07 janeiro 2013

Elysium 1: Fenris Fenrir - Capítulo 1


            Me encolhi na cadeira quando a professora chamada Maria da Conceição flamejou os olhos castanho-escuro na minha direção. Inferno, a próxima prova sobre a queda da sociedade humana como conhecíamos mais ou menos cem anos atrás é a minha. E se não fui terrivelmente mal naturalmente, Marizão com certeza cortou tudo que podia na minha prova... Tipo... Ela me odeia.
Com um aceno da mão dela, a folha eletrônica que eu respondera uma semana atrás saiu do arquivo da mesa dela e apareceu na tela touch-screen da minha mesa, automaticamente transferida para minha pulseira de identificação de aluno.  Suspirei, pegando a caneta própria da tela, deslizando meus dedos pela mesa para abrir a pasta de arquivos de minha pulseira, conectada via sinal com a mesa, abrindo os e-books de História da Queda, mais o arquivo de anotações da matéria, começando a revisar as questões da prova – se ela cortara algo da minha nota injustamente como costumava fazer, eu precisaria das provas para apresentar na diretoria e exigir a correção. Era isso ou reprovar mais uma vez na matéria, que era, detalhe, essencial se eu quisesse realmente seguir na carreira de diplomata com as demais raças, como minha bisavó.
Tipo, se eu não soubesse como tudo começou, como todos nós, mortais e fracos humanos, fomos empurrados para viver somente nas grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque e Tóquio, e de preferência à beira-mar, sendo obrigados a tratar melhor do nosso lixo e reciclar ao máximo, após um grande genocídio, até o momento que tudo se estabilizou relativamente, eu nunca serviria pra ajudar nas negociações com quem nos forçou à isso, para conseguir matéria prima essencial, comida e água, quando necessário, e resolver pequenos incidentes entre as raças. Para manter as relações frágeis estáveis por mais tanto tempo.

Claro, só isso não bastava. Eu também precisava ter boas notas em: Filosofia Política, porque sem saber as teorias políticas dos antigos filósofos ficava difícil; História das Raças, que abrangia tudo que até um século atrás era considerado pura lenda por oitenta por cento da população mundial, onde eles tinham estado e o que os levou a fazer o que fizeram; Cultura das Raças, para garantir que eu tivesse o mínimo de conhecimento de como é a sociedade deles antes de iniciar um estágio no Governo; Biologia e Química, porque as conversas com algum não-humano sempre tendiam para isso; Defesa Pessoal, porque a grande maioria não respeita alguém considerado fraco; Leis Ambientais e Civis, porque eu precisava ter todas as leis na ponta da língua para não escorregar nas negociações; Português, Dicção e Conversação, uma única matéria abrangendo toda a garantia para que eu soubesse expressar minhas ideias de forma clara e precisa durante um diálogo; e, claro, Idiomas das Raças, onde eu tinha de aprender o mínimo de cada idioma antes do estágio no Governo, para ter uma base, antes de aprender os idiomas deles, de fato.
Minha mãe é professora de História das Raças, e meu pai é Técnico-chefe na rede de reciclagem e tratamento de lixo e esgoto. Por causa disso, já consegui adiantar minha grade curricular quando decidi, dois anos atrás, que queria seguir na carreira de diplomata: consegui eliminar História das Raças e Biologia e Química na mesma ocasião com uma prova, o que me adiantou em pelo menos um semestre.
Por causa de minha decisão, constava na minha ficha da cidade que eu não faria faculdade, mas que precisaria ter notas acima de nove, numa escala de um à dez, em todas essas matérias, e acima de sete nas demais exigidas para o ensino médio – Matemática, Física e todo esse escambau –, até os dezessete anos – sendo que uma pessoa normal tende a conseguir aprovação em tudo só aos dezoito anos, e é preciso apenas seis para ser aprovado, dependendo do que você escolheu. Eu já estava com quinze. Conseguira a nota mínima exigida em quase tudo.
Quase.
História da Queda, Cultura das Raças e Português, Dicção e Conversação me perseguiam, e Idiomas das Raças, bem, eu ainda tinha dois anos pela frente se reprovasse de novo em História da Queda, caso contrário, somente um ano e meio, pois eu conseguiria puxar Tecnologia Geral e Vírus – ambos na área da computação – do último semestre para o próximo, e deixando apenas Idiomas das Raças para o último semestre, realizando dois semestres da matéria num só.
Seria o céu pra mim, pois teria seis meses livres para me preparar para o estágio no Governo com calma, e quem sabe até descobrir que diplomata seria o meu tutor antes do estágio de fato.
Suspirei, ao notar que de fato a professora cortara muito mais do que devia já na primeira questão – a nota que ela atribuíra à prova fora cinco e meio, mas já na primeira questão eu merecia três décimos à mais, no mínimo.
Sinceramente, acho que ela não quer que eu consiga realizar meus planos. Quase como se ela quisesse que eu fosse mal no começo do estágio, o que provocaria minha expulsão deste e o Governo me jogar pra me preparar pra trabalhar em qualquer outro canto que não tinha relação com a diplomacia que eu escolhera.
Ou talvez ela nem quisesse que eu começasse o estágio por não ter atingindo essa primeira meta.
Vai saber.
Terminei de revisar a segunda questão, vendo que aqueles cinco décimos descontados do valor total tinham sido injustos... Minha memória relativamente boa garantira que eu só alterara algumas palavras do que havia na resposta do exercício no arquivo. Por precaução, conferi se a pergunta na prova era a mesma que a professora passara e corrigira em sala. Sim, era, portanto, mais uma injustiça...
Suspirei enquanto estralava o pescoço, mudando a página do e-book e do arquivo das aulas, seguindo pela prova e rezando para que aquela aula não durasse muito mais além do que já durara: logo após à ela seria o intervalo, onde eu teria tempo de ir até a direção querendo a correção da nota, antes de almoçar.

Fui assoviando pelos corredores de metal claro do colégio municipal que subia em direção ao céu com seus trinta e pouco andares, que naquele instante abrigava crianças e adolescentes em idade escolar de toda a cidade. Eu me encontrava no último andar, o andar da direção, dos professores, enfermaria e todos os demais funcionários, me dirigindo para o elevador.
- Corrigiram a nota, Amadeus? – o técnico que cuidava da manutenção dos elevadores estava verificando os sistemas do aparelho, e me conhecia há tempos. Até os dez anos, eu tinha uma estranha tendência a ficar doente fácil, e sempre ia parar na enfermaria. Depois, quando decidi o que fazer da vida e informei isso ao Governo, eu sempre aparecera para corrigir notas – era quase uma perseguição boa parte dos professores com minhas provas relacionadas às outras raças desde então –, avisar a minha mãe de algo – eu preferia vê-la pessoalmente ao invés de falar via os comunicadores das pulseiras de identificação – ou levar minha irmã caçula, Eliana, que entrara dois anos atrás no colégio, até a enfermaria quando ficava doente – o que era tão frequente quanto tinha sido comigo até os dez anos. Espero que aos dez anos ela pare de ficar doente, como foi comigo.
- Sim. Algum problema? – apontei para os aparelhos, vendo a interface touch-screen na parede conectada à interface espectral que a pulseira de técnico dele produzia, seus dedos movimentando-se velozmente pelas telas e teclas, verificando se não havia presença de vírus que atrapalhasse o funcionamento dos elevadores, se havia notificações da Inteligência Virtual de algum problema, mecânico ou eletrônico, enfim, essa parada toda.
- Nah, verificação de rotina, fica tranquilo. – ele parou de digitar momentaneamente, acenando a mão como quem quer tranquilizar alguém, e então praticamente esqueceu que eu estava ali.
Dei de ombros, seguindo para o elevador mais próximo, passando o código gravado na pulseira no leitor, os lasers que me impediam de entrar na plataforma de paredes de metal espelhadas se recolhendo. Qualquer um que não estivesse autorizado não os desativaria somente com o código da pulseira, e não poderia entrar ou sair, já que os lasers eram fatais – tipo, cortavam, igual às espadas Jedi do antigo e agora pouquíssimo conhecido Guerra nas Estrelas.
Toquei o número catorze, um dos três andares onde os alunos e professores comiam. Geralmente só os alunos que tinham entre seis e onze anos comiam nesse andar, já que suas salas de aula ficavam do décimo terceiro andar para baixo. Quem tinha por volta da minha idade costumava comer no andar dezesseis, junto dos professores, o que ajudava em nossa preparação para o que tínhamos decidido fazer da vida. Já os intermediários preferiam o décimo quinto, onde eu podia afirmar que era a maior algazarra, cheio de guerras de comida, briguinhas de casal e alunos em meio a jogos de guerra e outros.
Geralmente, eu comia no andar catorze, importunando Eliana e seus amigos. Eu não me sentia isolado porque muitos irmãos mais velhos super-protetores também tendiam a comer com os irmãos caçulas. Só em alguns poucos dias eu migrava para o andar dezesseis.
Bocejei, me apoiando na parede fria, socando minhas mãos no bolso da calça jeans, uma das mangas arregaçadas até os cotovelos da jaqueta de couro preta escorregando até o meu pulso.
Quando ergui meus olhos para a parede espelhada, franzi de leve as sobrancelhas ao ver meu reflexo. Algo... Algo estava... Diferente. Não errado, diferente.
Aproximei meu rosto da parede, tentando encontrar o que eu achara que estava diferente. E notei. Meus olhos.
Eu sempre tivera os olhos... Diferentes. Não bicolores, mas de tons diferentes. O esquerdo sempre foi castanho-escuro, algo como chocolate amargo. O direito, por outro lado, sempre teve o tom mais claro, quase como cor de mel. A diferença nunca foi gritante, e tanto minha irmã caçula como minha ex-namorada sempre disseram que essa diferença de tom era meu maior charme, mais ainda do que os duplos caninos na arcada dentária inferior e superior quando eu sorria ou o cabelo preto com fios e mechas brancos – algo como “velhice precoce”, visto que eles apareceram quando tinha mais ou menos doze anos – farto e ondulado numa bagunça generalizada que apontava para todos os lados, visto que eu não tinha paciência nem pra arrumá-lo de manhã, nem pra cortá-lo frequentemente. Sinceramente, eu só visitava o cabeleireiro quando os fios começavam a atrapalhar a minha visão.
Meu olho direito estava mais claro que o normal. A diferença de cores estava mais gritante do que nunca. Tipo... O tom de mel era quase amarelo mesmo, uma espécie de dourado.
Pulei de susto quando a voz da Inteligência Virtual do colégio me avisou que tínhamos chegado ao andar. Eu não percebi que estava tão concentrado assim na nova cor estranha do meu olho.
Suspirei, olhando para a algazarra de crianças rindo e brincando do outro lado. Antes de sair, olhei mais uma vez para a parede espelhada, conferindo meu olho direito. Ele tinha voltado ao eterno tom de mel.
Talvez fosse efeito da luz...

Encontrei minha irmãzinha jogando um jogo de simulação de guerras – o antigo e famigerado WAR evoluído numa mistura de RPG e batalha naval, tornado muito popular com as conexões das interfaces espectrais das pulseiras, que produziam espectros de espaçonaves, submarinos e soldados nos campos de “batalha” que ficavam na lateral do andar, ao lado da janela de vidro fumê com circuitos esverdeados percorrendo-o. Admito que sou um viciado nesse jogo, o original e suas muitas variações: era tão divertido coordenar meus exércitos espectrais para atacar o inimigo, e assistir as explosões... E os soldados da classe “assassino”, que se moviam rapidamente pelo campo e matavam os soldados inimigos silenciosamente... Eu amava esse jogo!
- Mano!!!! – ela me acenou com o pulso cheio de pulseiras, pulando em seu lugar com os tênis pretos, a boina branca quase voando de seu cabelo ondulado e preto. Não saiu do lugar por estar no meio de uma partida, a mesa com um fast-food vegetariano – carne era algo relativamente caro, por causa da menor quantidade de gado e cia para tal, havendo maior produção de frutas, legumes e verduras – do seu lado, um tanto intocado. Balancei a cabeça com a visão.
Coloquei minha bandeja do lado da dela, puxando uma cadeira, sentando e puxando Eliana para sentar no meu colo.
- Mamãe vai ficar irritada de souber que você não comeu de novo pra ficar jogando... – repreendi, jogando uma batata-frita com ketchup na boca, vendo minha irmã digitar os comandos para seu exército no espectro de teclado gerado pela pulseira, representado em tons de vermelho, enquanto o adversário, um garoto uns dois anos mais velhos que ela, usava tons de azul.
E apesar de repreender minha irmã, eu não podia falar muito: EU costumava fazer o mesmo uns anos atrás... Hmmm... Acho que já sei o motivo de ela ficar doente tão frequentemente...
- Ah, Madeu... – Essa foi a primeira palavra de Eliana. Ela não conseguia falar “Amadeus”, e acabou ficando “Madeu” até hoje. Girei os olhos com seu olhar e tom pidão.
- Ah, tá legal, Eli, sua peste... – eu não resistia ao seu olhar pidão, aqueles olhos castanho-chocolate que eram pura inocência. E a peste sabia disso e se aproveitava de minha incapacidade de dizer não para ela.
Ser irmão mais velho cansa...

Pode-se dizer que me joguei na cadeira ao lado da janela, onde costumava ficar durante a aula de Cultura das Raças, observando a cidade de metal, vidro fosco e circuitos coloridos e brilhantes do outro lado do vidro fumê.
Os prédios subiam a alturas de quarenta ou mais andares em sua maioria, todo o vidro e metal exterior de suas construções feito para captar a luz do sol e transformá-la em energia – isso era algo que já tinha começado a ser feito antes da queda... Mas a previsão não era todos os prédios desse jeito. A região norte, onde eu estava, possuía o prédio da escola municipal, da universidade – com uns bons cento e cinquenta andares, com o dobro do perímetro da escola –, de empresas diversas, o hospital – muito semelhante à universidade – e da sede do Governo, um conjunto estranho de quatro prédios que formavam uma escada. Mais ao leste, chegando no litoral, os prédios residenciais, de reciclagem, tratamento de esgoto, porto e aeroporto, não muito diferentes daqueles onde estou. Ao sul, as plantações. E à oeste, o tanto de gado que podemos criar. A cidade pode até parecer maior do que no século XXI, mas só parece: boa parte dela foi destruída, e boa parte das ruínas não estão aí para serem vistas por terem sido retiradas para que os alimentos pudessem serem produzidos. E as lojas e demais comércios ficavam em todos os prédios, espalhadas em certas alturas.
Ruas espectrais se entrecruzavam por entre os prédios a alturas diversas, entrando e saindo de algumas construções, ou simplesmente ligadas a elas, o chão lá embaixo sendo um imenso jardim. Nas ruas mais baixas, pedestres caminhavam normalmente, enquanto outros usavam os patins ou os skates movimentados por turbinas e com anuladores de gravidades. Patins eram maiorias. Nas medianas, carros e motos movimentados à água e energia solar passavam rapidamente. E no alto, ao invés de ruas, linhas espectrais que guiavam os transportes públicos, quase como os bondes sobre os quais li que passavam na cidade durante o século XX.
Era o mesmo cenário de sempre.
Ouvi o zumbido da porta se abrindo, e instintivamente olhei. Era o professor, com um sorrisinho sádico.
A interface espectral da pulseira dele apareceu, ele digitou algo, e logo nossas pulseiras estavam com o acesso às mesas negado.
Inferno.
Prova surpresa.

Li pela décima – ou vigésima? – vez a questão.

11. Por que Lobisomens são enviados para bases militares após sua primeira transformação?

Estava infernal me concentrar desde que uma dor de cabeça dos infernos tinha começado quando eu respondia a segunda questão.
A questão não era muito difícil. Três ou quatro linhas de resposta. Eu sabia o que escrever.
Mas a dor era tanta que eu mal conseguia segurar a caneta. Prendi-a no suporte, levando as mãos ao meu cabelo e apertando a cabeça.
Senti a mão do professor em meu ombro, e passou como um raio em meu cérebro a ideia de atacá-lo.
- Está se sentindo bem, Amadeus? – o professor perguntou, e percebi que ele estava sério. Estava tão a vista assim que eu não estava bem? – Você está pálido...
- Não, professor, não estou bem... – resmunguei, sentindo a dor de cabeça aumentar minuto à minuto.
- Talvez seja desidratação... – ele murmurou, e então continuou. – Vá beber uma água, lavar o rosto... Se não melhorar, vá pra enfermaria.
Balancei a cabeça afirmativamente, respirei fundo e levantei. Senti o mundo girar, mas teimosamente me mantive ereto enquanto andava até a saída da sala.
Só quando estava no corredor, longe das vistas de todos, que parei de tentar parecer forte. Me apoiei na parede, usando-a como guia para encontrar o banheiro, visto que minha vista estava embaçada. Eu não enxergava direito um palmo à frente do nariz. Sorte que a sala era próxima do meu objetivo.
Um zumbido indicou que a porta tinha se aberto.
Ergui a cabeça, observando o local vazio. Cambaleei para as pias, apoiando os cotovelos no metal frio.
- Água gelada, por favor. – pronunciei com a voz fraca, e a inteligência virtual do colégio liberou a água. Sem cerimônia, enfiei a cabeça embaixo da água, um choque percorrendo-me por causa da temperatura. Foi... Um alívio.
Senti a água molhar minha camiseta e a minha jaqueta, mas não me importei. A dor ainda estava ali, mas menor.
Depois de cinco minutos, a inteligência virtual automaticamente desligou a água, medida de economia automática, e gemi quando isso aconteceu: não havia mais nada aliviando a dor de cabeça.
Ergui meu rosto, encarando-me no espelho: eu estava realmente pálido, o meu cabelo e barba de dois dias escuros só destacando isso. Mas o que me chamou a atenção foi meu olho direito: estava dourado, ainda mais do que quando eu vira mais cedo.
- Heee, Amadeus! Resolveu tomar banho na pia, cara?! – olhei na direção da voz que soara, tendo a impressão de que tinha sido mais alta do que de costume. Reconheci Fábio, com quem eu tinha a aula de História da Queda. Percebi seu rosto passar de descontraído e piadista para assombrado. – Cara, você não parece nada bem... Quer que eu peça pra enfermeira enviar uma maca pra te levar pra enfermaria?
- Não, Fábio, não...
Um choque percorreu meu corpo, como quando estralamos vários ossos de uma vez. Minha coluna, o ponto principal do choque, obrigou-me a me encurvar. Num instante, senti como se vários de meus ossos estivessem se quebrando e colando, forçando os músculos, a pele e os órgãos para novos locais, enquanto outros choques me percorriam em seqüência, antes de cada osso tomar uma nova forma.
Ergui minha mão a frente de meu rosto com certo esforço, vendo garras começarem a surgir, junto de pelos grossos e negros com outros mais grisalhos nas costas, e até mesmo se recurvando à formatos mais... Animalescos. Senti meus músculos das costas me encurvarem mais ainda, como se estivessem dobrando de tamanho em pouco tempo e meus ossos não estivessem preparados para isso.
Olhei para Fábio, paralisado no lugar, o rosto expressando o mais puro terror. As cores estavam mais vívidas do que nunca, e eu praticamente sentia o cheiro do medo e via o sangue correndo mais rápido nas veias e artérias do meu colega.
- Corre. – consegui articular, vendo-o sumir pela porta, minha consciência e auto-controle lentamente escorregando para fora de mim, enquanto mais dor e choques me invadiam.
E de repente gritei quando meus ossos me forçaram a inclinar-me mais ainda, andando semi-ereto quase como um macaco – um gorila, especificamente.
Doía. Você nem imagina como doía.
O grito se transformou em uivo, e antes de perder completamente a noção de quem ou o que eu era, ouvi uma sirene, e pensei “Garoto esperto”.
Foi aí que a fera tomou total controle do meu corpo.

Só tenho fragmentos dessa transformação.
Eu, transformado, correndo pelo colégio, descendo pelo túnel do elevador, abrindo rombos no metal.
Não lembro se machuquei alguém. Espero que não.
Mas lembro claramente dos olhos cor de chocolate amargo de Eliana me olhando, a fera reconhecendo o próprio cheiro nela e retrocedendo. Os olhos puros de minha irmãzinha dizendo que tudo ia ficar bem.
Pode até parecer estranho, mas conosco, é ela quem costuma cuidar de mim, e não o contrário – ela me disse que não gostava da minha ex, e depois de um mês de namoro, percebi porque: a garota era uma mentirosa de marca maior e tinha saído com uns vinte caras enquanto namorávamos.
Mas para todos os efeitos, eu nunca disse isso: tenho de parecer ser o responsável.