26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 12: Curar

— Você realmente quer sair hoje, Ly? — a voz de Arwen parecia um grunhido de insatisfação, encolhida contra Alexandre para tentar se aquecer mais. O inverno paulistano ainda não chegara ao auge, mas já era suficiente para fazê-la ter vontade de se encolher debaixo de um cobertor. De preferência, com Alexandre junto e uma bacia de pipocas com queijo e tempero sazon recém-saídas do fogo.

— Quero, Arwen! Agora chega de drama, to com saudades da Sílvya! — a garota, arrastando Ruby pelo braço logo à frente, usava botas e blusa forradas de lã e calças de um grosso veludo, mas apesar disso, suas bochechas e nariz geralmente pálidos estavam coloridos de vermelho.

Ruby e Alexandre riram com a pequena discussão que tinha se estendido desde a casa onde haviam se encontrado. Arwen queria se esconder na cama com uma bacia de pipocas em frente à TV e assistir comédias românticas baratas, aproveitando que tinha um mês de férias do trabalho de personal trainer numa academia e da faculdade de Educação Física. Arely queria arrastar o grupo para andar até a casa de Sílvya e depois voltar metade do caminho para ir até o Shopping Campo Limpo. Iam arrastar Natasha, mas a garota enviara uma mensagem de desculpas, avisando que tinha ido ao Shopping Morumbi com o novo namorado.

Arwen bufou enquanto o grupo virava por entre as ruas sinuosas e estreitas da região menos favorecida, casas simples, a maioria bem ajeitada, bares e mercados de bairro pontilhando os quarteirões, xingando a prima e mais uma vez desejando estar onde estavam quinze minutos atrás.



Pararam, em parte surpresos, em parte descrentes, diante da casa simples de dois andares onde Sílvya vivia com os pais e o irmão autista de 10 anos desde que se conhecia por gente.

O motivo das reações diversas não era as paredes pintadas de azul-céu ou o portão preto e antigo da garagem. Era a Lamborghini Gallardo preta e lustrosa que estava parada na rua estreita, casas simples ao redor, algumas ainda sem reboco, se espremendo umas contras as outras em direção ao céu. Aquele cenário era, no mínimo, inusitado.

— Quem é o louco que trás um carro desses pra esse lugar? — a voz de Arely, pouco mais alta que um sussurro, foi a que teve coragem de falar o que quase todos estavam pensando. Os olhos castanhos pareciam dois pratos acima das bochechas vermelhas. Ruby e Arwen tinham expressões muito parecidas nos rostos.

Alexandre deu de ombros, andando na direção da casa, arrastando Arwen ao seu lado com o braço sobre seus ombros, erguendo uma das sobrancelhas para as jovens.

— Um Drachen que tem uns dez carros iguais, só mudando a cor e, talvez, o ano, que não liga se roubarem um ou dois. — as três garotas se entreolharam brevemente antes de Ruby e Arely forçarem seus pés a seguirem na direção da casa.



A mãe de Sílvya, Rosa, os atendeu, girando a chave no cadeado do portão e o abrindo. Um cabelo loiro meio castanho em corte chanel e um par de olhos cor-de-mel saudou-os, sorridente, antes de sufocar Arely num abraço de urso. Ninguém diria que a mulher franzina e alguns centímetros mais baixa que Arely era capaz daquilo.

— Arely! Que bom que você veio! — em seguida, a vítima de seu abraço foi Arwen, que teve de se abaixar um pouco, e então Ruby — que ela podia não conhecer, mas, se estava com Arwen e Arely, devia ser uma ótima pessoa — e trocar um aperto de mão firme com Alexandre — mesmo que suas mãos finas que pareciam pertencer à uma pianista e não à uma dona de casa não cobrissem totalmente a enorme mão do Lycan, a força nelas o surpreendeu, ainda mais para uma humana.

A mulher agitada e ágil guiou-os casa adentro e os acomodou na cozinha. Rosa tirou um bolo de cenoura que estava no forno e o colocou junto com uma espátula no meio da mesa quadrada e de superfície de madeira cheia de marcas de copos, arranhões e canetas — Arely e Arwen encontraram num dos cantos a assinatura que elas mais Natasha e Sílvya tinham feito no início de sua amizade, um grande coração alado circulando os quatro nomes. Logo em seguida, ela se concentrou em esquentar leite e água para fazer o café enquanto tagarelava.

Arely foi a primeira a se render ao cheiro aquecido e um tanto achocolatado que se erguia do bolo cuja forma tinha sido untada com chocolate em pó e serviu-se de um pedaço com as mãos, assoprando os dedos quando a massa fofa e quente os tocou, mas se recusando a procurar um prato na cozinha que ela conhecia de cor.

— Sílvya te contou, Arely? — Rosa perguntou, dando uma pausa em sua tagarelice sobre como Ricardinho, o filho caçula, estava indo bem e mostrara aptidão musical e sobre a promoção que o marido recebera no emprego, para falar sobre a filha mais velha.

— O que? — Arely engoliu o bocado que mastigava antes de responder de forma agradecida quando o doce quente a aqueceu e espantou um pouco do frio.

O sorriso que se abriu nos lábios da mulher a aqueceu ainda mais, enquanto coava o café e Arwen se erguia, pegando as xícaras e o açúcar com a ajuda de Ruby.

— Sílvya tinha conseguido vaga na mesma instituição que atende o Ricardinho. Sabe, pra ensinarem ela a ler e escrever em Braille, pra auxiliarem-na a aprender a se locomover melhor e, com sorte, conseguir um cão-guia. — Arely piscou, surpresa, antes de cortar outro pedaço de bolo, ouvindo atentamente a mãe da amiga, que tinha dito que a garota estava ocupada, mas devia aparecer logo. Viu de canto de olho que Alexandre também se rendera ao cheiro e cortara um pedaço generoso do bolo. Sílvya não tinha comentado sobre aquilo quando tinha ligado avisando que ia à casa dela nas férias. — Aí, quando a instituição fez o que podia por ela, um dos professores de lá se ofereceu para continuar ajudando-a. — Nesse instante, um berro xingando um tal de Jean interrompeu Rosa.

Arely sentiu o queixo cair. Reconhecera a voz de Sílvya, mas não acreditou: Sílvya nunca xingava alguém — bem, xingava garotos que ela estava afim, numa espécie de raiva por bagunçarem seus pensamentos, mas só. Era mais comportada que Arely, se é que era possível.

Rosa soltou um risinho, batendo de leve o filtro de tecido que usara para o café antes de tirá-lo da garrafa térmica e fechá-la. Quando colocou o objeto azul na mesa, se inclinou na direção de Arely.

— Vai por mim, eles estão caidinhos um pelo outro. — sussurrou num tom confidente. Arely imaginou que o professor devia ser novo — ou aparentemente novo, considerando o carro em frente à casa e o que ouvira sobre Drachens — para Rosa parecer tão feliz por aquilo. Ela nunca deixaria a filha namorar um cara que fosse mais de seis anos mais velho que ela.

Ela tinha acabado de passar o leite quente para um bule de porcelana amarelada pelo tempo quando um menino de dez anos, de cabelos negros e olhos azuis, do mesmo tom que Arely sabia que os olhos de Sílvya tinham sido antes do acidente, com os típicos traços de uma criança com Síndrome de Down entrou e andou na direção da garota rapidamente. Arely só teve tempo de abrir um sorriso e os braços antes que Ricardinho pulasse em seu colo, os braços rechonchudos apertando seu pescoço num abraço carinhoso, sentando sobre as coxas da garota e olhando pidão para o bolo. Rosa sorriu suavemente para o filho antes de cortar um pedaço e colocar num prato de plástico em frente à ele. Arely firmou os braços em torno da cintura do menino, virando uma segunda irmã mais velha enquanto o vigiava comer o bolo cuidadosamente, um sorriso suave nos lábios vermelhos.

A mulher ágil abriu a porta de metal recentemente pintado que dava para os fundos da casa, deixando ar fresco — e frio — entrar. O grupo começara a conversar e a comer, e não reparou na cena que se desenrolava nos fundos de cimento. Exceto Arely e Ricardinho: a posição dos dois dava visão privilegiada para o exterior da casa. E ambos observavam com atenção, mal piscando os olhos.

Duas pessoas lutavam.

Uma delas era Sílvya, que contrariando o frio que descera sobre a cidade, estava descalça e usava uma calça leging fina e uma camiseta regata e colada ao corpo, tanto os braços como as panturrilhas meio delineados por músculos recém-adquiridos cobertos por uma fina cama de suor que brilhava no sol de fim de tarde.

A outra pessoa, era um rapaz de cabelos negros e longos, presos numa trança que descia até as escápulas, pele morena se esticando sobre os músculos esguios, quase da mesma altura de Adrien, pelo que Arely percebeu, olhos azul-claro e intensos no rosto, também contrariando o frio, uma calça de tecido fino e leve cobrindo-o até os calcanhares, meio caída na cintura, o torso de músculos definidos coberto com uma fina camada de suor que também brilhava no sol.

Arely sentiu seu queixo cair com a cena. Não sabia dizer se era por ver Sívya bloquear e desviar dos ataques facilmente, como se os enxergasse, ou se era o belo espécime masculino contra o qual ela lutava e que definitivamente não parecia estar facilitando para a garota de olhos opacos e cabelos loiro-areia, presos num coque frouxo que já começava a cair com a movimentação intensa. Mesmo assim, de repente Arely e Ricardinho viram Sílvya despencar no chão como uma fruta madura, a mão do rapaz pairando acima de sua garganta, um sorriso insuportavelmente lindo e convencido nos lábios.

— Inferno! Será que eu nunca vou te vencer, Jean? — Sílvya amaldiçoou o rapaz mais algumas vezes, dando um tabefe na mão de Jean. Ele então estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, e a garota loira aceitou a ajuda.

Antes que eles tomassem a posição de luta mais uma vez, Rosa colocou a cabeça para fora.

— Já brigaram demais por um dia, crianças! Temos visitas e tenho certeza de que estão com fome!

Nesse instante, Sílvya virou a cabeça na direção da cozinha. Ela piscou como alguém que enxerga e não tem certeza de que está vendo realmente o que ela pensa que está vendo. Arely respirou fundo antes de falar.

— Sou eu, Síl! Arely! Arwen também está aqui, e trouxemos mais dois amigos!

Arely viu um lento sorriso se espalhar pelos lábios finos e cor de coral da garota, os pés de Sílvya quase imediatamente correndo na direção de Arely e Ricardinho. Arely temeu que a amiga batesse na parede ou no batente da porta, mas isso não ocorreu. Seus pés descalços e sujos à levaram com confiança na direção de Arely, os braços antes finos da garota estreitando a outra de cabelos castanhos e o irmão caçula.

— Que saudades! — Sílvya respirou fundo antes de sussurrar ao ouvido de Arely, como se não quisesse que a mãe a ouvisse. — Tenho de falar com você depois. — então a soltou. Arwen a chamou, se erguendo, e andou com segurança até ela também.

Só então foi apresentada à Ruby e Alexandre. Alexandre pareceu prestes à falar algo galanteador, mas o rapaz de olhos azuis que entrou pela porta de metal, fechando-a atrás de si, com uma camiseta branca e surrada jogada sobre os ombros como uma toalha, lançou-lhe um olhar que podia ser considerado como o olhar de um cachorro quando alguém chega perto de sua vasilha de comida cheia — “vou arrancar seus dedos caso se aproxime”.

Alexandre engoliu o que quer que fosse falar, Arwen segurando o riso ao lado dele, enquanto Jean, Sílvya e Rosa sentavam-se à mesa. Jean, como Alexandre, cortou um pedaço generoso de bolo para si mesmo, enquanto Sílvya misturava leite com achocolatado numa grande caneca branca com os dizeres “Princesinha do Papai”. Arely se perguntou o que o Seu José achava de Jean, e se tinha percebido o certo “clima” que pairava sobre a cabeça dele e de sua amiga — porque havia um clima, como Rosa afirmara.

Houve pouca conversa, até Rosa se erguer e falar que ia aproveitar que Jean e Sílvya tinham parado com o treinamento e ia estender a roupa que a máquina tinha terminado de bater mais cedo — Arely fez uma anotação mental de que devia obrigar Jean, que parecia ter tanto dinheiro, considerando a Lamborghini em frente à casa, a dar uma máquina de lavar, um fogão e uma geladeira novos para a mãe Sílvya. Ela lembrava claramente que os três objetos ainda eram os antigos de sua casa, de Arwen e de Natasha, dados de presente para a família quando os pais das três tinham trocado os próprios. E já eram velhos na época.

Assim que a porta de metal se fechou atrás de Rosa, os olhos de Jean saltaram para Alexandre, a voz saindo num sussurro ameaçador.

— Mantenha essas patas imundas longe da minha aprendiz, Alexandre. — Arely vislumbrou Sílvya erguer a caneca para esconder o sorriso, e só pode erguer a própria xícara de café-com-leite para também esconder o sorriso que quis se espalhar sobre seus lábios. Ruby ergueu levemente uma sobrancelha enquanto observava os olhos de Jean passarem para bronze, as pupilas ganhando ares reptilianos. Arwen procurou distrair Ricardinho fazendo caretas e cócegas no menino que ainda estava no colo de Arely, para que ele não precisasse ver a briga de testosterona acontecendo — e nem os olhos mudando de cor.

— Você não pode falar muito de mim, Jean. Seu histórico com mulheres nos últimos quatro séculos também não é o melhor do mundo, e é mais longo que o meu. — Alexandre ergueu ambas as sobrancelhas e o canto dos lábios, os olhos ganhando tons de bronze e ares lupinos.

O café-com-leite quase saiu pelo nariz de Arely quando ela engasgou, e Sílvya deu alguns tapas em suas costas. Ela ergueu os olhos castanho-chocolate para Jean, piscando incredulamente. Ao menos sua reação fizera os níveis de testosterona baixarem.

Quatro séculos? — sua voz pareceu inacreditavelmente aguda para seus ouvidos. — Inferno, quantos anos você tem?

— Apenas quinhentos e trinta e oito. — ele parecia orgulhoso. Definitivamente, ele parecia muito orgulhoso. Arely apenas conseguiu deixar o queixo cair, ainda piscando incredulamente, em estado de choque. — Porque está tão chocada? Meus pais tem mais ou menos dois mil anos, cada um deles, e Adrien tem quase a minha idade.

Foi a vez de Ruby se engasgar, e Arwen bater em suas costas para que o café não escapasse pelo nariz da Lycan. Jean olhou para a garota, não reparando que Arely estava mais chocada que antes.

— Adrien não tinha contado a parte da idade pra Arely, Jean. — ela explicou num sussurro, sugando o ar furiosamente, tentando fazer a sensação desagradável de líquido voltando pelo lugar errado passar.

— Oh... Desculpe... — olhou de relance para Alexandre. — Suponho que ela também não saiba sua idade real... — resmungou, e então olhou de novo para Arely. — Desculpe por isso, Arely. Às vezes esqueço que, mesmo que minha idade mental seja bem similar à sua, meu corpo envelhece num ritmo muito mais lento que o dos humanos, o que faz com que os séculos passem e nós mal percebamos.

Sílvya o cutucou com o cotovelo.

— Nem me fale. Ainda lembro de como você se apresentou pra mim. — as sobrancelhas loiras se ergueram de novo enquanto terminava com a bebida na caneca. Antes de dar alguma chance à ele de falar algo, levantou-se, pedindo a Ricardinho, gentilmente, para ir brincar no próprio quarto, antes de começar a arrastar Arely para o próprio quarto. — Vejo você amanhã, Jean.

Elas só perceberam que Ruby as seguia quando já estavam quase no topo da escada, e olharam para a Lycan com expressões interrogadoras no meio dos degraus.

— O que? Jean acabou de sair pela porta, Ricardinho foi brincar no quarto, sua mãe está ocupada e Arwen e meu tio se acomodaram na sua sala de estar. Vocês realmente queriam que eu virasse uma tocha olímpica? — as três tentaram segurar o riso.

Não conseguiram.



As três estavam no quarto de Sílvya. A loira tinha acabado de tomar um banho, e agora buscava uma roupa quente o suficiente para enfrentar o frio fora de casa. Pegou uma jaqueta de couro preta e mostrou para as duas. Ruby logo manifestou que não combinava com a calça de moletom azul-petróleo e as botas sem salto pretas, mas antes que a garota pudesse guardar de novo a jaqueta, Arely pulou de seu lugar na cama de madeira, um pequeno gritinho escapando de sua garganta.

— Sílvya Alastair! Essa jaqueta é nova! — Arely sabia muito bem que Sílvya nunca ganharia uma jaqueta de couro, ao menos não dos pais: ela preferiria ganhar um livro se eles lhe dessem opção, e sempre davam — mesmo que sua nova condição a levasse para os audiobooks, já que os livros em braile eram oferecidos gratuitamente pela biblioteca especializada. A garota mais nova viu as bochechas da loira ganharem tons de vermelho, embora Sílvya provavelmente não soubesse. — Como você conseguiu?! — estava feliz pela amiga. Era uma boa jaqueta, embora não combinasse muito com o estilo de Sílvya.

— Jean me deu de aniversário. — sua voz saiu num fio enquanto apertava o couro macio contra o peito coberto por uma cacharrel branca. Arely deixou um lento sorriso se espalhar por seus lábios, mas Ruby foi mais rápida.

— Uh? Jean, o Drachen bonitão com quem você estava lutando? — propositalmente, deixou um tom de malícia deslizar pela voz, e viu o vermelho na pele de Sílvya se intensificar. — Se eu não perdi as aulas sobre Drachens, eles não dão presentes bons como esses, exceto se forem... Íntimos, da pessoa.

Arely pensou que Sílvya fosse desmaiar, já que o vermelho agora alcançava sua testa e se espalhava pelo pescoço. De alguma forma, a loira encontrou voz para refutar a “acusação”.

— Ele é meu mestre. Ficou preocupado comigo, por causa do inverno. — deu um suspiro, se virando para guardar a jaqueta. Embora não enxergasse, as duas garotas no quarto sim, e tinha plena consciência de quanto seu rosto estava quente. — Ele também deu algumas roupas para o Ricardinho, e meu irmão gosta dele tanto quanto gosta de você, Arely. — quando sentiu a queimação em seu rosto diminuir, achou que já podia olhar para a velha amiga sem preocupações, um sorriso tímido esticando seus lábios.

Arely ficou surpresa com a declaração — Ricardinho raramente gostava de qualquer homem que Sílvya apresentasse, o que provavelmente indicava que Jean era realmente um cara legal. Mas não se rendeu de atormentar um pouco mais a amiga.

— Síl... Você o xingou. Umas vinte vezes, desde que cheguei. — ergueu as sobrancelhas, mesmo sabendo que Sílvya não veria, mas com um tom de voz que deixava claramente subentendido suas intenções. — A última vez que você xingou um cara foi porque estava afim dele.

Sílvya bufou. Arely tinha a memória boa demais, em sua opinião. Ouviu Ruby abafando o riso — algo que não ouviria antes de seu treinamento com Jean — e adivinhou que Arely devia estar com aquele erguer de sobrancelhas sugestivo que ela sempre usava quando falavam sobre garotos. Agarrou a primeira blusa que sua mão alcançou, estendendo-a para as duas garotas verem, impaciência cobrindo seus traços.

— Síl...

— Que?!

— Jean te deu uma jaqueta jeans com um dragão e uma princesa e escrita “Um Dragão Sempre Protege O Que É Seu”?

— INFERNO! — a loira deixou escapar enquanto chutava a porta do guarda-roupa. Pulando num pé só, os dedos doloridos, jogou a jaqueta no chão. — Então essa era a surpresinha que ele tinha comentado ontem... — os olhos opacos de Sílvya estavam semicerrados com raiva. — Qual a forma mais segura de castrar um Drachen, Ruby?

E, apesar da seriedade, era possível perceber a piada nas camadas mais profundas de sua voz e da situação sugerida: ambas sabiam que um Drachen jamais se deixaria ser castrado. Por isso riram, até notarem que Arely não entendera a piada.

— Lembra da professora de História que falava sobre os deuses gregos para todas as turmas? — Sílvya perguntou, pegando outra jaqueta. Como não ouviu protestos, a vestiu por cima da cacharrel.

— Lembro. Ela falava que a única diversão dos imortais era fazer filhos... — deu de ombros, e então notou que tanto a loira como a ruiva seguravam os risos. — O que?! Sério que essa é a maior diversão deles?! Que droga, achei que fosse cuidar da fortuna que acumulam com os séculos, pelo que Adrien falou! — foi só então que riu com as outras duas.



O grupo ia caminhando pela rua não muito bem iluminada — algumas lâmpadas não funcionavam, queimadas ou quebradas, não importava — rindo e andando próximos, para se aquecerem, enquanto iam em direção a casa de Sílvya, antes de irem até a casa dos tios de Arely e Arwen.

— Eu queria poder ver a cara que o homem que deu em cima da Arwen fez quando o Alexandre chegou. — a aluna de Jean falou, sufocando o riso com as mãos. — A aura dele ficou de um roxo tão forte, que achei ele fosse desmaiar.

— Roxo? — Arely conseguiu falar, em meio ao riso, enquanto lembrava da expressão de puro terror no rosto do rapaz que tinha se metido à besta de cantar sua prima com Alexandre à menos de quinhentos metros de distância, lembrando de como Sílvya lhe explicara, enquanto comiam no McDonald’s, sobre como Jean lhe ensinara a enxergar através do espírito, vendo e identificando pessoas através da aura, o vestígio deixado pelo espírito no plano espiritual, que por se agarrar e ondular através das coisas, também lhe dava uma sensação de profundidade e localização mais exata do que estava ao redor.

— Sim, roxo. É a cor de uma aura quando a pessoa está se borrando de medo. O medo normal é mais azulado! — respondeu, balançando a cabeça e enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta fechada até o pescoço.

— Foi uma expressão do tipo “Desculpe, Senhor. Não farei mais isso, Senhor. Desculpe pelo incômodo, Senhor, Senhora.” — Alexandre descreveu a expressão do “talzinho”, como ele mesmo tinha dito mais cedo, que ficara a menos de dois metros da moça enroscada em seu braço, rindo silenciosamente da conversa.

Arely abafou o riso quando ouviu a perfeita descrição do Lycan quanto ao azarado.



Ainda estavam caminhando tranquilamente, às vezes passando por outras pessoas que sorriam para eles discretamente ao balançarem a cabeça em cumprimento, saindo da rua para as calçadas estreitas quando um carro ou uma moto passavam, quando o vento mudou de direção, ao alcançarem uma encruzilhada.

Um cheiro férrico e adocicado alcançou suas narinas. Até mesmo Sílvya e Arely sentiram, quase imediatamente tampando os narizes com a manga de suas blusas. Alexandre e Ruby perceberam mais além daquele; algo como café puro e limão, amargo e cítrico em partes iguais.

— Estamos muito perto. — Ruby murmurou, aproximando-se de Arely.

— E são muitos. Algo em torno de vinte ou trinta... Algumas auras estão sobrepostas, é difícil definir. — Sílvya sussurrou, os olhos arregalados para a direção de onde o cheiro vinha.

A rua estava mais escura do que seria normal, as lâmpadas nos postes apagadas, somente um pouco de luz se infiltrando para a calçada e asfalto através de alguns portões de algumas casas.

— Mais para trinta... — Alexandre respondeu ao que a Amazona falou, estendendo o braço diante das garotas. — Vamos voltar, antes que o vento mude de novo.

Eram muitos. Mesmo com os dezesseis que os escoltavam, era arriscado, por causa dos civis dentro de suas casas e por quase metade se tratar de Bruxos.

O grupo começou a recuar devagar, tomando cuidado para não tropeçarem uns nos outros e não atraírem a atenção do bando de Vampiros e Bruxos mais adiante, provavelmente se alimentando de algum ou alguns pobres coitados que estavam no lugar errado e na hora errada.

Não conseguiram chegar ao quarteirão anterior, onde estariam protegidos se o vento começasse a soprar a favor deles. O mesmo vento que tinha avisado-os, os traiu.

— Nos perceberam! — a voz de Sílvya ecoou quando um Vampiro ergueu a cabeça, atento, e olhou na direção do grupo, sendo logo seguido pelos demais.

O que se passou, então, foi tão rápido, que lacunas ficaram na memória de Arely, embora certas coisas tenham se gravado como se tivessem sido queimadas em suas retinas.

Ela lembrou claramente de ver Sílvya assumir posição de luta, desviando de ataques mágicos com destreza e fluidez, apesar de sua deficiência: ela parecia água, avançando e desviando, atacando metodicamente os pontos exatos dos Bruxos que estavam próximos demais, tão rápido que quase parecia se teleportar.

Ruby e Alexandre deixando um rastro de roupas, dois monstruosos lobos vermelhos se perdendo em meio aos Vampiros, espirrando sangue enquanto seus dentes e garras atacavam, seus pelos adquirindo um tom rubro ainda mais forte e o cheiro férrico e adocicado ficando cada vez mais intenso e enjoativo, parecendo envolvê-la, dando-lhe vontade de correr e vomitar.

Arwen, sua amada prima, ficou diante dela, não tão humana como minutos atrás. Seus olhos estavam ferozes, animalescos, quase iguais aos de alguns cães de rua que Arely tinha visto. As orelhas, tinham se alongado e estavam cobertas de pelos castanhos, enquanto seu rosto se crispou quando os dentes pontudos e muitos maiores que os de um humano ficaram expostos, toda a linguagem corporal indicando os músculos tensionados e preparados para atacar.

Ela também viu quando outros Lycans saltaram dos telhados para o meio da luta, seus corpos se expandindo e mostrando as feras que se escondiam em seus interiores, e outros, quatro, no máximo, que pareceram quase flutuar para o chão, seus olhos de tons intensos de azul, com pupilas que eram abismos estreitos e profundos, parcialmente cobertos de escamas brilhantes, lançando feitiços, literalmente cuspindo fogo e se movimento com uma fluidez ainda maior que a de Sílvya, parecendo não água, mas vento. Presumiu que fossem Drachens.

A palavra que mais se aproximava de tudo aquilo era brutal, mas não havia de fato uma que expressasse todo o sangue, toda a violência, que se desenrolou diante dos olhos de Arely, enquanto ela estava ali, à parte de tudo, sendo protegida pela prima e se sentindo, numa palavra, inútil, enquanto via Sílvya deslizar por entre os inimigos, correndo o risco de morrer, e o líquido carmim empapar o pelo de Ruby e Alexandre.

“Verei isso triplicado, pois sou uma Mensageira.”

Quando a voz sussurrou, tão perto de seu ouvido, quase parecendo vir de sua cabeça, a garota se sobressaltou, olhando ao redor, com medo. Principalmente por ser a sua própria voz, embora com mais matizes de tristeza do que jamais imaginaria ouvir na própria voz.

“Devo olhar para trás.”

Inconscientemente, ela virou-se, a tempo de ver o Vampiro de olhos vermelhos e sorriso macabramente alegre e sentir algo gelado como os dedos da morte se espalhando por suas veias, quase ao mesmo tempo em que notou algo frio atravessar seu abdômen. Por um instante, achou que fosse gritar, mas emitiu apenas um débil gemido mesclado com um suspiro quando ele retirou a estranha lâmina cujo brilho misturava o amarelo do ouro e o cinza do aço, em forma de meia-lua, manchada com seu sangue. Ela não viu o movimento, mas viu quando, segundos depois, ele segurava uma mecha de seus cabelos e um pedaço de sua blusa branca, manchada de sangue.

Ouviu a voz de Arwen gritar seu nome, sua mão agarrando seu braço, as garras — que ela não tinha visto — quase atravessando o tecido; o Vampiro começou a correr, e ela viu um daqueles que se moviam com a fluidez do vento correndo atrás dele, as escamas parecendo mais sólidas, mais coloridas, e parecendo cobrir mais de seu corpo.

Colocou a mão esquerda sobre o ferimento, sentindo o sangue que saía, ensopando sua roupa e sua mão. Quase imediatamente, caiu de joelhos. Arwen agachou-se ao seu lado, e ela quase pode farejar seu desespero, sem saber o que fazer.

Fechou os olhos, tentando respirar fundo. Estava ficando mais difícil. Sentia-se quase como que debaixo da água, os pulmões clamando por oxigênio, mas ela incapaz de fornecer. E aquele gelo continuava a se espalhar por suas veias.

“Devo expulsar o veneno. Para isso, devo encontrar a chama. Para encontrar a chama, devo me concentrar e ignorar tudo que vem de fora.”

Como conseguiu ignorar o cheiro de sangue, o desespero de Arwen, os sons de batalha, a dor, a dificuldade em respirar, ela não sabia. Mas conseguiu ignorar, ainda de olhos fechados.

Limpou a mente e se concentrou, enquanto sua própria voz continuava falando o que fazer.



Flocos de cinzas flutuaram em frente a seus olhos, um mundo cinzento parcamente iluminado a rodeando. Lá longe, encontrou um foco de luz.

Começou a caminhar em direção ao foco de luz. As cinzas ficaram mais densas, dificultando sua visão, mas o gelo avançando a suas costas a manteve firme em seu propósito.

Divisou uma chama de vela, acesa no meio do nada. Os flocos escuros agora se movimentavam ao seu redor tal qual um furacão. Olhou para trás, e por entre as cinzas, viu uma trama de gelo se estendendo, e soube o que aquilo era: a morte, se aproximando cada vez mais. Sem sua voz precisar falar, adivinhou que, se aquele frio alcançasse aquela pequena labareda, não haveria esperanças para ela.

“Devo tocar a chama, convidá-la, aceitá-la, pois ela é uma parte de mim.”

Hesitou por menos de um segundo, e então, colocou as mãos debaixo da chama, como se ela fosse um filhote de gato recém-nascido que ela quisesse aconchegar e embalar de encontro a ela.

Você é parte de mim.

Sussurrou em meio ao nada.

A chama estava convidada: línguas de fogo estenderam-se e envolveram seus braços, avançando por seu corpo, tornando-a em fogo puro, quase branco de tão quente.

“Devo derreter o gelo e expulsá-lo de mim.”

Bastou um pensamento. Seus olhos se arregalaram, e as labaredas se espalharam como fogo numa floresta em época de seca. A teia fria resistiu à princípio, mas começou a ceder, as cinzas se espalhando, e quando o último vestígio de gelo desapareceu, ela soube: viveria.



Abriu os olhos, um suspiro profundo escapando de seus lábios.

Seus ouvidos encontraram apenas gemidos de dor. Seu olfato, o cheiro de carne queimada. Seus olhos, Arwen e Sílvya.

— Graças à Deus! — a voz de sua prima saudou sua audição, seus braços quase esmagando-a contra seu tronco. — Pensei que... Pensei que ia te perder. — ela sussurrou contra seu ouvido, a voz declarando que tinha começado a chorar.

Conseguiu sorrir de leve, mas deixou de sorrir ao ver o olhar sofrido de Sílvya.

— O que houve? E os outros?

Arwen soltou-a quase imediatamente, olhando para a garota cega suplicante, mesmo sabendo que ela era incapaz de ver.

— Ela tem de saber. — sussurrou, suavemente, antes de voltar os globos cinzentos para Arely. — Alexandre e mais dois dos nossos estão gravemente feridos, e um Drachen está desaparecido.

“Devo salvá-los, embora o desaparecido esteja para sempre perdido. Eu deveria pensar em algumas palavras para enviar à seu clã... Afinal, foi para me proteger que ele para sempre se perdeu.”

Respirou fundo, aliviada por ser capaz disso, prestando atenção à cada palavra de sua própria voz, se levantando num salto, apesar dos protestos de Arwen e de Sílvya, procurando os feridos com os olhos, ignorando os Drachens que queimavam os corpos dos Vampiros e Bruxos. Não demorou para encontrá-los, Lycans e especialmente Ruby ao redor.

Começou a andar, não sentindo sequer vestígios de dor e, quando passou a mão por dentro do buraco aberto em suas roupas, percebeu que o ferimento se fechara por completo, não deixando sequer cicatriz; apenas o sangue ainda úmido indicava que ali houvera um corte profundo. Só percebeu que Arwen segurava seu braço quando foi impedida de continuar na direção do grupo mais adiante.

— É... Melhor você não ir, Arely... — ela murmurou, os olhos esverdeados assustados enquanto fitava os castanhos da prima, uma estranha determinação parecendo queimar neles, como se a garota tivesse encontrado uma parte de si mesma.

— Posso e vou salvá-los, Arwen.

— Ly... — a Ômega não terminou, surpreendida quando Arely ergueu a blusa e a camiseta, expondo a pele integra e impecável, apesar do líquido rubro e não totalmente seco. O aperto de sua mão afrouxou, e a garota se soltou, continuando seu caminho.

— A aura dela mudou, Arwen... — Sílvya sussurrou do lado da moça, suspirando. — Não sei o que aconteceu, mas não é a mesma Arely.

— Mudou como?

— Está mais... Imponente. Densa. Palpável. — murmurou, o rosto com uma expressão que só podia ser descrita como admirada.



Arely ajoelhou-se ao lado de Alexandre, deitado no canto do asfalto, desacordado. Suor escorria pela testa, as íris se mexendo incansavelmente debaixo das pálpebras. Três tons de sangue cobriam a ele e aos farrapos de sua roupa: o rubro normal, como o que corria em suas próprias veias, um de um tom mais arroxeado, que ela não sabia se pertencia aos Vampiros ou aos Bruxos, e outro prateado, cintilante, que ela sabia pertencer aos Drachens. Provavelmente, o líquido espirrara nele em meio à luta. Cortes profundos, de onde um cheiro nauseante de queimado se erguia, percorriam seu braço direito, o peito e, ao erguê-lo com cuidado, viu que as costas também. O sangue parara de escorrer, mas ele estava longe de estar bem.

“Prata. Ele foi ferido com prata. Devo agir rápido, ou ela irá envenená-lo por completo.”

Dessa vez, sua voz tinha um tom urgente, como quando ela procurava desesperadamente alguma tarefa do colégio para entregar e não encontrava, embora o desespero naquele instante fosse maior e pior do que simplesmente a sombra de uma nota baixa.

“Devo colocar os dedos no ferimento e alcançar seu espírito com a chama.”

Respirando fundo e puxando uma armadura de coragem e determinação para cobri-la, Arely colocou os dedos dentro de um dos ferimentos. Sentiu a carne crua com a pele de seus dígitos, quente e levemente escorregadia, e junto com isso, veio a náusea, que ela se esforçou para ignorar.

Fechou os olhos, limpou a mente e obrigou-se a ignorar tudo ao redor.



O nada a abraçava com sua imensidão, pequenos flocos de cinzas caindo ao seu redor.

Estava diante de sua chama, queimando um pouco mais intensa à sua frente, e adiante, ela viu uma nevasca com seus dedos de gelo tentando e conseguindo avançar lentamente para o espaço límpido ao seu redor, um fraco ponto luminoso no centro, quase se apagando.

“Devo afastar a Morte de seu espírito, assim como afastei-a do meu. Para isso, devo avivar sua chama com a minha.”

Estendeu suas mãos para a chama, o fogo envolvendo-a confortavelmente, brilhando em azul e branco, sem nem mesmo precisar convidá-lo.

Começou a caminhar na direção da nevasca, olhando somente uma vez para trás, certificando-se de que a chama estava intacta, e continuou.

Quando pisou na área tomada pela nevasca e pela fina teia de gelo, sentiu seu calor querer fraquejar, mas então, com um simples desejo de ver o fogo se espalhar, a neve começou a derreter e a teia de gelo entrou em combustão, as línguas se espalhando pelos fios gelados.

Continuou caminhando, o fogo se espalhando à cada um de seus passos, até alcançar a pequena chama de vela, tão diminuta que lhe provocou um aperto no coração, uma pequena barreira de cinzas em movimento em seus últimos suspiros.

“Devo doar parte de meu fogo.”

Respirando fundo, estendeu a mão e tocou a chama, imediatamente avivada e convidando-a, contra a sua vontade, a visitar as lembranças que guardava.



“— Você não pode me deixar, mano!

Olhei para Aldina, seu cabelo ruivo e liso cortado na altura das orelhas e seus olhos acinzentados. Sorri tristemente, me abaixando para ficar da sua altura.

— Preciso, Ald. Os Carvalho vão cuidar bem de você.

— Eu não quero outro clã! Eu quero você e o Mestre Adrien! — minha irmãzinha de sete anos agarrou meu pescoço com todas as suas forças, e eu a envolvi também, apertando-a contra mim, já sentindo a saudade querendo oprimir meu peito.

— Eu sei, Ald, eu sei... Mas eu preciso ter certeza de que você estará segura! — Afastei-a um pouco, olhando em suas íris chorosas. — Por favor. Prometo escrever e vir visitá-la sempre que possível.

— Promete mesmo, Alex?

— Prometo, Ald. — ela estendeu o mindinho e, com um sorriso tímido, o segurei com outro mindinho.

Suspirando e segurando o choro, ela se afastou de mim e caminhou na direção do casal Alfa do clã Carvalho.

Sorri, sentindo minha garganta apertada quando acenei em despedida e me afastei em direção de mestre Adrien, sentindo um pedaço do meu coração ficar para trás, junto da minha irmãzinha que eu sabia que dificilmente veria em muito tempo.”



Abriu os olhos de repente. Olhou para o peito de Alexandre, vendo-o o intacto, somente cicatrizes antigas e sangue já seco o cobrindo. Ergueu seus dedos cautelosamente, vendo que eles apenas pressionavam a pele onde antes havia um corte profundo.

Ele parara de suar, os olhos calmos debaixo das pálpebras, o peito se erguendo num ritmo constante e tranquilo.

Deixou um sorriso tímido esticar seus lábios antes de se levantar e ir até o próximo ferido.



Ela mal conseguiu erguer as mãos quando curou o último ferido. Sentia a chama, o calor interior, fraco, brilhando em vermelho por estar mais fria, os flocos de cinzas caindo em menor quantidade e muito, muito lentamente. Bastou abrir os olhos e verificar que o peito se erguia, a garganta intacta, para sentir todo o seu corpo amolecer, os olhos se fechando de novo quase em câmera lenta, silêncio preenchendo seus ouvidos e se espalhando como um vírus de computador por seu cérebro hiperativo; menos de dez segundos depois, completamente desacordada, caiu por cima do rapaz que terminara de curar.

— Arely! Arely! — Arwen correu na sua direção, caindo de joelhos com um baque, puxando-a para seus braços com um puxão desesperado.

Sua prima respirava, mas de um jeito leve e lento, como se seus pulmões estivessem comprimidos e não conseguissem puxar muito ar de uma vez, cada lufada de ar agonizantemente espaçada da anterior. Sentiu a temperatura começar a cair como se ela estivesse mergulhada em gelo, a pele ficando mais pálida conforme as veias e artérias se contraíam para tentar manter o calor corporal e a pressão sanguínea. O som de seu coração batendo e do sangue correndo nos vasos ficou mais lento, quase parando.

— Ah, Deus, o que está acontecendo?! — o desespero estava cru na voz da Ômega.

Alexandre, que tinha acordado há pouco, se aproximou, afastando os braços de Arwen com cuidado e começando a examinar Arely, ficando cada vez mais preocupado por não ter ideia do que estava acontecendo.

De repente, o som de pneu derrapando no asfalto os alcançou e distraiu-os por alguns segundos.

Na entrada daquele pedaço da rua, uma Zafira preta parou praticamente deslizando. Os pneus nem bem tinham parado de rodar quando Adrien e duas mulheres saltaram do automóvel, andando na direção do grupo.

As mulheres foram conversar com alguns dos defensores, falando agitadamente numa língua com a sonoridade de algum idioma asiático, embora não soubessem definir qual, parecendo quase à ponto de se atracarem numa briga ferrenha.

Já Adrien, assim que viu o grupo, praticamente voou na direção deles, se ajoelhando ao lado de Alexandre, praguejando em italiano e encostando as costas da mão na testa da garota.

— Como chegou tão rápido? Nem faz dez minutos que ligaram pra você. — o Observador mais novo perguntou, observando a expressão hesitante da namorada em deixar que Adrien tirasse Arely de perto dela.

— Já tínhamos passado da metade do caminho por causa de um “recadinho” de um Vampiro... Espero que ninguém tenha filmado um Dragão caindo em cima do Hilton, ou teremos problemas. — olhou de relance para o ex-aluno, erguendo as pálpebras da garota e observando as pupilas contraídas.

— O Vampiro que estava faltando... — ouviu o sussurro do rapaz.

— O que aconteceu, exatamente? — permitiu uma flexão de acidez se infiltrar no tom de voz relativamente tranquilo.

— Demos azar de encontrar um bando se alimentando. Percebemos tarde por causa do vento, que depois nos entregou antes que saíssemos daqui. — Alexandre balançou a cabeça, inconformado. — Fomos atacados. Eram uns trinta ou mais, não parei pra contar. — olhou ao redor, parecendo meio perdido, ainda vestindo farrapos. — Eu e Ruby nos transformamos quase imediatamente e começamos a atacá-los, e Sílvya entrou logo depois na briga, assim como os protetores que estavam nos acompanhando. Arwen ficou junto da Arely, protegendo-a. — deu uma pausa e balançou a cabeça de novo, dessa vez, mais devagar, com tristeza. — Algum Vampiro passou pela gente e pela Arwen, e feriu a Arely. Quando vi, antes de desmaiar por causa dos ferimentos, Arely tinha fechado os olhos e pareceu parar de respirar, entrar em transe. — franziu os lábios. — Quando acordei, Sílvya me disse que a Mensageira ainda não desperta — frisou as três palavras — tinha curado a si mesma, a mim e à outro que estava pra morrer, e a vi terminando de curar um terceiro no mesmo estado e então cair assim, desacordada. Não tenho ideia do que aconteceu com ela ou por que. — observou Adrien erguer com cuidado a blusa e a camiseta, quase com medo do que fosse encontrar, e contemplar o sangue que rodeava um lugar intacto.

O antigo mestre suspirou, cansado, e olhou para Arwen.

— Ela vai ficar bem, não precisa surtar. — a moça assentiu devagar, e então ele virou-se para Alexandre. — Esse estado é por ela ainda não ser forte o bastante para resgatar três pessoas das portas da morte e ainda expulsar um veneno fatal até para Drachens de si mesma. Ela sobrecarregou o próprio espírito, que agora precisa se recompor, por isso este estágio de... Latência, por assim se dizer.

— E a aura dela ficar enviando pedaços dela pra todo lado e se ligar às outras auras faz parte do processo? — Sílvya perguntou, parada de pé atrás de Arwen.

— Sim. O espírito, como o corpo quando perde uma perna ou um braço, não consegue simplesmente se regenerar quando perde muito de si de uma vez. — abraçou a garota contra si, procurando manter a temperatura dela relativamente constante. — O poder de cura dos Mensageiros é basicamente a capacidade de doar seu espírito vital para curar os outros, por isso, é mais efetivo que a magia comum de cura. — suspirando, se ergueu com a garota nos braços. — Quando Mensageiros despertam o poder, passam por um treinamento mental, espiritual e físico para fortificarem o espírito, para que conheçam seus limites e não precisem se preocupar muito que vão doar demais, uma simples fagulha sendo o bastante para curar diversos ferimentos graves, e o espírito se refazendo, como a pele se refaz de um corte. Sem esse treinamento, usam muito de seu espírito até mesmo para coisas pequenas, se desgastando muito rapidamente, à ponto dele não conseguir se refazer. — Andou na direção do carro e colocou a garota no banco de trás. — Por isso os Mensageiros entram nesse estado. É o espírito dando tempo a si mesmo para se refazer, economizando forças e buscando um pouco de energia para se refazer com aqueles que são ligados ao Mensageiro em questão. É como se buscasse pequenos enxertos.

Adrien fechou a porta e se recostou na lataria do carro, cruzando os braços e erguendo uma das sobrancelhas, enquanto franzia os lábios.

— Tem alguma consequência, esse processo? — a voz de Arwen perguntou, tímida e pequena de preocupação. O Observador deixou os ombros caírem com desânimo.

— Ao ligar as auras, se ligam os espíritos. Além de poder existir uma troca de memórias, pode ocorrer de os sentimentos de um para o outro sofrerem modificações — amor virar ódio e vice-versa — embora seja raro.

Alexandre franziu a boca com a revelação. Pensava ter sonhado ser uma garota que observava, chorando e em silêncio, enquanto os pais discutiam por alguma coisa relacionada à avó não tomar os remédios ou algo assim, mas agora imaginava se não era alguma memória de Arely que passara a ele durante a cura. Então começou a se perguntar qual memória dele ela enxergara ao ligar seus espíritos e curá-lo.

Adrien viu as outras duas Observadoras se aproximarem do carro e entrarem, e então preparou-se para abrir a porta do veículo, antes virando-se para o grupo.

— Ela deve acordar até de manhã. — franziu a testa, um pouco preocupado. — Conhecem um lugar seguro para ela, em que não façam perguntas e que não vai preocupar os pais dela?

Arwen sorriu.

— A pensão onde moro. Dona Rita conhece a turma toda, gosta de nos receber, não faz muitas perguntas e a tia Maria e o tio Isaque e os pais da Sílvya confiam nela. Além disso, a pensão é bem discreta e não chama muita atenção.

— Parece perfeito. — o Observador sorriu, sentando no banco traseiro do carro. Arwen entrou em seguida.

— Vou levar vocês lá e pedir uns colchonetes extras pra Dona Rita. Alexandre, você pode levar os demais até lá. — mais uma afirmação do que uma pergunta, o Lycan apenas sorriu de leve e acenou com a cabeça, enquanto a Ômega mandava-lhe um beijo antes de fechar a porta.



Allan estralou o pescoço e os ombros assim que enviou o projeto da logo do cliente, deixando o computador desligando enquanto olhava ao redor, sentindo-se mentalmente exausto e excessivamente preocupado. Ruby só ligara uma vez, avisando que chegara à São Paulo. Aquilo o incomodava. Ela tinha dito que procuraria pelo menos enviar mensagens de tempos em tempos.

Bocejou. Olhou para a cama encostada na parede e então para o relógio pendurado acima da porta, decidindo que ficar acordado não o ajudaria em nada. Levantou-se, esticando os braços enquanto seguia na direção do móvel, e deixou-se cair em cima do colchão de qualquer jeito, dormindo em poucos segundos.



O sol estava se pondo, sua luz tingindo o ambiente de laranja, vermelho e amarelo e deixando céu e chão mesclados, apesar de ele perceber que o solo era forrado de flores de um azul claro intenso. A luz jogada sobre o campo aliada àquela coloração das flores o fazia se sentir no meio de um incêndio, como se o lugar todo estivesse em chamas.

Olhou ao redor, procurando mais alguma coisa, até que sentiu seus olhos serem novamente atraídos para o sol se pondo.

Viu Arely, distinguindo sua silhueta se recortar contra o amarelo-alaranjado do astro. Apertou os olhos, tentando decifrar a expressão em seu rosto, mas não conseguiu. Então, ela começou a andar em sua direção, e ele percebeu que, aquilo que ele acreditava ser efeito do sol e ilusão de ótica, não o era: chamas a rodeavam, partindo dela, línguas de fogo percorrendo sua pele como se fossem carícias; aquele fogo parecia formar asas que partiam de suas costas, deslizando pelo chão e deixando um rastro de flores queimadas e chamuscadas.

Sentiu seu dedo queimar. Quando olhou, viu linhas flamejantes enroscando-se na falange à partir de uma única linha igualmente em chamas. Seguiu-a com o olhar, vendo que terminava num dos dedos de Arely.

A garota o alcançou, parando diante dele, o calor e as chamas o envolvendo como um manto confortável. Os lábios vermelhos estavam levemente, muito levemente, curvados num sorriso, e então ela estendeu-lhe a mão. Quase inconscientemente, Allan a segurou, entrelaçando seus dedos, sentindo-se ser atraído em sua direção, inclinando-se, quase tocando seus lábios.

Antes que o fizesse, viu o rastro de uma lágrima de magma escorrer pelo rosto de Arely e parou.

— Um dia... — ela murmurou, soltando sua mão e o abraçando com força, apoiando a cabeça em seu peito.

Mesmo consciente de que era um sonho, aquela negativa o entristeceu.

E então, o calor e o fogo que o envolviam aumentaram, e ele sentiu, por um breve instante, como se ela estivesse sugando suas energias.

Arely o soltou pouco depois, dando um passo para trás.

E então, tudo começou a queimar enquanto sentia a consciência arrastá-lo para fora do sonho.



Louis lambeu o sangue que manchava os dedos, fazendo uma pequena careta devido ao sabor. Sangue de Lycan definitivamente estava longe de figurar entre os melhores. Virou o rosto, vendo Sabri e Sandman torturando um rapaz, tentando arrancar a informação de para onde Adrien levara Arely.

Suspirou de desânimo, pegando uma toalha úmida que trouxera, limpando o sangue das mãos.

Estavam há horas tentando descobrir algo, mas o torturado mantinha-se obstinadamente em silêncio sobre a informação, apesar de toda a prata que tinham feito entrar em seu corpo e manipulado com a magia no interior da carne. O Vampiro já estava cansado daquilo.

Abriu uma garrafa de vidro e despejou o líquido vermelho num copo. O sangue estava fresco, e pelo sabor, pertencera à alguém saudável, que além de viciado em açúcar, não tinha mais nada. O excesso de glicose tinha dado um sabor mais doce que o normal do líquido, e ele apreciou isso. Apoiou as costas na mesa onde a garrafa dividia espaço com instrumentos de tortura e um vaso de flores, observando quando Sabri, em sua pouca altura, fincou uma curta faca de prata na perna do homem e a arrastou pela carne, arrancando um grito de dor que, graças à exaustão da longa sessão, foi mais um arfar cansado e curto.

No começo, o Lycan gritara muito com a agonia que o metal brilhante provocava, e naquele momento, Louis agradeceu que somente eles estavam na casa: sua mãe e seu padrasto estavam fora, numa viagem em comemoração ao um ano de casado, e ele próprio dispensara os empregados pelo resto da semana.

E então, lentamente, sentiu uma dor de cabeça aguda se infiltrar por seu cérebro, deixando um rastro tão ardido quanto platina, trazendo sonolência junto. Apoiou o copo na mesa e, antes que percebesse, caiu desacordado no chão.



Parecia o inferno.

Lava escorria pelas paredes e pingava no chão insistentemente, línguas de fogo correndo como serpentes pela superfície, o calor o envolvendo como fios de platina, queimando e penetrando na carne, provocando tanta dor, vinda de tantos pontos diferentes, que ele ficou zonzo.

Tentou se mexer, debilmente, mas então percebeu que seus pulsos estavam acorrentados, deixando seus braços estendidos ao máximo, forçando seus ossos e músculos quase além do limite.

Virou o pescoço, olhando ao redor, enxergando a única que seria capaz de recriar seu pior pesadelo: Elizabeth. Ela era a única, além do próprio Savino, que sabia, graças à suas visões, o que ele passara para provar que estava comprometido com a causa dos Vampiros, antes de ser transformado. E sem comentários sobre a prova imposta para provar que era digno de suceder Savino como General.

Elizabeth não era exatamente como ele se lembrava. Ela não usara nada para esconder as consequências de se negar a fazer a passagem e permanecer no mundo físico: seu espírito degradado estava exposto, a pele em decomposição, um olho baço, os ossos aparentes contra a pele, o cabelo grisalho e ralo, alguns dedos sem pele e carne, apenas os ossos.

— Olá, Louis. — a voz surgiu, alegre. — Trouxe uma visita. — A Bruxa morta se afastou, deixando Arely aparecer.

A Mensageira estava rodeada por fogo. O cabelo castanho brilhava de tal forma em tons de vermelho e amarelo que parecia quase como que magma rodeando seu rosto e escorrendo por seus ombros e costas. A pele branca ganhara um tom avermelhado, como que irradiando energia, flores de fogo branco cobrindo-a, se desvanecendo e se refazendo conforme ela caminhava com passos lentos, e seus olhos... Foram eles que o assustaram, definitivamente.

Fixos nele, impassíveis, o castanho brilhava de tal forma que ele se sentia olhando para os restos fumegantes das brasas de uma floresta, esperando apenas uma suave brisa para voltar à queimar.

Tentou de novo se soltar, mas as correntes mentais eram fortes, além, é claro, de sua confusão mental provocada pela sensação de platina contra si; com certeza, aquilo tudo era obra de Elizabeth.

A Bruxa se aproximou à frente de Arely e ficou na ponta dos pés para alcançar seu ouvido.

— Achou que escaparia da minha maldição? — sussurrou, abrindo a camisa de Louis com um puxão que jogou os botões para longe, e se afastou.

Arely aproximou-se. Ela fixou seus olhos de brasa no azul claro, usando uma mão para embalar seu rosto, enquanto a outra se apoiou no seu peito.

Seus dedos esquentaram e queimaram. Pior do que o calor que lançava fios de platina, os dedos de Arely eram múltiplas agulhas que iam fundo e então se torciam, se transformando em ganchos. Sentiu sua energia começar a lhe abandonar, sugada por aqueles ganchos de platina, os olhos claros presos nos olhos castanhos. Ele viu quando a chama nos olhos da projeção mental da Mensageira voltou a queimar, tão intensa quanto o sol.

Se antes ele tinha dúvidas de que aquilo não era um simples sonho, aquelas dúvidas tinham sido jogadas por terra naquele momento. Sabia que aquilo tudo era resultado de os poderes da humana terem despertado e então usados demais, esgotando-a. Ela estava ali para regenerar seu espírito.

Sentiu os dedos ardentes começarem a deslizar por sua pele, quase com delicadeza e suavidade, mas o calor que emanavam destruiu essa sensação, queimando um rastro vermelho que o atordoou de dor, enquanto uma pergunta fugaz cruzava sua mente: por que o espírito dela se usava de fogo?

Arely afastou as mãos subitamente, e as correntes que o prendiam se soltaram. Caiu com um baque no chão fervente, mas que, diferente dos dedos de Arely, não queimava.

Ergueu o rosto, os cinco vergões de queimaduras em sua bochecha encarando o rosto da Mensageira junto dos olhos azul-claro, observando a ligeira curiosidade em seu rosto ao observá-lo.

Algo ali, naquela expressão, que naquele rosto de fogo era ao mesmo tempo dócil e ameaçadora, lançou um segundo gancho de platina em sua direção. Sentiu o metal abrir caminho por seu interior, se retorcendo cada vez mais, procurando avidamente por seu espírito. Elizabeth passou sorridente por ele, e então percebeu o que estava acontecendo: a transferência de espírito estava cobrando seu preço. Ele não sabia qual parte de seu espírito o de Arely usara para se reconstituir; o Vampiro sabia que esse processo podia levar algum pedaço de memória, cuja ausência podia mudar completamente a forma como ele enxergava os demais. O mais ínfimo detalhe podia mudar tudo, embora, geralmente, não o fizesse.

Tentou rastejar para longe, mas o gancho avançava, cada vez mais perto de seu espírito. E quando o alcançou, provocou um espasmo de dor que o fez parar.

Parou, ofegando, e ergueu novamente os olhos para Arely. A expressão de seu rosto, de ligeiramente curiosa, se alterara para algo mais frio, quase como que uma raiva e maldade contida, um repuxar tão leve de lábios que um humano normal não notaria.

Viu-se imaginando como aquela expressão ficaria no rosto da verdadeira. Viu-se perguntando a si mesmo o quão cruel Arely seria como Bruxa, a extensão de seus poderes...

O sabor de seus lábios...

E quando tudo começou a se desfazer em magma, escorrendo lenta e copiosamente conforme partes do chão desmoronavam, deixando vazios que expunham um nada infinito, ele xingou e teve uma vontade súbita de chorar ao perceber que deixar os Lycans e Drachens sem um líder já não era o único motivo para querer transformar a humana numa Bruxa.

A maldição começara a agir, como ele tinha temido pelos últimos quinhentos anos...



Allan saltou na cama, suor se agarrando à ele como uma segunda pele.

Olhou ao redor, a expressão confusa. Ele quase esperava ver o campo de flores queimando e o pôr do sol em chamas. E Arely, com sua aparência digna de Brigidd, a deusa celta do fogo.

Tocou os próprios lábios, quentes, formigando, como se, instantes antes, estivassem realmente próximos de beijar Arely.

Apoiou de leve a mão no tórax, onde a garota apoiara a cabeça. Estava quente, como se tivesse segurado uma tocha acesa perto.

Fechou os olhos, segurando a testa com uma das mãos, sentindo seu interior destruído por, mais uma vez, ter uma demonstração de como ele tinha perdido total controle de seus sentimentos em relação à humana, de que não era apenas a fera que queria força-lo a agir. Ele tentava entender onde a simples vontade de proteger deixara de ser apenas isso e se transformara em algo que ele sequer entendia por completo.



Sandman sondava seu corpo e espírito com sua magia quando Louis acordou, sugando o ar com desespero, como se fumaça tivesse penetrado em seus pulmões, sem contar o cansaço provocado por perder uma parte de si, mesmo que fosse uma parte ínfima.

Imediatamente, tocou o rosto e o peito, ainda sentindo as queimaduras que Arely lhe fizera na visão como se elas realmente estivessem ali, mas ele encontrou somente a pele intacta, embora quente.

Os Bruxos perguntaram o que ocorrera. Louis se negou a responder, sabendo que os três leriam as entrelinhas facilmente e descobririam que a maldição de Elizabeth o alcançara. Isso abalaria sua já frágil liderança. Já tinha sorte que Sandman não tinha reparado na pequena parte de seu espírito que faltava.

O que o salvou foi o som do celular de Sabri. Enquanto os Bruxos se concentravam no telefonema, olhou para o Lycan, sentindo somente parte de sua mente ali, naquela sala, a outra parte viajando e fazendo planos de acordo com sua nova condição contra a sua vontade.

Uma faca de prata fora fincada no peito do rapaz. A cabeça estava caída pra frente, sangue ainda quente escorrendo de cada ferimento de seu corpo.

Não era preciso muito para saber que estava morto.



Sentiu que luz batia em seu rosto, aquecendo não apenas ele, mas todo o seu corpo, tornando incômodo continuar deitada. Abriu os olhos, a luz solar incidindo sobre a íris, fazendo-a voltar a descer as pálpebras e cobrir os olhos com uma das mãos. Girou na cama, até sentir que a luz aquecia suas costas e nuca.

Abriu de novo os olhos, piscando um pouco para focá-los direito e deixando um sorriso suave deslizar por sua face ao ver a cena e reconhecer o lugar: era o quarto de Arwen, na pensão da Dona Rita, e a prima, Alexandre, Ruby, Sílvya e Adrien se espalhavam em colchonetes e uma segunda cama de solteiro. Ainda sorrindo, se encolheu um pouco debaixo do cobertor, procurando se manter aquecida — apesar do sol, a manhã estava fresca no tom ideal para continuar deitado por um longo tempo — e contemplando a cena, procurando marcá-la bem em seu cérebro.

Ouviu a tranquilidade que imperava no quarto e os barulhos de agitação e vida que se desenrolava na cidade ao redor da pensão. Com um suspiro resignado, decidiu se levantar devagar e cuidadosamente, ainda sentindo seu cérebro lento e zonzo por acabar de acordar, até sentar na beirada do colchão, encostando levemente os pés no chão frio de taco.

Olhou ao redor, encontrando as roupas que usava na noite anterior penduradas na cabeceira da outra cama, que Arwen e Alexandre dividiam, se enroscando numa confusão de braços e pernas que a fez ter certeza de que sua prima estaria cheia de cãibras e torcicolos quando acordasse — sinceramente, ela achava estranho que o braço que se encontrava debaixo do tórax do Lycan não estivesse roxo e em ponto de precisar ser amputado. No chão, encontrou Adrien encolhido o máximo possível em seu colchonete, como se estivesse intimidado por Ruby, completamente espalhada entre o Observador e Sílvya, um dos pés apoiados em Adrien, a cabeça em cima da barriga da cega, abraçando o travesseiro e o cobertor embolado de tal forma nela que Arely quase riu ao imaginar o possível tombo que a amiga levaria ao acordar. Isso se não fosse acordada por um tabefe acidental da loira.

Com cuidado, se levantou e andou pelo quarto até alcançar suas roupas, desviando dos colchonetes e cobertores no caminho. No bolso da blusa, procurou seu celular e conferiu que eram sete e meia de uma fria terça feira de manhã, antes de continuar seu caminho em direção à porta, pegando os chinelos de Arwen emprestados.

Uma vez no corredor, se abaixou para enrolar a barra da calça, mais larga e comprida do que suas vestes comuns, e puxou mais a manga da camiseta de manga comprida para cobrir as mãos.

Pelos seus cálculos, Dona Rita ainda devia estar com o café servido, por isso desceu as escadas com cuidado, ainda um pouco zonza de sono e sentindo o estômago reclamar de fome. Os degraus terminaram na sala de estar, onde uma televisão de 29’’ com no mínimo cinco anos de uso estava diante de um tapete felpudo e cinza-grafite e um conjunto de sofás e poltronas de couro preto. O chão, como quase toda a casa, era de taco, e as paredes eram pintadas num suave tom de pêssego. Era um lugar aconchegante onde ela, Arwen, Sílvya e Natasha tinham rido muito e comido muita pipoca enquanto assistiam aos filmes mais variados quando a mais velha do grupo passou a morar ali, preferindo vender a casa e o carro e economizar quase tudo que herdara dos pais.

Atravessando a sala, seguiu pelo curto e estreito corredor até a cozinha-copa. Dona Rita, com seus cabelos grisalhos e presos num coque, pele parda ligeiramente enrugada e gorda de um jeito adorável e que em nada a atrapalhava para cuidar da pensão, lavava alguns talheres do outro lado do balcão, cantarolando alguma canção qualquer. Arely apreciou os movimentos rápidos e econômicos que seus braços faziam ao esfregar e enxaguar a louça antes de fazer sua presença conhecida com um bom dia. A senhora virou o rosto para ela, sorrindo e respondendo o cumprimento, antes de continuar sua tarefa.

A garota sentou-se à mesa, tomando seu café da manhã com calma. Já estava quase terminando, uns bons vinte minutos depois, quando seu celular vibrou em cima da mesa. Com uma mão apenas, o pegou e leu a mensagem que Allan enviara, perguntando se estava tudo bem, já que Ruby não tinha dado notícias desde que tinham chegado à cidade.

Bastou aquela mensagem para sentir como se tivessem despejado água fria em sua cabeça. Desde o momento em que acordara, os acontecimentos da noite anterior eram um borrão que se negava a tornar-se mais nítido. Completamente acordada, o sorriso leve em seus lábios murchou, enquanto a cena parecia se desenrolar novamente diante de seus olhos, como se ela tivesse voltado no tempo. Não apenas isso: sua própria voz voltara, sussurrando docemente ao pé do ouvido.

“Jamais devo me permitir esquecer o que aconteceu; essa batalha tornou-se uma parte de mim à partir do momento que ocorreu, e abandoná-la em algum canto de minhas memórias me enfraqueceria. Não posso esquecer.”

A cena pareceu cair como uma cortina muito pesada para permanecer pendurada, devolvendo-a à cozinha-copa. A respiração ligeiramente acelerada, respondeu uma mensagem simples dizendo que pediria à Ruby ligar mais tarde e explicar com detalhes o que acontecera, mas que ele podia se tranquilizar, pois estavam bem, e então, desligou o aparelho.


Olhou ao redor, uma agulha de medo e preocupação pinicando seu cérebro: o que estava acontecendo com ela?