, a ponto de ignorar o que deve ser feito. – Elizabeth murmurou, e cobriu a boca com a ponta dos dedos. Hayato viu os ombros sacudirem com um soluço mal contido.

- Você vai encontrar algo para contornar isso... – o Drachen murmurou de volta e estendeu uma das mãos para segurar a da Mensageira. Ela deu um pequeno sorriso de lábios, que logo murchou.

- Quer dizer que... Posso seguir com isso?

Foi a vez de Hayato sorrir, e apertou a mão que segurava antes de falar.

- Você é uma Mensageira, Elizabeth. Vocês nos lideram e ditam o melhor caminho a se seguir. Sem Mensageiros, todos ficam perdidos de como realmente agir na guerra. Não posso te proibir de fazer o que deve ser feito, e você não precisa de minha permissão. – respondeu, e soltou a mão fina.

A moça suspirou, apoiando as mãos no colo.

- Ninguém pode saber até que a maldição finde. E todos me odiarão por não saberem o que aconteceria sem minhas ações. – falou tristemente. – E precisa ser antes do casamento. Caso contrário, não terei forças para aceitar ser transformada em uma Bruxa.

- Eu saberei, e não te odiarei. – Hayato falou, a voz séria e cheia de propósito e algo de amargura.

O Drachen abriu e fechou as mãos em punhos diversas vezes. Ele sacrificara os filhos, tantos séculos atrás que já não tinha certeza de quanto tempo se passara. Elizabeth sacrificaria a si mesma. Quantos outros sacrifícios terríveis teriam de fazer em nome do mundo?



Abriu os olhos castanho-chocolate, e antes que pudesse se impedir, começou a chorar. Elizabeth sacrificara a própria felicidade e a si mesma para que ela, Arely, tivesse a chance de se tornar uma Mensageira plena.

Mas será que ela seria capaz de fazer esse sacrifício realmente valer à pena?


“Canto alla vita
Canto a voce piena
A questo nostro viaggio
Che ancora ci incatena”

“Canto à vida
Doce e feroz
Para essa nossa viagem
Que ainda nos acorrenta”


(Canto Alla Vita – Giuseppe Dettori)