12 setembro 2014

Elysium 1: Fenris Fenrir - Capítulo 2

“Você é bem covarde, hein?”
A voz ecoou na escuridão, selvagem e forte. Girei em torno de mim – ou acho que girei – procurando alguma fonte de luz. O que se mostrou infrutífero, levando-me a “responder” a voz.
- Por que sou covarde?
A voz riu maniacamente, seguida do som de garras arranhando metal, como quando gatos derrapam em pisos de alumínio sem carpetes, provocando arrepios que subiram pela minha coluna até o meu pescoço, agonizante.
“Não você.”
O som das garras parou.
Senti meu coração na boca, ansiedade e temor se remexendo em meu peito, disputando espaço.
“O covarde já fugiu. Se escondeu.”

As garras voltaram a arranhar, o som se aproximando arranhada à arranhada.
Repentinamente, o som parou, e uma luz tênue começou a aparecer. Pouco tempo depois, aquela luz iluminou os contornos de algo à minha frente.
Um pouco mais alto que eu.
Monstruoso.
Uma mistura de lobo e homem.
Aterrorizante.
Os olhos eram de um dourado-puro, grandes, furiosos e selvagens, onde eu me via refletido.
Saliva escorria pela boca e dentes expostos, dando um ar esfomeado ao rosto feroz.
A sensação que tinha era que aquilo, o que quer que fosse, queria devorar a minha alma. Era disso que vinha a fome em suas feições.
- O que é você? – perguntei, tentando me manter calmo, tentando não demonstrar o terror em meu interior.
“A sua loucura aprisionada. O seu ódio por sentir. A sua raiva controlada. O seu desejo de matar.”
Enquanto a voz ecoava diretamente em minha cabeça, o ser monstruoso começou a andar em círculos que me tinham como centro.
“O seu desejo de proteger a sua irmã. A sua ferocidade de soldado. A sua paixão de líder. A sua autoridade.”
Ele se afastou de mim e começou a andar na direção da escuridão, deixando-me sozinho com meus pensamentos.

Coisas demais flutuavam em minha cabeça... Nomes, rostos, lugares, coisas... Mas... Faltava algo.
- Será que ele vai acordar? – ouvi uma voz ao longe, nem tenho certeza de como ouvi. Algo em mim que eu nunca sentira se remexeu com a voz. De alguma forma, essa voz despertara respeito nessa minha parte adormecida.
- Não sabemos. Faz séculos que mestiços com humanos não surgem. E a maior parte não sobrevivia à primeira transformação, fosse por colapso do corpo, como por caça dos homens quando se transformavam... – já essa voz despertou certa raiva, talvez por causa do tom de desprezo...
- Mas como ele é um mestiço? Desde o século XIX, quando começamos a registrar as famílias de Lobisomens e os casos de mesticidade, foram pouquíssimos os casos de um Lobisomem que se juntou à um Humano. E vigiamos os descendentes de todos eles, para o caso dos genes se manifestarem. E ele não tem ancestrais Lobisomens dentro desse período, e as chances de uma transformação com um ancestral ainda mais antigo são nulas! – essa voz despertou-me... Amizade. A voz impaciente lembrava-me Ricardo, um amigo e vizinho que mudara para Miami quando eu tinha onze anos.
- Alguém teve um filho com um Humano e não informou nesse período. Arrisco que era bisavô desse garoto, a idade dos pais e avós bate. Explicaria porque não informou, já que foi na época da Ascensão que os avós dele nasceram, portanto, que um dos nossos se envolveu com humanos.  – era a voz que eu respeitava. Ela parecia não ligar para o como ou porque eu era mestiço, do que quer que eu fosse. E “Ascensão” era como as demais raças se referiam ao que os Humanos chamam de Queda.
- Quando a irmã dele fizer dez anos, recomendo a presença de um rastreador em São Paulo, por precaução. Tivemos muita sorte dessa vez. – Era a voz com desprezo.
Irmã? Irmã?!
“... Olhos cor de chocolate amargo de Eliana me olhando, a fera reconhecendo o próprio cheiro nela e retrocedendo. Os olhos puros de minha irmãzinha dizendo que tudo ia ficar bem.”

- ELIANA!!!
Saltei na cama, sentindo meu coração acelerado e o suor que fazia meu cabelo grudar-se à testa e à nuca. As cores, brilhantes, me saltavam às vistas, tão fortes que meus olhos doíam.
Eu ainda estava processando o quarto de hospital de paredes espelhadas, com interfaces touch-screen indicando meus sinais vitais e fios e mais fios ligados em mim, ofegante, quando a porta zumbiu e três homens entraram.
O primeiro tinha uns cinquenta anos, talvez mais, o cabelo preto e brilhante cortado rente à pele morena, apontando levemente como uma seta para o nariz, costeletas se destacando na lateral do rosto, a barba feita muito rente à pele, deixando à vista os ossos proeminentes e fortes e a derme com algumas rugas de expressão que rodeavam principalmente os olhos dourado-mel – mais dourado que mel, diferente de mim. O conjunto dava ao homem uma fisionomia decidida e autoritária, mas com um toque de bondade arrematada com sabedoria e inteligência. Talvez esse conjunto ficasse tão exposto por causa do leve sorriso que criava algumas outras rugas de expressão. O corpo de ombros e cintura largos, mas definidos por músculos, nem mesmo um grama de gordura à vista por causa do uniforme cinza de botões dourados, declarava o cérebro militar protegido pelo crânio.
Seguido desse homem, veio outro, cujo conjunto dizia ter cerca de trinta anos, com o cabelo ondulado, castanho com mechas brancas, indo até o ombro e preso num rabo de cavalo frouxo. Uma barba rala cobria o queixo e maxilares finos, a pele pálida por falta de sol se curvando com rugas de esgar e desagrado em torno dos lábios finos, outras de atenção em torno dos olhos dourado-fosco com um brilho de genialidade. Músculos magros e esguios cobriam os ossos alongados e pontudos, mais visíveis por causa do longo jaleco branco de médico. Eu não tinha dúvidas de que a voz cheia de desprezo viera dele.
Por último veio um rapaz, uns três anos mais velho que eu. Um cabelo loiro-amarelo cobria sua cabeça, raspado nas laterais e na nuca, mais alto no topo, um corte tipicamente militar. A pele tinha um tom moreno não muito uniforme, especialmente em volta do olho direito, onde era mais claro como se ele tivesse usado um visor espectral para cobrir a íris dourado-claro. O jeito como a pele se esticava em cima dos músculos e ossos deixava seus olhos levemente arregalados, dando-lhe um ar curioso, atento e impaciente, aumentado pelo nariz fino cujo formato lembrava quase o de um cão farejador – ele parecia quase um protótipo do detetive Sherlock Holmes que fizera sucesso tanto tempo atrás. Talvez os ombros e cintura fina cobertos de músculos magros, principalmente os braços expostos pela camiseta regata, reforçasse sua natureza investigativa. Ele parecia o tipo ideal para espionagem, capaz de se esgueirar por locais estreitos e se movimentar silenciosamente.
- Nosso querido mestiço acordou! – o médico – eu só podia presumir que o homem de jaleco era médico – falou, ironia e sarcasmo dançando na voz, aumentados pela sobrancelha erguida. Franzi as sobrancelhas, mas qualquer que fosse meu objetivo, foi arruinado pelo meu peito se erguendo num ritmo irregular e pelos meus olhos arregalados com assombro e medo.
Não vou mentir. Eu estava assustado. Eu não tinha a menor ideia de onde estava ou quem eram aquelas pessoas. Medo tinha se transformado no meu segundo nome.
“Não demonstre tanto medo. Vai dar ainda mais motivo para que não o respeitem... E eu não quero ser considerado covarde por sua culpa.”
A voz do ser monstruoso ecoou em meu cérebro, me sobressaltando. A voz tinha um tom inegável de autoridade, e parecia querer me controlar. De toda forma, aquilo me ajudou a começar a regular minha respiração. Ao fundo de minha mente, ele começou a criar um ritmo usando números, que eu segui inconscientemente. Mas isso não queria dizer que eu ia obedecê-lo sempre.
- Nossa, Tyvan, mais um pouco e não caberia tanta ironia num quarto só... – o mais novo falou, o mesmo tom de ironia na voz, mas ainda com um toque de amizade, empurrando o homem com uma cotovelada na lateral, avançando até parar do lado direito da cama, assim como o homem mais velho, do lado esquerdo, enquanto o médico parava próximo da porta, ainda com uma expressão de desgosto, se encolhendo um pouco por causa da cotovelada.
O homem mais velho só ficou parado, me observando, o leve sorriso perdurando, enquanto o rapaz se inclinava na minha direção, o olhar curioso parecendo querer descobrir só de me olhar algum segredo que eu guardasse em minha mente capaz de revelar o caminho para Shangri-lá – ou algo assim. E então um sorriso enorme de boas-vindas se abriu, os dentes brancos com caninos duplos nas duas arcadas dentárias, como eu.
- Seja bem vindo, Amadeus! – o tom de voz, alegre, não deixava dúvida de que ele realmente me dava boas vindas. O médico deu um bufo, girando os olhos, o militar permanecendo imóvel, enquanto eu terminava de recuperar o ritmo normal de minha respiração. – Não ligue para o Tyvan, é um idiota que só gosta da própria sombra. – apontou com um jeito de quem diz “nada importante” para Tyvan, que ergueu as mãos num gesto irritado, se virando para sair do quarto.
- Me chamem quando realmente precisarem de mim. Vou verificar como os outros estão. – resmungou, a porta de metal fechando com um zumbido atrás de suas costas. Olhei de novo para o rapaz, que deu de ombros como quem diz “Eu sabia que ele ia fazer isso”.
- Recapitulando: seja bem vindo, Amadeus, ao Fenris Fenrir! – pisquei, incrédulo, mal acreditando que o rapaz dissera aquilo de fato. Fenris Fenrir, o nome pelo qual a base militar Lobisomem na América é conhecida. Eu estava nela...? Eu estava numa construção de metal no meio da floresta Amazônica?
“Pelo cheiro e temperatura, é isso mesmo...” A voz do ser ecoou como quem dá de ombros.
Como tem certeza? Perguntei, mas aquela... Fera... Permaneceu em silêncio.
- Eu sou Luís, com quatro anos desde a primeira Transformação, e esse é Joshua, o Major responsável pelo Fenris Fenrir, com respeitáveis quarenta e três anos desde sua primeira Transformação. – Joshua inclinou de leve a cabeça, o sorriso ainda presente. Entre a sociedade Lobisomem, o tempo desde sua primeira Transformação é um tipo de status, já que quanto mais puro o sangue de um Lobisomem mais tarde a transformação ocorre – cerca de dezesseis ou dezessete anos, às vezes até dezoito. Luís tinha se transformado com uns catorze anos, o que indicava que seu sangue não era muito puro. E Joshua provavelmente era bem mais velho do que parecia.
Espera um pouco! Amadeus Cervantes, pare de ficar ignorando o problema principal se lembrando de todas as suas aulas! Fenris Fenrir, apresentação de acordo com tempo desde a primeira Transformação, uma voz na minha cabeça, mais essas memórias que eu torcia para serem pura e simplesmente um sonho cheio de dor...
Oh, droga... Eu acabei de acordar do meu coma pós primeira Transformação... Oh droga! Eu sou um Lobisomem! Mestiço com humano! OH DROGA!
Eu devia ter percebido isso antes, só pelas minhas memórias e por causa da voz do ser monstruoso ao fundo de minha mente, mas eu queria ignorar isso... Sério. Mas saber que eu estava na base militar Fenris Fenrir, para aprender a controlar a Transformação e ser treinado como soldado das fileiras de Lobisomens tornou impossível ignorar que eu era um mestiço...
- Acho que ele acabou de perceber o que realmente aconteceu... – Joshua falou, e percebi que fora a voz dele que me despertara respeito, e que naquele momento possuía um riso contido. Pudera. Sua voz tinha um tom tranquilo, baixo, mas apesar disso, ficava retumbando em meu peito, ecoando em meus ouvidos... Um tom que realmente despertava respeito. Nem mesmo o riso contido podia acabar com esse respeito.
Tentei imaginar como minha expressão facial parecia, mas acho que isso estava além do meu alcance. Eu só sabia que sentia meu queixo frouxo, como se ele quisesse se descolar de sua articulação junto ao crânio.
- Alguém se feriu? – foi a minha primeira frase depois de acordar chamando pela minha irmãzinha, temendo que a fera que continuava a falar em minha cabeça tivesse feito algo com Eliana. Agora meus pensamentos se voltavam para os outros. Eu tinha desistido de tentar adivinhar como eu parecia.
“Eu nunca machucaria sua irmã, Amadeus. Mesmo que ela nunca se transforme, nós dividimos sangue. Nós, feras, respeitamos os laços de sangue mais do que qualquer outra coisa. Já outras pessoas... Não posso garantir.” O final tinha um tom de deboche, e eu podia ver em minha cabeça a fera com os dentes arreganhados num sorriso.
Ignorei-o, meus olhos bicolores balançando de Joshua para Luís, que foi quem respondeu a pergunta ainda com um sorriso.
- Não. Quando você estava a ponto de atacar um garoto que estava perto da sua irmã caçula, um Rastreador que estava acompanhando um dos nossos embaixadores te apagou com uma boa dose de sonífero. – Luís deu de ombros, como se aquilo não importasse muito. Eu só consegui soltar um suspiro aliviado.
Não machucara ninguém. Ninguém. Minha primeira Transformação, apesar de tudo, tinha sido até que tranquila. Saber disso me deixava aliviado. Tão aliviado que me deixei cair contra o travesseiro, levando minha mão para tirar meu cabelo úmido de suor da testa. Conforme a passei pelo meu cabelo, cheguei até a nuca, onde senti algo de metal – o mais estranho era que eu não o sentia contra o meu pescoço.
Franzi o cenho, seguindo o metal levemente com a mão. Eu sentia o metal queimar de leve em contato com a minha pele. Não doía, mas queimava. Não apenas isso. Quase... Cantava quando em contato com a minha derme, como que pronunciando um encanto. Quando circulei o metal, identifiquei que era uma coleira, com dois dedos de folga do meu pescoço.
Me ergui um pouco, olhando para Luís de forma interrogadora. Ele deu um sorriso sem graça, enquanto eu ouvia a fera resmungar de desagrado: ela odiava aquela coleira.
- Você acabou de se transformar pela primeira vez. A coleira de prata é só por um tempo, enquanto você aprende a controlar a fera. Acredite, sem a coleira a mínima alteração de humor pode dar o controle para a fera...
“Ele tem razão, infelizmente... Se não fosse essa coleira, eu tinha atacado aquele tal de Tyvan no momento que entrou aqui... Não sei se seria forte o suficiente para vencê-lo, mas eu não teria me segurado.”
O tom da fera não negava. Terminando com um rosnado, eu não tinha dúvidas de que era justamente aquilo que ele queria. Mas o que me surpreendeu foi a franqueza de não saber se era forte o suficiente para vencer Tyvan ou não. Até aquele momento, ele agira como se fosse o ser mais forte do mundo.
“Não sou tão forte assim. Ainda.”
A forma como disse me fez ter certeza de que a fera queria se transformar no ser mais poderoso do mundo. Ou um dos mais. Será que todas as feras são tão orgulhosas assim? Se for, não me surpreende que meus professores tenham dito tanto que Lobisomens são orgulhosos por natureza e que desprezam as outras raças – especialmente Humanos, por não termos nenhuma natureza mágica em nosso sangue, não mais.
Luís ia falar mais alguma coisa, mas parou no mesmo instante que um cheiro diferente invadiu minhas narinas. Era... Como posso dizer... Arisco. Como um animal de rua que já apanhou muito e rosna para qualquer um que chega perto. Era... Antipático. Forte. Autoritário, até mais que o cheiro de Joshua. Pertencia à alguém mais forte e com muito mais liderança no sangue do que Joshua. Isso me surpreendia.
“Ele não gosta de nós... E nem sei se gosta de alguém.”
A fera ecoou em minha mente, arisco e encolhido, um pouco de medo em seus pensamentos que se mesclavam e se separavam dos meus à todo momento. E ele tinha razão. Quem quer que estivesse parado do outro lado da porta, esperando que ela se abrisse, não gostava de mim. Me sentei na cama de novo, e nós três olhávamos para a porta, atentos. Se antes eu tinha medo por não saber onde estava, agora eu tinha medo de que quem quer fosse, me atacasse no momento que me visse.
Um zumbido. Joshua assoviou com um tom surpreso, enquanto Luís franzia as sobrancelhas e arreganhava de leve os dentes. Pelo jeito, nem ele nem a fera dele gostavam do que o cheiro do rapaz que adentrou o quarto mostrava, enquanto Joshua, por seu olhar, não parecia esperar que aquele cara estivesse aqui.
Uns dezoito anos, ou pelo menos, mais velho que eu. Os olhos eram dourado-escuro, quase cobre, um pouco mais claro perto das pupilas, brilhando como se houvesse luz saindo delas, quase como faróis. Irradiavam autoridade e uma inteligência aguçada, natural e também adquirida pela melhor educação que o dinheiro – ou o status – pudessem comprar. Mechas de cabelo acobreado caiam por cima da pele morena e da coleira – que, em outra pessoa, eu podia ver que era de prata com as runas que as raças vindas das regiões da Noruega usavam em suas magias – se misturando a barba por fazer que cobria o queixo e maxilar proeminentes como uma sombra de fios de cobre. Ele era alto, talvez dois metros de altura, ou mais, com músculos avantajados de caçador cobrindo cada osso, as unhas se alongando quase dois centímetros como garras. Ele era um Lobisomem puro. Isso irradiava de cada poro do corpo dele, apesar da regata branca e moletom cinza. Cada grama do cheiro dele dizia isso.
E não apenas isso.
Ele era um predador, com o cérebro e o corpo afinados com maestria para ser o melhor, como um raro Stradivarius cujo todo o processo de feitura era para conseguir o melhor som. Sua fera devia estar apenas um, no máximo dois passos atrás, pela Transformação recente. Seu cheiro me contava isso. Estremeci visivelmente, principalmente quando os pensamentos da minha fera, já uma parte de mim que eu aceitava porque teria de conviver eternamente à partir dali, se separaram e ecoaram mais alto do que nunca.
“Eu não tenho chances contra ele.”

Oh, droga...