10 dezembro 2012

Elysium 1: Fenris Fenrir - Prólogo


            
Senti um dos Vampiros colocar o pé em minhas costas e empurrar-me em direção à terra seca daquele lugar que ainda não se recuperara. O líder deles, uma fêmea esquelética como todos eles eram, as costelas se destacando contra o exoesqueleto colante e preto, com os circuitos vermelho-sangue espalhados por toda a superfície, estava à minha frente, se equilibrando nos patins de turbina; as orelhas de morcego se moviam incessantemente, o cabelo raspado parecendo deixá-las maiores, os olhos vermelhos e semi-cegos cobertos por óculos especiais de calor, mira e movimento fixos em mim, as asas de finas membranas de morcegos recolhidas à suas costas, com fios e barras finas de metal percorrendo-as, formando pequenos canhões nos dedos das asas, semi-abertas, como que preparadas para atacar ao menor sinal de perigo; apesar disso tudo, o monitorador de sinais vitais no antebraço esquerdo mostrando os batimentos lentos e preguiçosos do coração dos Vampiros indicava que não me considerava uma ameaça, o centro de controle de armas e armadura no outro antebraço mostrando que somente os patins estavam ativados.

Amaldiçoei talvez pela centésima vez as coleiras e algemas de prata quem tinham colocado em nós cinco. Sabiam que, mesmo estando em maior número, nunca poderiam nos vencer se nos transformássemos – mesmo que fossemos completos novatos. Para completar, tinham bloqueado os sinais de nossos comunicadores e provocado curto circuito nos centros de controle de armas e armadura. Agora, nossas chances de sobrevivência só dependiam de Curupira.


Inferno, aquilo era só uma maldita missão típica de recém-transformados para verificar como a recuperação da Amazônia estava indo junto de seus protetores naturais, os seres ligados à essa terra. Não existiam as mínimas possibilidades de conflito, sequer com animais – Curupira ia conosco justamente por isso.

A fêmea comandante riu loucamente ao me ver no chão. Não era à toa: eu tinha sido indicado comandante para a missão pelos Lobisomens que estavam comigo. E eu fora forçado primeiro a me ajoelhar, e depois a me jogar no chão para aquela nojenta. Tecnicamente, eu já era, com minha pouca moral destruída.

Dancei meus olhos bicolores, um dourado, o outro castanho – a marca de que sou mestiço com um humano –, pelos meus amigos, que como eu, tinham acordado no máximo dois meses atrás na enfermaria do Fenris Fenrir. Davi, com os olhos dourado-escuro, quase cobre, e o cabelo do mesmo tom, a expressão mais feroz e furiosa de todas, explicado facilmente ao se lembrar de à qual clã ele pertencia. Larissa, com os olhos dourado claro com pedaços de prateado, o cabelo loiro-platinado, a expressão calculista típica de alguém que desde sempre se especializava na tecnologia. Se alguém podia concertar os centros de controle, esse alguém era ela. Guilherme, com os olhos de mestiço como eu, mas ao invés de castanho, verde-outono como os das Ninfas da terra, os cabelos parecendo uma cascata de folhas secas de outono caindo – sua mãe era uma Ninfa. E por último, olhei para Débora, a irmã caçula de Luís, meu melhor amigo, colega de quarto e veterano que cuidava de me manter na linha, com seus olhos dourados tão claros que pareciam dois girassóis, o cabelo parecendo uma coroa de ipês amarelos com seu loiro amarelo e curto. Era a mais nova, tanto em transformação como em idade, e lembrei da minha irmãzinha sete anos mais nova, Eliana, por enquanto completamente humana, sem saber se um dia ela se transformaria e iria para o Fenris Fenrir aprender a se controlar, ou se nunca seria uma Lobisomem e permaneceria em São Paulo, ou pelo menos em alguma outra cidade humana.

Trinquei os dentes. Eu ia sair dali, por ela, minha irmãzinha que eu amava mais que minha própria vida. Mesmo que ela fosse humana por todo sempre, ainda tínhamos o mesmo sangue. Eu ia socar o seu primeiro namorado, dançaria com ela na sua festa de quinze anos, iria à sua formatura na faculdade de Idiomas das Raças, seu sonho desde sempre, roubaria no pôquer do meu futuro cunhado.

Aqueles Vampiros não iam me impedir de poder voltar a abraçar Eliana, nem Débora de voltar a importunar Luís, ou Guilherme de visitar as cidades escondidas das Ninfas ver a mãe e os irmãos, Larissa de continuar aprendendo a pilotar naves, Davi de cumprir seu papel com seu clã.

Nós todos íamos voltar. Era minha missão como líder garantir isso.