20 janeiro 2013

Arely A Mensageira - Capítulo 7: Desaparecer


Antes de seguir para o próprio quarto, Ruby parou na cozinha, onde sua mãe e sua tia lavavam a louça do jantar.

— Noite, mãe; noite, tia. – Aldina virou-se para ela, sorrindo de leve e enxugando as mãos no avental.

— Noite, filha. – beijou a testa de Ruby, e então passou a olhá-la de forma atenta e séria. – Ruby, você sabe que não devia se aproximar tanto da humana. Vão achar que está tentando influenciar as decisões dela, e por consequência vão culpar o nosso clã, que devia limitar-se a protegê-la. – Ruby girou os olhos. Devia imaginar que sua mãe diria algo assim. E Allan também diria, seu pai e todo o clã.

— Acredite, mãe, se eu não estivesse com ela, você já estariam vigiando um cadáver. – Aldina abriu a boca para falar, mas a garota ruiva não esperou nenhuma resposta, saindo da cozinha e seguindo para seu quarto.

Assim que abriu a porta, sentiu um imenso sorriso desenhar-se em seus lábios ao encontrar o irmão, deitado em sua cama e folheando um livro. Deixou a mochila e a blusa no canto, antes de se aconchegar ao lado de Allan, cujo cabelo estava molhado, caindo em pequenos e rebeldes cachos, nada do cabelo espetado por gel que ele costumava usar.

— O que está lendo? – Allan passou o braço por seus ombros, fechando o livro. Ruby fez uma carranca ao ver a capa de "Crepúsculo". – Você sabe que isso é lixo. Tenho certeza de que desde que esse livro saiu, os Sanguessugas estão se alimentando melhor do que na Idade Média... – Allan riu de leve, concordando.

— Além disso, a escritora não tem ideia de que tudo que eles querem é o fim dessa Terra como a conhecemos, e que nós, Drachens e alguns outros, somos os únicos em seu caminho... – ele murmurou, jogando o livro para debaixo da cama da irmã.

— Se algum Vampiro aparecer debaixo da minha cama por causa desse livro, eu acabo com você. – a Lycan replicou, franzindo a sobrancelha com as palavras de Allan. – O que você quer dizer com isso? – ergueu o rosto para poder observar o irmão, vendo seus olhos brilharem azuis por um instante. Seu rosto ficou ainda mais sério. Allan não demonstrava estar perto de se transformar tão facilmente. Tinha um autocontrole dos infernos nessa questão. – Allan...

Por fim, o rapaz respirou profundamente, parecendo em conflito consigo mesmo se devia ou não falar.

— Olha, mana... O que eu vou contar, você não devia saber, porque não vai ser a próxima Beta... Papa tinha me deixado bem claro pra não te contar, mas eu não suporto não contar algo pra você... Afinal, você é a minha voz da razão às vezes; mas, por favor... Não deixe ninguém saber que te contei o que vou contar. – Ruby mordeu o lábio inferior enquanto observava a expressão séria nos olhos verde-musgo do irmão mais velho. Semicerrou os olhos cinzentos, prevendo que a conversa que queria ter com ele teria que esperar.

— Pode começar. – suspirou, balançando a cabeça uma vez antes de voltar a se aconchegar no abraço de Allan, preferindo não olhar para seu rosto enquanto ele dissesse o que tinha de falar.

O Lycan sugou o ar profundamente antes de começar, lembrando de todas as vezes que vira os olhos da irmã faiscarem dourados. Devia ter falado para Alexei. Sabia que devia. O pai saberia como lidar com aquilo. Mas queria que fosse ele a falar aquilo que mudaria para sempre a vida da irmã. Porque sabia que a vida dela já tinha mudado demais quando um médium declarou que ela jamais poderia ser a próxima Beta, como devia ter sido.

— Houve um tempo em que Bruxos existiam apenas nos sonhos dos homens, e Vampiros, Lycans e Drachens lutavam lado a lado em um lugar chamado de Catedral. Esse lugar é uma dimensão à parte, mas não uma dimensão qualquer. É nela que todas as dimensões se encontram. É o ponto de Início e Fim de tudo, cada um de seus lugares destinado aos habitantes de uma determinada dimensão; ninguém sabe realmente o seu tamanho, quantas dimensões existem, quantas formas de vida... Alguns acreditam que lá é o lugar chamado outrora de Jardim do Éden... Lá, todos lutavam contra os Demônios que queriam abrir as Portas do Inferno para libertar seu senhor, para que ele pudesse destruir essa dimensão. Acreditamos que existam Portas em cada dimensão levando ao Inferno, e que cada uma é protegida por habitantes dessa dimensão, também escolhidos pela Catedral... Talvez algumas já tenham sido destruídas, talvez outras lutem ainda mais frequentemente que nós. Mas não havia apenas os soldados normais, que nós chamamos de Adeptos. Haviam os Velhos Líderes e Guerreiros. E os Observadores, nascidos entre Lycans, Drachens e Vampiros, que deviam encontrar esses Velhos Líderes e Guerreiros, nascidos entre os humanos aqui na Terra.

Ruby sentiu uma fisgada com o termo. Observador.  O Lycan que a ajudara na segunda-feira dissera que era um, e tinha dito que ela também era.

— Observadores são diferentes dos demais, pois são ligados à Catedral. Ela amplia seus poderes naturais. E então, um dia, os Velhos Líderes chamados de Mensageiros, também conhecidos como Profetas, Oráculos, entre outros, cuja parte do espírito vem de um dos Anjos do Criador... Se corromperam de forma diferente da usual. Não mataram, o pedaço de espírito de Anjo partindo de volta para sua origem... Foram mordidos por Vampiros. Lembre, irmã, eles deviam protegê-los, não deixar que eles matassem para que não perdessem sua ligação com o Divino, vinda do pedaço não-humano de seu espírito. E era o que faziam. E os Mensageiros os curavam com seus dons, como sempre fizeram.

Ruby prendeu a respiração por um instante. Cura. Um dos dons dos Mensageiros. Também proporcionaria uma cicatrização rápida para os próprios ferimentos? Provavelmente sim, por causa do pedaço celestial de seus espíritos. Mas o que realmente a surpreendeu foi saber que um dia os Vampiros fizeram parte do grupo dos mocinhos.

— Mas houve um Mensageiro, chamado Sabri, uma criança de doze anos, que já estava cansado, seus dons esgotados pelo dia curando Adeptos, e então, ele achou que seria uma boa ideia dar o próprio sangue para salvar aquele que tanto o protegera, um Vampiro Observador. Assim nasceu o primeiro Bruxo, e assim os Vampiros passaram a lutar junto com os Demônios. Algo no sangue do Mensageiro enlouqueceu o Vampiro, chamado Savino, e de alguma forma, se espalhou como uma praga para os outros. E algo no veneno dos Vampiros impediu que os dois espíritos unidos se separassem, corrompendo os poderes celestiais que o pedaço de espírito do Anjo proporcionava; ou seja, ao invés de pedaço de espírito de Anjo, o Mensageiro agora tinha um pedaço de espírito de Demônio. Os Lycans ficaram irados com o acontecido, principalmente quando os Vampiros e o Bruxo capturaram o Guardião, o único com o poder de fechar e abrir as Portas do Inferno ligadas à essa dimensão, e o obrigaram a abrir essas mesmas portas. A Terra teria acabado naquele instante, se não fossem as Ômegas, as maiores líderes Lycans que existem, grande parte nascidas entre os humanos, a liderar todos os Lycans e Drachens num ataque quase desesperado, afastando todos os Vampiros e Demônios e entretendo o Bruxo. E foram os Cavaleiros Cegos, aqueles que carregam a Justiça em cada átomo de seu corpo, montados em seus Wyverns e guiados pelas auras, que empurraram tudo aquilo que tentava sair do Inferno de volta para ele, para que o Guardião pudesse fechar as Portas. Mas antes disso, Sabri conseguiu arrastar o irmão mais velho, Jabez, também um Mensageiro, para junto dele. Essas coisas aconteceram cerca de três mil e quinhentos anos atrás, de acordo com os manuscritos que os Observadores nos permitiram ler. Eles não nos contaram muita coisa, e acho que existe muito mais por trás dessa história. Mas, sou um simples Alfa, futuro Adepto se a ocasião exigir. Apenas Observadores e os próprios Líderes e Guerreiros podem saber tudo. Sequer temos certeza de como mais Bruxos surgiram. – Allan parou, olhando para a janela aberta para a noite.

Ruby engoliu em seco. O cenário desenhado era claro. Guerra. Não era simples ódio o que existia entre Lycans e Drachens para com Vampiros e Bruxos. Era uma Guerra antiga, em que Demônios também estavam metidos.

— E por que eu não deveria saber dessas coisas? Eu provavelmente tenho o papel de Adepta nisso tudo... Afinal, é óbvio que essa Guerra pra libertar quem quer que seja do Inferno não terminou. – sua boca torceu-se em desgosto, enquanto Allan dava um riso sem humor.

— Não é óbvio que é o primeiro Anjo Caído que eles querem libertar, Ruby? – A Lycan fez uma careta como se tivesse acabado de chupar limão. Ela imaginava, mas falar aquilo em voz alta a fez se encolher. Não gostava de pensar naquela possibilidade. – E você não devia saber porque faz muito tempo que os Velhos Líderes e Guerreiros não nascem, e sem eles, Drachens e Lycans perderam a esperança. Os líderes dos Lycans e dos Drachens decidiram que somente os Alfas e Betas de cada clã deveriam saber isso, apenas por garantia... Os demais saberiam apenas se houvesse mais uma batalha. E pappa disse que faz quarenta anos que a Catedral não escolhe novos Observadores.

Ruby livrou-se do braço do irmão, sentando-se na cama de pernas cruzadas, de costas para Allan. O rosto da Lycan estava sério. Ela tinha de falar com o irmão. Tinha de falar sobre o que o Lycan estranho dissera, sobre ela ser uma Observadora. Falar sobre os ferimentos de Arely. Sobre a prima da garota. Tudo.

E foi o que ela fez.


Arely xingou o mundo quando acordou. Fazia tempo que não dormia tão tranquilamente – e tido um sonho tão agradável – e não gostou de ser arrancada de seu sono pelo barulho de briga de gato.

— Que droga, Tigrinho... Deixa os gatos da dona Bordô em paz... – murmurou, descendo a escada e acendendo a luz da garagem, de onde agora também vinham os latidos de Kyara. Amaldiçoou o dia que decidiu que seu quarto seria o da frente. Nunca teria acordado com os gatos brigando.

Enquanto destrancava a porta, pensava consigo porque escolhera aquele quarto.

Para ver a lua nas noites de lua cheia, ver o nascer do sol e ouvir melhor os passarinhos de manhã, murmurou sua consciência em resposta à pergunta feita.

Abriu a porta de madeira, esfregando um olho, e sentiu uma pontada de medo quando viu que o gato com quem Tigrinho brigava não era um dos gatos da dona Bordô. Os gatos da vizinha eram pequenos e peludos persas, mas aquele...

Era um gato grande, o dobro do tamanho de Tigrinho, no mínimo, preto, mas Arely conseguia definir manchas no pelo curto como se fosse uma pantera, magro de forma quase doentia, em que ela via os ossos do bichano contra a pele. E os olhos, eram de um azul claro com um brilho estranho. Quase humano.

Engoliu em seco, vislumbrando o pelo amarelado de Tigrinho com manchas de vermelho – sangue. Seu gato estava ferido.

Kyara, presa em seu cercado durante a noite, latia desesperadamente, e a garota tinha a sensação de que ela queria se soltar e atacar o gato intruso.

Endurecendo a expressão de seu rosto e engolindo o medo, Arely deu passos firmes na direção dos dois gatos, arrancando o próprio da briga e aninhando-o. Tigrinho fincou as garras em sua camisola, tremendo de medo. Tufos de pelo amarelo estavam espalhados pela garagem.

O gato estranho arqueou as costas e mostrou os dentes para a paulistana, arisco. Arely aproximou mais o rosto e fez uma expressão quase tão felina, imitando o som que o outro gato fizera, os olhos cheios de raiva. Amava animais, mas detestava qualquer um que fizesse mal aos seus. Além disso, havia algo naquele que ela não gostara. Não sabia se era o cheiro ou a “aura” do animal, mas aquele bicho apenas lhe despertava uma sensação de “errado”.

O gato preto encolheu-se um pouco, ainda fazendo aquele som estranho, mas logo pulou em cima do carro próximo ao muro, e logo estava do lado de fora, correndo com o rabo entre as pernas.

Arely franziu as sobrancelhas, acariciando a cabeça de Tigrinho, procurando acalmá-lo. Kyara agora apenas rosnava de leve, satisfeita que o intruso fora expulso por sua mestra. A garota suspirou, entrando, fechando a porta e apagando a luz da garagem, torcendo para que Tigrinho ficasse quieto enquanto ela limpava os machucados.

— Você é muito corajoso, garoto... Muito mesmo. – murmurou contra o ouvido do gato, que esfregava-se contra sua bochecha, bem mais calmo, arrancando um riso leve da humana.


Do lado de fora, o gato preto correu pela rua como se sua vida dependesse disso.

De fato, dependia. Se os Lycans sentissem seu cheio, podia considerar-se perdido, estando num corpo emprestado – seu segredo mais bem guardado, em relação à sua vulnerabilidade quando possuía outros corpos e abandonava o próprio. Por isso, quando chegou à avenida, ao território neutro, mais especificamente, sob o toldo de uma bicicletaria, onde seu irmão mais novo o esperava com seu corpo, soltou um suspiro aliviado.

Sabri observou impassível enquanto o gato corcoveava, parecendo sentir dor, e então seu olhar desviou-se para o corpo desacordado de Jabez no chão, no exato instante que o gato preto caiu duro no chão.

Jabez piscou os olhos azuis, levando uma mão à testa e massageando-a de leve enquanto se sentava.

— E então? – o mais novo perguntou, enquanto empurrava o corpo do gato para uma sacola, fazendo uma careta de nojo.

— A garota acordou durante a briga. Ainda bem que segui o seu conselho e passei veneno nas unhas do gato. Esse Guardião Espiritual dela não passa de domingo. – deu um sorriso como se tivesse acabado de ganhar um doce.

Sabri torceu a boca.

— E a cachorra?

Os olhos de Jabez ficaram tristes por um instante, mas brilharam com inteligência enquanto se levantava.

— Viva. Mas foi até melhor não matar os dois de uma vez. Não levanta tantas suspeitas. – Começou a andar pela avenida ao lado do outro Bruxo, um carro passando vez ou outra. Sabri voltou a torcer a boca.

— Sandman e principalmente Louis não vão gostar. Aquele velho tá louco pra sugar outra alma diretamente de um corpo, e o Louis tá mais louco ainda pra conseguir arrastar essa Mensageira pro nosso lado. E não vou mentir: mal espero a minha vez chegar.

Jabez riu de modo deliciado.

— Sua vez logo vai chegar, maninho. E Sandman vai ter uma alma pra sustentá-lo por mais alguns meses...

Puxou o mais novo pelos ombros, e então, ambos sumiram em meio à noite, como se jamais tivessem estado ali. E se alguém tivesse visto-os sumir, teria achado que estava louco.


Adrien deixou-se dormir apenas mais um pouco depois que Arely acordou. Dormiu apenas até quando amanheceu.

E quando o sol surgiu no céu, o Lycan levantou-se, verificando se havia alguma mensagem em algum dos celulares, para então realizar os aquecimentos que seu mestre Observador lhe ensinara quando o levara para a Catedral. Antes de sair de um local “seguro”, sempre realize-os, pode salvar a você ou a quem estiver protegendo. Adrien guardara bem a lição.

Só então, devidamente vestido, saiu da pousada.

Agora que os poderes de Arely estavam despertando, precisava obrigar os Alfas e Betas a lhe darem permissão para se aproximar.

E ele obrigaria.

Ah, obrigaria...

Aqueles Lycans não o conheciam quando irritado por causa de sua missão. Não mesmo. Eles não tinham tido o azar ainda.


Ruby e Allan caminhavam pela rua tranquilamente, sem trocas de palavras. A conversa da noite anterior ainda estava fresca na cabeça de ambos, e cada qual tirava suas conclusões e considerava as opções dadas.

Depois de tudo que contara ao irmão, sobre o Observador que falara com ela – e que Ruby descobrira chamar-se Adrien, e mais algumas coisas obscuras relacionadas à ele e à Louis que fizeram-na temer pela amiga humana –, Allan ficara um tempo quieto, antes de falar o motivo que levara Alexei a escolher o primo Matheus como Beta. Uma médium pedindo abrigo dissera que Ruby seria escolhida pela Catedral, cedo ou tarde. Ele também dissera que percebera que ela já tinha sido escolhida, por causa dos momentos que seus olhos brilhavam amarelados, mas que não contara ao pai – antes queria falar com ela. Ambos chegaram à conclusão de que deveriam tentar entrar em contato com Adrien para que Ruby aprendesse a lidar com ser uma Observadora e, principalmente, a como não ser arrastada pelas ondas do plano espiritual.

Já Allan, lembrava de tudo que aprendera sobre os velhos Líderes e Guerreiros, tentando identificar em qual Arely encaixava – com certeza era isso que levara tanto Adrien como Louis a se interessarem por ela. Estava alerta por causa do que a irmã caçula dissera, e tinha decidido que naquele dia mesmo iria reforçar a guarda ao redor da garota. Tinha de haver um motivo para Louis se interessar nela. Agora que sabia que aquele Vampiro que andava zanzando pelo bairro na semana anterior era ninguém menos que o irmão gêmeo de Adrien, de quando eram humanos, agradeceu fervorosamente a Deus que não houvesse nenhum de seus conhecidos companheiros Bruxos por perto – ele sabia que um bando de filhotes que nunca lutara contra Bruxos não teriam chances contra Bruxos de mais de três mil anos. Principalmente se um deles fosse o primeiro Bruxo.

E então, começou a preocupar-se. Se Louis realmente queria tentar alcançar Arely, provavelmente chamaria os tais Bruxos. Se ele o fizesse... Deus. Ele tinha de avisar seu pai. Tinham de avisar os outros clãs. Ele, seus primos e tios não conseguiriam defender sozinhos a humana se aqueles três aparecessem e usassem todo o seu poder para consegui-la, principalmente se eles se utilizassem do plano espiritual. Estudara todas as Batalhas das quais haviam registros em seu clã – e que os Observadores permitiram que fossem mantidos registros. Sabri sozinho matara pelo menos cinco Drachens em suas formas reais em cada batalha – a quantidade de Lycans que o Bruxo matara não tinha podido ser sequer estimada. Sandman devorara incontáveis almas de Adeptos. E nem eram mencionados a quantidade de Drachens e Lycans que Jabez matara possuindo Adeptos e animais. E também não podia negar: iam precisar da ajuda de Adrien. O Lycan já lidara com eles. Saberia como driblá-los.

— Allan! Ruby! – viraram ao ouvir a voz do primo, Matheus. O Lycan aproximou-se correndo, parecendo completamente normal ao parar – nada de ofegar ou coisa do tipo. – Ainda bem que encontrei vocês. A Bia... Ela tava indo com o Davi no centro, pra pegar o suprimento mensal de antídoto, já que a lua cheia tá chegando. Eles sentiram cheiro de Bruxo em frente à bicicletaria. – Allan imediatamente olhou para a irmã, lembrando da conversa da noite anterior e de suas recentes suspeitas. Ele tinha a sensação de que seu rosto estava tão sério e apreensivo quanto o dela.

— Vai ver se está tudo bem com a Arely e fique com ela, Ruby. Eu vou verificar isso. – Ruby acenou de leve a cabeça, virando na próxima esquina, desaparecendo da visão de Allan.

O Lycan suspirou, seguindo com Matheus pela rua, em direção à bicicletaria. Durante o caminho, o próximo Beta começou a falar.

— O cheiro... Ele... Bate com as amostras de Sabri e Jabez que os Observadores espalharam entre os clãs... E também tinha cheiro de um gato morto por perto... – quando chegaram ao local, encontrando com mais alguns Lycans do clã, agradeceram por ser sábado e a loja abrir mais tarde. O cheiro não se confundiria com o da borracha dos pneus, nem da graxa nas correntes ou algo do tipo. – Eu diria que eles passaram por aqui umas quatro horas atrás, mais ou menos...

Allan farejou o lugar, oculto por outros do bando – humanos realmente achariam a cena estranha. Enrugou o nariz, percebendo que o que Matheus dissera era fato. Os cheiros lhe pareciam os de Sabri e Jabez, os primeiros Bruxos.

— Estamos ferrados. Temos de falar com o papa e avisar os outros clãs. Não pode ser coincidência eles estarem tão perto da casa de Arely. E não gostei do cheiro de gato morto. Não pode ser bom sinal. – endireitou a coluna e sinalizou para os outros seguirem-no para a sede do clã. Para sua casa.

No meio do caminho, sentiu o celular vibrar no bolso da jaqueta. Ao tirar, viu-o marcar que a chamada vinha do celular de Ruby. Atendeu sem demora – com certeza acontecera algo que a fizera achar que devia ligar e falar com ele.

— Que aconteceu? – continuou a andar, e reparou Matheus o olhar apreensivamente.

Arely disse que acordou umas quatro da manhã porque ouviu briga de gato. Ela disse que o gato que ela espantou feriu muito o gato dela. Agora, o mais estranho: os ferimentos não deviam ser fatais, mas eles cheiram a veneno. Tigrinho não passa de amanhã, mas ele está sofrendo tanto que estou quase acabando com o sofrimento dele quando Arely não estiver por perto. – a voz de sua irmã parecia ligeiramente triste, e não a culpava. Pela conversa que tinham tido na noite anterior, Arely tinha um enorme carinho pelos dois bichos de estimação, e que Tigrinho, o gato, estava sempre seguindo-a quando ela estava dentro de casa e que até mesmo demonstrara gostar de Ruby – e gatos não gostavam de Lycans, nunca. Respirou fundo antes de falar novamente.

— Realmente... Melhor acabar com o sofrimento dele. Agora, ouve isso: o cheiro dos bruxos bate com o cheiro de Sabri e Jabez. E tem cheiro de gato morto por perto também. – viu o olhar alarmado de Matheus, que percebera que Allan contara tudo à irmã caçula. O próximo Alfa limitou-se a gesticular com a boca “Ruby é um Observadora, o que esperava?”, antes de continuar. – Minha teoria é que o cheiro do gato morto vem do gato que Jabez possuiu. Por alguma razão, passou veneno nas unhas desse gato e então foi até a casa de Arely e atacou o gato dela. Você é quem tem sexto sentido. O que acha? – houve um minuto de silêncio antes que Ruby respondesse.

Acho que tanto o gato como a cachorra são mais do que parecem, e que esse tanto ameaça os planos de Louis. Por isso, tentaram livrar-se deles. Mas Arely acordou, e Jabez só conseguiu se livrar de Tigrinho. – Allan balançou a cabeça em afirmação. O que sua irmã dizia tinha sentido.

— Estou indo falar com o papa sobre essas coisas. Temos de pedir ajuda aos outros clãs. – ouviu uma afirmação por parte de Ruby, antes dela se despedir e desligar.

Allan ainda olhou um pouco para o celular desligado, esperando por um instante que ele lhe desse todas as respostas para as questões que lhe rondavam, antes de apressar o passo em direção à própria casa, dispensando Matheus e os demais com um gesto e um olhar que dizia claramente “Vocês deviam estar protegendo Arely e descobrindo como um gato possuído por um Bruxo conseguiu se aproximar tanto dela debaixo de seus narizes”. Sorriu satisfeito com o olhar de medo que atravessou os demais, antes de seguirem aquela “ordem”.


— Mas... Mas... Eram só alguns cortes! Como... Como... – Arely não conseguiu mais falar, e agora, além das lágrimas que corriam feito um rio pelo rosto vermelho de tanto chorar, também soluçava, enquanto Ruby a abraçava pelos ombros, oferecendo uma xícara com o cheiro suave, quente e adocicado de erva-doce se erguendo. A Lycan não deixou que as lágrimas solidárias pela amiga e pelo gato que fora o primeiro – e provavelmente único – a demonstrar que gostava dela caírem. Senão, quem consolaria Arely, se ela também começasse a chorar?

Alguns minutos atrás, enquanto Arely lavava a louça do pequeno café que elas tinham feito, Ruby fora até o bichano e dera um fim em seu sofrimento com um furo que atingiu seu coração, usando uma de suas garras que surgiam com um simples pensamento. O ferimento era limpo, sem sangue, e ninguém que não soubesse que estava ali, teria visto. Ruby jurava que tinha visto um brilho de alívio e agradecimento iluminar os olhos de Tigrinho no último instante, e isso não a fez se sentir melhor por seu ato, mesmo sabendo que fazia um favor ao felino.

Quando a humana vira o animalzinho morto, começara a chorar e não parara mais. E a Lycan entendia. Apesar do esforço de todos para mostrar uma família tranquila e relativamente feliz, percebera que haviam problemas entre os pais da amiga – na maior parte das vezes, pareciam muito distantes um do outro, mal se olhavam e só falavam para manter o teatro, isso sem falar do cheiro deles. E pelo que vira, nesses momentos que Arely também percebia os problemas em sua família, uma rápida expressão de tristeza perpassando o rosto, o gato se enroscava em suas pernas, pedindo colo e carinho, e o sorriso voltava ao rosto da garota. Querendo ou não admitir, o felino ajudava a humana a atravessar aquilo.

Suspirando, vendo que a garota sequer dava atenção à xícara de chá à sua frente, pousou-a na mesa e abraçou com força a amiga, fazendo-a apoiar a cabeça em seu ombro, alisando o cabelo castanho com os dedos, tentando acalmar Arely.

— Talvez algum tenha sido mais sério do que parecia. Talvez alguma bactéria ou vírus que entrou pelos ferimentos... Talvez você nunca saiba... – “Você não merecia isso, maninha... Não mesmo...”, Ruby permitiu-se pensar, beijando o topo da cabeça da garota que podia ser humana, mas que ela tinha como se fosse uma irmã de sangue.


Allan parou no meio da rua, vendo o Lycan cujo cheiro declarava que era muito velho desencostar do muro alto e se aproximar dele com passos rápidos, uma expressão feroz no rosto moreno de olhos cor de bronze derretido e cabelos loiros com um brilho avermelhado. Sinceramente, aqueles olhos estavam lhe deixando com medo. Seria assim com Ruby, quando ela fizesse seus juramentos à Catedral? Deus, seria a primeira vez que sua irmã conseguiria lhe colocar medo.

— Allan, certo? – Adrien perguntou, parando diante dele. Conseguia ser uns cinco centímetros mais alto que o ruivo, que engoliu em seco ao balançar a cabeça lentamente. – Preciso da sua ajuda.

— Bem, eu pretendia também lhe pedir ajuda. – apesar do medo, conseguiu erguer uma sobrancelha zombadora. Adrien franziu o par de sobrancelhas loiras. – Minha irmã, Ruby, Observadora... Você já a conheceu. Admito que estou surpreso por saber que tenho um tio por parte de mãe que está vivo. – Por um instante, o mais novo não soube dizer o que era mais estranho: a fúria feroz ou o estranho repuxar de lábios que agora lhe era apresentado.

— Então, Ruby falou com você e pelo jeito escolheu abraçar a Catedral de volta. Uma boa notícia, pelo menos... – fechou os olhos, balançou a cabeça, abriu-os de novo e sinalizou para Allan que iriam andar um pouco. O próximo Alfa dos Carvalho decidiu que era melhor fazê-lo. – Arely vai precisar de um Observador por perto, até eu conseguir convencer os clãs a me darem permissão pra me aproximar dela.

— Então ela é qual dos Velhos Líderes e Guerreiros? – o Lycan ergueu uma sobrancelha para o outro. – Qualquer Alfa inteligente chegaria à essa conclusão por saber que você e Louis estão interessados nela. – defendeu-se, antes que o outro pudesse achar que ele também tinha sido escolhido pela Catedral.

— Entendo... – murmurou, passando a mão pela barba rala. – Ela é uma Mensageira. Uma Mensageira cujos poderes já começaram a despertar. Sinceramente, se eu não tivesse interferido em alguns sonhos dela, Louis teria conseguido escravizar o subconsciente dela e então estaríamos todos ferrados.

Allan fez uma careta.

— Só por isso os clãs já deviam ter te dado permissão pra se aproximar dela. – murmurou. Adrien suspirou, balançando a cabeça.

— Eu tentei conseguir isso quando cheguei, mas seu pai negou. E agora que descobri essas coisas, seu pai não quer me ver nem falar comigo. Alexei é o Alfa mais velho da cidade, ele é o único que tem direito a convocar uma reunião de clãs. – a fúria feroz estava de volta. Para Allan, ele parecia prestes a se transformar e sair retalhando tudo. – Por isso preciso da sua ajuda. Preciso que fale com seu pai e convença-o a me ver.

— Com prazer, ainda mais agora que sentimos o cheiro de Jabez e Sabri tão perto da casa dela e Ruby me ligou falando que o gato de Arely estava quase morrendo por envenenamento resultado da briga com outro gato. Aposto que esse gato com quem Tigrinho brigou estava possuído por Jabez.

Adrien parou de repente, e Allan via uma mescla de assombro e temor em seus traços. Quando perguntou o que era, o Lycan explicou-lhe sobre os Guardiões Espirituais, e o quão exposta Arely ficaria à partir do plano espiritual sem eles.

E Allan também ficou com medo pela garota que devia proteger.


Por quase uma semana, Arely voltou a achar que ia enlouquecer. Depois dos pesadelos da semana anterior, teve de enfrentar a morte de Tigrinho e então Kyara definhando: a cachorra pegara alguma doença estranha onde ela simplesmente continuava emagrecendo, não importava o quanto comia, e o remédio pra verme que o veterinário receitara não fizera efeito algum.

 Durante o dia, Ruby ficava com ela, ajudando-a nas tarefas e a cuidar da cachorra – que ela resistiu duramente aos pedidos de misericórdia, mas também sabia que não podia fazer nada: percebera que um espírito atormentado tinha se agarrado ao animal e se alimentava de sua energia, mas fez o que pôde para estender a vida de Kyara. Arely não suportaria perdê-la tão já.

A humana realmente agradecia aos céus pela amizade que tinham desenvolvido, pois duvidava que conseguisse sair sã daquilo tudo sem a presença de Ruby. Além disso, a garota confessou para a Lycan suas desconfianças sobre o que aconteceria com seus pais, e então pareceu que um peso havia saído de suas costas, ainda mais quando a ruiva sorriu e começou a encorajá-la, dizendo que aquilo não aconteceria – e ambas sentiam que aquelas palavras eram verdadeiras.

Principalmente quando chegou a notícia de que, como sábado seria o aniversário de casamento deles – um dia depois do aniversário de Arely –, eles tinham decidido viajar só os dois pra Caldas Novas, onde ficariam desde quinta à noite até domingo; a humana sentiu esperanças de que eles ainda estavam tentando se acertar, e que iam usar aqueles dias pra tal. Ela não ligava que teria de passar o aniversário de quinze anos sem eles. Ainda mais porque Ruby dissera que agora ela tinha “sinal verde” pra arrastá-la pra própria casa, jurando que seria divertido Arely conhecer as primas, primos e o irmão da garota – e saber que provavelmente a reunião dos clãs seria na sexta, ao que tudo indicava, ajudara Ruby à tomar aquela decisão, aprovada por Adrien: não existiria lugar mais seguro do que a casa do Alfa de um clã, acompanhada dos filhos e sobrinhos desse Alfa.

E, enquanto dormia, Adrien aparecia em seus sonhos. Conversavam, ou então ela simplesmente ficava ali, apoiada em seu ombro, segura em seus braços, apenas aproveitando a presença dele que era como um bálsamo para as dores e penúrias do dia. Ela esquecia, por algumas horas, de tudo: da sombra da separação no casamento de seus pais, do definhamento de Kyara, que a acompanhava já fazia dez anos, da sensação de que Louis ainda tentava alcançá-la, mesmo que já não o visse há duas semanas, da culpa pelo que ocorrera com Sílvya. Confiava em Adrien e no juramento que fizera na noite de sexta. Além disso, às vezes, ela pedia conselhos. E quase sempre ele parecia saber exatamente quais conselhos dar.

Uma vez, ela perguntou se o veria pessoalmente de novo. Ele sorrira e apertara o abraço em torno de seus ombros antes de responder que faltava pouco, que ele só precisava resolver alguns últimos assuntos, e logo iriam poder conversar cara a cara. Arely então perguntou que assuntos. E então, ele dissera que tinham relação com a segurança dela – ele precisava ter certeza de que ela estaria segura – e que Ruby e Allan estavam ajudando-o, algo sobre serem primos ou algo do tipo. Aquela informação aqueceu o coração da humana, e então, ela devolveu o abraço pela primeira vez, envolvendo seus braços fofos em torno da cintura do rapaz, sentindo-se encolher mais ainda ao lado dele, e ainda mais segura. Sentiu sua confiança em Ruby aumentar e o carinho que nutria por Allan começara a se tornar mais sólido. Pensou que deveria agradecê-los, mas Adrien fez-lhe prometer que não falaria sobre aquilo com eles – não ainda. Eles não sabiam que ele passava as noites fazendo-lhe companhia nos sonhos.


E por essa mesma semana, Adrien também quase enlouqueceu. Demorara dois dias para Allan convencer Alexei a vê-lo – e o Alfa ainda não acreditava na história de Sabri e Jabez, nem que Louis ainda estava tentando alcançá-la, sequer refletiu sobre a história de “irmã de Alma”, e não considerava que seus poderes estarem despertando representassem um perigo real. Na verdade, o Alfa só aceitou vê-lo quando Ruby intrometeu-se na história, à pedido do irmão, falando que se ele não acreditasse nela, que convivia com Arely todos os dias, então ele poderia saber que ela iria agir como uma Observadora, ignorar todos as ordens e levar a garota para encontrar Adrien, que levaria as duas para a Catedral e ele teria que se explicar sobre a filha rebelde para os outros clãs – seus olhos terem brilhado amarelos no momento com certeza ajudaram-no a decidir.

E então, foram mais dois dias para Adrien e Allan, com alguns conselhos de Ruby, conseguirem convencer Alexei dos perigos que a humana corria e convocar uma reunião de clãs.

E agora o Observador enfrentava a provação de convencer os outros clãs a aceitarem irem para a tal reunião. Cada vez que pensava naquilo, Adrien bufava e só faltava fumaça começar a se espiralar acima de sua cabeça como brasas de uma fogueira apenas esperando a hora certa de se transformar num imenso incêndio. Sim, sua paciência estava por um fio, e apenas Allan dizendo que as coisas estavam evoluindo de forma mais rápida do que o costume não deixaram Adrien explodir e começar a arrastar o Alfa de cada clã para algum lugar onde realizar aquela maldita reunião.

Não conseguir falar com Hayato sobre a garota que desconfiavam ser a Guardiã também não estava contribuindo com seus níveis de paciência.

Mas durante a noite, ele conseguia relaxar, enquanto fazia companhia para Arely nos sonhos dela, mantendo os pesadelos afastados. Não podia negar que a companhia dela ajudava a relaxar – só podia ser por causa do pedaço de espírito de Anjo que devia ficar mais forte durante os sonhos da garota. Podia dizer isso com certeza porque encontrara alguns Anjos na Catedral, que vinham lhe trazer missões e dicas de onde encontrar os Velhos Líderes e Guerreiros, e lembrava bem que costumava ficar meio bobo na presença deles, dependendo de qual Anjo fosse – qualquer Anjo que costumasse ajudar nas guerras do plano espiritual ou algo assim costumava era lhe deixar inquieto e doido para agir. Arely era uma garota de fácil conversa quando suas defesas naturais contra o mundo não estavam presentes – ao contrário de todas as Mensageiras que ele encontrara antes, que tinham a irritante mania de serem caladas com ou sem defesas. Talvez fosse a época em que cada uma nascera e crescera. Fazê-la esquecer, mesmo que apenas um pouco, todas as suas preocupações enquanto conversavam, também ajudavam para que ela relaxasse. Era incrível a quantidade de tensão que ela carregava mesmo enquanto sonhava.

Além disso, tinha de admitir: sentira falta daquela sensação de ter a responsabilidade de proteger alguém. E aquela sensação ficava presente enquanto ele envolvia os ombros da garota num abraço carinhoso e que ele esperava que passasse a sensação de segurança para ela. Aquela sensação fazia com que ele se sentisse o Observador que nascera e fora treinado pra ser.

Embora admitisse que, quando ela lhe pedia conselhos, as palavras costumavam faltar. Mas ainda assim, o que quer que ele dissesse, parecia ajudá-la.


Por fim, quando a quinta feira amanheceu e Arely, já pronta para o colégio, foi ver como Kyara estava, encontrou a cachorra morta. Enxugando as lágrimas, esperou Ruby chegar para irem juntas para o colégio, como tinha feito desde a semana anterior. Durante metade da primeira aula, Biologia, cuja professora sempre atrasava, Sara e Patrícia uniram-se à Lycan para tentarem consolar a garota de cabelos castanhos. E então, quando a professora, que nutria um carinho especial por Arely – não era segredo que a garota praticamente idolatrava estudar a vida e tudo relacionado – uniu-se ao pequeno grupo. No fim, a aula não ocorreu – pelo que todo mundo agradecia à garota – e Ruby conseguiu convencê-la a pelo menos parar de chorar, prometendo que a ajudaria a enterrar Kyara depois da aula, assim como tinha feito com o gato.

— Veja pelo lado bom, Ly. – Patrícia começara, segurando as mãos de Arely por cima da mesa. – Você disse que ela estava sofrendo. Agora, ela não está mais, e está no céu dos cachorros, pulando feliz e alegre e pedindo pra Deus te enviar algum outro bichinho capaz de substituí-la ou então alguém que te faça feliz o mesmo tanto que ela te fez e você a fez, adotando-a, quando você tinha cinco aninhos. – Ninguém conseguiu impedir a si mesmo de rir pelo menos um pouco com o que a garota falara. Arely fora a que mais rira, para depois puxar as mãos da garota e beijar de leve os nós dos dedos de Patrícia, um sorriso ainda brincando nos lábios vermelhos enquanto murmurava um “Obrigada à todas”.

E ela ainda não entendia como conseguia atrair tanto carinho, mas agora ela não tentava mais entender. Apenas aceitava, embora confessasse à si mesma que apenas Ruby de fato conquistara sua confiança.


— Finalmente! – Jabez exclamou, deixando-se cair pra trás no chão forrado com o mesmo edredom que encontrara perdido no closet de Louis.

— A cachorra finalmente morreu? – Sandman e Louis falaram ao mesmo tempo, ambos saindo de seus lugares típicos para irem observar o Bruxo mais atentamente.

— Sim, morreu! Essa Guardiã Espiritual realmente tinha carinho pela garota, não queria se deixar ir por nada... Mas o espírito atormentado que eu coloquei pra sugar a energia dela finalmente teve sucesso. Nada é impossível pra mim quando falamos de qualquer coisa relacionada a possuir ou eliminar animais. – sorria feito uma criança que ganhou o doce favorito, e então bocejou, antes de começar a se enroscar no edredom como tinha feito desde que chegara para poder dormir.

Sabri sorriu suavemente para o rosto sonolento do irmão, dando um beliscão carinhoso na orelha exposta, antes de se jogar no pufe que definitivamente era o seu lugar favorito.

— Bem... Os pais da Mensageira vão viajar hoje à noite e só voltam domingo, como eu influenciei-os para tomarem essa decisão. Ela só vai sair amanhã de manhã para ir ao colégio. Segundo os demônios que coloquei pra vigiar a casa, ela vai sozinha amanhã. A Lycan que costuma acompanhá-la pra todo lado há duas semanas vai arrumar uma pequena festinha pra depois das aulas, por isso Arely vai sozinha para o colégio. Ruby vai confiar em seus companheiros de clã para protegerem-na. Mas, apesar das mudanças que eles fizeram depois que sentiram o meu cheiro e o de Jabez, ainda há falhas e o grupo de humanos que contratamos vai ter sucesso se fizer como as instruções que demos. Então, você entra, Sandman, e elimina a pequena ameaça que é a vó de Arely, assim ninguém atende o telefone quando o colégio ligar para saber da ausência da garota, que quase nunca falta. Seus colegas vão presumir que ela decidiu faltar por ser seu aniversário, e não vão ligar atrás dela. E quando Ruby descobrir que a Mensageira não chegou ao colégio, ela vai imediatamente para a casa dela. Se encontrar Marieta morta, isso vai atrasá-la o suficiente para que eles percam o rastro. – estralou os dedos das mãos. – Só não gosto de não saber o que Adrien está fazendo. Aquele Observador desgraçado conseguiu fazer algo que confundiu os demônios e espíritos... Nenhum conseguiu achá-lo...

Louis balançou a mão.

— Parece que ele ainda está tentando passar pela barreira que os clãs fizeram. – deitou na cama, parecendo desinteressado. Sandman voltou para o seu canto escuro, uma expressão de êxtase no rosto magro e doentio, satisfeito por saber que sua hora finalmente chegara. Sabri balançou os ombros.

— Então, tudo certo. Amanhã, os humanos vão capturá-la. Sábado à noite, vamos buscá-la e eliminamos esses humanos. – a cabeça com cachos negros afundou no pufe. – Não sei vocês, mas eu vou dormir muito até lá.

Louis sorriu de canto. Faltava pouco. Logo, Arely estaria em seu poder.

Não faria mal dormir agora. Quando mais uma rodada da guerra começasse – talvez a última – não teria tanto tempo para vadiar e descansar.


— Amanhã faço quinze anos... – foi a primeira coisa que Arely disse quando apareceu aquela noite. Sorria de leve, uma mescla de ansiedade e tristeza.

Apenas depois que ela se aninhou no lugar de costume, Adrien falou.

— Estranho... A maior parte das debutantes que conheci mal via a hora desse momento chegar. Mas você não parece ansiosa pra isso. É por que seus pais não vão estar com você? – Arely suspirou, fechando os olhos e abraçando-o de volta, deixando que aquele cheiro estranho que parecia acompanhá-lo a invadisse antes de responder.

— É que crescer não é legal... A gente para de ver tudo como uma criança inocente, passa a ter responsabilidades... Meus pais estarem presentes ou não, não faz diferença, porque Ruby já disse que vai arrumar um tipo de festa pra mim. E mesmo assim, eu não ligaria. É só mais uma data na minha vida, onde fico mais velha, como todos os dias. – uma pausa, um suspiro. – Queria era ficar mais nova, e não mais velha. Crianças, dependendo da criação, não possuem preocupação alguma. E eu fui uma dessas.

No fim, sua voz era pouco mais que um murmúrio. Adrien só ouviu porque tinha sua aguçada audição de Lycan, ampliada pela Catedral. E entender o que a garota falara arrancou um suspiro dele. Por que todo Mensageiro, às vezes, parecia sofrer de Complexo de Peter Pan e querer ser criança pra sempre? Talvez por causa do pedaço do espírito de Anjo?

— Bem, veja um lado bom nessa data, Ly. – ainda no começo da semana, a garota dera-lhe permissão para usar aquele apelido que só os mais queridos usavam. – Se Deus quiser, tudo der certo e aquele bando de desesperançados me ouvir, amanhã talvez eu possa aparecer durante a festa que Ruby está aprontando pra você... – sorriu de leve, e Arely vislumbrou esse sorriso quando afastou-se um pouco para poder olhá-lo nos olhos, um sorriso quase de pura felicidade enfeitando os lábios. Adrien ficou um pouco desconcertado com aquele sorriso, pois apesar dos sorrisos e tranquilidade, Arely não demonstrara uma felicidade tão pura desde que começara a encontrá-la nos sonhos.

Na verdade, pelo que Ruby contava à ele todas as noites, antes de vagar para aquele canto que era o refúgio da mente dela, Arely nunca demonstrava muita felicidade. Ergueu a sobrancelha com o pensamento.

— Promete?

— Prometo. – voltou a sorrir de leve, e Arely voltou a abraçá-lo, apoiando a cabeça em seu peito, fechando os olhos e suspirando de modo satisfeito, antes de parecer adormecer – o que seria irônico, visto que ela já estava dormindo.

Adrien apenas deixou um riso escapar por entre os lábios, envolvendo os braços sobre os ombros da garota.


Xingou até a décima geração de quem inventara aquela coisa chamada “colégio” quando seu celular tocou algum metal qualquer, escolhido apenas para a função de acordá-la. Suspirou desanimada, desligando o despertador do celular e jogando as pernas para fora da coberta. Sentiu um choque atravessá-la quando a sola dos pés tocou o chão frio, ajudando-a a acordar e levantar-se, andando na direção do banheiro, os olhos mais fechados que abertos.

Tomou um rápido banho, mais gelado que quente pelo sol apenas estar começando a dar as caras e o aquecedor do chuveiro ser “da pá virada”, como ela dizia, esquentando apenas quando estava afim.

Vestiu a farda, prendendo os cabelos naquele irritante coque. Jogou a mochila nos ombros, levando o fichário pelo chaveiro do zíper, indo para a cozinha após fechar a porta do quarto. Pegou uma maçã, olhando o relógio em cima da porta. Seis e vinte.

Suspirou mais uma vez, prendendo a maçã entre os dentes e saindo de casa, lembrando que, pela primeira vez em duas semanas, iria sozinha para o colégio. Ruby dissera que não ia para poder arrumar sua festa.

Lembrar da garota fez um sorriso surgir em seus lábios enquanto mordia a maçã, andando pela rua. Quando chegou onde costumava virar em direção a avenida, sentiu vontade de virar na próxima rua – não faria diferença, daria na mesma avenida. Apenas uma leve mudança no trajeto.

Chegou afinal na esquina da outra rua com a avenida T-2, onde tinha um pequeno mercado, daqueles mercados de bairro. Ainda estava fechado, mas havia uma perua azul estacionada nas vagas para clientes, com a porta aberta, deixando visível que os bancos traseiros tinham sido retirados, dois homens conversando, rindo e bebendo o que lhe pareceu coca-cola. Piscou os olhos, surpresa. Nunca vira nem a perua nem aqueles homens por ali – ao menos, não quando estava zanzando pelo bairro.

Sentiu como se dedos gélidos envolvessem seu coração. Medo. Não queria passar muito perto da perua – já estava perto demais em sua humilde opinião. Sua única alternativa era atravessar a avenida naquele ponto mesmo, mesmo que não gostasse, por ser um dos mais fáceis de ser atropelada.

Fez por um instante como se algum militar tivesse ordenado “esquerda, volver”, virando para o asfalto.

Mas não pôde nem pensar em colocar o primeiro pé ali, analisando para ver como estava o movimento de carros, sentindo uma mão forte prender seu pulso. Então, algo pontudo picou sua pele, e começou a sentir o corpo entorpecer, a mente ainda à mil. Sentiu-se balançar para trás, e alguém a apoiou, começando a arrastá-la. Tentou debilmente livrar-se de quem quer que fosse, mas seu corpo, embora ainda a obedecesse, parecia fazê-lo lentamente, como se ela estivesse debaixo da água, o que só aumentou seu desespero. E seus lábios... Não queriam abrir-se, como se estivessem colados. Apenas débeis resmungos escapavam. Seus olhos, embora se esforçasse, não conseguiam captar muito do que estava ao redor. Seus ouvidos pareciam, como seus membros, estarem debaixo da água, pois todos os sons alcançavam-nos à muito custo, um tanto distorcidos.

Viu então o teto da perua surgir por cima de sua cabeça, quem quer que fosse lhe puxando para dentro, alguém pegando suas pernas e erguendo-as, facilitando para quem quer que fosse.

— Caramba... Acho que a droga que aquele playboyzinho deu pra gente usar nela não funcionou direito... Ela ainda tá acordada e resistindo! – ouviu uma voz sussurrar, enquanto alguém fechava a porta deslizante da perua, após pousarem-na no chão acarpetado, o som do motor preenchendo seus ouvidos. – Será que é melhor a gente usar mais? Ele deixou claro que ela devia estar completamente apagada... – ainda a mesma voz. Quem, por Deus, poderia ter o mínimo interesse em sequestra-la?

— Liga pro número que ele deu e pergunta, e avisa que já pegamos a garota. – outra voz, vinda da frente, provavelmente do banco do motorista, respondeu, enquanto sentia alguém forçar seus pulsos juntos, cordas ásperas envolvendo-os. Sua resistência e nada significaram a mesma coisa.

— Dane-se. Só avisa que já pegamos a garota. – outra voz falou, sentiu outra picada no pescoço, e por mais que fizesse força em manter os olhos abertos, não conseguiu.

E caiu num sono sem sonhos.


Desceu cuidadosamente as escadas, não querendo tropeçar e quebrar algum osso, algo fácil de acontecer na sua idade.

Já tinha chegado ao nível do chão, quando sentiu seu peito doer, uma pressão absurda esmagando-o. Levou a mão esquerda ao peito, a direita procurando o apoio da parede.

— Pobre senhora... Um ataque do coração? – uma voz falou. Erguendo os olhos, viu, como se uma névoa dificultasse sua visão, um rapaz... Dezoito anos, talvez. Parecia doente, mas os olhos azul-claro iam contra qualquer doença: tão vívidos e cheios de maldade, malícia e mais...

Um sorriso satisfeito abriu-se nos lábios de Sandman, enquanto estendia a mão na direção da velha senhora, avó de Arely. Um espasmo percorreu o corpo de Marieta, enquanto pontos de luz azulada começavam a surgir em sua pele.

Tais pontos azulados começaram a se mexer, inquietos, como se tivessem vida própria, deixando rastros como fiapos de luz. Então, eles alongaram, e num segundo, começaram a reunir-se na mão do Bruxo. Quando o último uniu-se ao grupo, fechou a mão como se fosse uma garra, os pontos de luz oferecendo débil resistência, um ou outro esvoaçando por entre os dedos ou em torno dos pulsos, fachos estanhos e fantasmagóricos sendo deixados para trás, mas logo retornando para junto dos demais.

— Puxa... Levando em conta a neta que tem, imaginei que sua alma oferecesse mais resistência... Que fosse mais forte... – ergueu os olhos maldosos para a senhora. – Parece que me enganei.

Sorriu suavemente, abriu a camisa de botões, expondo a pele doente e levando os pontos de luz em direção ao coração. Sua pele pareceu atraí-los, e logo eles penetravam-na. Vigor e saúde pareciam retornar ao corpo de Sandman, enquanto veias e mais veias se destacavam em sua pele, brilhando em um azul opaco.

E então, quando o último ponto de luz foi engolido, Marieta caiu ao chão, os olhos fitando o teto, imóvel, sem respirar.

O Bruxo riu, sentindo-se saciado e forte com a alma recém-absorvida, antes de atravessar a porta de vidro dos fundos.


Ruby discava furiosamente, talvez pela décima vez, para o celular de Arely, querendo saber se ela já saíra do colégio e, se sim, onde estava, ainda seguindo na direção da casa da garota. Novamente, o celular tocou até cair na caixa de mensagens. Xingando o mundo, resolveu ligar para a casa da garota.

Franziu as sobrancelhas quando tocou e tocou, até também cair na caixa de mensagens.

Olhou para o horário no celular, e já conhecendo a rotina daquela casa, sabia que agora a vó de Arely estaria arrumando o próprio almoço, e atenderia o telefone caso a neta não estivesse em casa.

Sentiu algo apertar em seu peito, parando diante da casa de Arely. A construção nunca lhe parecera tão... Morta. Abriu de novo o celular ligou para Patrícia. Quase imediatamente a garota atendeu.

— Oi, Paty... A Ly foi pro colégio? – ela quase jurou ver as sobrancelhas de Patrícia franzirem do outro lado.

Não, Ru... Ela não foi. Nem liguei pra ela, achando que a Ly tivesse decidido ir pra sua casa logo cedo ou então ficar dormindo até mais tarde... – A Lycan sentiu vontade de vomitar o seu café da manhã junto com os salgadinhos e doces que seriam servidos na pequena festa que provara para saber se estavam do gosto da aniversariante. – Ruby... O que aconteceu? – ela ouviu o medo na voz da garota.

— Eu... Eu não estava com a Ly... E... E... Estou na frente da casa dela, tocando a campainha, mas nem a vó dela apareceu... – respirou fundo, ouvindo Patrícia passar a informação para quem quer que estivesse com ela, pressentindo o ataque de histeria provocado pela preocupação que estavam vindo. – Eu... Vou ver se consigo entrar na casa pra descobrir se houve algo... Liga pro resto da sala e avisa pro povo ficar atento à qualquer sinal dela... Menos pro Louis. Eu... Eu não gosto dele, e a Ly também não. – ouviu as afirmativas fervorosas da garota, e então desligou.

Verificando se não haviam vizinhos enxeridos, pulou o muro, já usando a discagem rápida para o irmão.

Empurrou a porta, no mesmo instante que Allan atendia o próprio celular, a voz sonolenta de ter passado a noite fazendo as rondas ao redor de Arely.

O que aconteceu, Ruby?

— Arely sumiu. – e então, viu o corpo da vó da garota, sem sinal de ferimentos e nem mesmo ataque cardíaco ou algo assim – ao menos, não sinais visíveis. Mas sentia o cheiro de Sandman na sala. – E Marieta está morta, com o cheiro do Sandman na casa! Como nos Nove Infernos conseguiram capturar a Arely e entrar na casa dela debaixo dos nossos narizes, Allan?! – Ruby, sem querer, socou o corrimão de ferro, amassando-o e envergando-o para baixo.

Vou falar com o papa e ligar para o Adrien. Você, vá atrás dos outros e tente descobrir isso depois de ligar para a emergência cuidar do corpo da vó da Arely, inventando uma história convincente sobre você ter a chave. – ouviu a urgência e o comando que ele devia ter na voz caso se tornasse mesmo o próximo Alfa. Já devia estar correndo pela casa, vestindo apenas a bermuda preta que usava para dormir.

Ruby desligou, e antes de ligar para a emergência, chorou de medo e raiva de si mesma.

Falhara com Arely.


Falhara com sua maninha.