01 fevereiro 2013

Teorias de Conspiração - Capítulo 38: Obrigada, Todo-Poderoso


Ah, Teorias... Como pode ver, aconteceu muita coisa. E não tenho ideia de como você ainda tem tantas folhas, depois do tanto que escrevi em nove anos, sendo você tão fino...
Mas, enfim...
Aconteceu tanta coisa, e eu descobri tanto nesse meio tempo...
Ainda me custa acreditar que matei dois seres. Independente do motivo, matei.
E pelo que sei, matar é um pecado sem perdão. Será que, se eu morresse agora, ainda seriam Beija-Flores do Paraíso a me indicar o caminho?
E já faz 4 meses que enterramos vovó... 4 meses em que ainda acordo de vez em quando pensando que tenho de ligar ou escrever pra ela. Às vezes também acordo pensando que tenho de descobrir um jeito de ajudar mamãe. E quando a realidade me atinge, duas lágrimas escorrem. Uma por mamãe e outra por vovó. Elas fazem uma falta...

Contratamos tia Verônica de novo. E eu vejo papai se afundar mais no serviço, como que para esquecer que, quando chegar em casa, mamãe não vai estar ali nem vai ter como ligar para vovó e saber como ela está. Ele as amava demais. E provavelmente ver eu ou Devon praticando também o lembre disso, por isso procura não ficar perto da gente.
Eshe tem me ajudado mais do que nunca – embora por conversas de vídeo via o PC que passou por um upgrade –, agora que sei que tenho um lado Vampiro que pode se manifestar se eu não souber me controlar. Ainda mais levando em conta que, por dentro, meu corpo não é adaptado como o de um Vampiro – transformado/mestiço/whatever – para absorver sangue – mas produz o vírus capaz de transformar do mesmo jeito. Por isso, se eu me descontrolar e beber sangue, vou passar muito mal. Isso sem considerar a parte de sair soltando raios e minhas asas se ferirem por causa do veneno Vampírico que meu corpo produz se eu me descontrolar. Por isso elas tinham se despedaçado.
Mas a única coisa que realmente mudou com essa de “sangue Vampiro ativo” foram meus olhos. Continuam verde-folha, mas possuem pintas e riscos azul-elétrico nos dois. Rashne diz que ficaram ainda mais bonitos, mas ele é suspeito porque é meu namorado.
Não contei sobre esse lado Vampiro para Devon, Papai, Thaíze ou qualquer outro. Só Rashne, Eshe e Despertador sabem. Para os demais, para todos os efeitos, todas essas fortes emoções geraram uma manifestação tardia de heterocromia – e Eshe apoiou a teoria, o que não gerou muitas perguntas, graças à Deus.
Mas, sem dúvida alguma, algo que realmente me deixou tranquila foi saber que Devon não me traiu.
OK, eu sabia que meu irmão jamais me trairia, mas ter certeza disso, receber confirmação de que ele não tinha passado pro lado de Adriane me deixou tão aliviada – pelo jeito, a Gnoma queria me deixar com a pulga atrás da orelha e conseguiu.
E não precisei de visões.
Bastou chamar Alessa e conversar um pouco com a namorada do meu irmão.
Sentamos na varanda do meu quarto – já de volta a São Paulo, no início de Fevereiro e das minhas aulas –, observando o céu não-estrelado e tendo a sinfonia de buzinas, acelerações, queimações de pneus e trocas de marchas de Sampa como companhia sonora. Lindo, não?
− Sabe, Alessa, estou até agora tentando entender como Adriane soube que eu tinha voltado, antes que eu fosse até ela... – procurei dar a minha voz um tom calmo e casual, embora eu estivesse só nervos por dentro.
Alessa suspirou de um jeito estranho, mudando de posição como se algo a incomodasse demais. Até que me olhou, suspirou de novo e começou a falar.
− Adriane falou que foi o Devon, não é? – limitei-me a balançar a cabeça afirmativamente. Minha futura cunhada suspirou de novo – De certa forma, foi mesmo... – franzi as sobrancelhas, e ela se deixou apoiar na mureta da varanda como se a coluna não a sustentasse mais. – Enquanto Adriane lutava com você, Kai colocou um feitiço de alarme ao redor de Devon. Quando você voltou, o feitiço disparou.
− E ninguém detectou o feitiço?! – explodi.
Caramba, NINGUÉM tinha detectado um MÍSERO feitiço de Alarme?!
− Nem tentamos... Achamos que Adriane tinha se livrado de você pra sempre... Que ela não pensaria na possibilidade de você voltar... – Alessa parecia assustada e com medo que eu a atacasse. Talvez pelo estado que Adriane ficou. – Somente Rashne, Despertador e talvez Hadassa tinham certeza de que você estava viva.
Naquela hora, meu queixo caiu. Todo mundo achou que eu estava morta. Menos meu namorado. Minha Mantícora. E a garota que me convidou para ser sua Juradora no casamento. Até mesmo Devon e Vovó acharam que eu tinha morrido.
Não é a toa que vovó foi atrás de Adriane sozinha. Ela queria vingança por eu supostamente estar morta.
Depois daquilo, fui até Rashne, Despertador e Hadassa e os abracei com força, agradecendo por acreditarem que eu estava viva. Eles não entenderam muito na hora...
Então fui até Devon, Thaíze, Eshe e Sammuel e soquei seus ombros – não com muita força – xingando-os por terem me dado como morta. Devon riu de um jeito envergonhado antes de me abraçar pelos ombros e beijar minha testa num pedido mudo de desculpas. Eshe e Thaíze fizeram cara de choro e me abraçaram como se EU fosse um bichinho de pelúcia, pedindo desculpas por sua falta de fé. E o Elfo idiota deu de ombros, falando que eu já tinha morrido uma vez, antes de me chamar pra ver um campeonato de luta entre Elfas, que Hadassa participaria – ela pegou 2º lugar; Sammuel ficou doido, falando que o Elfo que presidiu as lutas – que são definidas por habilidades, e não por nocaute – estava protegendo quem pegou o 1º lugar – coisa de marido super-protetor a reação dele, só pode – mas foi só o Eshe dar um pedala naquela cabeça grande que ele acalmou.
Eshe e Thaíze realmente estão namorando firme; ela até convenceu a mãe a deixar ela ir pro Marrocos ficar com ele nas férias. Ele viria para o Brasil, mas como o Sammuel agora vive com o clã da Hadassa lá pras bandas de Manaus, o pai deles precisa de mais ajuda no negócio próprio, principalmente porque o irmão caçula – Iori, e que pela foto que o Eshe mandou é uma fofura! – rouba toda a atenção da mãe.
O futuro já tinha me assustado demais com todas essas visões e o pergaminho de Aine que vovó guardou, mas Aine fez questão de me assustar mais ainda.
Quando estávamos nos despedindo, ela disse que eu devia me preparar. Ser forte. Ficar cada dia mais forte. E nunca abandonar quem quer que seja, independente de suas ações no passado.
Aquilo me fez ter um arrepio.
Porque todo mundo me acha com cara de mártir desde que meus poderes despertaram?
Aliás, falando no pergaminho, além de Hadassa, só o dividi com Rashne. Até quis falar com Eshe ou com Thaíze, mas meus instintos berraram NÃO.
Ah, e uma excelente notícia em meio à tudo isso!
Contei pra Thaíze minhas desconfianças sobre o vizinho, e ela falou que também tinha leves desconfianças. Nos unimos e PIMBA! Conseguimos provas suficientes pra denunciar o desgraçado! Ele não perde por esperar...
Enfim, Teorias, até mais tarde! Eu e Thaíze vamos denunciar o monstro abusador de crianças.
Afinal, sou uma Fada.
E Fadas devem ajudar quem precisa. Somos feitas pra isso.

Subi a escada tranquilamente, assoviando aquela música do filme do Garfield que diz “I Fell Good” ou algo assim que nunca descobri o nome, satisfeita pela polícia ter ouvido a nossa denúncia e aceitado nossas provas sem precisarmos usar muita magia – só um toquezinho de Sereia na fala da Thaíze – e terem nos garantido que seríamos testemunhas se o desgraçado fosse a julgamento, independente de localizarem as crianças que tinham sofrido com o desgraçado ou não.
Perguntaram se queríamos sigilo de nossos nomes até lá, e negamos. Enfrentamos tanta coisa – tipo um Djin e uma Gnoma Caçadora doida-varrida – que não é um humano pedófilo que vai nos meter medo.
Quando abri a porta de meu quarto, encontrei Rashne sentado na minha cama, com Teorias no colo. Despertador, a Mantícora que supostamente deveria impedir invasões de privacidade, estava deitada aos pés do meu baú como se nada estivesse acontecendo.
Voei para a cama – quase literalmente, minhas asas não conseguiam bater direito num espaço tão pequeno – tentando tirar Teorias de Rashne, mas meu namorado foi rápido o bastante para tirá-lo do meu alcance. E, em minha ânsia por pegar meu diário/whatever, quase que nós dois caímos da cama!
− Me devolve o Teorias! – berrei, beliscando o braço de Rashne. Ou pensei que belisquei, porque na verdade só peguei o tecido da blusa dele mesmo, considerando que ele não esboçava outra reação que não fosse rir.
Ajoelhei no colchão e cruzei os braços, fazendo careta. Rashne riu, colocando Teorias de lado e se inclinou na minha direção, tencionando me beijar, mas virei a cara. Depois de me zoar tanto, ele que sonhe que vai me beijar tão fácil!
Ele sorriu, como se esperasse aquilo, antes de pegar Teorias e o abrir a esmo sobre o colo. Reconheci os “coraçõezinhos” e as “asinhas” que eu desenhara ao redor da página. E senti meu rosto aquecer.
Fora naquela página, antes de Rashne me pedir em namoro, que eu enumerara cada uma de suas qualidades e defeitos e cada uma de minhas reações quando o via... Resumindo: dizia o quão apaixonada por ele eu estava na época e ainda não tinha percebido muito bem. Hoje era amor. Mas porque cargas d’água ele tinha de abrir bem ali?!
− Sabe... Eu tava me perguntando, antes de você entrar, porque guardar um caderno tão fino com as páginas em branco debaixo do travesseiro... – ele foi passando as páginas, olhando-as de modo... Confuso?!
Confusa agora tô eu! Ele NÃO ESTÁ VENDO os garranchos que cobrem cada página de Teorias?!
− Você tá tirando mais uma da minha cara, Sr. Rashne Mahtab? Teorias possui muita coisa escrita. – ergui as sobrancelhas, e então me aconcheguei ao lado dele quando seu olhar caiu em minha direção de modo desolado e jeito de quem não está entendendo nada. – Você realmente não vê nada escrito aqui, Rashne? – perguntei mais dócil, tentando entender aquilo. Ele balançou a cabeça negativamente.
Apertei os lábios diante daquela situação. Será que ele só está fazendo uma pegadinha comigo?
Peguei uma caneta qualquer que estava na cabeceira, risquei minha mão para ver se estava funcionando e então escrevi numa página qualquer um coração com asas e nossos nomes dentro – meio infantil, eu sei, mas até que ficou fofo...
Ele perguntou se a caneta estava com defeito.
Quando falei que não, ele franziu as sobrancelhas, ficando pensativo – e destaco que ele fica muito sexy pensativo; fiquei morrendo de vontade de beijá-lo, mas não o fiz pra não cortar o raciocínio – embora ele ficasse igualmente sexy quando irritado por ter o raciocínio cortado... Ennnnfim... Ignorem meu momento “adolescente apaixonada com hormônios à flor da pele”. Ou momento taradice, tanto faz...
− Você comprou ou ganhou esse caderno? – ele perguntou depois de um tempo, fechando Teorias.
− Ganhei de vovó quando fiz 6 anos. – respondi, pegando Teorias e o analisando com cuidado.
Eu tinha de admitir que ele era diferente. Tirando os últimos Dezembro e Janeiro, escrevi nele todo dia desde que ganhei. E eu não escrevo pouco. E ele sempre tem folhas limpas! E é da grossura de um caderno de 96 folhas grandão. Nove anos e o dito cujo ainda tem folhas? It’s possible?
Meu caderno é normal?
− Você acha que seu caderno pode ser um Livro Branco? – ele falou de repente após alguns minutos de silêncio.
E aquela possibilidade foi um baque. Com direito à acelerada estilo “Pânico” quando se vê um nome daqueles...
Será?
Toquei Anoen – eu não me separava dele, do colar que ganhei de Rashne e nem da corrente onde todos os meus pingentes estavam – com a ponta dos dedos, e uma memória que eu nunca lembrei muito bem nem dei muita importância se destacou. De quando ganhei o Teorias.
Quando apareceu com o caderno, a capa não era aquela psicodélica e Art Nouveau e colorida. Era branca com palavras em negro que não tentei ler. Nem conseguiria, ainda não lia bem. E também não conhecia aquela língua.
Vovó pediu que eu pensasse num nome. Sem hesitar, falei Teorias de Conspiração. E então Eurídice o encapou com aquela estampa e escreveu o nome escolhido com canetão fluorescente.
Abri a capa, vendo o durex que, em nove anos, nunca precisei trocar pra manter a capa firme – e nos meus livros de colégio não dura nem o ano letivo...
Com cuidado, soltei-os até ver a capa original branca.
E, na língua da Teia, estava escrito “Livro Branco – Pertenceu: Anastásia Rune – Pertence: Stacy Greeneyes.”
Vi o queixo de Rashne cair. E acho que o meu também caiu.
Vovó cuidou para que não soubessem que eu possuía um Livro Branco. Para que, para todos os efeitos, ele não passasse de um caderno qualquer ainda não usado.
E o mais incrível: ele já pertenceu à Anastásia, mas não tem como eu ler o que ela escreveu.
Recoloquei a capa de Teorias. Me aconcheguei melhor a Rashne, abraçando-o e sentindo algo como plenitude quando ele enlaçou meus ombros com um dos braços, se inclinando para me beijar. Lembrando de novo da menina chamada Esperança. Ela tinha tanto dele...
− Te autorizo a ler meu Livro Branco quando bem entender. – disse, vendo-o abrir Teorias. Ele riu ao ler meus garranchos bobos de quando tinha uns sete anos. E fechei os olhos. – Pode ler em voz alta aquilo que for interessante? – senti o peito dele se agitar com o riso de alguma besteira infantil.
Não sei por que, mas depois de saber que Teorias é o Livro Branco onde escrevi minha vida e sentimentos, quero dividir tudo que está nele com Rashne.
− Claro. – e então, ele começou a ler aquilo que eu já escrevi de minha história, beijando-me de vez em quando.
Eu só aproveitava a sensação de segurança, de felicidade, de plenitude, só por ter ele ali, do meu lado, num sábado normal em que eu só queria aproveitar ao lado do meu namorado porque não tinha trabalhos ou tarefas ou o que quer que fosse, tanto do colégio como de magia... E sem um doido querendo me matar.
Apenas tendo certeza que é por causa de pequenos momentos de felicidade como esse que a vida vale à pena. E que vovó e mamãe iriam querer que eu tivesse momentos assim: normais – embora papai de vez em quando fizesse questão de interromper... Coisa de pai ciumento, só pode... Devon já desistiu.
Mamãe e vovó: muito obrigada por terem existido, pois muito do que sou e sei, devo à vocês. Estejam num lugar melhor, pois vocês merecem.
Me apertei mais contra Rashne, sentindo seu calor, seu cheiro, ouvindo seu coração bater e sentindo sua respiração. No mesmo ritmo do meu coração e da minha respiração.
Coloquei uma das mãos sobre seu peito, e ele parou de ler, soltando Teorias para segurar minha mão e entrelaçar nossos dedos. Ergui meu rosto para olhar seu rosto que iluminava minha vida e enchia meus sonhos de beleza, felicidade e amor. Ah sim, e algumas quedas de nuvens...
− Sempre juntos, até o Sol e todas as estrelas se apagarem? – murmurei, olhando em seus olhos de céu de verão que sempre me faziam voar por entre nuvens até que seu beijo chegasse e me arrastasse de volta para o chão. E eu não sabia dizer de que lugar eu gostava mais.
− Sempre. – ele riu de leve. E, antes de se inclinar para me beijar, o vi reluzir e brilhar como eu sempre via desde o episódio com os Beija-Flores. Bastava uma declaração de amor de manhã, um beijo-surpresa ou algo assim.
E os beijos dele tinham sabor de chocolate. E sempre me faziam ficar a meio caminho entre cair e voar, porque ora me puxavam para o céu, ora me puxavam para abismos em que eu me perderia e ficaria entregue ao sentimento que nos unia.
Obrigada, Todo-Poderoso, por colocar Rashne no meu caminho.
Ah, não só ele. Mas todo mundo que me ajudou e ainda me ajuda.

Mas principalmente ele.