26 agosto 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 11: Proteger

— Tem certeza que está tudo bem, Arely? — Ruby perguntou pelo que podia ser considerada a centésima vez, enquanto ajudava a Humana a organizar os livros no antigo quarto da avó.

Arely suspirou, parando de organizar os livros de Júlio Verne por ordem alfabética na estante, o olhar se perdendo por entre os livros antigos e novos que seus pais e ela vinham acumulando. Ainda não lera sequer metade deles, mas leria todos. Um dia conseguiria. Mas não era isso que se passava em sua mente.

Naquele dia, fazia uma semana desde a morte de sua avó. Seus pais não tinham discutido a história apresentada, sustentada por Ruby, Allan e Aldina, a mãe deles — ela não tinha ideia de quem era o pai deles; por alguma razão, ele a evitara durante todo o domingo que passou na casa da amiga, sendo arrastada junto de Ruby pelas crianças para brincarem com elas, sentindo os olhares vigilantes de Adrien e Allan, que berrava piadinhas bobas e provocativas. E, embora sua mãe fosse continuar a trabalhar, e fosse óbvio que seus pais pareciam muito mais tranquilos e que a palavra que tinha pairado por quase um ano e meio chamada “divórcio” tinha desaparecido, era estranho saber que sua avó estava morta. Nada erguera suspeitas: nos dois primeiros dias precisou usar alguma maquiagem para disfarçar os ferimentos que nem mesmo ela sabia como ganhara, mas então eles já estavam cicatrizados — ela tinha percebido isso, como seus ferimentos vinham se fechando cada vez mais rápidos.

Na segunda, quando foi o velório e o enterro, seus pais não trabalharam e ela não foi à aula — mesmo porque seu uniforme estava destroçado e a mãe de Ruby fora comprar outro, já que seria difícil explicar algo parecido à seus pais — e lembrava claramente de não ter derramado nem mesmo uma lágrima. Ela não fazia falta de fato em sua vida. Nunca tinham sido próximas.

E era aquilo que a assombrava. A ausência de qualquer coisa além de uma sensação de liberdade, como se ela estivesse presa em um elevador quebrado e claustrofóbico até aquele instante. A assombrava mais a possibilidade de ser uma espécie de monstra coração-de-pedra do que o fato de que ainda não acreditava que Lycans, Bruxos e Vampiros existiam, apesar do que vira. Nem mesmo a causa exata de sua morte — coisa que Adrien não ocultou — a fez lamentar.

Virou o rosto para Ruby, piscando, os olhos castanhos ainda meio perdidos.

— Hei, Ruby... Eu devia sentir alguma coisa com a morte da minha avó?

A Lycan suspirou. Finalmente, o assunto que ela, Allan e Adrien vinham tentando arrancar desde domingo. Ao falar da morte de Marieta, não passou despercebido à nenhum dos três que, além de uma leve surpresa, Arely não parecera de fato sentir algo com a notícia.

Abandonou os livros de Agatha Christie que estava organizando, andando na direção de Arely.

— Não, se você não se sentia próxima à ela. — bagunçou a franja solta do rabo de cavalo. — Agora, pare de se preocupar com isso. Temos que terminar isso ainda hoje, senão nenhuma de nós vai conseguir arrumar a mala! — sorriu, cutucando as costelas da garota, provocando cócegas e risos, e torcendo que aquilo fosse suficiente para tranquilizar Arely.

Com o fim do semestre letivo, Arely ia viajar no domingo à noite para São Paulo, chegando segunda à tarde na cidade. Com as palavras certas, Ruby tinha conseguido vaga no carro para a viagem também — agora só desgrudaria de Arely se Adrien a arrastasse pelos cabelos. Allan permaneceria em Goiânia, vigiando Louis e os Bruxos e mantendo-a informada — embora ele tenha manifestado seu desejo de viajar com elas. Adrien tinha dito que também iria para São Paulo, mas encarregou a proteção de Arely totalmente para a aluna enquanto estivessem na cidade, alegando que tinha assuntos de Observador para resolver — que de certa forma eram relacionados aos últimos acontecimentos e ao futuro.

O único destino de que Ruby tinha conhecimento era a casa de um dos tios de Arely, onde a família, incluindo a prima Arwen, iam se reunir para recebê-los. Ou seja, conheceria a Irmã de Alma de Arely e, com um pouco de sorte, Alexandre — à partir do momento que soube da viagem, Adrien contara-lhe sobre o outro Observador, sobre Arwen ser uma Ômega e que Sílvya passava por uma espécie de treinamento com um Drachen, embora ela não soubesse quanto exatamente ele contara — ele o fizera durante um dos sonhos da garota. Ele garantira a Ruby que, provavelmente, Alexandre ia auxiliá-la a vigiar Arely.

Mas, apesar de todos os riscos, estava ansiosa por aquela viagem.



— Onde está sua irmã? — Alexei entrou no quarto de Allan sem bater, vendo o filho sentado à mesa do computador pessoal, concentrado no projeto de algum site que tinha sido encomendado — o rapaz fizera curso de web-designer durante o ensino médio e já há um bom tempo que realizava encomendas, embora, com os acontecimentos recentes, tivesse parado.

Allan não virou-se para responder, os olhos verdes ainda fixos na tela.

— Na casa da Arely. — curto e grosso, era a única coisa que definia a voz de Allan.

O Lycan tinha estado mal-humorado desde a semana anterior. Desde o encontro de Alfas dos clãs da cidade, mais especificamente.

Era óbvio que estava com raiva do pai por ser um dos que votaram por deixar Arely morrer ou se transformar em mais uma Bruxa. Mas havia mais.

Havia raiva de si mesmo.

Ele se culpava por não conseguir proteger a garota. Tinham sido seis meses vigiando-a e protegendo-a, e até mesmo se aproximando sutilmente por iniciativa dela. Seis meses encarando, à distância, aqueles olhos cor de chocolate ao leite. Ele amava a cor e o brilho que os olhos dela tinham, e imaginar que, por causa de sua suposta falha eles podiam ter se tornado daquele azul-claro quase leitoso dos Bruxos, preenchido com sentimentos maléficos, o deixava irado, como alguém que passara meses construindo uma casa, e então, quando estava quase terminando, um temporal derrubara, não deixando pedra sobre pedra. Além disso, agora sua fera insistia que a queria... Inferno, por que isso justo agora?

Engoliu o bolo na garganta que a raiva provocou, focando-se novamente no que fazia. Ouviu seu pai suspirar à suas costas e perguntou-se porque não saíra ainda.

— Eu... Vim pedir desculpas, Allan. — o Lycan mais novo piscou, surpreso, antes de rodar a cadeira giratória para olhar melhor para o pai. — Eu devia ter ouvido vocês. Devia ter votado pela busca dela, embora provavelmente tivesse sido inútil, já que a acharam sem ajuda...

— Só a achamos porque o Anjo que dividiu seu espírito com ela foi atrás de Adrien e disse onde poderia encontrá-la... — murmurou, um tom de desconfiança para com o pai pairando na voz.

— Eu sei... — andou na direção da janela, observando sua esposa, irmã, cunhadas e primas andando para cima e para baixo, preparando o jantar, enquanto as crianças brincavam de luta. — Se eu tivesse olhado para ela ao menos uma vez, teria percebido, mas preferi ficar escondido enquanto você cuidava de sua proteção... — Allan levantou-se da cadeira e parou ao lado do pai, sorrindo ao ver os pequenos lutarem para controlarem a irritação por perderem uma luta e, assim, não se transformarem. — Minha mãe, filha caçula do Alfa de um clã fazendeiro, conheceu um Mensageiro. Era um rapaz filho do peão que cuidava do rebanho, com quem ela brincou muito na infância e que sabia o que aquela família era. Quando ela tinha dez anos, e ele, treze, um Observador, Hayato, pediu abrigo entre eles; era uma época que os Observadores ainda não eram detestados entre nós. Ele percebeu com um olhar o que o menino era, e pediu que cuidassem dele até que fizesse dezesseis anos, quando ele viria buscá-lo.

Alexei deu uma pausa, sua mente parecendo viajar pelas lembranças que tinha da mãe, morta anos atrás após o parto de sua irmã caçula quando tinha doze anos. Lembrando melhor da história que sua mãe contara-lhe quando tinha onze anos, quando seu pai falou-lhe sobre os Observadores e todo o mais.

— Por algum motivo, Hayato atrasou-se. Bruxos e Vampiros descobriram o rapaz assim que o poder despertou e atacaram o clã, transformando o Mensageiro em Bruxo. Só ela sobreviveu, escondida, até Hayato a encontrar e trazê-la para os Carvalho. Mas o que importa é o que ela disse sobre esse rapaz... — virou-se para o filho, olhando-o nos olhos. — Ela disse que ele tinha muita luz. Que animais e crianças se acalmavam só com a presença dele, e até mesmo as plantas ficavam mais verdes quando ele se aproximava. Ela mesma o perseguia para cima e para baixo desde que nascera, era como um irmão mais velho para ela. — olhou para o jardim de novo, a grama menos amarelada que uma semana antes. — Eu vi isso em Arely. Essa mesma luz que minha mãe me contou. Por isso não me aproximei... Tive vergonha, porque por mim ela teria se transformado numa Bruxa.

Allan colocou uma mão no ombro do pai, ainda observando o jardim, lembrando-se de Arely correndo e sendo puxada através dele por seus primos menores, brincando quase como se também fosse uma criança. Ouvir a história sobre sua avó, que não chegara a conhecer e que tanto seu pai como o avô pouco falavam, fez sua vontade de proteger Arely e seus pais se intensificar.

O pai tinha razão sobre aquela luz que, apesar de tudo, a garota possuía. Não queria que aquela luz se perdesse. Sabia, naquele instante, que iria até os seus próprios limites para protegê-la — embora vigiando-se e batendo na própria cabeça para não ceder aos desejos da fera.

— Vou conseguir protegê-la? — perguntou de repente, após algum tempo, tirando a mão do ombro do pai e olhando meio perdido para as crianças que agora brincavam de balança-caixão, um deles sendo segurado pelas mãos e pés e sendo balançado.

Alexei o puxou com um braço pelo pescoço, fazendo o filho se encurvar levemente por ser ligeiramente mais alto que o pai, também observando a brincadeira, um sorriso leve aparecendo quando a criança balançada foi solta de repente e as outras correram para se esconderem.

— Vai. Você é forte, Allan. Não suporta fracassar ou desistir, por isso vai ignorar que essas palavras sequer existem. É um líder nato... — a voz saiu num murmúrio, quase uma confidência, e a última oração provocou um sorriso no rapaz.

— Só porque você me treinou para isso.

Alexei voltou a sorrir.



Arely praticamente puxou Ruby, seus pais logo atrás das duas, para dentro da sala espaçosa numa casa mais espaçosa ainda. Ambas carregavam suas malas, Arely carregando ainda uma mochila que a Lycan admitia ser pesada para uma humana; ela estava sinceramente surpresa que Arely carregasse-a tão tranquilamente, apesar de ter se oferecido para levá-la.

Os quatro foram engolidos, praticamente, e separados, por cerca de trinta parentes de Arely — e eram só os presentes em São Paulo, outros ainda moravam em cidades esparsas pelo interior do estado. Tios, primos, avós, namorados e namoradas... A família de Ruby era grande, mas a de Arely não ficava atrás.

Foi praticamente passada de mão em mão, a mala abandonada na entrada, até se ver na cozinha, onde as crianças menores roubavam iogurte de morango da geladeira e fugiam pela porta dos fundos. Sorriu, e então virou-se para a sala de novo, procurando pelo cabelo castanho de Arely. Sem sorte. Apesar de algumas cabeças de cabelos brancos, vermelho-tingido e preto, a predominância geral da família era castanho.

Suspirou, desanimada, e então uma mão pesada pousou em seu ombro ao mesmo tempo em que um cheiro de Lycan velho — não como Adrien, algo mais como sua mãe — a alcançou, como terra molhada e mata virgem, de certa forma, semelhante ao seu próprio cheiro. Virou lentamente, piscando para um Lycan que ela dava uns vinte anos pela aparência. Uma pele morena recobria os músculos magros e ossos angulosos, um cabelo vermelho-sangue e encaracolado caindo até os ombros, amarrado na nuca num rabo de cavalo com um elástico fio-de-telefone. Olhos cinzentos e brilhantes sombreados por sobrancelhas grossas, algumas rugas de expressão por causa do sorriso largo enquanto a olhava.

— Caramba! Adrien não estava brincando quando disse que você era a cara de Aldina quando ela tinha quinze anos! — estendeu a mão para Ruby, que a apertou, embora uma expressão desconcertada ainda estivesse em seu rosto. Era difícil acreditar que aquele rosto de vinte anos pertencia ao irmão mais velho de sua mãe. — Quem diria que eu teria uma sobrinha tão bonita... — bagunçou o cabelo no topo da cabeça de Ruby, os fios cacheados assentando naturalmente, antes de colocar as mãos nos bolsos da calça jeans.

Ficaram se encarando por um tempo, ele ainda com aquele sorriso aberto de boas-vindas, ela com uma expressão surpresa. Provavelmente, teriam permanecido naquele silêncio levemente incomodo se duas risadas não tivessem alcançado-os. Uma delas, que Ruby reconheceu, pertencia à Arely: era um riso com interrupções pela falta de ar, súbito, alto, espontâneo. Se destacava pela altura que alcançava, e a Lycan sabia, por causa daquele riso, que Arely estava feliz. Mais feliz do que tinha se mostrado desde que fora sequestrada. O outro tinha um som mais cristalino, não muito alto, mas possuía uma força, mais por causa da voz que o originara que por qualquer outra coisa, que Ruby tinha certeza: ela obedeceria o que quer que aquela voz ordenasse. Era simplesmente impossível resistir. Agora ela entendia o que Adrien quisera dizer ao avisar que era impossível para qualquer Lycan resistir à uma Ômega.

A Lycan mais nova virou-se para poder ver Arely e a dona da outra risada, preocupada com o olhar no mínimo faminto que Alexandre lançava para suas costas.

Duas humanas, abraçadas de modo fraternal. A mais baixa e fofinha reconheceu como sendo Arely, perdendo o ar em meio ao riso por causa de alguma besteira. E a outra reconheceu de sua primeira incursão ao plano espiritual: Arwen, prima e Irmã de Alma de Arely, com os cabelos compridos e castanho-chocolate e olhos verde-azulado, brilhantes como pedras preciosas. A pele estava menos pálida do que se lembrava, com um saudável bronzeado. Um sorriso delicado adornava os lábios finos e rosados, diferente de Arely, com seus grossos lábios vermelhos. Mas o que a destacou, ao lado de Arely, foi a altura: no mínimo um metro e oitenta, com um corpo de quadris e seios avantajados. Ao relancear o olhar para Alexandre, teve certeza de que os olhos dele estavam no balanço dos quadris de Arwen enquanto ela andava, e isso conseguiu arrancar um sorriso dela também.

— Você deve ser Ruby. — Arwen soltou-se da prima e estendeu a mão para a Lycan, que a apertou. A voz de Arwen soou como a ordem de uma rainha, e Ruby só conseguiu balançar a cabeça de forma meio boba para a Ômega. — Desde que Adrien ligou para Alexandre e falou sobre você, ele não conseguia deixar de especular sobre a sobrinha... — sua voz possuía um leve riso, enquanto caminhava com um andar fluído de modelo na direção de Alexandre, enlaçando-o pela cintura e apoiando a cabeça em seu ombro. O Observador deixou a mão descansando no quadril de Arwen, apertando entre os dedos a barra da jaqueta grossa.

— Arwen... Você está fazendo de novo... — ele a avisou com a sombra de um sorriso, e a jovem piscou, surpresa, enquanto levava a mão para a boca, antes de falar num tom de desculpas.

— Me desculpe... Ainda não controlo essa capacidade de dar ordens à Lycans direito... Ignore qualquer coisa que tenha soado como uma ordem para você, por favor.

Ruby e Arely riram de novo, dessa vez por causa do aparente embaraço de Arwen do que qualquer outra coisa. E a Lycan notou que algo tinha acontecido com a voz da garota... Tinha parecido mais normal, o tom de ordem completamente ausente. Como se fosse sua própria voz.

— Pois é, Ru... Você já conheceu a minha prima, mas eu ainda não conheço o seu tio... — A-rely resmungou, cruzando os braços ao lado da amiga.

Alexandre soltou-se de Arwen e deu alguns passos na direção da humana, puxando a mão direita da garota e roçando o dorso com os lábios após uma reverência. O rosto de Arely ganhou tons de vermelho, enquanto as sobrancelhas de Ruby e Arwen se erguiam ao mesmo tempo.

— Alexandre Ludwig, ao seu dispor. — Endireitou-se, não soltando a mão de Arely. — Espero que não acredite nas mentiras que Adrien disse sobre mim... — começou, um tom galanteador na voz de barítono.

A garota, já de controle total de suas faculdades mentais após uma breve escorregada, deixou um lento sorriso se espalhar por seus lábios, enquanto decidia que uma piadinha com o Lycan seria engraçada.

Adrien a prevenira, realmente. A avisara que Alexandre e sua prima estavam juntos, mas que isso não o impedia de continuar sendo um Don Juan de marca maior — e que não devia acreditar em qualquer possível flerte. Naquele momento, ela sentia vontade de rir ao lembrar do tom de aviso e olhar sombrio do Lycan ao falar aquilo.

— Oh... Então você não é um cavalheiro que não brinca com o coração das jovens? — deixou a pergunta no ar, vendo Alexandre piscar lentamente, tentando absorver a frase relativamente confusa que ela dissera, enquanto Ruby e Arwen começavam a rir até perder o ar. A expressão inocente de Arely era tão falsa que ninguém acreditaria nela — ao menos, alguém que a conhecesse.

— Eu te avisei que essa carinha de anjo escondia uma mente vingativa e maléfica que não cairia numa cantada sua! — Arwen exclamou em meio aos risos, apoiando um braço no ombro do Observador. — Me deve vinte reais. — estendeu a outra mão para Alexandre, ainda rindo.

Com uma careta de desagrado, o Lycan mergulhou uma mão no bolso da calça e puxou uma nota de vinte, que colocou na mão de Arwen. A Ômega fechou a mão e a colocou no bolso da calça de moletom com um sorriso quase tão brilhante quanto o de uma propaganda de creme dental.



Assim que Ruby, Arely, Maria Paula e Isaque entraram na casa de uma das tias da humana, Adrien suspirou aliviado por não ter tido problemas e deu as costas para a casa, consultando a hora no celular antes de se encaminhar para o local onde Jean marcara a reunião com os Observadores que se encontravam no país e podiam chegar a tempo. Os Lycans e Drachens que Alexandre contatara já estavam em suas posições para cuidar da segurança de Arely, como ele mesmo verificara alguns minutos antes. Olhou mais uma vez com seus olhos apurados os telhados escuros e de alturas variadas, captando os olhos brilhantes em tons de azul com pupilas em fenda em meio às sombras que as casas provocavam umas nas outras, ocultos durante o dia, relaxando os ombros ao verificar que todos os dezesseis pares estavam ali.

Conforme andava pelas ruas e avenidas da cidade, o sol baixava lentamente; quando estava prestes a se por, o movimento de carros ficou ainda mais intenso, e começou a ter problemas em atravessar a cidade até o Hilton. Não se incomodou em pegar um ônibus ou alugar uma moto ou um carro. Ia demorar mais para chegar ao local, e ainda ficaria confinado ao trânsito caótico de fim de dia da cidade. Algo que se negava a enfrentar até seu último dia de vida.

Chegou no hotel cerca de uma hora após o pôr do sol, o movimento começando a amenizar lentamente. Atrás dele, o Tietê seguia, seu cheiro morto e podre o deixando enjoado quanto mais tempo permanecia fora da grandiosa construção cinzenta de concreto, com tantos andares que desistiu de contar quando chegou ao dez e começou a sentir vertigem ao olhar para cima.

Definitivamente, nunca se acostumaria com as alturas as quais o homem chegava naqueles tempos, fosse olhando para ver as altas construções, fosse para olhar o mundo abaixo de um avião ou de uma montanha-russa. Como Amazonas, Cavaleiros, Wyverns e Drachens aguentavam, ele não tinha ideia.

Entrou no prédio, enquanto verificava a mensagem que Jean enviara mais cedo informando o local exato da reunião no hotel. Tudo coberto pela vasta fortuna que o Drachen tivera acesso cinquenta anos antes de se tornar Observador, quando saiu de baixo das asas dos pais, e mantida e aumentada sem muita dificuldade. Respirou fundo, engolindo seu medo de alturas ao verificar que a reunião seria na piscina. No topo do hotel.

— Você está tirando uma com a minha cara, não está, Jean? — resmungou, adentrando o saguão do hotel e informando o recepcionista porque estava ali. Depois de dar seu nome, se encaminhou para o elevador, respirando fundo diversas vezes e prometendo a si mesmo que não ia olhar para baixo.



Falhou miseravelmente com sua promessa de não olhar para baixo.

Era simplesmente impossível ignorar a cidade se estendendo do outro lado das extensas paredes de vidro, luzes e mais luzes, prédios e casas e postes. Ele tinha se aproximado e, quando percebeu, estava praticamente grudado no vidro, olhando para a cidade e então, inevitavelmente, para baixo. A sensação de vertigem que o assolou foi forte, e Adrien recuou de forma cega, tropeçando numa espreguiçadeira para então cair na piscina. Quando sua cabeça emergiu de novo, cuspindo água, ouviu uma risada velha conhecida, e não conseguiu impedir um esticar preguiçoso de lábios quando reconheceu-a.

Virou-se, e ali estava, Jean, conhecido popularmente entre os Observadores como Cigano, embora não tivesse sangue cigano — e nem que fosse possível que possuísse.

Usava roupas coloridas e chamativas, com pulseiras e colares de correntes intercalados com pedras preciosas cobrindo boa parte do corpo de pele morena e músculos esguios. O cabelo, liso e preto, descia até abaixo das escápulas, impedido de cair no rosto por uma bandana vermelha. Os olhos, puxados e azul-claro, brilhavam com algo como sentimento de vitória, as pupilas em fenda como os olhos de um réptil naquele instante, um sorriso torto nos lábios, e o conjunto, mais a pose despreocupada, dava a Jean — que Adrien sabia que o nome original era Jin, adaptado para Jean algumas décadas atrás — um ar de bad boy. Adrien sabia que muitas garotas tinham caído suspirando diante daquele ar do Drachen ao longo de seus pouco mais de cinco séculos de vida — principalmente porque para os padrões Drachen ele acabara de sair da adolescência, sendo algumas décadas mais velho que Adrien, e por causa dos círculos restritos dos clãs Drachens, um amigo próximo.

— Você não resistiu à piscina, hein? — falou, parando perto da beirada, molhando a barra das calças jeans longas que o cobriam até o calcanhar, os dedos descalços em contato livre com o azulejo molhado.

— O que posso dizer? A água me atrai! — deu de ombros, ignorando a escada ao voltar para o chão firme, os músculos do braço se tencionando enquanto se erguia até que estivesse de joelhos à beira da piscina.

Jean riu de novo, estendendo a mão para ajudar Adrien a ficar de pé sobre os próprios pés, e então, ignorando que ele estava encharcado até os ossos, o abraçou com uma força que poucos imaginariam existir naqueles músculos, batendo com uma das mãos várias vezes nas costas do Lycan. Lado a lado, era possível perceber que batia na altura dos olhos do outro Observador.

— Cara, você não tem ideia de como é bom te ver! É a maior chatice procurar Velhos Líderes e Guerreiros sem você, Alexandre e o mestre Hayato! — Jean soltou Adrien, se afastando alguns passos e se jogando numa espreguiçadeira, a frente da blusa e do colete começando a se colar ao corpo por causa da água.

— Também é bom te ver, Jean. — sentou em outra espreguiçadeira, as mãos com os dedos entrelaçados debaixo da cabeça, os olhos se perdendo no céu cinza-chumbo que era a noite de São Paulo, algumas estrelas solitárias aparecendo, a lua minguante parecendo minúscula e fraca daquela distância. Tinha de admitir: embora detestasse sequer imaginar há quantos metros estava do chão, o lugar que Jean escolhera era bom.

Embora fosse mais um mimo que qualquer outra coisa para os poucos Observadores Drachens que estariam presentes. Tinha certeza que a vista não se comparava a que costumavam ter — algo pouco mais baixo do que a altitude de um avião — mas devia servir para matar a saudade de voar: o tráfego aéreo dificultava que os Drachens pudessem tomar suas formas reais e voar como costumavam fazer até algumas décadas atrás.

Era a única explicação plausível que Adrien encontrava para explicar porque todos os Drachens que visitara tinham de morar na cobertura do prédio mais alto possível. Não podia ser só por causa do dinheiro que eles mal tinham no que gastar — tecnicamente.

— E aí, como vai o treinamento da Mensageira? — o Drachen perguntou, o olhar relanceando para o relógio de pulso prateado que destoava da composição colorida e aparentemente simples — já que provavelmente era um Rolex. Soltou um tsc e olhou de novo para Adrien.

— Ainda não comecei a treiná-la... — olhou de soslaio para o incrédulo Drachen. — Por isso pedi para Alexandre não mencionar nada sobre Mensageiros, nem pra ela, nem para Arwen, e muito menos para a sua aprendiz Amazona. — semicerrou os olhos e Jean ergueu as mãos num gesto de paz.

— Ok, entendi... Mas por que isso? — as sobrancelhas se inclinaram quase num V perfeito quando falou, sentando de forma que os pés descalços tocassem o chão.

Adrien logo sentou-se também, de frente para ele, tirando os tênis e meias ensopados, seguidos da jaqueta jeans. Tirou a carteira de um bolso interno da peça e agradeceu interiormente que usava uma carteira impermeável — só de imaginar o inferno que seria conseguir novos documentos com algum Drachen especializado o fazia ter dor de cabeça: a burocracia seria enorme e levaria no mínimo dois meses, tempo que ele não tinha. A camiseta foi a próxima, expondo o torso moreno coberto com finas cicatrizes mais claras, deixadas pelas armas de prata das batalhas na Catedral e fora dela. Cinco pontos relativamente fundos cobriam o lado esquerdo do peito, bem onde o coração palpitava, como marcas de garras que tentavam perfurar algo. Jean sabia que, de todas as cicatrizes, aqueles cinco pontos eram os mais dolorosos, não apenas por serem as primeiras cicatrizes feitas de fato com prata, mas também por causa de quem e quando foram causadas.

— Porque os dons dela despertaram somente de forma superficial, por enquanto. Só alguns sonhos. Além disso, ela mal aceitou a nossa existência, não devo sobrecarregá-la, ainda mais depois do sequestro. — estralou a língua, pensativo. — Embora a cicatrização dela tenha se acelerado... Não existe mais nenhum vestígio do que quer que ela tenha passado enquanto estava sob o efeito das drogas... — cruzou os braços sobre o peito amplo, ainda pensativo. — Era pra ter demorado mais uma semana... — balançou a cabeça, parecendo querer desanuviar a mente. Provavelmente aquilo não significava muito.

Jean acenou em concordância, percebendo o ponto do Lycan. Sobrecarregar Mensageiros não terminava nada bem, pelo que lembrava de Hayato lhe contar. Mesmo com o que ele dissera sobre a cura acelerada.

— Começaram a reunião sem nós?! — os dois se viraram para a voz alegre e feminina, vendo um grupo de dez pessoas, das quais três eram mulheres.

Fora uma dessas mulheres que falara, com os braços estendidos, como o apresentador de um picadeiro de circo. Tinha cabelos negros e lisos presos num coque elegante e simples, um corpo magro, esguio, baixo e de poucas curvas, de pele pálida, coberto por um longo vestido vermelho de corte chinês com um dragão dourado subindo desde a barra até os seios pelo lado direito, do lado esquerdo uma racha que deixava praticamente toda a perna de músculos magros exposta. Os traços delicados do rosto não mentiam sua nacionalidade chinesa, mas os olhos azul-claro de pupilas em fenda davam à mulher um ar perigoso e antigo. Adrien deixou um sorriso se espalhar pelos lábios enquanto Jean se levantava e cumprimentava a mulher com um sonoro “Tia, pensei que não fosse poder vir! Não estava em turnê nos Estados Unidos?”.

— Cheguei não faz nem dez minutos, Yu. — Adrien balançou a cabeça, acenando da espreguiçadeira na direção da Drachen. As sobrancelhas finas e desenhadas de Yu se ergueram. — Estávamos conversando um pouco, apenas...

Deslizou o olhar pelos demais integrantes do grupo, as sobrancelhas se inclinando num V ao ver um homem com a aparência entre vinte e trinta anos, com traços orientais se estendendo pela pele levemente morena; o cabelo era branco-puro, cortado como se um dragão oriental estivesse pousado em sua cabeça, com uma fina trança vermelho-vivo saindo de sua nuca como a “cauda” do dragão e caindo por cima do ombro quase até a cintura. Suas roupas, cobrindo um corpo de músculos medianos e tão alto quanto Adrien, no geral, poderiam confundi-lo como o vocalista de alguma banda de metal — embora não fosse possível definir o estilo exato desse metal. Mas foram os olhos puxados e estreitos que o fizeram reconhecer o Observador, com as íris cor de bronze derretido e as pupilas em fenda. Além disso, outro elemento o destacava. Destoando de suas roupas, apoiava-se numa bengala retorcida de ébano, parecida como se um galho da árvore houvesse caído e ele simplesmente o tivesse recolhido, cheio de pedras preciosas, pequeninas e brutas, incrustadas ao longo da madeira como se tivessem surgido junto dela.

— Hayato. — sua voz pareceu-lhe estranha aos seus ouvidos. O homem balançou a cabeça uma vez, os olhos atentos, perspicazes e com a sabedoria de milênios — no mínimo quatro — fixados em Adrien. — Jean tinha me dito que estava na Inglaterra, numa escavação... — era verdade. Pouco depois de resgatar Arely, Jean ligara informando aquilo. Como não conseguira falar com o Drachen através do celular, pedira à Jean para falar com ele usando o número da casa no país onde quer que estivesse — a maioria dos Drachens possuía pelo menos dez casas confortáveis, cada uma num canto do mundo. Por causa disso, e não esperando que Hayato viesse — sabia como ele gostava de se dedicar a escavar coisas e lugares que ele provavelmente vira em seus dias de glória –, esperava pedir à algum outro Observador que se aproximasse da garota que suspeitavam ser a Guardiã.

— Jin conseguiu me deixar curioso. Espero que minha vinda não tenha sido inútil... — O Drachen jogou um olhar mortal para Jean, que se encolheu atrás de Yu, consciente do perigo ao ser chamado por seu nome real por Hayato, o único — além de seus pais, que viviam isolados e confortáveis em meio às montanhas do Himalaia — que o usava. — Meu aprendiz sabe que qualquer Drachen que se preze odeia voar em lugares fechados, como esses malditos aviões... — os olhos sábios se fecharam para o mundo por alguns instantes. As sobrancelhas de Adrien se ergueram levemente ao ser lembrado daquele detalhe — Vamos logo com isso. Quando me encontrou no aeroporto, Jin se recusou a me contar o que aconteceu.

O Drachen se dirigiu à uma cadeira de vime com passos firmes e decididos, apesar da bengala e de mancar um pouco com a perna esquerda. Era óbvio que o Observador estava de mau-humor, embora ninguém, nem mesmo seu aprendiz, soubessem dizer o exato motivo para isso.

Os que o conheciam há muito tempo, como Adrien, Jean e Yu, a terceira Observadora mais velha, sabiam só de olhar para a face contorcida de preocupação que algo tinha ocorrido para perturbar a ilha de calma que Hayato sempre era. O Drachen era tão velho, e tão cheio de experiência por tudo que vira, que a sabedoria e a inteligência pareciam pesar em seus ombros para que sempre permanecesse calmo e analisasse tudo com frieza antes de chegar à um curso de ação, considerando todas as variáveis possíveis. Não apenas isso, todas as batalhas que enfrentara e os ferimentos que ganhara também pareciam pesar mais conforme o tempo passava, dando-lhe cada vez mais vontade de se esconder em algum canto do mundo e deixar a guerra para os mais jovens. Como muitos Drachens tinham feito e ainda faziam.

Apenas depois que Hayato já estava acomodado é que os demais ainda em pé se espalharam e se acomodaram pelo lugar — mas só depois de um penetrante olhar do Drachen que dizia claramente “vamos logo com isso” — organizando as espreguiçadeiras e cadeiras num círculo.

Um silêncio incômodo se arrastou, até que Hayato se inclinou, os cotovelos descansando nos joelhos, as sobrancelhas finas e brancas se inclinando por cima dos olhos estreitos, que se fixaram em Adrien novamente. Foi como o instante ansioso de uma plateia que vê o hábil maestro preparar-se para reger a orquestra, tenso e cheio de expectativa. Depois que Hayato fizera o primeiro movimento, ninguém ousou interrompê-lo.

— Podem ter encontrado a Guardiã? — a voz do Drachen foi pouco mais que um sussurro. Adrien se recostou na espreguiçadeira, ao mesmo tempo irritado e surpreso com a pergunta de Hayato, surpreso com o uso do pronome no feminino, tendo em conta que geralmente eram homens que podiam abrir ou fechar os portões do Inferno. Com exceção de Jean, que fez uma careta que dizia “droga”, a reação dos demais Observadores foi um erguer de sobrancelhas associado à um autêntico ar de surpresa e cochichos especulativos sobre o que levara Hayato à fazer aquela pergunta.

— Sim, podemos ter encontrado. — Hayato baixou o olhar, esperando por informações que não vieram. Adrien recusou-se à falar sobre Natasha até que Hayato dissesse como sabia daquilo, embora já tivesse suas suspeitas. Esperou até que o Drachen erguesse novamente os olhos para ele, perguntas brilhando no bronze-derretido. — Como ficou sabendo?

Os lábios de Hayato se apertaram numa fina linha de desgosto enquanto apoiava as costas no encosto de vime da cadeira, cruzando os braços sobre o peito, o couro da jaqueta se retesando com a tensão. Adrien desconfiou que saber aquilo era o real motivo para sua vinda ao Brasil. E também o motivo de seu mau humor.

— Sadiqah. Ela descobriu meu número com um antigo aprendiz e ligou para cantar vitória sobre como tinham conseguido a Guardiã tão facilmente, na segunda-feira passada... Por causa da reunião para a qual Jean me convidou no domingo, desconfiei que vocês a tinham encontrado também, e queriam discutir como se aproximar dela.

Adrien sabia que Sadiqah era uma Bruxa, que um dia fora uma Mensageira debaixo dos cuidados de Hayato, antes de matar, perder seus dons e implorar pela parte do espírito de um demônio. O Lycan não conhecia toda a história, mas Yu dissera que ambos tinham sido muito próximos e que a queda de Sadiqah fora um tremendo golpe para o Observador. Adrien soltou um impropério enquanto se voltava para Jean, conseguindo apenas imaginar o que podia ter acarretado aquela reação da Bruxa.

— Você não aproveitou a proximidade de Sílvya para ficar de olho nela?! Você disse que estava fazendo isso! — o Observador mais novo ergueu as mãos num gesto pacificador, e Adrien engoliu o resto de suas palavras. Afinal, mesmo que algo houvesse de fato ocorrido, Jean não teria tido oportunidade de informar: o recente sequestro de Arely, a segurança da garota enquanto estivesse em São Paulo e os preparativos para aquela reunião tinham ocupado completamente sua cabeça durante a semana.

— Eu não sei direito o que ocorreu... Sílvya me disse que a Natasha arranjou um namorado novo essa semana, mas que não o apresentou ainda... Inclusive eles iam sair juntos hoje, e que por isso ela não ia ver a Arely... — Jean resmungou, fazendo caras e bocas enquanto seu cérebro trabalhava para tentar chegar à uma conclusão de o que Sadiqah esperava ganhar com aquilo... Há menos que ela realmente pensasse que não havia como eles recuperarem a garota.

— Desculpem-me, mas quem são Sílvya, Natasha e Arely? — Yu interrompeu, em nome de todos os Observadores presentes, o que provavelmente ia acabar se transformando numa discussão de responsabilidade ou algo parecido para a qual não tinham tempo.

O Lycan e o Drachen se entreolharam e suspiraram antes de falarem sobre as três mencionadas, mais Arwen.

Hayato e os demais Observadores presentes ouviram com atenção, pelos próximos trinta minutos, a explicação intercalada dos dois sobre os últimos acontecimentos — como as moças tinham sido encontradas, o que os Vampiros e Bruxos tinham feito ao descobrirem-nas, os poderes precocemente despertados e o recente sequestro de Arely, entre outras coisas.

Quando os dois terminaram, fez-se silêncio por cinco minutos ou mais. Todos pareciam tensos com as recentes notícias. Yu, a primeira que se obrigou a sair daquele torpor, deu um suspiro e se levantou, alisando as dobras do vestido.

— Vou cancelar todos os shows da turnê, inventar alguma justificativa que dê um motivo de tempo indeterminado para ficar fora das vistas, e vou para a Catedral preparar as coisas para a batalha. — virou para as outras duas mulheres presentes. — Chamem mais alguns Observadores e me encontrem lá em no máximo uma semana. — as duas balançaram a cabeça com olhares determinados; os olhos intensos de Yu fitaram seus companheiros de batalha e então ela sentou-se de novo, aguardando que o resto do plano se delineasse.

Um homem, aparentando ter entre trinta e quarenta anos, cabelos castanhos rajados de cinza, de olhos verde-escuro, chamou a atenção para si ao se levantar. Era daquele jeito que eles delineavam seus planos preparatórios: um Observador tomava para si, voluntariamente, alguma tarefa, e então pedia ajuda aos companheiros para cumpri-la; o Observador mais velho presente, no final, apenas dava permissão e alterava a tarefa se achasse necessário — somente durante alguma batalha os Observadores mais velhos realmente davam ordens, guiadas por planos delineados pelos Mensageiros. Naquela reunião, essa tarefa seria de Hayato.

— Vou atrás dos outros Observadores e então começar o recrutamento entre os clãs Lycans e Drachens. Vou precisar de ajuda. — lançou um olhar geral, e a maioria acenou a cabeça como um sinal de que se dispunham à ajudá-lo, e então sentou-se de novo.

Hayato pigarreou, os braços ainda cruzados, observando Adrien com seriedade.

— Já sabe o que fazer quanto à Guardiã? — a voz estava ainda mais séria que seu rosto.

O Lycan suspirou de forma desanimada antes de responder.

— Sinceramente? Não. — ergueu os ombros levemente como que para pontuar sua fala.

Hayato olhou para Jean de forma reprovadora, antes de se virar para Adrien de novo.

— Jean me disse que o Dante Alighieri está precisando de um professor de História. Não tinha entendido até agora... — deu uma pausa. — Estava pensando em me infiltrar lá e assim ficar de olho nela, tentar me aproximar... Desconfio que os dons para magia vão despertar logo... — Adrien fitou Hayato por alguns instantes. Devia ter esperado que o Drachen se oferecesse para aquilo. Ele era especialista em se infiltrar como professor — não era segredo que muitos Velhos Líderes e Guerreiros que ele encontrara fora através dessa tática. Sem contar que escavações não liberavam nem a metade da adrenalina que ter um novo aprendiz em Magia liberava em Hayato, disso Adrien tinha certeza. O Lycan pensou um pouco e então balançou a cabeça.

— Excelente ideia, Hayato. Você pode...

Parou de repente, ele e todos os demais, tensos.

Uma súbita onda do plano espiritual os atingira. Tão súbita que os fez ter certeza de que algo muito ruim acontecera, à ponto de interferir no dito plano.

Como que em sincronia, suas cabeças se ergueram, seus olhos fitando o topo do vidro inclinado. Eles sentiam as ondas, mais frequentes, mais intensas, e então, um rugido os alcançou. Foi como se um raio tivesse caído bem ali, no meio do círculo, o som do deslocamento do ar quente quase estourando-lhes os tímpanos. Parecia a mistura do rugido predatório de um leão com o urrar de dor de um elefante. Sim, de dor, porque o rugido estava repleto dela, como se, quem quer que fosse a fonte dele, estivesse sendo morto por dentro, com pedaços sendo retirados enquanto ainda respirava.

Eles conheciam aquele som, mesmo Jean. Hayato, Adrien e demais Drachens e Lycans presentes tinham ouvido-o muito, e toda vez tinha sido uma tortura. Todos estremeceram visivelmente.

O rugido de um Drachen sendo morto. Independente da forma, real ou humana. Era aquele mesmo som, doloroso e triste.

O vidro rachou, as ondas do plano espiritual subitamente calmas demais, e através da teia fina, um corpo longo e gigantesco apareceu, sangue prateado pingando e escorrendo pelo vidro em grandes gotas, caindo dos diversos cortes que separavam as escamas vermelhas e triangulares, mas especialmente do corte no couro vermelho e espesso na parte de baixo do pescoço grosso. Nas costas do dragão oriental de uns bons sessenta metros de comprimento, um homem se equilibrava, um par de luvas com lâminas em forma de meia-lua presas nas costas das mãos, o metal com um brilho que misturava o amarelo do ouro e o cinza do aço; suas mãos desciam em sucessões rápidas e intercaladas, inclinadas levemente para que as lâminas entrassem por baixo das escamas das costas, o movimento tão rápido que a velocidade e o brilho estranho do metal fazia parecer que eram cometas que atingiam o Dragão.

O Dragão rugiu mais uma vez; tinha um som mais conformado, não tão imponente, como se seus pulmões não tivessem mais forças, e começou a cair. O homem saltou para o vidro, as escamas vermelhas se desvanecendo em névoa enquanto o Dragão se transformava em homem e caía.

O corpo inanimado bateu no vidro, o som triste ecoando em seus cérebros, enquanto a gravidade começava a arrastá-lo para baixo, mais sangue de prata ficando no vidro, marcando seu trajeto até a beirada do prédio, de onde continuou caindo.

O outro girou no ar e pousou com agilidade, um sorriso cheio de dentes pontudos se abrindo, os olhos de vinho-tinto brilhando como sangue através da teia fina.

Fixou os olhos em Adrien, socando o vidro; as rachaduras começaram a se partir, os cacos caindo como chuva ao redor deles, enquanto o Vampiro se equilibrava nos suportes de metal. Quando o vidro com sangue estava todo no chão e na piscina, longos fios castanho-chocolate e um pedaço de tecido branco manchado de sangue caíram, o Vampiro sumindo antes mesmo que alcançassem o chão.

Jean era o mais perto dos fios e do tecido, por isso os pegou. Mal os fez, Adrien praticamente arrancou-os de suas mãos, levando-os perto do nariz, embora o cheiro tivesse alcançado-o à distância. O sangue ainda estava úmido.

Os olhos cor de bronze viraram para os outros Observadores, um quê de desespero brilhando nas íris.

— Arely. — foi tudo que murmurou antes de calçar os tênis e vestir a camiseta molhada e caminhar à passos rápidos para o elevador.

Hayato fez jus ao que ser o mais velho representava, afinal, era um momento de crise. Apontou para as duas Observadoras presentes além de Yu.


— Vão com ele. — as duas acenaram e sumiram dentro do elevador, levando a jaqueta e a carteira que Adrien esquecera em sua pressa; olhou para o Lycan de cabelos castanhos e apontou para três dos homens. — Tentem pegar o rastro daquele Vampiro. — os quatro logo estavam no teto do prédio; apontou para os dois últimos restantes. — Arrumem essa bagunça. — Olhou para Yu e então para Jean, começando a andar. — Vamos, temos de pegar o corpo daquele Drachen logo e acabar com qualquer evidência. Você nos acoberta com uma ilusão, Jean. — a última frase foi dita quando já estavam praticamente dentro do elevador.