26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 15: Descobrir

Depois da noite do estranho pesadelo, Allan e Arely se aproximaram novamente. Ele quem passou a ajudá-la todas as noites com as mãos em carne viva, e então permanecia com ela e a ajudava a dormir, inclusive permanecendo depois, garantindo que ela continuasse dormindo. E quando estava presente durante as refeições, o Lycan prestava atenção e, se achasse que ela mais tinha brincado com a comida do que se alimentado, a fazia comer mais. Não estava adiantando muito; ela continuava emagrecendo, e os pais dela ligavam preocupados todas as vezes que Arely dormia na própria casa, querendo saber se ela comera direito.

Os pesadelos eram constantes, muitos fazendo-a abraçá-lo e então chorar até que adormecesse de novo graças ao cansaço. Allan sentia-se impotente, incapaz de realmente fazer algo que a ajudasse, cada vez que os episódios se repetiam.

E ela mergulhara ainda mais fundo entre as vozes e a insanidade, incentivada pelo apoio dele — e pela implacabilidade de Adrien, claro. Sentia-se segura em fazê-lo, que ele a ajudaria e não deixaria que sua mente se perdesse para sempre.

Agora ela raramente perdia peças para Adrien quando jogavam, e sempre vencia, tanto que ele mudara o método e passara a usar simulações como num jogo de RPG, bem mais complicadas. O controle sobre o próprio espírito na hora de curar, de acordo com o próprio Observador, estava muito bom. Entretanto, as alucinações haviam piorado, e agora ela era capaz de descrever a sensação de ter o fogo tocando sua pele sem queimar, quando sequer havia fogo. Descrevia as flores silvestres do tal Jardim do Fogo Celeste. Dizia que tudo estava em chamas que não feriam. Que o fogo dentro dela pulsava com vida, querendo se libertar.

Ainda assim, o Observador não iniciara o teste para a Catedral com ela.



— O que ele está esperando, Ruby?!

— Mas que inferno, eu já falei que não sei! — a ruiva respondeu, socando a porta do armário, para que não socasse o irmão. Ou Adrien.

Estava tão frustrada quanto o irmão por Adrien continuar estendendo o treinamento de Arely, quando era claro que ela precisava pisar logo na Catedral para que não ficasse presa na insanidade. Seu treinador nada lhe contara sobre. Não tinha ideia do que ele pretendia, e isso a enlouquecia.

Ficaram mais alguns minutos no quarto do mais velho, encarando qualquer lugar, menos o outro, em silêncio. Por Deus, o que Adrien planejava? O que ele tinha na cabeça? O que estava esperando?

Ergueu a cabeça, vendo Allan ficar de pé num pulo e seguir na direção da porta. Franziu as sobrancelhas com a cena.

— O que você vai fazer?

— Conseguir respostas do idiota.

Ruby o viu fechar a porta à suas costas, e titubeou, pensando se o seguia ou não.

Com um suspiro derrotado, achando que não ia terminar bem, foi atrás. Talvez impedisse um desastre.



Quando chegou na sala, Arely já estava sozinha, olhando para a parede com um ar perdido, os papeis com as simulações não visíveis.

Abriu e fechou as mãos, controlando a raiva. Adrien saíra, sem ajudar Arely ou sequer avisá-los. Como ele tinha coragem de fazer aquilo, considerando o quão perdida nas vozes e na insanidade Arely estava, estava além de Allan.

Segundos depois Ruby estava ao lado dele; ouviu a irmã suspirar aliviada. Ela provavelmente estava esperando que uma briga se iniciasse, e agora estava aliviada que não seria assim.

— Vou falar com ele, mano, descobrir algo. Cuida da Arely? — a irmã indicou a garota sentada no chão com um movimento de cabeça, e então avançou para a saída da construção.

Allan mordeu a língua quando viu a irmã sair. Considerando o quanto ela respeitava o Observador, duvidava que ela seria tão insistente numa resposta. E se fosse, e ele respondesse por ela também ser uma Observadora, com certeza Adrien pediria para ela não contar para qualquer outra pessoa.

Mas ele precisava ajudar Arely, então ao invés de ir atrás da irmã, foi até a cozinha pegar um pote com gelo e voltou para a sala. A Mensageira continuava na mesma posição, sentada no chão e olhando para o ar com tanta atenção que Allan direcionou os olhos para onde o olhar estava fixo. Havia apenas o nada, como esperava.

Com um suspiro, sentou ao lado da garota e pegou as mãos apoiadas no colo, colocando pedras de gelo nas palmas vermelhas com cuidado. Além de um estremecer de frio, ela não reagiu. Aquilo o incomodou. Queria os olhos castanho-quente, que às vezes pareciam brasas, nele, assegurando que estava tudo bem com ela.

Levou o pote de volta para a cozinha. Quando voltou, Arely estava de pé, andando com passos lentos e confusos pela sala, estendendo a mão para tocar algo que apenas ela via. Sentiu-se culpado com a situação dela. Se ela não se sentisse tão segura com ele a ajudando, duvidava que ela teria afundado tanto na insanidade das vozes tão rapidamente. Os momentos de lucidez, em que ela conseguia voltar do meio das vozes e interagir com eles, estavam cada vez mais raros.

Estava com medo que ela não voltasse, mesmo depois de pisar na Catedral. O silêncio de Adrien sobre a situação não ajudava.

Envolveu os ombros dela com um braço e a guiou para o quarto, sentindo o peito arder com a fala de resistência da parte dela.

Queria a Arely de jeito doce, palavras brutas e fã de filmes de ação, luta e cheios de sangue de volta.



Vermelho vivo num fundo branco. A cada segundo, a tela diminuía, o sangue se espalhando mais e mais pela seda prata e pela renda branca, saindo em profusão do rasgo no pescoço. Uma faca de ferro puro em mãos. O cabelo negro preso num penteado elaborado se soltando, cachos se enrolando em torno dos ombros. E os olhos azul-leitoso, com uma luz maléfica de autoridade, fixos em Adrien.

Quem era ela?

Um sorriso sarcástico, de quem sabe tudo, se abriu nos lábios manchados de sangue, e ergueu a mão livre, apontando para o Lycan de olhos azul-claro.

— Te amaldiçoo, Adrien. Serás imortal ao tempo e ninguém nem nada será capaz de te matar. Descobrirás outros quatro Mensageiros depois de mim, e a quarta... Ah... Será o Corvo-Branco da Tempestade. Será a sua ruína. A maldição que coloco sobre ti fará ela te amar, e querer te odiar, e você... Amaldiçoo-te a ser incapaz de amar a contar de hoje. Terás uma pedra no lugar do coração. Seu juramento à Catedral te matará e a destroçará; se manterá emocionalmente afastado dela, mas por causa da fera não conseguirás deixar que outro se torne o Consorte e protetor dela. Não conseguirás se forçar a chamar outro Observador que a treine, forçando sua presença sobre ela, mas a pedra no lugar do coração te fará imune a isso. E ela chorará rios por você, e ainda assim, serás insensível a ela. E protegendo-a, morrerá em seus braços. Assim eu disse, assim você será amaldiçoado, Adrien. Você é só meu e de mais ninguém.



Rolou na cama, o sonho deixando-a agoniada, fazendo-a querer correr. Por pouco não caiu do colchão: Allan, acordado por seu súbito movimento, usou os instintos Lycan para segurá-la.

Não. Não um sonho.

Uma visão.

Lucidez a preencheu, emergindo de entre as vozes como há tempo não emergia, os tentáculos das coisas que elas diziam enroscados em sua mente e apenas esperando para arrastá-la, para fazê-la mergulhar entre elas de novo. Era tentador, com tudo que elas diziam, tanto conhecimento a uma virada de esquina. Mas naquele momento, não precisava disso, e as vozes sabiam. Pelo contrário, a incentivavam a ir em frente, a exigir respostas, e a guiavam.

Raiva pura e cega a invadiu. Não ouviu a voz de Allan, perguntando o que acontecera, não o sentiu tentando segurá-la; se esquivou dele, pulou da cama, e descalça, correu para o outro prédio, ignorando a grama seca e as pedrinhas pequenas e afiadas machucando seus pés. Allan devia estar seguindo-a. Pensou ter ouvido a voz dele chamando-a, mas não tinha certeza.

A raiva e as vozes a guiaram até parar diante da porta do quarto de Adrien. Deu três batidas fortes, como se o fizesse com pedras, e não com a mão, e não esperou uma resposta, escancarando o pedaço de madeira.

Adrien e Ruby levantaram de um par de cadeiras quando ela entrou de súbito, encarando-a com olhares ao mesmo tempo assustados e preocupados.

Será que Ruby sabia, e também mentira para ela? A amiga em quem ela se apoiava até pouco tempo atrás?

“Só uma parte” as vozes responderam. Não tudo. Não mentira para ela. Bom. Apenas uma pessoa com quem gritar.

Aproximou-se de Adrien com passos largos, os olhos castanho-chocolate fixos nas íris de bronze derretido, a boca uma fina linha de irritação.

— Seu idiota! Por que não me contou?! — ela enfiou o indicador no peito dele, e Adrien recuou um pouco. Agora ele parecia confuso.

Era um idiota mesmo.

— Do que está falando, Arely? — ele tentou segurá-la pelos ombros, mas a Mensageira afastou as mãos com um safanão e recuou alguns passos.

Da maldição que colocaram em você! Eu tinha o direito de saber que meu direito de escolha foi negado por ela!

O Observador fechou os olhos, os ombros caindo. Arely viu o peito se erguer quanto ele respirou fundo, quase soltando um suspiro. A Mensageira abria e fechava as mãos, impaciente para algo que ela não sabia o que era.

— Achei que você não estava preparada pra saber isso. — veio a resposta, e ela era a gota da água para Arely naquela relação que ficava cada dia mais complicada.

Sua mão direita se fechou com força, e então socou o Lycan no rosto. Adrien foi pego totalmente de surpresa, a cabeça virando enquanto recuava alguns passos. Ele levou uma mão à mandíbula, massageando. Aparentemente ela tinha mais força do que ele esperava.

— Você sempre me subestima! Sempre acha que não estou preparada para algo! — avançou de novo, e apesar da mão dolorida pelo que fizera, sentia vontade de socá-lo várias e várias vezes. Tinha trazido um alívio indescritível, como se a energia acumulada tivesse encontrado uma forma de se libertar.

— Estava tentando te proteger. — ele falou com uma voz débil, ainda não olhando-a de novo. Parecia não acreditar muito no que ele próprio falava. Parecia não ter coragem de olhá-la.

A Mensageira rosnou de raiva, empurrando o Observador. Adrien bateu contra a parede e a janela fechada.

— Pare de ser covarde e olhe pra mim!

Ouviu duas pessoas prenderem a respiração. Ruby e Allan? Provavelmente. Estava focada demais na raiva que tinha de Adrien para notar os arredores com perfeição.

Adrien afinal virou o rosto para ela de novo. O brilho nos olhos de bronze derretido era magoado, e aquilo ao mesmo tempo quis arrefecer e aumentar sua raiva. A influência que ele exercia sobre ela por causa do sentimento que tinha por ele era irritante.

Ela é quem tinha o direito de estar magoada. Ele mentira sobre saber o que os Vampiros queriam com ela. Ele ocultara o que ela era, o que aconteceria a ela. Ele não contara que o sentimento que ela tinha por ele era uma farsa, criação de uma maldição. E ela sempre fora sincera com ele quanto a tudo.

Estava cansada dele mentindo para ela, subestimando-a.

— Sua missão é me treinar para que eu possa entrar na Catedral e me proteger fisicamente, para não correr o risco de eu matar alguém e virar outra Bruxa por causa do desespero, e não poupar meu psicológico! — Os olhos dele se arregalaram e a mandíbula travou visivelmente, se segurando para não falar algo. — Pare de pensar na minha idade e lembre que os poderes despertaram agora, mas que sou uma Mensageira desde sempre, está entranhado em mim, e isso significa que aguento!

Arely recuou alguns passos, respirando pesado por causa da explosão. Adrien fez menção de ir até ela, mas a Mensageira ergueu uma mão, parando-o.



Caramba. Quem diria que Arely tem um bom gancho de direita.

Allan gostara da cena. Há tempos queria fazer o mesmo.

Engoliu em seco e entrou no quarto, andando na direção de Arely e envolvendo os ombros dela com um dos braços quando a explosão principal passou. Ela saltou no primeiro momento, preparada para afastá-lo, mas relaxou quando viu que era ele, deixando que o Lycan a apertasse contra si.

Ela tremia de raiva, a pele parecia ferver e ela estava praticamente desabada contra ele, como se tivesse perdido as forças. Temeu pela saúde dela, física e mental. Aquilo tudo era desgastante.

— Espero que não tenha mais nada sobre mim que você esteja escondendo. — ela falou, quase suave, antes de fechar os olhos com força e levar uma mão à lateral da cabeça. Ela parecia estar com algum tipo de dor.

Adrien deu alguns passos na direção deles, e Allan rosnou inconscientemente enquanto se colocava entre eles.

— Você já fez o bastante. — viu o Observador engolir em seco e parar, sem tentar se aproximar de novo da garota. Allan voltou-se para Arely de novo, apertando os ombros dela, e agora ela estava com as duas mãos na cabeça. Tinha uma ideia do que estava acontecendo. — Arely, olhe pra mim. — Ela abriu os olhos com algum esforço. O castanho-quente estava enevoado com dor. — O que você está sentindo?

Ela molhou os lábios, piscando.

— Parece que minha cabeça vai explodir.

— E pontadas nas solas dos pés. — Ela balançou a cabeça em afirmativa.

— E nos pulsos. — completou.

Podia ouvir a pulsação e a respiração aceleradas, sentir os músculos tensos.

Crise aguda de estresse. Era muita coisa num período muito curto de tempo. Sinceramente, estava surpreso por ter demorado tanto para ela apresentar uma.

Ignorando a irmã e o Observador, o Lycan ergueu a garota, passando um braço pelas costas dela e o outro por trás dos joelhos. Ela se encolheu contra ele, e Allan se apressou para sair do quarto. Esperou que os gritos não tivessem acordado metade da casa.



Adrien e Ruby ficaram sozinhos no quarto, observando a porta por onde Allan e Arely tinham saído por alguns minutos.

— Ela tem razão, sabia? — a aprendiz murmurou, e virou o rosto para Adrien. Ele a observava, as sobrancelhas um pouco franzidas e um roxo se formando do lado direito da mandíbula. — Você a subestima muito.

Adrien suspirou, se deixando cair na cama e massageando o local onde ela o socara. Algumas horas com o rosto doendo. Ele merecia.

— Estou acostumado a lidar com Mensageiros nascidos em berços de ouro de grandes famílias, mimados e mentalmente frágeis como vidro pela forma como foram criados. — Soltou um riso. — Não com garotas que pisam em qualquer canto e falam com qualquer um sem medo e ainda por cima sabem se defender sozinhas se precisar.

Viu Ruby franzir as sobrancelhas e cruzar os braços.

— Não nasciam Mensageiros entre o povo comum?

— Nasciam, mas muitos entre crianças de rua que passavam muito pelo dilema de matar ou morrer. A maior parte não alcançava os dezesseis anos com a parte do espírito de um Anjo se não fosse encontrada por um Observador. Inferno, pelo menos metade acabava morta antes disso. Conseguíamos encontrar menos de um quinto deles. — eram tempos doloridos, os que vieram antes de leis protegendo crianças e adolescentes. — Muitos acabavam em prostíbulos que forneciam crianças, vários vendidos pelos próprios pais, ou passavam por terríveis maus tratos em casa. Hayato diz que chegou a encontrar vários nessas situações; os poderes despertavam muito cedo por causa do trauma sofrido, e eles mergulhavam tão fundo entre as vozes e na insanidade que era uma benção perto do que passavam. Metade dos garotos era recrutada para guerras sem sentido e matavam e morriam. Outros matavam no matar ou ser morto das ruas, enlouqueciam e iam parar em hospícios, ou eram encontrados por Bruxos e Vampiros e viravam Bruxos.

Ruby sentou do lado dele.

— Assim, só sobravam os Mensageiros que nasciam entre as famílias ricas. — ela completou, e ele balançou a cabeça em afirmativa. — Não é desculpa para subestimá-la. Devia ter contado sobre a maldição.

Soltou um riso sem humor, passando a mão pelo cabelo e tirando algumas mechas do rosto.

— Como? “Oh, desculpe, Arely, sou amaldiçoado. Você deve me amar, mas não posso amar de volta.” — de novo riu sem humor. Nem mesmo um sorriso apareceu nos lábios da pobre imitação de si mesmo que Adrien fizera.

— Seria algo. — ela deu uma pausa e observou o nada. — Como ela descobriu? — era o que ele esperava que ela tivesse perguntado antes.


— Visões, obviamente. E pelo jeito faz algum tempo, porque não contei pra ela a parte de “não matar”. Visões e memórias reais se confundindo. Não é bom. — franziu os lábios e as sobrancelhas, cruzando os braços. — No fim de semana vamos realizar o teste. Já demoramos demais.