27 agosto 2015

Alanna: Os Sem Pele - Capítulo 2: De Demônios e Shamans

O Vectra vermelho-acerola estacionou com cuidado na vaga preferencial do estacionamento subterrâneo de um entre centenas de prédios que formavam a paisagem da cidade. A garagem estava cheia, e ambos reconheceram a Spin de Nilton e diversos outros carros, motos e bicicletas parados lá.

Acostumado a realizar aquele processo, Davi olhou ao redor com cuidado, murmurando um feitiço para verificar que estavam só ele e Alanna ali, antes de tirar uma caixa e sua varinha de eucalipto do bolso da calça. Da pequena caixa, ele tirou uma miniatura de cadeira de rodas motorizada; colocou-a com cuidado no chão e afastou-se. Resmungou algo enquanto agitava a varinha, e o veículo, de uma miniatura, passou ao tamanho real em menos de dois segundos, como se inchasse de repente.

Satisfeito consigo mesmo, guardou a varinha e voltou para o carro, pegando Alanna no colo e a ajeitando na cadeira.

— Obrigada, Davi.

— Às ordens. — ele bateu continência, provocando risos em ambos, e então a dupla seguiu para o elevador.

O painel ia do subsolo até o vigésimo sexto andar, mas o Feiticeiro ignorou todos os botões, tirando um chaveiro do bolso da calça. Escolheu a menor chave e a usou na fechadura logo abaixo do painel, girando uma vez para a direita e duas para a esquerda. Com um zumbido baixo, o espelho na parede do fundo do quadrado de metal se iluminou em tons de verde-escuro e azul-céu, se transformando numa interface touch-screen com números e letras flutuantes.

— Direto para o centro? — ele perguntou para Alanna, parado diante do espelho, vendo a garota parar, pensativa, com uma mão no queixo.

— Pode ser, mas não vá muito rápido. — As sobrancelhas se franziram. — Quando alguém ativa o elevador, a Nay ou quem quer esteja monitorando os sistemas cumprimenta quem está aqui. Não gosto desse silêncio. — Olhou para as paredes cinza brilhantes com desconfiança. — Posso estar sem o gatilho e não estar num momento em que meus poderes se expandem, mas ainda posso sentir os espíritos dos mortos. Não ir muito rápido vai nos dar tempo para parar caso eu sinta algo que não devia sentir...

Davi franziu os lábios, preocupado, vendo a lógica do pensamento de Alanna e balançando a cabeça em afirmativa antes de selecionar um conjunto de números e letras no espelho. Mal afirmou aquela sequência, sentiram o cubículo de metal começar a se mexer, descendo.

Após algum tempo de silêncio, os dois olhando para os próprios pés, a cadeirante ergueu a cabeça de supetão, os olhos arregalados, pálida, até mesmo os lábios quase sem cor.

— Pare, Davi. — mais um pouco, e ela teria gritado. Agindo rápido, apesar de ser pego de surpresa, a mão deslizou num movimento circular no vidro, parando a caixa de metal.

— Está sentindo algo? — ele se abaixou à frente ela, as mãos nos apoios dos braços da cadeira de rodas, sussurrando em tom preocupado, o cenho levemente franzido e os cantos da boca se arqueando para baixo.

Devagar, Alanna balançou a cabeça em afirmativa, fechando os olhos suavemente.

— Espíritos dos mortos... Muito mais do que os sete que sempre habitaram a unidade. — resmungou, franzindo os lábios com desagrado logo em seguida, antes de abrir os olhos com as sobrancelhas quase unidas, o cinza-ferro se fixando nos favos de mel. — Você conhece esse lugar como a palma da sua mão, Davi. Qual o caminho que pouquíssimas pessoas, preferencialmente nenhuma além de você, que vai para o centro sem passar pelos lugares de mais fácil acesso ou mais frequentados?

Davi sentiu o queixo ficar frouxo, antes de murmurar, meio incrédulo.

— Você... Você acha que invadiram aqui? — Alanna limitou-se a afirmar com a cabeça. — Isso implicaria em traição, você sabe... Quer dizer, só os membros da Stella Bianca têm a chave do elevador, e o código pra girá-la muda de pessoa pra pessoa, chave pra chave... Usar o código errado na chave errada ativaria as defesas mágicas e eletrônicas, e isso não aconteceu... — Davi começou a andar de um lado para o outro no pequeno espaço, parecendo perturbado. A garota pareceu deixar-se cair contra a cadeira com uma mistura de cansaço e desânimo.

— Isso ou ameaça a alguém realmente importante. Tanto faz. São espíritos demais. Muita gente morreu, e são mortes recentes. — Alanna trincou os dentes, desconfortável com toda aquela situação, preocupada com Nilton, Helena, Glen e todos os demais membros da Ordem que podiam estar na unidade no momento da invasão. — Só não posso dizer quem são... — Davi parou de andar e olhou o rosto da garota que ele conhecia desde que ela tinha míseros seis anos e ele, doze, vendo a mistura de emoções no rosto dela: ela estava indecisa se amaldiçoava ou agradecia não saber quem tinha morrido, com medo do que poderia descobrir.

O Feiticeiro suspirou, olhando o espelho antes de se virar para o objeto e digitar um novo código, começando a falar.

— Vamos entrar pela cozinha. Ela tem uma entrada escondida nos fundos, e o caminho dali até o centro é bem calmo. — parou, ponderando, enquanto o elevador voltava a se movimentar. — Se forem os Demônios que os Fae viram mais cedo, eles não precisam comer e vão ficar longe de lá.

Apoiou as costas no metal, vendo a garota apoiar os cotovelo nos joelhos e deixar a cabeça pender. Provavelmente pensando no pai, considerou.

— Ele é um Vampiro forte, Alanna. Mais de quatrocentos anos e a experiência de um clã forte e perigoso nas costas. Tenho certeza de que está bem. — ela ergueu a cabeça, dando um sorriso fraco em resposta.

— Estou preocupada conosco. Se forem os Demônios e formos pegos... Bem, você é um Feiticeiro hábil, pode escapar e procurar sobreviventes... Mas eu... — ela se aprumou, tocando a perna, os lábios franzidos. — Sem o gatilho, sem uma crise natural de ampliação de poderes e sem uma arma, sou inútil, presa à cadeira de rodas. — fitou Davi, permitindo que o ferro contaminasse o mel. — Que chances nós temos?

O Feiticeiro não tinha resposta para o que Alanna dissera, porque, em parte, ela estava certa. Sem o gatilho, que ficava na sessão de tecnologia, provavelmente cheia de Demônios, fora de uma crise de amplificação e sem uma arma – ele nunca conseguiria transportar magicamente uma do arsenal sem alertar os demônios –, a garota não podia fazer muita coisa. Permaneceu em silêncio, esperando o momento em que alcançariam o ponto por onde entrariam.



O elevador parou lentamente, uma luz verde brilhando no espelho antes da porta deslizar, revelando o fundo de madeira de uma estante. Davi empurrou o móvel com cuidado, poupando seu espírito para a magia. Antes de empurrá-la o suficiente para Alanna passar com a cadeira de rodas, colocou a cabeça para fora, vendo a cozinha ampla e escura, a porta do outro lado do aposento fechada, e então terminou de liberar a passagem.

Foi à frente para a porta de metal, enquanto a garota seguia logo atrás, a cadeira movendo-se silenciosamente, parando um pouco atrás enquanto o rapaz abria a porta e verificava o corredor, também escuro.

Seguiram daquele modo cauteloso por um tempo consideravelmente longo, o Feiticeiro à frente, a garota logo atrás. Todos os lugares por onde passavam estavam escuros e desocupados, e eles não sabiam se ficavam felizes ou preocupados com isso, até fazerem uma curva e encontrarem luz saindo de uma porta em arco e iluminando a parede e o chão ladrilhado.

Davi sinalizou para Alanna esperar enquanto avançava cuidadosamente, as costas coladas à parede da porta. Ela viu-o tirar a varinha do bolso e agitá-la enquanto sussurrava algo. Sua pele, roupas e cabelos pareceram granular, pontos começando a sumir gradativamente enquanto a luz começava a se desviar dele, a ignorar que ele existia, enquanto ele condensava o ar à sua volta como um escudo contra a luz de forma que apenas alguém altamente conhecedor da magia seria capaz. E então, ela não mais o via, mas começava a ouvir vozes estridentes e com um tom de maldade e não-vivo que ela conhecia muito bem – definitivamente eram Demônios –, se aproximando cada vez mais.

Preocupada, começou a manobrar a cadeira para voltar e se esconder numa das salas vazia por onde tinham passado; o som agora a alcançava acompanhado de passos, as palavras se tornando mais nítidas.

... por que nos enviar para cá de novo? Já verificamos todo o lugar, não tem ninguém aqui!

É da Éris que a gente tá falando, cara. O patrão deu poder pra ela. Se ela acha que tem algo aqui e nos mandou olhar, não temos opção...

Na verdade, temos: voltar pro mesmo buraco sem fim de onde saímos... era a terceira voz que ouvia. Cada vez mais perto, provavelmente tinham acabado de atravessar a porta em arco, e a maldita cadeira não andava mais rápido. — Eu não quero voltar pra lá tão cedo, então, é melhor obedecer àquela louca...

De repente, a luz do corredor se acendeu sob sua cabeça, cegando-a e deixando-a zonza por alguns instantes, a cadeira parando quando sua mão se afastou do controle para proteger os olhos. Quando se recuperou, era tarde demais.

— Olha o que encontramos aqui, rapazes... —foi a terceira voz que disse. A que mais parecia gostar do que fazia: de matar física e psicologicamente, enlouquecer pessoas, torturá-las até que nada mais pudessem fazer, a não ser babar e olhar para o nada.

Devagar, Alanna girou a cabeça, encarando os Demônios, engolindo em seco e sentindo os olhos marejarem de medo, diante de suas aparências deformadas pela maldade e pela decomposição dos corpos; olhos amarelos brilhando macabramente, dentes podres e pretos expostos em sorrisos satisfeitos e amedrontadores. Eram a escala mais baixa de Demônios, classificados como do Terceiro Mundo pela Stella Bianca – embora na verdade viessem de além dos Mundos e do Ciclo; eram capazes de possuírem apenas corpos mortos, e para se manterem nesses, precisavam se alimentar de outros corpos mortos. Eram chamados de Ghouls, e mesmo sendo os Demônios mais fracos dos quais a Stella Bianca tinha conhecimento, ainda fortes demais contra uma cadeirante sem poderes e desarmada, mesmo que estivessem sozinhos.

E estavam entre as coisas que Alanna mais detestava: sendo uma Shaman, não respeitava apenas os espíritos dos mortos, mas os corpos que estes ocupavam antes. Usá-los novamente como os Ghouls usavam a enraivecia.

Com as mãos ainda escondidas, torcendo para que Davi visse, sinalizou que ele deveria procurar os demais e deixá-la para trás. Foi só o que teve tempo de fazer antes que dois dos Demônios, fedendo à morte em seus diversos níveis, arrancassem-na da cadeira e começassem a arrastá-la para quem quer que fosse Éris, seus pés deslizando no chão, inúteis, as pernas insensíveis incapazes de ajudá-la.

Naquele momento, ela queria ter tido coragem para seguir em frente e pedir a Nilton que a infectasse com sangue vampiro, anos atrás. Embora custasse seus dons relacionados aos espíritos dos mortos, ser uma Vampira curaria sua medula espinhal, rompida na queda do terceiro andar de um prédio em chamas quando ela tinha cinco anos, e lhe daria outros poderes, como força, longevidade e magia vampírica. Tudo bem que a transformação só fosse se iniciar quando estivesse lá nos onze anos, mas era melhor que nada.

O terror do fogo, dos gritos, a queda, a dor de se sentir partida ao meio... Aquelas eram suas lembranças mais antigas. A dor contida nelas apagara as anteriores. Sabia os nomes e conhecia os rostos de seus pais biológicos através de fotos, já que tinham morrido naquele incêndio, junto com todos os seus parentes, que estavam no prédio para uma festa em família. Mas não lembrava de momento nenhum ao lado deles ou da vida no prédio: nada, nem mesmo o sabor da comida que sua mãe provavelmente preparava ou o som das vozes deles. Tudo tinha sido deletado.

Tudo aquilo também desencadeou seus dons de Shaman, de ver, conversar e se deixar controlar pelos espíritos dos mortos – ao menos, ela imaginava que tinham surgido naquele momento, e não antes; considerando que Espirituais raramente despertavam os poderes sem alguma deficiência, o acidente era o causador provável. No primeiro ano, no orfanato, ocorriam crises muito espaçadas e curtas, quase não as percebia. Foi só depois de uma ocasião no Museu do Ipiranga, em que encontrou o fantasma de um antigo curador do Museu, satisfeito de andar pelos corredores do prédio e nada desejoso de fazer a passagem, que a Stella Bianca a encontrou e Nilton a adotou. Um Shaman da Ordem, que nunca se identificara para que ela pudesse agradecê-lo, tinha visto-a conversando com o fantasma e notificara a Oitava Unidade. Nilton tinha acabado de pedir proteção à Ordem quando entrou em conflito com seu antigo clã, e a condição que Helena estabelecera em troca da proteção fora a sua criação.

Oficialmente com a Stella Bianca, que desde que a acolhera vinha ensinando-a a controlar seus poderes com o uso de gatilhos para nos momentos fora das crises, ela viajara pelo mundo, com Nilton, com Melinda e os três filhos, com Helena, a líder da unidade, e diversos outros membros da Ordem. Conhecera todas as outras sete unidades, espalhadas pelo mundo e pelo ar, aprendera diversas línguas, acumulara conhecimento, conhecera fantasmas de famosos que se negavam a fazer a passagem, como Homero, Platão, Leonardo da Vinci, Van Gogh e outros – e inclusive aprendera algumas coisas interessantes com eles.

Acima de tudo, aprendera sobre os Sete Mundos ou os Sete Infinitos, como também eram conhecidos, inseridos no Grande Ciclo; junto disso, descobrira que, apesar de magia, Vampiros, Lobisomens, Faes e tantos outros existirem, nenhum deles, além de Demônios, “Anjos” e a própria Morte, sabiam de fato o que ou quem existia por trás desse ciclo, na parte escura e desconhecida denominada “Pós-Passagem”. Não era possível nem afirmar que reencarnação não existia, pois existiam casos de espíritos que não tinham feito a Passagem e conseguiram encarnar em corpos de bebês, ainda na barriga da mãe, que do contrário nasceriam mortos.

Com o passar dos anos, as crises foram se tornando mais longas e menos espaçadas, mais imprevisíveis de quando chegariam, mais estáveis, diminuindo a necessidade do gatilho.

Enquanto era arrastada pelo corredor para quem quer que fosse Éris, ela pensava naquilo tudo e mais, tentando encaixar as peças.

Aqueles Demônios eram novos. Disso, não existiam dúvidas. Eram recém-saídos de onde quer que os Demônios viessem. Éris não era a chefe deles de fato. Até onde a Stella Bianca aprendera sobre eles, o papel de chefe cabia a outro, que apenas dera poder para a Demônio em questão. Naquele instante, ela considerou uma terceira teoria de como tinham conseguido invadir a unidade: se eles tivessem trazido um Demônio forte o suficiente para possuir alguém vivo, subjugando sua alma, espírito e mente sem matá-lo e ainda conseguir acessar a memória sobre a chave, teriam entrado facilmente. Mas todos os membros da Stella Bianca possuíam um amuleto, feito pelos Fae e sempre carregado pelos membros da Ordem, que impedia a possessão não autorizada; somente aqueles que, como Alanna, mexiam naturalmente com os espíritos – Shamans e Druídas, e Sacerdotes, de certa forma – não precisavam do dito amuleto. Seus corpos eram fechados de tal forma que o espírito de um Morto ou da Natureza, no caso dos Shamans e Druídas, ou um Demônio em si, no caso de um Sacerdote, precisava de autorização para entrar, e ainda assim, estaria limitado pela vontade do hospedeiro.

Alanna mordeu o lábio, nervosa. Qualquer uma das três opções era ruim. Subitamente, seus pensamentos foram interrompidos pelos três Demônios, que tinham começado a conversar.

— Tão sentindo o cheiro dela e o jeito da alma e do espírito? — um deles perguntou, o nariz quebrado e de pele meio carcomida fungando na direção dela.

— É uma Shaman. — o mais aterrorizante falou, à frente dela, virando para a garota e dando um sorriso de gelar os ossos. — Deve ser dela que a Éris veio falando tanto. É a única com jeito de Shaman que encontramos no lugar inteiro...

O terceiro deles apenas riu, ainda segurando seu braço com firmeza.

Alanna sentiu o desespero subir por sua garganta, apertando-a, como se estivesse prestes a ter um choque anafilático.

Os dados sobre os membros da Stella Bianca estavam entre as informações mais bem protegidas, até mesmo mais do que quais seres estavam aprisionados nos globos-arabescos em cada unidade. Ninguém, nem mesmo os próprios membros fora do alto escalão, sabiam de fato quantas pessoas ou os tipos e raças que formavam a Ordem fora de suas unidades. Para aquela tal de Éris saber que havia um Shaman na Oitava Unidade... Informação tinha vazado. Como, ela não tinha ideia.

Conforme começou a reconhecer os corredores mais próximos do centro de todo o lugar, começou a parar de teorizar como eles tinham chegado ali e passou a se preocupar com como ia escapar daquela enrascada em que se metera e salvar quem quer que ainda estivesse vivo.


Ao pensar em suas opções e considerar planos mirabolantes, começou a achar que não teria chance alguma: ela estava ferrada e, a menos que um milagre ocorresse, ela não veria Vivian no dia seguinte para implorar as respostas do exercício de geografia que ela não terminara.