11 novembro 2012

Arely A Mensageira - Capítulo 3: Lembrar

O cheiro que lhe rodeava era insuportável. Cheiro de hospital. E a cama dura confirmava suas suspeitas: estava de fato num hospital. O que acontecera? Ela se lembrava apenas de ter comprado um livro, tomar um Café Brigadeiro acompanhada de alguém... Quem mesmo? Ela sabia o nome. Lembrava até que queria perguntar algo para a pessoa... Era homem ou mulher? Arely simplesmente não conseguia se lembrar!

Abriu os olhos devagar. Sua mãe estava sentada na poltrona encostada na parede, dormindo de mau jeito e ressonando levemente. A cortina da janela estava fechada, e sentia uma pontada em seu braço. Olhou e enxergou a agulha que penetrava por uma das veias, um tubo longo e fino ligando-a ao saco de soro. E em ambos os braços havia marcas de tentativas falhas de furá-la atrás de uma veia, grandes e roxas. Era sempre a mesma coisa. Veia profunda e fina. Sempre que precisava tomar alguma medicação desse jeito, parecia que tinha sido espancada.

Sentou devagar, testando os sentidos e o senso de equilíbrio, e então conseguiu enxergar alguém sentado no chão, todo esparramado.

Sentiu um arrepio percorrer sua coluna. Um arrepio de medo. Era Louis.

E, apesar de ter esquecido tantas coisas, ainda se lembrava do sorriso convencido antes de desmaiar por completo. Não gostava dele.

Afinal, o que raios ele fazia ali?!

Teve vontade de levantar da cama e chutá-lo bem nas costelas. Tinha certeza que o que quer que houvesse acontecido com ela, era culpa dele, embora não pudesse prová-lo nem soubesse como ele tinha feito.

Mas abandonou a ideia ao perceber que a escadinha estava bem distante. E não arriscaria saltar daquela cama enquanto não estivesse cem por cento.

Deixou-se cair contra o travesseiro, e tentou forçar sua memória a lembrar quem a acompanhava.

E tinha mais coisa. Algumas lacunas... Pessoas que ela vira. Forçou sua mente a se concentrar nessas lacunas e tentar trazer algo, mas tudo que conseguiu foi desencadear uma onda de dor quase tão forte como a que lhe fizera perder a consciência.

— Como está se sentindo? – alguém sussurrou de um jeito preocupado. Mas viver tanto tempo em meio a hipócritas e aprendendo a ser uma para identificá-los a fez perceber a dissimulação.

Abriu os olhos e observou rapidamente sua mãe, verificando que ainda dormia, e então olhou de novo para Louis, agora sentado na beira da cama, a expressão do rosto mostrando preocupação. Mas Arely não olhou para seu rosto. Olhou para seus olhos.

E ela conseguiu descortinar o falso sentimento expressado e ver a verdade por um instante: ele estava feliz por vê-la daquele jeito, porque conseguira o que quer que quisesse. Então ele desviou o olhar, ciente de que ela vira. De que ela podia ver. De que ela sabia. Mas não podia provar.

— O que faz aqui? – por um instante, a voz dela provocou-lhe calafrios. Lembrara-lhe muito a primeira que encontrara, pouco menos de quinhentos anos atrás. A voz de alguém que sabe detectar mentiras e não as aceita. A voz de alguém que o detestava e não fazia questão de escondê-lo. Mesmo que depois aquela primeira lhe tivesse pedido ajuda por puro ciúme.

— Estava preocupado com você. – ele respondeu, dando à voz e à expressão um tom inocente.

Arely franziu as sobrancelhas. O tom de voz dele declarava que ele estava mentindo porque contradizia a luz em seus olhos.

— Eu não sou idiota, ingênua, cega ou surda, Louis. Não me venha com mentiras e falsidades. Sei quando estou diante de um hipócrita. – sua voz saiu cortante. Louis não sabia se estremecia ou se sorria. O modo como respondera não negara o que ela era. E, ao mesmo tempo que sentia-se orgulhoso por encontrá-la, sentia medo do que ela era capaz somente com palavras. Conhecia as histórias e sabia que muitos tinham enlouquecido e tirado a própria vida somente com algumas palavras daqueles iguais à ela.

Além disso, recordava bem as quatro que conhecera antes dela. E somente com palavras, elas sabiam como deixá-lo calado por um longo período devido ao medo. Provavelmente, não enlouquecera nem se matara por causa de sua força de vontade alta. Era um dos dons que eles possuíam: a habilidade com as palavras que eram capazes de condenar ou salvar no momento certo.

Apertou os lábios, pensando consigo mesmo o que dizer para iludi-la. Mas, para sua sorte, a mãe dela despertou e logo estava ao lado da filha, perguntando como ela estava, o que tinha comido e toda a sorte de perguntas que mães fazem aos filhos quando eles estão doentes.

— Vou deixar você conversar com sua mãe tranquilamente, Ly. – chamou-a como os colegas mais próximos a chamavam, buscando demonstrar uma intimidade inexistente. Maria sorriu para o rapaz que tinha lhe tratado tão bem, dizendo que fosse visitá-la quando quisesse que seria bem vindo. Ele respondeu com outro sorriso, para as duas, vendo a expressão de desagrado da garota, e disse que aguardaria o convite de Arely.

Enquanto a mãe não estava olhando, a garota movimentou os lábios dizendo “Nunca” enquanto passava o indicador rente à garganta, como se a cortasse, e então apontava para ele. Ele jamais colocaria os pés em sua casa. Não com ela o convidando. Já bastava os hipócritas que seus pais convidavam. Ela não levaria mais um para o lugar que se permitia chamar de “lar”.

Sorriu para a mãe e a tranquilizou com palavras suaves. A risada que Louis deu ao apontar para ele após “cortar” a própria garganta ecoava em sua cabeça como um mau presságio.

E, quando seu pai foi buscá-las quando lhe deram alta, já tinha chegado a conclusão de que tinham mexido em sua cabeça. Pois tinha certeza de que faltava algo. Alguém.

Ela vira alguém na livraria e no Café. Mas quem?


Louis entrou no Camaro vermelho que o esperava fora do hospital, batendo a porta com certo ar de impaciência.

— Para casa, Gustavo. Meu pai deve estar me esperando. – ignorou o cinto de segurança e esticou as pernas compridas no banco traseiro, tirando um livro de Física Quântica da mochila caída no chão do carro.

— Como quiser, senhor. – o motorista começou a dirigir o belo carro pelas ruas de Goiânia.


A casa era um sobrado, todo branco, com espaço e com folga para dois carros embaixo da varanda do quarto da frente, não aparentando ser tão grande olhando-se frontalmente, mas a verdade é que a casa se estendia para os fundos. A porta de madeira nobre era larga, e a parede ao lado da varanda era praticamente só vidro. Era uma bela e grande casa.

Louis adentrou a espaçosa sala de estar e seguiu tranquilamente para os fundos da casa, atravessando a sala de jantar, parando diante de uma porta de madeira clara. Entrou no escritório do pai, vendo o humano gordo e barbudo com um charuto cubano entre os dedos roliços, lendo um relatório qualquer de uma de suas fazendas. Aquele Bourbon nunca poderia ser seu pai, considerando que o homem, os pais do homem e todos os outros tinham aquele cabelo preto como carvão. O homem era, na verdade, seu padrasto.

O homem não podia ter filhos por ter feito uma vasectomia anos atrás, antes de conhecer sua mãe, Felippa – transformada em Vampira no mesmo dia que ele, quinhentos anos atrás – pois já era casado e possuía herdeiros suficientes para seus negócios. No entanto...

Todos os filhos tinham morrido num acidente de carro. E a esposa, num suposto ataque cardíaco ao saber da notícia.

O velho sequer desconfiava que fora ele a provocar o acidente e envenenar a esposa. Durante o funeral, ele apresentou-se como amigo dos rapazes mortos – “haviam se conhecido na Livraria do Shopping Flamboyant há poucos meses, os gostos tão semelhantes, uma tragédia” –, apresentando a mãe para o Bourbon. Os encantos da Vampira não demoraram a conquistar o velho, e não muito tempo depois, já era herdeiro do império agrícola do homem. Do nada para o tudo... Como sempre. E se tivesse sucesso daquela vez, o irmão gêmeo não tiraria tudo o que conquistara como fez das outras vezes. Não o obrigaria a fugir.

O velho ergueu os olhos quando Louis abriu a porta, e sorriu. O garoto se mostrara incrivelmente inteligente e tinha um grande carinho pelo enteado, apesar de não entender a insistência em permanecer num Colégio Militar, sendo ele capaz de pagar mensalidades dos melhores colégios particulares da cidade tranquilamente.

— Olá, meu filho. Como está sua amiga? – ligara para Felippa e contara o que houve com Arely, justificando sua demora. Ela devia ter contado para o padrasto que ele estava no hospital, com uma amiga que passara mal, quando perguntou porque não voltara ainda, não sendo de seu feitio demorar.

O Vampiro sorriu diplomaticamente, enquanto respondia que sim, que ela estava bem.

— Precisa de ajuda com algo, pai? – sabia que chamar o velho de pai o deixaria emocionado. Já conhecia cada uma de suas reações para cada palavra, e usava isso à seu favor.

— Não, meu jovem, mas ligaram atrás de você. Aninha deixou o recado no seu quarto com número de retorno.

O “rapaz” agradeceu o recado, despediu-se e foi para seu quarto, após parar na biblioteca e cumprimentar a mãe. Como o Bourbon falara, Aninha, a empregada, deixara o recado em seu quarto, em cima da mesa de cabeceira.

Jogou-se na cama, pegando o celular e discando o número do recado. A voz que atendeu o fez estremecer.

— Como descobriu como me contatar? – perguntou entre dentes, ouvindo um riso lupino do outro lado.

São poucos os que possuem nomes italianos e Camaros vermelhos em Goiânia... – Louis amaldiçoou sua falta de cuidado. Quinhentos anos de vida e sequer pensara na possibilidade de que Adrien iria atrás dela e acabaria por ver seu carro. Devia ter alugado um com um nome falso. Mas, na verdade, vê-lo na cidade fora uma surpresa. O último relatório de Sadiqah dizia que ele estava em São Paulo. Ele e todos os de sua laia. Adrien não devia estar em Goiânia.

— O que você quer? – grunhiu, apertando até quase destruir uma caneta qualquer que tinha o azar de estar em suas mãos. Se existia alguém capaz de destruir seu pequeno paraíso, esse alguém era o Lycan do outro lado da linha. Como fizera todas as outras vezes.

O que fez com ela? – foi a vez do outro grunhir com raiva. Louis riu, repentinamente calmo. Devia saber que seria assim. Era sempre assim. O outro sempre ficava cego de raiva quando se tratava deles, mesmo que a maldição e o juramento colocassem limites visíveis: apenas uma forte amizade e vontade de proteger quase incontrolável. Ou talvez Adrien só quisesse se ver livre de tudo aquilo logo.

— Digamos que ela não vai lembrar de você tão cedo...

Você vai ficar longe de Arely. – a raiva era óbvia na voz do outro. Louis sequer se importou em perguntar como descobrira o nome dela.

— Desculpe, mas não posso... Somos colegas de sala, sabe...

Adrien chegava ao ponto de quase rosnar, mas controlou-se.

Tome cuidado, maninho... Você não vai corromper nem matar essa. – e desligou.

O Vampiro ficou pensativo por um tempo antes de decidir que não conseguiria sozinho. Não dessa vez, com tantos Lycans interessados nela. Além disso, Sadiqah devia se explicar. E, inferno! Pelo jeito, não conseguiria o que queria de forma relativamente pacífica e que não atraísse atenção!

Procurou um nome na lista de contatos de seu celular. Discou um número marcado como “Sandman”. A pessoa não demorou a atender.

O que foi, Louis? – a voz era suave, mas irritada, uma ameaça velada bailando no tom de voz e na escolha das palavras.

— Encontrei. E vou precisar de ajuda...


Arely tinha acabado de chegar do Hospital, quando tocaram a campainha. Como sua mãe estava fazendo o jantar, foi ela quem atendeu. Ficou surpresa ao encontrar Ruby no portão de sua casa.

— Ah... Olá, Arely... – a garota parecia sem jeito, mas sorria suavemente.


Tocou a campainha, colocando as mãos nos bolsos enquanto esperava que abrissem o portão. Quem abriu foi uma mulher de olhos acinzentados, traços duros, cabelos ruivos com fios brancos – e ele sabia que um dia aquele ruivo fora como vermelho-sangue, parecendo tingido –, altura mediana e, apesar de algumas rugas provocadas pela idade que devia ter, seu corpo era bem conservado e definido. A boca estava levemente aberta enquanto abria espaço para que ele entrasse. Notou que ela envelhecera. E muito.

— Alexei está? – perguntou, ao que ela franziu os lábios finos antes de responder após fechar o portão.

— Está sim, Adrien. – suspirou enquanto o guiava pelo quintal para a casa. – Porque voltou, após tanto tempo? Nem para o meu casamento apareceu... – ela parecia um tanto magoada. Adrien sorriu triste quando ela abriu a porta que dava para a sala de estar.

— Quantos anos tinha, Aldina? – ele perguntou com um tom que era como um pedido de desculpas, sem responder a pergunta feita. A senhora fez uma careta.

— Sete. Eu tinha só sete anos quando você resolveu que devia me entregar para algum clã criar, depois de três anos me criando após meu clã original ser destruído por Bruxos. Não cuspo na sua cara por isso, porque realmente me ajudou, mas me pergunto o motivo. Por qual razão um Lycan tão velho como você não poderia ter mais uma aprendiz? – Aldina o levou pelos corredores da casa térrea e vazia àquela hora até chegarem numa porta de madeira simples.

— Você não entenderia naquela época. – ele respondeu.

— E hoje, entenderia? – a senhora rebateu. Adrien refletiu por um instante.

— Não, porque apesar da idade que tenho, você se deixaria levar pela que apareço ter e tentaria me proteger como se fosse minha mãe. – sorriu levemente antes de entrar no escritório sem bater.


Alexei poderia facilmente se passar por um sósia de George Clooney se usasse lentes, tingisse o cabelo e tivesse a pele mais clara. Era possível ver que os cachos – ainda fartos – eram ruivos, mas possuíam muitos traços de branco.  Os olhos eram de um verde intenso e intimidador, mas que aliados ao sorriso suave, ganhavam um tom de carinho, quase como um pai ao contar histórias para os filhos. A pele não chegava a ser muito escura, mas ainda era morena. E, apesar da idade que as rugas que lhe rodeavam os olhos demonstravam, estava bem conservado e parecia ser capaz de correr uma maratona sem se cansar muito.

— Pensei que não voltaria à cidade enquanto eu estivesse vivo, Adrien... – o sorriso não era mais tão suave, mas ainda assim ofereceu a cadeira à frente da escrivaninha de carvalho atulhada de coisas enquanto se acomodava do outro lado. – Algum problema? – se Adrien tinha vindo até ali, era porque havia problemas. Um Lycan tão velho não aparecia do nada para os mais novos.

Adrien suspirou, prevendo o quão difícil seria o assunto a ser tratado. Nenhum dos Alfas que sabiam de quem se tratava iam muito com a sua cara – só porque todos os assuntos que remetiam à Mensageiros – entre outros – e, portanto, à ele, tinham mania de se encaminhar para os assuntos de outros clãs.

— Preciso que me dê permissão para me aproximar de Arelyel, a garota que seu clã está protegendo. – falou calmamente, vendo Alexei ficar vermelho de raiva, semicerrando os olhos agora azulados cujas pupilas eram duas fendas raivosas.

— Não, Adrien. – respirou profundamente, procurando manter a fera dentro de si sobre controle. – Ninguém vai se aproximar dela, até que Arelyel tenha idade o suficiente para aceitar o que vai rodeá-la se alguém a conquistar.

O outro sorriu cinicamente.

— Então, ela só tem até os dezesseis anos. – sacou uma faca de platina e a girou entre os dedos, observando os pequenos raios refletidos quando a luz incidia sobre a lâmina.

— O que quer dizer? – Alexei parecia ainda mais irritado. Não era um ato muito educado sacar uma arma e ficar brincando com ela durante uma conversa, ainda mais entre Lycans. Adrien ficou sério, pousando a arma sobre as pernas.

— Ela tem o cheiro de amanhecer, Alexei. E Louis está tentando alcançá-la. – olhou por cima do ombro do Alfa, observando a natureza que se expandia pelo terreno do outro lado da janela. Eles tinham o costume de gostar de lugares com tantas árvores... Diziam que a mensagem ficava mais clara. Arely também gostaria de estar entre a natureza, como todos que conhecera antes dela?

— Está dizendo que ela é uma deles? – Alexei parecia, ao mesmo tempo que espantado, cético e pensando seriamente em chutar Adrien dali.

— Exato.

Alexei se levantou, andou um pouco pelo quarto e então parou diante de um quadro de aparência muito antiga, com três homens retratados: um deles, cuja aparência passava a sensação de realeza, sentado numa poltrona de veludo prateado com luas entalhadas nos braços de madeira. Do lado direito, sentado de forma relaxada no chão, apoiado contra a poltrona, estava Adrien, parecendo mais novo, com os olhos azuis e os cabelos sem aquele tom avermelhado, o que o tornava ainda mais parecido com Louis. Do outro lado, em pé de forma quase como se fosse uma estátua, estava alguém que poderia tratar-se de Alexei adolescente.

— Você sabe que só admito sua presença em meu clã por honrar meu ancestral que foi seu irmão de transformação, não sabe? – Adrien balançou a cabeça lentamente. Tomás, o rapaz do lado esquerdo no quadro, fora transformado pelo mesmo Lycan que transformara Adrien. Enquanto vivo, ele e Tomás foram melhores amigos, o que parecia agradar Joseph, o mestre deles, enquanto também era vivo. – E sabe que também lhe sou grato por trazer Aldina para o nosso clã quando meu pai ainda era o Alfa, pois ela veio a se tornar minha companheira, não sabe? – Adrien mudou de posição, desconfortável. Tinha a sensação de que não gostaria da resposta. – Isso não quer dizer que vou lhe dar permissão para se aproximar dela. – não havia vestígios de sorriso algum nos lábios de Alexei. Ele estava sinceramente irritado com o outro Lycan. – Que outro seja o Consorte dela. Que outro tire as vidas que ela não pode tirar. Talvez, assim, ela acabe sobrevivendo e possa exercer o papel para o qual nasceu.

Adrien suspirou e se ergueu, entendendo a relutância do outro, sendo lembrado mais uma vez que sempre falhava – não por sua culpa, mas por causa daquele que tanto tempo atrás fora seu irmão gêmeo, e em parte por causa da maldição que o rodeava. Quatro falhas em seu “currículo”. Arely era a quinta que encontrava, e esperava não falhar. Andou em direção a porta, mas parou no meio do caminho, como que se lembrando de algo.

— Você sabe que, se eu não respeitasse os Alfas e Betas, teria ignorado todos os interessados nela, me aproximado, conquistado a confiança dela e levado-a para longe, e venceria facilmente qualquer filhote que tentasse me impedir, não sabe? – viu Alexei trancar o maxilar. Sim, ele era consciente que ele era capaz daquilo. – E sabe tão bem quanto eu que Louis vai chamar ajuda se ela realmente é um deles, não sabe? – o Alfa fechou os olhos, e a impressão que dava era que queria poder trancar os ouvidos. – Esses filhotes vão saber protegê-la de Bruxos mais velhos que o cristianismo? Vão saber que não estão lidando com um Vampiro qualquer, mas com um que teve quinhentos anos para praticar como executar filhotes do jeito mais eficiente possível, e como corromper aqueles iguais à ela? Um Vampiro que foi transformado e treinado por Savino, o primeiro Vampiro corrompido? E quem quer que se torne Consorte dela, vai saber como protegê-la das vozes enquanto Arely não se provar digna de dominar seus dons? Vai saber a hora certa de ela enfrentar seus medos? A hora certa...

— Chega. – o Alfa murmurou, parecendo cansado. – Chega... – abaixou a cabeça, olhando para os próprios pés. – Acha que não considerei isso tudo? Não posso simplesmente ignorar todos os Alfas e Betas interessados nela e te dar permissão... Se fosse algum outro Observador, e não você, talvez... Mas ninguém gosta de você, porque sempre se mete nos assuntos dos outros Clãs... Além disso, desistiram da Guerra... Há tanto que os velhos Líderes e Guerreiros não nascem, que acham que estão extintos. E que assim, já perdemos... E se ela for um dos velhos Líderes... Ela sequer fez quinze anos ainda. – os lábios eram uma fina linha de insatisfação. Era óbvio que não concordava com o que os demais clãs pensavam.

Adrien suspirou. Não culpava os clãs por acharem que a Guerra já estava perdida. Não mesmo. Tanto tempo com a Guerra naquele empate irritante acabaria com qualquer um. Mas ele ainda tinha esperança. Ele tinha de ter esperança. Fazia parte de seu papel.

— Lembre-os que as Portas do Inferno só podem ser abertas por seu Guardião. Lembre-os que os Vampiros e Bruxos continuam procurando o Guardião, com a ajuda de demônios, e que cedo ou tarde irão encontrar, e lembre-os do que vai acontecer se eles conseguirem soltar quem está lá dentro... – Ia andar, mas pareceu lembrar-se de algo. – Alexandre acredita que encontrou uma Ômega. E Jean... Parece que os Wyverns escolheram uma Amazona após tanto tempo.

E saiu, sem parar para ver o olhar esperançoso que surgiu no rosto de Alexei.


Sem saber o que fazer, exatamente, convidou Ruby para entrar e então para jantar. E, enquanto esperavam a comida ficar pronta, ficaram conversando como se fossem velha amigas.

Embora o assunto fizesse Arely achar Ruby um pouco estranha... Quer dizer, ela sempre gostara de mitologia e todo o mais, mas ainda achava todo o assunto sobre Lycans e Dragões que ela puxava meio estranho. Quase fez uma prece de agradecimento quando sua mãe as chamou para comer.

Mas admitia: até que Ruby era legal. Embora não tivesse ideia de como a ruiva sabia onde ela morava...

E, apesar da conversa alegre, não conseguia tirar de sua cabeça que faltava algo... E os momentos em que tinha a estranha sensação de que talvez Ruby soubesse quem faltava em sua memória...


A humana não era a única com os pensamentos inquietos. Ruby, durante todo o tempo, perguntava a si mesma porque seu dom insistira tanto que devia travar uma amizade sólida com a humana à sua frente. Tentara resistir ao chamado que parecia ecoar em seus ouvidos, mas ele se tornou ainda mais forte depois que percebeu que Louis tentava se aproximar dela e quando seu irmão contou que ele estivera rondando pelo bairro.

Tentara resistir, pois algum Alfa ou Beta interessado na garota poderia achar que estaria tentando influenciar suas decisões, mas seu dom foi mais forte. Sabia, de alguma forma, que tinha de estar por perto e protegê-la. Não sabia do quê, mas sabia que tinha de protegê-la. Como se ela fosse sua irmã caçula.

Além disso, podia sentir o poder que palpitava sob a pele dela... A forma como suas palavras pareciam capazes de lhe inspirar coragem ou medo. Havia algo nela que atraíra tantos Lycans. Não sabia o que, mas sabia que existia algo mais. Algo que tanto Arely como Ruby desconheciam. A Lycan nunca sentira aquele tipo de poder que parecia palpitar... Aquela energia que escorria por suas palavras...

Havia também uma energia inquieta e escura em sua mente, como se existisse parte de sua memória que estava selada. Como se houvesse algo que ela lutava para se lembrar, mas não conseguia. E algo recente.


E só faziam aumentar a sensação de que tinha de protegê-la como à sua irmã mais nova.