04 abril 2015

Arely A Mensageira - Capítulo 9: Encontrar

Caía.

Apenas caía.

Caía pelo infinito, estrelas vermelhas de sangue passando furiosamente ao seu redor, rastros de pequenas gotas vermelhas espirrando nela.

Tentou fechar os olhos, mas não conseguiu. Eles permaneceram abertos como que devido a uma estranha força.

E então, sentiu-se bater contra a superfície instável e líquida de algo, afundando lentamente. Primeiro, pensou que era água, mas ao olhar ao redor, viu-se no meio de um lago de sangue que a tragava cada vez mais para si. As estrelas de sangue que revoavam ao seu redor saíam dali, pulando para o alto e perdendo-se no vazio avermelhado que era o infinito.

Tentou mexer-se, mas não conseguiu. Sentia o sangue infiltrando-se cada vez mais e mais em suas roupas, seu cheiro enjoativo, a ameaça silenciosa do que quer que fosse.

Seus braços e pernas pareciam chumbo. E continuava sendo tragada, cada vez mais afundando em escuridão. Por um instante, esperou que Adrien ou Ruby aparecessem para salvá-la, mas ninguém apareceu, e continuou afundando cada vez mais.

Já sentia o sangue alcançando sua boca e as narinas. Puxou o máximo de ar que conseguia sem puxar sangue junto, e então prendeu a respiração. Logo só lhe restava a testa acima, e continuou afundando mais e mais, o longo cabelo movendo-se ao redor de seu rosto e ombros numa lentidão que a lembrava de algas no fundo do rio.

Algumas bolhas de ar escaparam, e conforme a agonia aumentava, a velocidade com que tais bolhas escapavam também aumentava. Odiava a sensação de que cada vez mais se afastava da superfície.

De repente, o sangue ao seu redor sumiu, e começou a cair rapidamente, afastando-se do céu de sangue cada vez mais rápido, suas roupas ainda ensopadas dele.

Caiu em algo duro, sentindo seu corpo dolorido e o concreto rachar abaixo de si. Sentiu alívio por ver que conseguia mover-se. Mas quando sentou-se, quem estava diante dela, com um sorriso insuportável e idiota, era Louis, e não qualquer pessoa que ela esperava encontrar.

Ele começou a andar em sua direção, e Arely começou a recuar, sem levantar-se, arrastando-se pelo concreto rachado. Louis pareceu achar graça, sorrindo de forma ainda mais insuportável e maliciosa. Arely só parou de recuar quando sentiu uma parede barrar-lhe o caminho. Franziu as sobrancelhas para o rapaz, cujo sorriso apenas aumentou.

— Olá, queridinha.  Sentiu minha falta? – Louis abaixou-se à sua frente, estendendo uma das mãos para tirar uma mexa molhada de cabelo de seu rosto, mas recuou-a quando Arely desviou de seu toque.

— Nunca sentiria sua falta, Louis. Você é um dos seres mais desprezíveis que passou pela minha vida. – semicerrou os olhos, querendo mais do que nunca socar Louis, mas era óbvio que estava em desvantagem ali. Não era ela que controlava aquele sonho. Era ele, tinha certeza. – O que quer comigo?

Louis piscou, parecendo surpreso por um instante, sem o enorme sorriso de dentes brancos e caninos pontudos à vista. Mas então o sorriso voltou, e era ainda pior, porque a garota tinha certeza de que os dentes estavam manchados de sangue.

— Ah, nada demais, Lyzinha... – Arely quase fechou os olhos de tanto que os semicerrou com o apelido. –Só... Digamos que você tenha... Hmmm... “Poderes” que deveriam surgir quando você fizesse dezesseis anos... – Louis aproximou-se um pouco. Arely começou a sentir como se milhares de agulhas estivessem sendo fincadas em seu corpo: pés, pernas, braços, tudo. Tudo começou a doer e latejar de repente, como quando ele mexera em sua memória. Como reflexo, tentou socar Louis, certa de que ele era o motivo daquilo, mas antes que seu punho fechado encontrasse seu rosto, o Vampiro segurou-o e o apertou, até que os olhos da garota lacrimejaram com a dor que foi acrescentada ao resto. – E digamos que esses “poderes” estejam despertando antes da hora... E que o que vamos fazer com você vai apagar de sua memória boa parte de tudo que aconteceu antes disso... Preciso saber com o que você sonhou e se ouviu algo como... Vozes ao pé do ouvido... – Louis sorriu apenas de leve em sua direção.

Arely sentiu a respiração acelerar. Do que raios ele estava falando? Não tinha acontecido nada daquilo com ela... E mesmo que tivesse, não contaria.

— Mesmo que algo assim tivesse acontecido, você seria a última pessoa para quem eu contaria. – e cuspiu na face pálida à sua frente.

Os olhos de Louis brilharam de forma mais intensa, um brilho avermelhado surgindo, e ele rugiu, os dentes pontudos como no sonho em que lutava contra Adrien, socando-a. Seu rosto virou com o impacto e ainda bateu na pedra onde estava apoiada, acrescentando o dobro de dor às picadas de agulha que saíam e voltavam. Sentiu um fio de sangue escorrer pelo queixo, devido ao lábio cortado pelos próprios dentes.

— Olha aqui, Arely... Não importa o quanto tente resistir. – Arely ainda não tinha virado-lhe o rosto, por isso Louis segurou seu queixo e obrigou-a a olhar pra ele. – Quando acordar, você vai matar o primeiro humano tolo que estiver à sua frente. E então, Ruby, Allan, Adrien e talvez até seus pais irão sumir. Você vai fazer isso, não importa se por loucura, raiva ou hipnose. – Louis sorriu sinistramente.

Arely olhou bem no fundo de seus olhos, concentrando toda a raiva em seu ser pela criatura à sua frente.

— Sou centrada demais para me entregar a raiva a ponto de matar alguém. E loucura... Meu caro, loucura é saber que seus pais vão acabar se separando e não fazer nada pra impedir, sabendo que eles se amam mais do que tudo. – sorriu de modo triste, e então sentiu a mão de Louis cobrir seu rosto, espaçando os dedos de modo que os olhos pudessem enxergar.

— Modo mais difícil, então...

De repente, a parede áspera atrás de si sumiu, e Louis forçou-a a deitar, olhando para o infinito avermelhado, cheio de estrelas de sangue que agora caíam e caíam em sua direção e ao seu redor. Ele começou a falar, mas só percebeu que se tratava de latim ou alguma língua derivada... E então, algo quebrou e queimou em seu interior, e tudo que ela sabia era que não era mais ela mesma.

Seus olhos brilharam como brasas incandescentes, e Louis foi atirado para três metros longe da garota, que se ergueu e parou à frente dele, sem piscar. Arely inclinou de leve a cabeça, um dos cantos dos lábios erguido de modo irônico, o fio de sangue ainda presente em seu queixo. E então, ela falou. Ainda sua voz, mas com camadas de sabedoria adquirida pelos anos e algo como um eco melodioso envolvendo-a. Louis engoliu em seco ao perceber que luz parecia vir da garota, como se em suas veias houvesse a luz solar, e não sangue.

— Você é um Vampirinho muito idiota e atrevido, sabia...? Meus irmãos podem ter feito nada quando você matou e corrompeu as outras quatro Mensageiras que encontrou, mas eu não vou ficar parado... – Louis engoliu em seco e tentou recuar. Nem ele, nem Savino e nem os Bruxos que lhe acompanhavam tinham ouvido falar de algo assim: um Anjo que tomara posse, tanto do corpo, como da mente, do Mensageiro em quem parte de si estava. Mesmo que fosse num sonho, e não no mundo material. – Talvez porque eu tenha tido permissão para ser seu Anjo da Guarda. Até agora me mantive quieto porque devia respeitar o livre-arbítrio de Arely, mas quando você, seu mísero Vampiro, tentou hipnotizá-la... – havia raiva na voz e no olhar. O Anjo que se usava da imagem mental de Arely com certeza não estava feliz. – Tem sorte de que eu não tenha permissão de te eliminar. Agora, saía da mente dela e deixe-a em paz. Se você ousar tentar dominar seu subconsciente de novo, juro que peço permissão ao Criador para poder te fulminar.

Louis não tentou testar o Anjo. Sabia que ele não estava brincando. Sumiu quase imediatamente, e jurou a si mesmo que não arriscaria entrar de novo na mente da garota. Teria de convencê-la de outro jeito. Afinal, ele ainda tinha instinto de sobrevivência dentro de si e não era burro a ponto de testar justamente o Anjo do qual Arely tinha parte de si.

Quando Louis não estava mais à vista, Arely olhou ao redor, o rosto infeliz, e começou a acenar as mãos. O sonho começou a mudar, e logo ele recriara o pedacinho de uma fazenda da cidade que o Anjo sabia que Arely amava como se fosse seu lar, mesmo que não tivesse nascido e sido criada ali.

A luz que parecia irradiar e cobrir a garota afastou-se, os olhos voltando ao normal e fechando-se quase imediatamente. A luz disforme apoiou-a e deitou-a sobre a grama. Quase podia-se dizer que sorria de modo triste, caso houvesse um rosto que se ver.

— Ah, criança... Durma em paz enquanto ainda pode... Logo seus sonos tranquilos partirão, e restará apenas visões do que foi, é e será... Mas estarei com você. Sempre. – uma mecha do cabelo castanho saiu de seu rosto quando um raio de luz o tocou.

E então, a luz sumiu, e restou apenas a garota dormindo em seu subconsciente, sentindo-se confortada porque o lugar onde estava emanava uma energia que ela conhecia.



Sandman desviou de um vaso que Louis atirou a esmo pela sala. O vidro espatifou-se na parede, espalhando cacos para todo lado. Torcendo o nariz, o Bruxo acenou um dos dedos e os cacos juntaram-se, o vaso reaparecendo novinho em folha.

— Controle-se, Louis. – a voz de Sabri foi no mínimo cortante. Sinceramente, já estava de saco cheio da falta de controle do Vampiro. – Nem eu tinha ouvido falar de um Anjo ajudando o Mensageiro com quem é ligado. Mesmo Hayato talvez nunca tenha ouvido algo similar. Foi uma surpresa. – então, deu de ombros. – Só nos resta agora você mordê-la. Mesmo que seja muito mais doloroso... – o Bruxo engoliu em seco ao lembrar-se de como deixara de ser um Mensageiro e transformara-se no que agora todos conheciam.

Louis bufou, deixando-se cair no sofá ao lado de Jabez, que cochilava com a cabeça apoiada no encosto. O “pai” de Louis tinha ido para uma das fazendas, ver como estavam as coisas, para a própria sorte: o Vampiro estava perigosamente perto de perder totalmente o controle e matar o velho.

— Sabri tem razão, Louis. Perder o controle tão perto não vai ajudar. Não depois de tudo que fizemos. – Sandman deu de ombros enquanto colocava o vaso novamente na mesa de canto onde tinha estado anteriormente. Torceu a boca, olhando para o vaso, e então acenou novamente uma das mãos. Flores diversas, mas todas vermelho-sangue ou do tom de azul dos olhos de Louis, preencheram o vaso. Então sorriu, satisfeito. – Mas recomendo que você cace antes. Não queremos correr o risco de você matá-la porque gostou do sabor, certo? – Jogou-se então na poltrona que ficava no canto mais escuro da sala.

Ficaram em silêncio por um tempo, apenas observando enquanto Sabri brincava com luzes coloridas, até que Felippa adentrou a sala, trazendo uma bandeja com quatro taças cheias. Uma delas estava cheia de um líquido vermelho e viscoso, e as demais, de um líquido claro, quase transparente, de aparência gelada e que dava a sensação de uma espécie de névoa sobre o líquido.

— Realmente... Só não provoque muito escândalo, filho... – a mulher sorriu de leve, servindo as taças para cada um dos quatro. Louis bebeu a taça cheia de sangue de uma vez, e Jabez apenas deixou a sua na mesinha ao lado do sofá, preferindo continuar dormindo. Sabri bebeu a bebida clara de modo hesitante, como se não a apreciasse, mas fosse obrigado a bebê-la, enquanto Sandman a apreciava como se fosse um vinho raro. Felippa sorriu com as reações. – E obrigada pelas flores, Sandman... São lindas. – Sentou-se em outra das poltronas, cruzando as pernas elegantemente. – Pois bem... Quando vão buscar a menina?

Sabri sorriu para Felippa, colocando a taça pela metade de lado.

— Amanhã à noite. É então que conseguiremos mais um aliado... E nenhum Mensageiro para eles... Uma vantagem imensa, senhora... – Felippa sorriu para o Bruxo.

— Tem certeza de que não tem como os Lycans localizarem a Mensageira? – Jabez perguntou de seu lugar, finalmente tomando um gole da bebida.

Sabri semicerrou os olhos na direção do irmão.

— Absoluta. A droga que dei para os humanos injetarem nela não só a apaga, como a isola do plano espiritual. O espírito dela está completamente limitado ao corpo físico. Qualquer “sonho” que ela tenha, é porque alguém o implantou ali, já que as energias do plano espiritual não podem atingi-la. E o carro encobriu o cheiro dela, além deles ficarem trocando de lugar a intervalos não regulares e sem padrão algum. Não tem como os Lycans localizarem-na. – Sabri não gostou de justamente Jabez demonstrar dúvida sobre se ele tinha garantido que não havia como encontrarem Arely. Jabez apenas deu de ombros, terminando a bebida e voltando a cochilar.



Adrien olhou para o quarto simples, sorrindo ao lembrar-se de Tomás. O “fundador” dos Carvalho nunca fora fã de extravagâncias. Aparentemente, isso permanecera ao longo das gerações.

— Obrigado, Ruby. – sorriu para a aprendiz, deixando a mochila no chão. Foi pego de surpresa quando a Lycan o abraçou, apoiando a cabeça contra seu peito.

— Encontre-a, Adrien. Por favor. – murmurou, contra sua camisa, e então o soltou. Adrien sorriu-lhe de novo.

— Vou encontrar. Vou trazer sua “irmã” de volta. – sorriu para a garota, que virou-se e saiu.

Fechou a porta, olhando ao redor por um momento. Suspirou, seguindo na direção da cama e sentando em posição de lótus sobre ela, começando a concentrar-se em realizar a técnica para que seu espírito saísse do corpo. Já estava quase entrando no plano espiritual, quando sentiu um espírito de pura luz aparecer no meio do quarto. Abriu os olhos, já sabendo o que encontrar.

— Não é todo dia que um Anjo não toma uma forma física para falar comigo. – franziu de leve as sobrancelhas ao ver o monte de luz com forma apenas similar à humana. Sabia que era um Anjo porque era daquele jeito que via-os quando no plano espiritual. Mas ainda estava no plano físico, por isso ver o Anjo daquele jeito o confundiu. Mas jurou que o Anjo sorriu com sua fala.

— Os Anjos que você encontrou não tinham parte de si em um Mensageiro... – a luz começou a caminhar pelo quarto, parecendo apreciar a decoração simples. – Você precisa encontrar Arely e logo. Louis estava em sua mente, tentando enlouquecê-la para que, quando acordasse, matasse os sequestradores, ou ao menos um deles. – o Anjo pareceu balançar a cabeça, mas era difícil dizer sendo ele apenas luz. – Agora, eles estão zanzando, mudando de lugar a cada uma hora ou meia hora, de forma “imprevisível”. Foi o que Sabri disse-lhes para fazer. – Aproximou-se de Adrien, e o Lycan podia jurar que, se o Anjo tivesse tomado uma forma física, estaria olhando bem no fundo de seus olhos. – Amanhã Louis e os Bruxos irão buscá-la, às dez horas da noite. Mas os sequestradores vão estar lá entre oito e meia e nove horas. É quando vocês devem resgatá-la, Adrien. Se Arely for transformada em Bruxa, ou se falhar... Nenhum outro Mensageiro vai nascer. Ela é a última, a menos que permaneça o que é até sua morte ou que vençam essa batalha. Foram as ordens do Criador. – a voz que ecoava, vinda do Anjo, estava séria. Então, com um aceno de um dos raios de luz que saía dele, um mapa de um pedaço da cidade apareceu no chão diante de Adrien, como que queimado no piso. O Lycan inclinou-se, e viu quando apareceu uma marca num local. – É aqui o ponto de encontro. Gostaria de poder fazer mais além de apenas indicá-lo, mas já interferi demais. Daqui a pouco o Pai manda um de meus irmãos me arrastar de volta para o paraíso. – agora, havia um leve riso na voz do Anjo. – Até mais, Adrien... Talvez nos vejamos na Catedral novamente, se você conseguir levar Arely para lá...

A luz começou a sumir, mas antes disso, Adrien precisava falar mais alguma coisa. Uma curiosidade que sempre teve vontade de descobrir.

— Qual é o seu nome? Tenho curiosidade em saber o nome do Anjo que deu parte de si para Arely desde que a conheci... – as laterais dos lábios se ergueram de leve, e toda a luz voltou.

— Meu nome? Gabriel, rapaz... E imagino que a curiosidade é porque ela é uma garota maravilhosa, não? – havia um leve riso na voz do Anjo, que sumiu completamente, mergulhando o quarto na escuridão que estava antes de aparecer.

Adrien parou por um tempo, analisando o mapa. Era de uma das saídas de Goiânia, a que ia para Rio Verde. Fazia sentido. Era um lugar cheio de fábricas, abandonadas ou em funcionamento, e terrenos baldios, além de se ser uma região notavelmente perigosa. Perfeito para uma entrega sem que ninguém te percebesse. Mas, além disso, martelava em sua cabeça o fato de que Arely podia ser a última Mensageira que tinha nascido. Só contavam com ela para as visões e estratégias. Se falhassem, aquela dimensão estaria perdida para sempre, independente dos demais velhos Líderes e Guerreiros. Sem a inteligência e dons de pelo menos um Mensageiro para ser o General naquela Guerra, ninguém teria muita certeza do que fazer. Era a condenação definitiva daquela dimensão da Terra.

Olhou para o relógio do celular, vendo que estava no meio da madrugada. Suspirou. Não gostava de acordar alguém no meio da noite, mas precisavam se planejar. Allan e Ruby iam entender porque eram eles que iriam acompanhá-lo. E, obviamente, nada de informações a mais ninguém. Já dizia seu mestre Observador que quanto mais gente sabe de um plano, mais chances dele dar errado.



Arely dormia sem sonhos em seu próprio sonho. Tranquila, em paz consigo mesma como não estava há tempos. Mas então uma voz a acordou.

“Orgulho condenou-me, e sabedoria cegou-me.”

A garota abriu os olhos quase imediatamente, perguntando-se quem falara aquilo. Sentiu os olhos marejarem um pouco ao reconhecer o lugar, mas logo a voz voltou. Agora que estava desperta, parecia familiar...

“Amor não tem mais serventia pra mim, assim como beleza... E descanso não me ajuda, é apenas... Agonizante.”

Levantou-se, e começou a andar por entre as árvores, atrás da fonte daquela voz. Encontrou uma mulher com vestes antigas, ajoelhada diante de uma árvore, com cabelos negros presos em um complicado penteado. Suas mãos pareciam estar descascando a árvore, com pedaços da casca se erguendo e queimando como se fosse papel.

“Invejei o orgulho do corvo, o juízo da coruja, o amor da pomba, a graça do cisne... Eu não precisava dessas coisas... E ainda assim, queria-as desesperadamente...”

A mulher levantou-se e se virou para olhar Arely. Inclinou de leve a cabeça e sorriu para a garota, que estava pasma ao reconhecer a mulher que tinha atormentado seu sono na semana passada. Mas havia algo de diferente... Seus olhos. Não eram azuis. Eram verdes.

“Só tarde demais descobri que já tinha o que precisava: inocência e verdade, porque eu podia saber tudo que aconteceria, mas ainda assim, não precisava participar, não se não quisesse... Se não desejasse liderar... Eu tinha de fazer apenas uma coisa, garantir somente uma coisa, e falhei. Minha sede de poder me condenou. Meu ciúmes doentio condenou a outros, você entre eles. Não era para você estar prestes a ter o coração despedaçado. Não era para ele estar perto de ter algo capaz de redimi-lo. Não era para meu amado carregar tanta culpa. Falhei, e continuo falhando.”

A mulher aproximou-se, e Arely não conseguiu sequer pensar em se afastar quando ela estendeu a mão para tocar-lhe o rosto. Era como se o vento tivesse criado dedos para tal, tamanha sensação de inexistência que o toque passava.

“Minha face condenada chamou-te de Amaldiçoada e de Corvo Branco da Tempestade. Mas está errado. Você trará a maldição, mas não é ela; será afetada, como muitos, mas ela não foi dirigida a você. Você é só o Corvo Branco da Tempestade. O único corvo sem orgulho, o único corvo que chora por causa das mensagens que trás, porque suas mensagens nunca são felizes.”

A mulher parou de tocá-la, abaixando a mão e olhando para o infinito azulado.

— Corvo Branco da Tempestade não me parece um título muito bom... – Arely encontrou sua voz, um leve murmúrio, e a mulher sorriu de forma triste.

“Não é. Mas sua total extensão só é compreendida por quem o têm e por quem lhe encarregou esse título. E esse alguém não fui eu.”

O rosto da mulher agora parecia desesperado enquanto andava de um lado para o outro no lugar.

“Eu sabia que você o era, antes de me condenar. Antes da maldição. Você já era o Corvo Branco da Tempestade... Eu apenas coloquei mais notícias ruins em seus ombros, ao tentar garantir que sobrevivesse...”

A mulher parou de andar. Pedaços dela começavam a erguer-se como pedaços de papel, queimando lentamente.

“Eu sou Elizabeth. Mensageira e Bruxa. Você não se lembrará de mim ou das coisas que disse, mas saberá que seu título não é amaldiçoado. Saberá disso quando tentarem te convencer do contrário. Agora, Arely, devo ir... Minha face condenada não quer mais manter-se sob a superfície, e quer te atormentar. Quer te condenar como ela foi condenada. E nisso eu não vou falhar.”

Elizabeth tocou o rosto da garota, e seus dedos e olhos foram os últimos a erguer-se e queimar.



Segundo o local que Gabriel marcara no mapa, o lugar onde Louis e os Bruxos iriam buscar Arely era atrás de uma das muitas fábricas abandonadas. Mais especificamente, uma que no passado fora uma indústria têxtil. Agora, não passava de um prédio vazio, ocupado apenas por insetos, ratos e outros bichos, com algumas das paredes caindo de podres devido às fortes e torrenciais chuvas de primavera e verão.

Adrien, Ruby e Allan haviam acabado de chegar, apenas alguns minutos depois do horário que o Anjo dissera que era quando os sequestradores iriam estar ali com Arely. Tinham no máximo uma hora para agir, se não quisessem enfrentar o Vampiro ou os Bruxos. Estacionaram o carro cinza próximo ao local, mas longe das vistas de qualquer um dentro do terreno da fábrica – algo relativamente fácil, considerando o verdadeiro matagal que crescera ao redor do prédio devido ao descuido. Mas antes de saírem do carro, Adrien parou os outros dois Lycans.

— Eles deixaram um pra vigiar o local. Dá pra sentir o cheiro. Você é a mais silenciosa, Ruby, então você cuida dele e então vai dar o sinal pra gente seguir; imite uma coruja; do jeito que os humanos de hoje são, a maioria sequer diferencia um pássaro de outro e não vão estranhar. Depois, eu cuido dos outros dois que estão com a Arely enquanto vocês a trazem pro carro. Encontro vocês aqui depois.— não deu aos outros dois nenhuma oportunidade de falar contra ou à favor do plano, saindo quase imediatamente. Ruby e Allan se entreolharam por dois segundos, e então saíram para a rua.

Do lado de fora, Adrien apenas sinalizou com um movimento de mão para Ruby ir em frente. A ruiva balançou a cabeça e correu na direção do matagal, abaixando-se ao penetrá-lo e seguindo o cheiro no mínimo podre que o humano exalava, misturado à fumaça de cigarro e cerveja.

O humano sequer viu ou ouviu Ruby se aproximando. A Lycan chegou por trás, pulando em suas costas como se fosse a fera e não ela, quebrando o pescoço com um movimento rápido de mãos que pouco exigiu de seus músculos. Provavelmente, se o cheiro do humano não fosse tão repugnante, a fera iria querer mais do que apenas quebrar o pescoço. Respirando fundo, imitou uma coruja, as mãos formando um casulo à frente da boca, o som reverberando noite afora, com alguns pássaros respondendo ao chamado à distância. Poucos segundos depois, Adrien e Allan estavam ao seu lado.

— Credo... Já vi ratos e cadáveres em decomposição que cheiravam melhor que esse humano... – Allan fez uma careta de asco para o corpo morto de olhos vidrados, sentindo o jantar se revirar no estômago. Adrien sorriu de canto.

— Isso que você não conheceu os humanos de quinhentos anos atrás... Acredite, você tem sorte... – murmurou, antes de fazer sinal para prosseguirem. Já era nove e vinte, e o tempo era curto.



O plano de Adrien consistia em agir como um simples humano forte demais, ao menos até que Arely não pudesse mais vê-lo – nunca acabava bem quando Mensageiros viam Lycans em sua forma real pela primeira vez quando estes estavam tomados pela fúria –, mas jogou todos os planos ao vento quando um dos homens chutou Arely nas costelas e ainda por cima ameaçou-a. Não ajudou que essa foi a primeira cena que viu, ainda mais quando notou que o uniforme da garota estava todo rasgado como se uma costureira louca o tivesse cortado com uma tesoura cega sem controle algum. E também perceber que a circulação das mãos e dos pés estava prejudicada por causa das amarras muito apertadas. Além de um pouco de sangue seco em meio ao cabelo e descendo num fio pelo queixo. Mesmo Mensageiros possuem limites, e a garota destreinada para seus dons estava no seu atual. Definitivamente, nem ele e nem a fera gostaram do que viram.

Principalmente porque uma das primeiras coisas que aprendera com Leonardo fora: Não bata em alguém que não mereça realmente independente de seu status ou posição. Sempre volta pra você, muitas vezes pior; é a pura lei do retorno. Sabia que o Lycan falava por experiência própria.

Infelizmente para o sequestrador, ia voltar pra ele ainda naquela noite.

— Você realmente não devia ter feito isso. – sua voz saiu fria e cortante, um rosnar contido. Sentia as gengivas doerem, assim como todos os músculos e ossos. A fera queria sair. A fera queria sangue. Adoraria atender seus pedidos naquele momento – e de fato, raramente os negava.

Percebeu que Arely virou o rosto para conseguir enxergá-lo, e seus olhos traduziam a mais pura esperança mesclada com um desesperado pedido de socorro; havia também um pouco de alegria por vê-los e medo por eles.

Allan e Ruby estavam tão irritados quanto Adrien, mas ainda conseguiam lembrar o que deviam fazer, ficando surdos para os apelos interiores de suas feras.

Ruby concentrou todas as suas atenções em Arely, pensando que Allan deveria lhe dar cobertura, enquanto ela tirava a humana dali. Percebia que ela estava no limite, quase desmaiando, provavelmente por causa de todas as dores que tinham surgido quando acordara. Não estando mais sob o efeito de nenhuma droga, desmaiar agora seria perigoso demais para ela. Além disso, a noite estava anormalmente fria, ainda mais para humanos, agravada pelo local que era só terra e mato. Arely devia estar gelada. Teriam que aquecê-la o mais rápido possível.

Seu irmão analisava os outros dois humanos. Já percebera que Adrien concentraria quase toda sua fúria inicialmente no que chutara a garota, portanto, ele deveria imobilizar o outro para que Ruby pudesse alcançar Arely. Mas, para ser efetivo, teria de atacar no mesmo instante que o Lycan mais velho.

Adrien começou a correr milésimos de segundo depois, o rosto se distorcendo enquanto as orelhas alongavam, o focinho de lobo aparecia, o corpo se encurvava e dobrava de tamanho, os pelos loiros de tom avermelhado cresciam e as roupas ficavam em farrapos. Ao contrário do que Allan esperava, apesar de concentrar todo o peso no que chutara Arely, o Lycan também derrubou o outro humano quando saltou com um dos poderosos braços, agora deformados e cobertos de pelos.

Assustados com a cena, os dois humanos sequer pensaram em sacar as armas, sendo ambos atirados uns bons quinze metros de distância de Arely, Adrien caindo um pouco antes. Antes de ocupar-se totalmente deles, o gigantesco lobo andando encurvado sobre as patas traseiras virou o rosto para a garota, vendo-a piscar algumas vezes, incrédula, mas quase desmaiando. Ruby já estava erguendo-a nos braços, Allan à sua frente em posição defensiva. Só então, certo de que a humana estava segura e que provavelmente não veria o pior, virou-se para os humanos, ainda paralisados de medo, a mente em colapso com aquilo que acreditavam ser real e o que de fato era real.

A fera, que já tomara quase completamente o controle, saboreou o terror que via e sentia nas duas patéticas vítimas à sua frente, o cheiro de medo e urina invadindo suas narinas, o predador saboreando o prazer da caça. Era o que mereciam pelo que tinham feito com a Mensageira que a fera já tinha decidido que ia proteger até que alguém se mostrasse mais forte que ele ou que morresse.

Caminhou lentamente na direção dos dois humanos, passando então a rodeá-los. Os olhos assustados seguiam-no, temendo o momento em que ele finalmente agiria, os rostos pálidos refletidos nos olhos que eram duas moedas de bronze.

Então, o enorme lobo parou, e os dois humanos juravam que os dentes mostravam um sorriso macabro.



Nenhum dos dois viu o ataque de fato. A fera logo já estava ensopada com o sangue das duas presas, lambendo o rosto e saboreando o sangue, embora admitisse que um deles podia nunca ter fumado e o outro, nunca ter gostado tanto de cerveja.

A fera admirou por um instante os corpos destroçados, as vísceras espalhadas pelo lugar, a terra bebendo do sangue derramado. E então, sua transformação começou a retroceder: as orelhas diminuíram, os braços e pernas deformados tiveram os ossos quebrados e colados novamente, o maxilar pareceu encolher, as costelas e as vértebras se movimentaram debaixo da carne e da pele, a pelagem caiu.

Passado algum tempo, talvez segundos, não era mais o enorme lobo, mas Adrien que estava no lugar, ficando de pé lentamente, o corpo ensopado de sangue e o sabor desse mesmo líquido na boca. Fez uma careta quando vislumbrou de novo os corpos destroçados. Começou a murmurar consigo mesmo.

— Quinhentos anos e ainda faço essa sujeira toda quando me transformo com raiva... Nem o Alexandre faz tanta bagunça... – começou a andar para fora daquele matagal, olhando por um instante o estado de suas roupas. – Pensando bem, acho que nem o Hayato, e olha que ele fica enorme quando na forma de Dragão... – fez uma careta ao constatar que nada de suas roupas era aproveitável. Fosse pelo sangue, fosse por estarem rasgadas. Talvez ambos somados. – L’inferno¹... Era minha melhor jaqueta...



No instante em que pegou Arely nos braços, a garota sorriu de leve e fechou os olhos, deixando-se amolecer. Ruby sentiu-se gelar naquela hora, mesmo que tudo nela dissesse que a garota estava viva, por sentir quão fria Arely estava. Mal percebeu que saiu correndo na direção do carro, Allan logo atrás de si.

Colocou a garota no banco de trás, quase berrando para Allan entrar e ligar o ar quente e abrir o porta-malas. Quando Allan fez a segunda coisa, correu para pegar um dos cobertores que costumavam guardar e levar para todo lado por precaução. Apenas ergueu de leve a sobrancelha ao ver a mochila que Adrien trouxera, ignorando-a e correndo para o banco traseiro do carro.

Enrolou parcialmente a garota no cobertor e, com as garras que surgiram com apenas um pensamento, rasgou a mordaça e as cordas, começando a esfregar as mãos e os pés de Arely para fazer a circulação voltar. Para seu desespero, ambos estavam começando a ficar roxos pela falta de sangue. Isso sem falar de que não tinham ideia do que ocorrera em sua cabeça.

Cazzo²... O que fizeram com ela? – Allan murmurou, contorcendo-se no banco do motorista para ajudar a irmã na tarefa de esfregar os pés e mãos da humana.

— Não tenho ideia, mano... Só sei que ela está gelada... Temos de aquecê-la e rápido. Depois me concentro nisso que parece ser um corte na cabeça. Agora, temos de nos concentrar para que ela não tenha hipotermia. – Ruby murmurou, e praticamente saltou no banco quando Adrien bateu no vidro. Allan abaixou-o, e o Lycan imundo e esfarrapado pediu para que abrissem o porta-malas; tinha trazido roupa extra, conhecendo o próprio temperamento.

Enquanto Adrien vestia-se e limpava o que podia do sangue do lado de fora do carro o mais rápido que podia para irem embora logo, Ruby ficou satisfeita ao ver a cor voltando às mãos e pés de Arely, enrolando melhor a garota no cobertor e então a abraçando, pedindo a Allan pra aumentar a temperatura do aquecedor.

Pouco depois, Adrien sentou-se ao seu lado, deixando a mochila no chão do carro. Enquanto Allan acelerava o carro, o Lycan de olhos cor de bronze puxou Arely do banco e acomodou-a no colo. Perto dele, a menina era quase uma boneca devido ao tamanho e à pele clara. Começou a esfregar o braço e as pernas por cima do cobertor, e todo o trajeto até a casa de Ruby foi assim, com ele sussurrando em seu ouvido.

— Vamos lá, Ly... Aqueles idiotas não podem ter te afetado tanto... Vamos... Você é forte... Eles não são capazes de te quebrar...

Provavelmente Adrien não admitisse nem a si mesmo naquele instante, mas desde que Gabriel dissera que, se falhassem, nenhum outro Mensageiro iria nascer e Arely teria sido a última, passava a depositar tanta fé nela, que tal fé devia chegar a ser cega. Isso sem falar da fera dentro de si que decidira ser seu máximo protetor, antes mesmo que a garota sequer soubesse que tinha o direito de escolher tal protetor.



1: "Inferno" em italiano.

2: "Merda" em italiano.