26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 14: Ouvir

PARTE 3:
CATEDRAL

"Dance a valsa negra comigo no meu quarto
Você gosta das paredes do meu templo?
Faça seus movimento - Presa em meu doce abraço
Leve o tempo que precisar - Você está destinada a ficar

Esvaneça
Encontrando o meu carinho perdido
Esvaeça em direção a minha Catedral"

(Cathedral - Tristania)


OUVIR

Fazia um mês desde a noite de bebedeira e a descoberta sobre quem ela era. Durante a semana, as manhãs eram preenchidas com o colégio, e as tardes no Parque Areião ou no Jardim Botânico, debaixo das árvores e longe das trilhas, ao lado de Adrien. Ruby os rodeava, atenta ao sinal de Vampiros, Bruxos ou humanos suspeitos, enquanto outros membros do clã permaneciam nas redondezas com o mesmo objetivo.

Nesses locais, Adrien fazia Arely mergulhar em meio às vozes e ouvi-las, separá-las e anotar o que diziam. Depois de algumas horas nisso, eles começavam a jogar xadrez ou WAR, ou mesmo os dois ao mesmo tempo. O Lycan fazia a Mensageira continuar mergulhada nas vozes e usá-las para montar as estratégias e jogar contra ele, com o menor número de perdas possível. E para cada peça perdida ou sacrificada, Adrien batia com uma régua de madeira nas mãos da garota. Durante a noite, iam para a sede do clã Carvalho, onde continuavam os jogos antes de dormirem quase meia noite. Entretanto, longe da natureza, Arely tinha a sensação de que ficava mais difícil voltar de entre as vozes.

Durante o fim de semana, o Observador a levava para veterinários durante o dia e a fazia treinar a cura nos animais internados, analisando o espírito dela antes e depois. Perguntava quantos animais ela curava e, se considerava um número baixo, a beliscava com força.  Dizia que, durante as batalhas, era pior: cada morto entre eles significava um novo espírito para o outro lado usar na Guerra.

Os pais dela não gostavam que ela dormisse em outro lugar que não em casa, mas aceitavam que Arely agora passava quase todas as noites na casa de Ruby. Algo mais por insistência de Adrien, mais intensa a cada dia.

Ele percebia como Arely descia cada vez mais numa espiral de insanidade — por mais que ela resistisse às vozes, e, ah, como ela resistia quando não estavam num local rodeado da natureza. Reconhecia as pessoas ao redor e não demonstrava a mesma violência de Elizabeth, mas via coisas que não estavam ali, como visões, e sensações intensas na pele que iam além do comum frio crescente — coisas que ele nunca vira ou ouvira falar num Mensageiro. O frio era normal, consequência do aumento da temperatura corporal. Mas sentir e ver coisas que não existiam... Isso não.

Começara simples. Chamas acesas no fogão, mesmo quando o gás tinha acabado e ninguém trocara ainda. Alguém deslizando os dedos por entre seu cabelo.

Agora, por vezes ela saía correndo por ver uma parede de fogo onde nada existia, ou dizia que fogo a consumia por dentro. Que quando se olhava no espelho, via o fogo rachar sua pele e escapar pelas fendas, o via serpentear no branco do olho. Dizia que cheiros de jardins silvestres invadiam suas narinas, e falava que eram as flores do Jardim do Fogo Celeste, o que quer que isso significava; nesse momento, parecia não ser ela, realmente. Graças a Deus que Ruby estava sempre com ela no colégio, ou tinha medo do que aconteceria.

Adrien começava a temer que não a considerasse pronta para enfrentar o teste da Catedral em tempo — por alguma razão, ela ainda não apresentara visões claras de passado, presente e futuro, algo essencial para Mensageiros, depois que os poderes tinham de fato despertado; enquanto as visões não se apresentassem, não podia se arriscar a fazê-la enfrentar o teste da Catedral. A forma como ela era sugada pela loucura, de forma mais intensa e implacável por conta da resistência às vozes, era selvagem. Temia que ela terminasse para sempre presa na insanidade.



Allan observou o jogo daquela noite com o coração apertado. Cada vez que a régua batia contra as palmas de Arely, se encolhia com o estalo. Tinha vontade de pular no meio do tabuleiro, espalhar as peças, pegar a garota nos braços e escondê-la e protege-la.

E o que mais o irritava não era o quão implacável Adrien era com o treinamento, mas como, com o passar dos dias, a Mensageira passara a simplesmente olhar além quando a régua atingia sua pele. Não parecia mais notar tudo ao próprio redor. Comia cada vez menos, e as curvas generosas sumiam lentamente. Mesmo as bochechas de criança estavam quase sumidas.

Estava quase impossível permanecer longe dela. O que a insanidade provocada pelas vozes tinham feito à garota... Não podia ficar longe e fingir que estava tudo bem. Não estava. Duvidasse que fosse ficar. A fera não ajudava.

Mas precisava.

Mesmo naquele abismo de insanidade, era possível perceber que ela amava Adrien.

Ele devia ser masoquista, o Lycan concluiu. Apenas um permaneceria assistindo como o Observador parecia não ter conhecimento — ou ignorar — do que Arely sentia por ele.

— Allan. — desviou os olhos verdes da dupla e olhou para a irmã, parada ao seu lado. Ruby lhe estendeu uma caixa de isopor cheia de gelo. — Vou dormir. O treinamento pra mim foi intenso hoje. Quando eles terminarem aí, cuida das mãos da Arely. — a boca da aprendiz se torceu de desgosto e relanceou um olhar para Adrien antes de continuar pelo corredor.

Allan imaginou o que se passava na cabeça da irmã. Raiva por Adrien sempre se negar a ajudar Arely a tratar dos hematomas dos beliscões e das mãos que ficavam praticamente em carne viva. Fizera tudo que fizera para conseguir chegar até ela... E agora parecia não se importar de todo com o estado dela após os treinamentos. E claramente a evitava quando não se focavam em treinar os poderes de Mensageira.

Minutos depois, Adrien deu o jogo por encerrado — devido à estranha falta de reação da garota para mover as peças — e se levantou do tapete. Allan se empertigou, e o viu oferecer a mão para Arely. A Mensageira permaneceu com os olhos de chocolate-quente fixos em aparentemente nada, ignorando-o. O Observador suspirou, endireitou a coluna e foi para a outra construção. No começo, Arely praticamente implorara à Ruby para que os quartos de ambos ficassem em construções separadas.

Allan esperou que ele fechasse a porta atrás de si antes de andar até Arely. De perto, percebeu melhor como os olhos estavam fundos, e sentiu o coração apertar. Não apenas mal comia, mas mal dormia também. Antes que ela mergulhasse tanto na insanidade, a ouvira comentar que as vozes a impediam de adormecer e a deixavam enjoada.

— Arely? — ela não o ouviu. Permaneceu com o olhar distante, a testa lisa, a boca reta. Apertou de leve o ombro da garota. — Arely? — tentou de novo, e dessa vez obteve uma reação.

Ela levou um indicador esticado à frente dos lábios e fez um “shhhhhh” longo, não o olhando.
O Lycan suspirou e sentou ao lado dela no tapete. Com cuidado, pegou a mão esquerda, a mais próxima, e a mergulhou no gelo, esfregando as palmas com cuidado. Fez o mesmo com a outra mão, até que ambas pareciam em melhor estado.

Allan deixou a caixa na mesa de centro, em cima dos mapas do WAR, e voltou a olhar para Arely. Por alguns segundos, fez apenas isso, até envolver com cuidado um dos ombros dela e a fazer levantar junto dele.

— Vamos. Você precisa dormir. — tentou arrastá-la para o próprio quarto, mas Arely permaneceu no mesmo lugar como uma pedra. — Arely... — começou; os olhos dela fixos nos dele impediram-no de continuar. Pareciam mais lúcidos e presentes do que ele se acostumara nos últimos dias, conforme ela se soltou do braço em seus ombros e ficou de frente para ele.

— Dormir como, Allan? As vozes não deixam. — o olhar baixou, e logo ela se agarrou à frente de sua camiseta. Os dedos se fecharam em torno do tecido com tanta força que ficaram ainda mais pálidos e ele temeu que rasgassem o algodão. Estranhou a linha tensa de seus ombros. — E sinto sempre tanto frio... — Arely se inclinou até apoiar a testa em seu peito, respirando pesadamente.

Com um suspiro, sentindo algo no fundo da mente dizendo que se arrependeria depois, a abraçou e começou a esfregar as costas, a textura da blusa de lã contra sua pele fazendo Allan ter vontade de se coçar. Primeiro Arely ficou ainda mais tensa, mas então relaxou e o abraçou de volta, com mais força do que ele achava possível.

— Vamos. Vou ficar com você até dormir. — sussurrou perto da orelha dela, enforcando mentalmente a fera e a ideia de enfiar o nariz no meio do cabelo da garota para conseguir mais do cheiro de fogo, de terra queimada, de calor... Era irônico que ela passasse frio quando um aroma tão quente e intenso a rodeava.

Sentiu ela balançar a cabeça em afirmativa contra seu peito. Com calma, a girou um pouco, ainda abraçando-a, e começou a levá-la para o quarto que tinham arrumado para ela, de frente para o quarto de Ruby, em silêncio.

Na metade do caminho, ela se soltou dele quase com violência, os braços erguidos de forma protetora diante de si enquanto recuava, até as costas baterem contra a parede. O Lycan estendeu as mãos de forma tranquilizadora, tentando entender o olhar assombrado.



Vozes malditas.

Mal conseguia se manter em foco. Mal conseguia perceber o mundo ao seu redor. Mal conseguia saber o que era real e o que era invenção provocada pelas vozes, pelo jejum não-intencional e pela falta de sono. Descendo pela espiral de insanidade cada vez mais.

Como ela podia deixar Allan tão perto dela? Era cruel com ele, com o sentimento que ele tinha. Não era recíproco. Como ela era capaz de fazer aquilo com ele?

— Desculpa, Allan... É... É... Cruel fazer isso com você. Desculpa. Eu vou sozinha pro meu quarto. Não precisa se preocupar. — tentou sair correndo, mas antes que desse dois passos, o Lycan segurou seu braço e a puxou até ficarem frente a frente de novo.

Arely manteve o rosto baixo. Não conseguia olhá-lo nos olhos depois daquilo.

— Do que está falando, Arely? — ele sussurrou, e ela tentou soltar o braço, sem muita vontade, antes de desistir.

Balançou a cabeça e mordeu o lábio inferior. Sentiu os olhos encherem de lágrimas.

— Eu sei que você... Que você me ama, Allan. As vozes me contaram. Elas também me contaram que você sabe que não é recíproco. — sentiu a mão em seu braço afrouxar, e o soltou, cruzando os braços como se tentasse se aquecer. E realmente tentava. Odiava sentir tanto frio. Maldito metabolismo acelerado. — É cruel forçar minha presença perto de você, sabendo disso.

Sentiu as mãos dele nas laterais de seu rosto e no pescoço, abençoadamente quentes, forçando-a a erguer a cabeça e olhar para ele. Ele sorria de leve, e quis gritar ao ver tal sorriso. Como ele conseguia sorrir com aquilo?

— Não me importo com o quanto dói, Ly. — o diminutivo foi como uma facada. Geralmente, apenas pessoas realmente íntimas a chamavam apenas de “Ly”. — Se eu ficar por perto quer dizer que o risco de Louis ou qualquer outro Vampiro ou Bruxo chegar perto diminui, então eu aceito. E eu posso manter outros seguros de você, conforme você se aprofunda nas vozes. Te manter segura de você mesma.

Como ele conseguia falar sobre aquilo tão calmamente? Colocou as mãos em punhos no peito dele e tentou afastá-lo, sem sucesso. Era como tentar mover uma parede de concreto.

— Ainda é cruel. Não posso admitir que você fique perto de mim tanto tempo, Allan. É... É cruel demais. Você não merece isso.

— E você não merece que o único a te treinar como Mensageira é justamente o idiota que não sabe o que você sente e que ignora o que é óbvio. — a voz dele saiu dura e inflexível. Ele estava tão certo na maior parte que foi como uma chicotada, fazendo-a se encolher.

Engoliu em seco, um sabor amargo na boca. Ele merecia a verdade.

— Ele sabe, Allan. — murmurou, e por um instante os dedos das mãos que apenas a aqueciam sentiram-se como garras, antes dele relaxar novamente. — Um mês atrás... Bebi muito. Tentava calar as vozes, mas apenas as intensificou. Foi quando descobri o que você sentia por mim. E quando fiz besteira e o Adrien descobriu o que eu sentia por ele.

As mãos desceram para seus ombros, e então ele a puxou para outro abraço. Arely se perguntou de onde Allan tirava a força para agir daquele jeito, sabendo de tudo. Ela não conseguia. Por mais que conhecesse o sentimento que tinha por Adrien, ao mesmo tempo sentia vontade de correr para longe dele, por causa da rejeição. E ainda assim, era incapaz de tirá-lo da cabeça.

Sentimento idiota.

Antes que pudesse parar a si mesma, abraçou-o de volta, em busca do calor dele, e o apertou contra si. Era bom. Sentia saudades de abraços quentes como aquele.

— Ele é mais idiota do que parece, então... — sentiu-o murmurar perto de seu ouvido, e quase impossivelmente sentiu-se rir com o leve humor na voz de Allan e com a sensação de cócegas que a respiração dele provocou em sua pele. — Vamos. Você precisa dormir.

— Está bem. — murmurou contra o tecido da camisa dele, e deixou-se ser guiada para o próprio quarto.



Deitado na cama de seu quarto, imóvel, os olhos de bronze derretido fixos na escuridão. Adrien não conseguia dormir. Muitos pensamentos na cabeça, sobre Arely e seu estado.

As visões.

Por que estavam demorando tanto? Normalmente, começavam quando as vozes alcançavam seu ápice, cerca de um mês depois do surgimento da primeira, e já faziam dois meses. Arely tinha tido visões antes, ele as vira dentro de sua cabeça; agora, com a mente escudada pelo poder intrínseco da parte angelical, não podia recorrer a tocar o espírito dela com o próprio para entrar em seus sonhos e verifica-los. Dependia que ela lhe contasse.

Pensando bem, da forma como ela parara de falar com ele quando não era necessário, ela podia estar tendo visões e não lhe contara. Ou as tinha e não sabia o que eram.

Anjos, ele precisava descobrir logo. O mergulho na insanidade tinha sido rápido e voraz para a garota. Mais intenso e rápido do que para qualquer Mensageiro que ele conhecera ou ouvira falar. Nunca um Mensageiro tivera alucinações antes. Não que ele soubesse. Não que estivesse escrito nos Arquivos aos quais Hayato lhe dera acesso.

E o pior medo de Arely. Ela ainda não lhe contara qual era. Precisava saber para preparar o teste. Entretanto, ela simplesmente não respondia quando perguntava algo fora dos jogos de xadrez e WAR. Pareciam ser as únicas coisas nas quais ela ainda conseguia se focar ao longo do dia, após os mergulhos entre as vozes. Quando os jogos terminavam, cada vez levava um tempo maior para ela voltar, com um olhar frágil, como se visse coisas que ninguém deveria ver.

Alucinações não eram normais em Mensageiros. Precisava descobrir o que estava acontecendo com a garota.

Levantou-se num pulo e pegou o celular próprio, discando o número de emergência que Hayato estava usando no Brasil. Era o único Observador velho o bastante que poderia ter alguma explicação.

A linha deu sinal de tocar algumas vezes, antes que finalmente a voz cansada do Drachen respondesse do outro lado.

Ah, sim. Hayato conseguira se aproximar da Guardiã. Treino de magia cansava. Provavelmente, o outro Observador também tinha acabado de ir dormir, como ele.

O que aconteceu, Adrien?

— Você já soube de Mensageiros que tinham alucinações relacionadas à vozes, odores, aparições e toque, quando os poderes despertavam, antes de pisarem na Catedral? — foi direto ao assunto, esfregando o pescoço tenso e sentindo tantos nós nos músculos que ficou surpreso por ainda conseguir mexê-lo.

Houve silêncio do outro lado por um tempo, e conseguiu ouvir o ruído suave de tecido por um instante.

Já. Não é algo dos Mensageiros. Humanos comuns, Lycans, qualquer um pode passar por isso. — voz forçada.

Ele não queria falar sobre aquilo.

— O que é então?

Um suspiro pesado veio do outro lado da linha, e Adrien esperou que Hayato não desse uma de suas inúmeras respostas enviesadas destinadas a mudar o assunto.

Aviso que envolve um bocado de coisas não confirmadas. — o Observador começou, e Adrien se ajeitou na cama. — Almas são coisas complicadas, como você já percebeu. Almas Gêmeas, Almas Irmãs, e outro bocado de coisas. Elas vêm de fora da dimensão, de outro lugar, por isso não se sabe se reencarnação existe ou não. E você sabe como os Anjos respondem bem perguntas que envolvem dimensões diferentes. — uma pausa, e tentou imaginar onde aquilo ia parar. — Algumas almas, eu e outros que as estudaram concluímos com o passar dos tempos, possuem mais de uma opção de destino. Enquanto a maior parte, aparentemente, tem apenas uma pessoa numa dimensão como destino de encarnar, outras almas têm a possibilidade de encarnarem em corpos diferentes em dimensões diferentes. Não sabemos se é algo como reencarnação, ou simplesmente como se a alma chegasse numa bifurcação e escolhesse uma direção dentre pelo menos duas. Chamamos essa alma de Alma com Múltipla Possibilidade de Destino.

Complicado. Um monte de coisas não confirmadas.

Mas o que aquela informação tinha com sua pergunta?

Mensageiros com esse tipo de alma, quando os poderes despertam, e mesmo antes, por causa de sua capacidade com visões e com as vozes, passam a ter vislumbres do outro destino possível de sua alma, e contribuem muito para a insanidade, acelerando-a. São os que mais sofrem por ter esse tipo de alma. Outros podem passar por alucinações, mas nunca tão reais e intensas quanto num Mensageiro. A Catedral parece ter um efeito que neutraliza esses vislumbres para sempre, por isso recomendo levar Arely logo para lá. — uma pausa, e ouviu um riso baixo. — Essa geração de Velhos Líderes e Guerreiros está cheia de surpresinhas... Fazia uns séculos desde o último Mensageiro de Alma com Múltipla Possibilidade de Destino.

Outra coisa para se preocupar. Quem tivera a ideia de colocar tantas complicações em Arely?

— Obrigado, Hayato. Pelo menos agora sei o que está acontecendo.

Não estou brincando, Adrien. Realize o teste logo. Não tenho ideia do que acontecerá se Arely ficar presa na insanidade, sendo a última Mensageira.

— Vou tentar, Hayato.

Desligou e jogou o celular pra fora da cama, controlando-se para não atirá-lo na parede.



Louis estava diante dela, o cabelo loiro mais comprido que na última vez que o vira, bagunçado, parte caindo em torno do rosto pálido e debochado, chamando a atenção para os olhos azul-claríssimo. Algo da cor de vinho-tinto, indicando o instinto vampiro se remexendo no interior, começando a aparecer nas bordas da íris.

Arely, parada diante dele, sentia-se livre. Como se nada a segurasse, fisicamente falando. Estranho ela aceitar ficar perto dele sem nada forçando-a a permanecer ali.

Ele estava muito perto. O peito desnudo pela camisa de botões aberta encostando na blusa de moletom que cobria seus seios. Perto demais. O cheiro de sangue o rodeando, apesar dele não ter o líquido vermelho sobre ele, a deixava enjoada. Fazia Arely querer correr.

Mas não conseguia. Algo mais a fazia permanecer ali, ao invés de empurrá-lo, chutá-lo, se afastar.

— Vá em frente. Acabe logo com isso. — sua voz saiu violenta, súbita, cheia de raiva. Continuava odiando-o, mas por alguma razão... Não se afastava. — Detesto que enrolem. — Deus, o que estava acontecendo?

Um sorriso jocoso cheio de dentes apareceu no rosto pálido, os caninos pontiagudos a fazendo estremecer.

Ele baixou o rosto para o seu, algo nela falando que era a segunda vez que aquilo acontecia, e prendeu o grosso lábio inferior dela entre os próprios, numa espécie de beijo não correspondido, os olhos claros fixos nos dela com uma luz estranha. Sentiu as pontas afiadas dos dentes na pele frágil, e uma pontada quando os caninos rasgaram e o sangue fluiu.

Louis se afastou um pouco, soltando o lábio. Sentiu o sangue escorrer pelo queixo e pingar na blusa, rápido, sem controle. Um efeito do anticoagulante que vampiros produziam. Adrien a avisara.

Lutou para permanecer impassível, para não se encolher com a agulhada constante que o ferimento nos lábios causava, quando o sorriso aumentou. Asco a preencheu quando ele lambeu o sangue em seu queixo, o olhar tornando-se totalmente vinho-tinto e preenchido de luxúria.

— Ainda bem que me alimentei mais cedo. Teria problemas para parar. — ele aproximou a boca de sua orelha, deslizando os lábios pela bochecha da garota. O toque era quase carinhoso, e mordeu a bochecha por dentro para não gritar de raiva. — O fogo no sabor... É o melhor sangue que já provei.

O vampiro baixou a boca para a curva do pescoço e abraçou-a antes de fincar os caninos na pele com força. A dor súbita, aguda e constante, fez as pernas de Arely fraquejarem, e contra a própria vontade apoiou as mãos nos bíceps de Louis e agradeceu mentalmente o apoio.

Sentiu seu sangue ser sugado com vontade, enfraquecendo-a. Depois de um tempo, sentiu os dentes saírem e o sangue se espalhar pela blusa. Ele afastou o rosto dela e soltou um braço de sua cintura, o outro firmando melhor seu peso.

Louis pegou um dos pulsos de Arely e cortou a pele com a unha, um corte espesso, fundo. Sem o anticoagulante presente na saliva, o corte sangrou pouco. O vampiro então mordeu o próprio pulso, vermelho-vivo se espalhando pelo braço, e grudou os dois ferimentos, um insuportável sorriso sanguinolento para ela.



Acordou de repente, apavorada, ofegante de desespero, se sentando na cama de um pulo e levando a mão ao pescoço e então ao pulso. Ambos estavam quentes, a pele irritada, e o toque apenas a fez se sobressaltar com a sensibilidade.

Olhou para trás, para onde Allan estava sentado mais cedo — as costas apoiadas na parede, a cabeça dela apoiada nas coxas do Lycan e as mãos dele fazendo cafuné em sua cabeça até ela adormecer. Ele ainda estava lá, numa posição incômoda e começando a acordar.

Ele ergueu o rosto, os olhos verde-musgo, sonolentos e preocupados, se fixando nela.

— O que aconteceu, Ly? — de novo o diminutivo. Engoliu em seco e se arrastou para perto do Lycan, de joelhos sobre o colchão, e abraçou-o com força, escondendo o rosto no peito do rapaz. Tremia, e sentiu-o envolver suas costas e esfregá-las, tentando acalmá-la.

Após alguns minutos, conseguiu afastar as imagens do sonho — pesadelo — de sua mente, colocá-las no fundo de suas memórias e cataloga-las como “não aconteceu”, por mais real que parecessem, e sentiu-se mais calma, o coração menos acelerado no peito. Agradeceu as vozes: sem elas, seria mais difícil deixar de se focar no pesadelo. Apoiou a cabeça de lado no ombro de Allan, ainda abraçando-o.

— Desculpe te acordar. — resmungou, e sentiu o abraço se apertar da parte dele.

— Tudo bem, Ly. Para te deixar assim, deve ter sido algo muito ruim. — havia compreensão na voz dele, e sentiu-se relaxar pouco a pouco, algo ajudado pelo calor que a aquecia. Ajeitou-se melhor, e acabou sentada entre as pernas do Lycan, a cabeça ainda no ombro e os braços em torno do tronco dele, o abraço devolvido, e o cobertor que tinha jogado longe ao acordar envolvendo ambos. — Confortável? — Allan perguntou, meio rindo, e Arely sentiu-se rir também.

— Muito. — respondeu. Por um tempo, pensou se contava ou não o sonho a Allan, e acabou por decidir que sim. Era o culpado por acordá-lo, afinal — Tinha Louis no pesadelo. Ele me mordia, e então cortava o meu pulso e me fazia ter contato com o sangue dele, como o Adrien me avisou que ele poderia fazer para me transformar numa Bruxa. Parecia real demais.

Por um instante, ele apertou o abraço tanto que quase doeu, mas então ele se forçou a relaxar. A garota sabia que se forçava a tal por causa do suspiro longo e pesado que Allan soltara, antes de afrouxar os braços. Ambos — ele e a fera dele — deviam estar irritados com o que ela contara.

— É pra acordar desesperado mesmo. — Allan murmurou, e então a Mensageira sentiu um beijo no topo de sua cabeça, carinhoso e cuidadoso.

Sorriu de leve.

— Obrigada por estar aqui. Por ouvir. Por ajudar.


— Sempre que precisar, Ly. — sentiu o abraço se estreitar, e pela primeira vez desde que as vozes tinham começado, sentiu que era realmente capaz de dominar e entender o que diziam e não ficar presa na insanidade.