27 janeiro 2013

Teorias de Conspiração - Capítulo 37: O Último Adeus

Aproveitando para notificar que o registro de Teorias da BN finalmente chegou @_@ Pensem num ser feliz xD


Deitei no chão, pouco ligando para a terra e os galhos. Fechei os olhos e me concentrei no barulho da água que corria no riacho próximo. Apenas isso.
Tínhamos voltado para Manaus, para onde tinham ocorrido as festas. Eu conseguira despistar todos e me embrenhar na floresta. Precisava de um tempo...
Estávamos preparando o “funeral” de vovó e das demais Fadas que tinham morrido durante o ataque um dia antes de Esperança – por terem de ficar mudando de lugar, não foi possível enterrá-las antes. Seria ali que vovó seria enterrada. Onde daríamos nosso último adeus. Para todos os efeitos, ela seria cremada. Estaria isso no registro de óbito. Mas, nas tradições das Fadas, somos enterradas em Florestas, plantando uma árvore pra marcar o local. Árvore essa que seria a floresta que diria qual seria. Nós não tínhamos o direito de escolhê-la.

Mas eu não estava preparada. Eu não queria me despedir ainda. E eu sabia que vovó seria enterrada somente comigo presente.
Estendi os braços, como que tentando abraçar a terra. Ouvindo a terra. Sentindo os animais e as plantas se movimentando e crescendo debaixo e ao meu redor.
Eu não estava preparada.
Eu não queria me despedir ainda. Não pra sempre.
Senti tocarem numa de minhas mãos, e abri os olhos. Ainda estava na floresta, em meio às árvores, mas havia uma jovem do meu lado, na mesma posição, sorrindo. Como uma amiga muito querida. E ela em si era a jovem da visão que se transformou num majestoso Dragão. A jovem do sonho antes de despertar meus poderes e que eu fazia o parto.
Então ela começou a desfazer-se em pingos de água como uma cachoeira que começa a descongelar com o fim do inverno, até que não havia mais nada, sequer o chão molhado provando que alguém tinha estado ali.
Mesmo depois que ela se desfez, eu continuei sorrindo para onde ela devia estar. Fora uma visão, eu tinha certeza, mas diferente de todas que eu já tivera.
Porque fora como se ela estivesse ali, do meu lado, naquele mesmo lugar. Estranho, não?
Ergui-me e então sentei em posição de lótus, e comecei a meditar.
Eu “fugira” porque precisava ficar sozinha. Refletir em tudo que me ocorrera naqueles 6 meses.
Puxa.
Fora só 6 meses mesmo?
Eu perdera mamãe e vovó; Thaíze virara minha melhor amiga e namorada do meu melhor amigo – aliás, eu FIZERA amigos; Samuel casara – e olha que fui Juradora da agora mulher dele, que se transformou numa amiga muito querida; viajei para Kolshö; matei dois seres; conquistei a fidelidade de uma Daeva – que, detalhe, é a irmã milênios-mais-velha do meu namorado Fravartin – tive mais visões do que sou capaz de contar, conheci Aine de Knockaine, consegui três pingentes... Puxa. Quanta Coisa...
E eu sei que tem mais por vir. Não sei quando nem o que...
Mas tem mais.

Senti duas mãos pousarem sobre as minhas estendidas, e ao abrir os olhos, via a jovem que se transformara na majestosa loba, meditando serenamente. E então ela começou a desfazer-se como se fosse uma estátua de areia assoprada por uma brisa. Até que não restou nada. De novo.
Por que visões desse tipo estavam me atormentando?
Eram tão estranhas...
Tão...
Reais...

Ergui-me após um tempo, batendo a terra e as folhas das roupas. Fechei os olhos e inspirei profundamente, e ouvi duas vozes suaves e belas que cantavam no mesmo ritmo, a mesma canção tão bela e doce.
E quando abri os olhos, vi ali, a Banshee Pirocinética e a Salamandra que controlava a Água. Abraçados como irmãos, se apoiando num gesto fraternal, cantando como se não houvesse amanhã. Até que pequenos pedaços dela começaram a se erguer em chamas, as bordas de onde saíam queimando cada vez mais, até que ela queimou por completo numa única labareda, enquanto ele escorria como a jovem Mestiça.
Olhei ao redor, sentindo um vazio repentino sem a companhia das visões dos quatro jovens. Eu sentia que acabara.
Deixei-me cair de joelhos, apertando a terra em minhas mãos, desejando por um instante consumir-me como uma das visões. Talvez me desfazendo em vento e brisa, que era como eu me sentia: feita de vento...
Estar apenas numa de minhas muitas visões e acordar em Kolshö, sabendo agora com exatidão o que devia tecer e salvar vovó.
Mas a realidade batia às portas de minha mente.
Já passara tempo demais. Não podia ser uma visão. Era realidade.
E isso me fez chorar, como eu chorara muitas vezes naquela semana desde a morte de vovó.
Inconscientemente, busquei minha ligação com Rashne. Busquei aquele fio de Teia que nos ligava em Alma, Espírito e Mente. Um silencioso pedido de ajuda que ele sentiu, tamanho era o sentimento que nos unia, à ponto dele sentir minha aproximação mental. Uma mente instável que só queria... Acordar, mas não podia.

Em poucos segundos ele estava ao meu lado. Mas, para minha mente atormentada pela dor da perda de um dos seres mais queridos, em que eu necessitava de um ombro para chorar, foi um tempo amargamente longo.
Ele abraçava-me pelos ombros, me consolando e me ninando, até que me fez olhar para seu rosto.
E eu não queria. Não mesmo. Não queria que ele, mais uma vez, visse meu rosto encharcado de lágrimas, vermelho e inchado. Porque é sempre assim que ele me vê.
Mas Rashne era mais insistente e determinado, e conseguiu me fazer olhá-lo. E, vendo seu rosto através da nuvem de lágrimas que insistia em cair, vi que me ver naquele estado tão deplorável de tristeza também o entristecia. E eu não queria vê-lo daquele jeito.
Ele sempre me fazia sorrir. E eu só conseguia provocar uma aparência entristecida nele...
O QUE HÁ DE ERRADO COMIGO?!
− Rashne... Por favor, me diz que ela não partiu mesmo... Por favor, fala que não vou dar meu último adeus... – meu namorado, meu guerreiro, meu protetor e todo o mais de bom que Rashne representava pra mim, me abraçou com força, e me agarrei a sua blusa, chorando e sentindo ele afagar os meus cabelos.
Como quando meu pai, minha vó ou meu irmão faziam para me ninar quando eu tinha lá meus cinco anos e acordava no meio da noite por causa de um pesadelo... Mas esse pesadelo que vivo nunca vai acabar. Nunca.
− Sinto muito, Stacy, mas jurei a tudo que é sagrado jamais mentir para você, e não é agora que vou quebrar esse juramento. – ele beijava meus cabelos e meu rosto, afagava minhas costas, tentando me puxar do poço em que eu caíra.
Agora era definitivo. Eu realmente perdera vovó, e ninguém tinha a capacidade de me devolvê-la. Ninguém. O único que poderia – o Cara lá de cima – já devia ter decidido há muito que aquela seria uma das provações que eu enfrentaria em minha vida.
Mas saber que nunca mais a veria...
Sinceramente, eu não sabia se queria ser resgatada do poço em que me afundava cada vez mais...

Bicadinhas amigáveis se espalhavam pelas minhas asas e algo puxava meu cabelo de leve.
O peito de Rashne se agitava com a vontade de rir contra meu rosto.
O que é isso?
Ainda com os olhos embaçados, me virei para ver o que provocara riso em Rashne.
E meu queixo caiu.
Centenas... Não... Milhares de estranhos Beija-Flores voavam ao nosso redor, com cores que mudavam a cada instante. Bicavam minhas asas com carinho e puxavam meus cabelos como se fossem crianças travessas.
Aliás, não só os meus, mas os de Rashne também.
− O que são? – perguntei, embasbacada. Rashne riu de novo e me apertou contra ele antes de responder.
− Beija-Flores do Paraíso. Não são lindos? – São, mas continuei na mesma... – São Celestiais e habitam o Paraíso, locais sagrados ou que não foram tocados pelo mau e o Mundo dos Mortos... São Guardiões do caminho para o Paraíso... – Rashne riu bobamente quando um voou bem diante de seus olhos. Eles... Hipnotizavam. Palavras derivadas de “Hipnotizar” têm sido constantes comigo, viu... – São vistos em locais que a Teia é muito fina ou, segundo dizem os Ahuras mais antigos, por almas puras e não marcadas pelo pecado.
Almas puras e não marcadas pelo pecado? Dispenso essa parte, porque já matei...
− E minha mãe falava que aparecem quando alguém precisa de consolo. – ele sorriu e indicou o Beija-Flor que voava insistentemente à minha frente. Era o mais majestoso de todos.
Estendi minha mão para ele, e o passarinho de muitas cores que ficavam mudando pousou em meu indicador.
No exato instante que nos tocamos, senti toda a mente coletiva que era dos Beija-Flores me invadir.
Uma consciência totalmente preenchida de amor e carinho, sem espaço para qualquer coisa que pudesse corrompê-la. Eram seres... Puros. E que sempre seriam puros. E me diziam que não devia me entristecer por vovó. Que ela fora para um lugar melhor. E que ela não queria me ver chorar por causa dela. Diziam que, para ela, a morte fora um alívio à toda a solidão que a preenchia desde que meu vô morrera. E que, até o momento em que morrera, a única coisa que a sustentara fora eu. Eu e a missão que ela tinha de me guiar.
E vi e entendi que eles, como Guardiões do Caminho do Paraíso, são guias de Almas. E saber que, se Rashne não tivesse chamado minha alma, talvez eles me mostrassem o caminho na Dimensão dos Mortos, me deixou... Tranquila. E vê-los ali, depois de tudo o que me fora revelado, fez com que eu me sentisse honrada. Como vovó devia ter se sentido quando eles apareceram para ela.
Chorei de novo. Mas de felicidade. Felicidade gerada por todo o amor e carinho que me invadiam. Tanto que escapavam por cada poro de meu corpo.
Perguntei se Rashne poderia tocá-lo, e o Beija-Flor consentiu.
Meu namorado envolveu a mão onde o Beija-Flor estava pousado delicadamente para que o tocasse. E quando o fez, seu rosto se iluminou, não apenas em sentimentos, mas literalmente, como na visão com Huriye – embora não tão intensamente. Luz saindo por cada poro de seu corpo.
E eu decidi, naquele momento, que faria tudo que estivesse ao meu alcance para vê-lo daquele jeito sempre que possível. Nunca mais eu iria querer vê-lo triste por causa de minhas lágrimas. Nunca. Talvez isso ajudasse a nos manter juntos e um dia seguraríamos a menina chamada Esperança.

Fomos andando até onde nos esperavam, abraçados.
Eu segurava em minhas mãos, firmemente, duas penas dos Beija-Flores e uma semente desconhecida. Os três objetos me foram oferecidos pelos pássaros Celestiais. Tinha certeza de que a semente oferecida devia ser plantada sobre o túmulo de vovó, e não devia perdê-la.
E as penas, Rashne me dissera que eram como pingentes: ajudavam no controle da essência. E havia uma para cada um.

Aceitei a ajuda de Thaíze para vestir as roupas de luto: um vestido e um véu, ambos vermelho-vinho, longos e esvoaçantes. Eu só usaria essas roupas porque era a mulher mais velha da família – excluindo os parentes que tinham nascido na mesma época que vovó, que sequer estavam em condições de acompanhar o cortejo, tamanho abalo emocional os assolou, Elza incluída. Pudera... Tinham crescido ao lado de vovó, fazendo as mesmas travessuras. Se eu ficara devastada, imagine eles...
Se mamãe estivesse viva – engoli as lágrimas que me subiram ao lembrar dela – seria ela a usar essas roupas e seguir o corpo de vovó, com papai de um lado, Devon do outro e eu seguindo atrás deles, mamãe com a semente em mãos, mesmo que ela tenha sido entregue à mim. Mesmo que mamãe fosse uma Vampira. Ela ainda era mulher de papai, nora de vovó.
Mas não. Eu seguiria o corpo de vovó, e Devon estaria de um lado e papai do outro.

Vovó estava linda.
O cabelo cacheado tinha sido penteado de forma a rodear-lhe o rosto. Os olhos fechados estavam com as pálpebras pintadas de verde, e junto dos lábios num sorriso suave, lhe davam uma expressão solene. O vestido branco de seda como que refletia o verde das árvores, dando-lhe uma aparência quase etérea.
Quatro homens do meu povo a carregavam nos ombros, seguindo atrás de Aine. Eu seguia atrás da espécie de maca onde o corpo de vovó estava apoiado – não me perguntem o nome daquilo porque eu-não-sei. Devon seguia à minha direita, e papai à esquerda. Nós três estávamos com os olhos inchados de tanto chorar. Rashne e todos os meus amigos seguiam logo atrás.
As Fadas mortas no ataque de Adriane seguiam de forma semelhante à esquerda e à direta, e os demais de meu povo seguiam atrás de todos nós.
Thaíze, Hadassa e Alessa ergueram suas vozes em cantos fúnebres, afinadas e belas, mas tristes. Erguiam-se acima dos passos, do choro e das preces da multidão, convidando pássaros e mais pássaros a se unirem em sua melodia de lamento. Nenhuma Fada se arriscou – não estamos entre os seres mais afinados do mundo...
Era tão belo e sublime de se ouvir que eu não sabia dizer o que mais me arrancava lágrimas: a nossa perda e o fato de ser o adeus final, ou os cantos que nos embalavam.
Paramos diante das covas e, enquanto baixavam os corpos – sem caixão ou algo do tipo – Aine falou algumas palavras que não me dei o trabalho de ouvir.
Quando terminaram de jogar a terra sobre vovó, me abaixei e plantei a semente, igual a outras famílias.
E então Despertador se juntou à mim, ao meu irmão e ao meu pai, se deitando sobre o túmulo. Eu, Devon e Papai demos as mãos um ao outro.
E choramos os quatro, sem interferência de namorados, namoradas ou amigos. Apenas nós, todos desejando que fosse apenas um pesadelo do qual acordaríamos.
Mas não acordamos. E logo os demais parentes – irmãos e irmãs de vovó, primos e primas de papai, primos e primas meus e de Devon, tios e tias e Mantícoras e Elza – se uniram. Todos chorando. Todos lamentando a perda.
Foi assim que demos nosso último Adeus à Fada Eurídice.
Uma das mais incríveis que já existiu e já conheci, em minha humilde opinião.


Capítulo Anterior                                    Próximo Capítulo