25 agosto 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 35: De Novo


Beijei a testa de Despertador e verifiquei mais uma vez se ele ficaria bem antes de chutar a porta do galpão e entrar.
Adriane levantou-se de supetão de uma caixa onde estava sentada.
Seu olhar demonstrava horror a meu ver.
− Kai... Kai deveria acabar com você... Você... Você nem deveria ter voltado! – ela berrou, apontando com a espada na minha direção. Ela estava apavorada agora que não tinha mais o poder do Arquidemônio a ajudando.
Sorri macabramente, abrindo os braços.
− Surpresa em me ver, Adriane? – ela parecia assustada. Com certeza, as coisas tinham saído fora do controle dela. – Achou mesmo que eu ia deixar barato a morte de tantas Fadas e, principalmente, da minha vó? – apontei então Savën para ela.

Percebi Adriane engolir em seco, testando o peso do escudo de modo temeroso.
Procurei o corpo de vovó com o olhar, mas não encontrei.
− Cadê? – ela fez um olhar de quem não entende. – CADÊ O CORPO DA MINHA VÓ?!
Ela sorriu macabramente, como que satisfeita por descobrir algo que me deixou descontrolada.
− Vai ter que descobrir.
Aquilo me deixou irritada.
Muito irritada.
Tanto que apertei mais forte a empunhadura de minhas adagas, abaixei-me um pouco e avancei automaticamente na direção de Adriane, Savën estendida e realizando um movimento aberto na altura de seu pescoço.
Apesar de pegá-la desprevenida, Adriane conseguiu inclinar o corpo para trás e tirar o pescoço do meu alcance. Mas deixou alguns fios de cabelo para trás.
Definitivamente eu progredi. Antes eu não conseguia sequer isso. E o mais incrível é que fui eu quem cortei o cabelo dela, não Savën e sua magia.
Parece que a temporada que passei com as Aranhas me fez bem.
Ou talvez perder o apoio do Arquidemônio a tenha afetado mais do que eu imaginava.
Vi os olhos de Adriane brilharem de surpresa, enquanto ela respirava rápido. E então, ela avançou com a espada, tentando me cortar na altura da barriga.
Cruzei Fëna com a espada, desviando-a e tentando cortar Adriane na altura do peito com Savën, mas o maldito escudo entrou na frente, provocando faíscas.
Dei alguns passos para trás e a observei. Com apenas alguns movimentos, ela já ofegava.
Agora eu me pergunto: quanto da habilidade que ela demonstrava era realmente dela, e quanto vinha do Arquidemônio? Caramba, até agora ela não conseguiu me cortar. Apenas bloqueou ou desviou de meus ataques. Bem diferente das outras vezes.
Ok, foram apenas dois ataques. Mas ainda assim, foi muita coisa pra mim, considerando que mal encontrávamos nossas armas na última luta, duas semanas atrás.
Depois de um longo tempo trocando ataques que resultaram em ferimentos leves – para mim, a Gnoma conseguia se manter incólume de ferimentos causados por mim –, Adriane olhou para o escudo e o jogou longe, estendendo a espada na minha direção, as pernas afastadas e o braço esquerdo estendido como se ela preparasse um feitiço.
E, de fato, pra minha infelicidade, ela estava preparando um feitiço. Como não sou idiota – sabendo que Gnomos Caçadores são especialistas em revestir partes do corpo com algum metal resistente – avancei, tentando cortá-la com Savën, com Fëna preparada como se eu fosse fincá-la em algum lugar.
Realmente, tentei fincá-la no braço esquerdo de Adriane, prevendo que seria ele o revestido de metal. Pelo que li e aprendi com as Aranhas, é um feitiço que consome muita essência e continua consumindo até que seja cancelado, mas que só pode ser utilizado em partes sãs do corpo. Se eu ferisse o braço dela, ela teria de cancelar o feitiço.
Mas a desgraçada conseguiu revestir o braço de algum metal cinza antes que eu o ferisse. Só consegui produzir faíscas quando Fëna o tocou.
E, bem, a desgraçada ainda conseguiu me socar na boca do estômago, me arrancando o ar e me obrigando a dar alguns passos pra trás.
Argh. Essa desgraçada é muito rápida sem um escudo pra atrasá-la.
Estranhei que ela não tentou me atacar com a espada logo em seguida, já que a falta de ar fez com que minha guarda ficasse aberta. Mas, assim que ergui o olhar, percebi porque fui poupada.
Falhei em impedir ela de revestir o braço de metal. Mas tive sucesso em cortá-la na altura da barriga com Savën.
O espanto dela foi tanto, que ela deixou a espada cair e pressionava o ferimento. E ofegava. Tinha sido um ferimento profundo.
Aquela teria sido a minha chance.
Se eu também não estivesse ofegante e sem ar. A luta contra o Djin pode ter sido rápida, mas, hello! Gastei muita essência pra erguer uma névoa, uma parede de galhos e me teleportar. Fora o feitiço de cura na boca do Despertador e a lâmina de vento para cortar o cigarro do Djin.
Desde que entrei aqui e comecei a lutar com Adriane, não usei magia, mas ela sim. O que me dá certa vantagem.
Ok, não me dá vantagem nenhuma porque ela teve um tempinho pra descansar da luta com vovó, diferente de mim. Eu sabia que se parasse pra descansar, daria tempo para que viessem atrás de mim.
E eu tinha de lutar sozinha contra Adriane. Era a minha vingança. Eu a vira matar vovó. Eu vira o Arquidemônio comer o coração de vovó. Não Devon. Não papai. Não qualquer um dos parentes que tinham vindo pras festas e que eu não fora apresentada ainda. Eu.
Tudo isso se passou pela minha mente em dois segundos. Dois segundos que levei para recuperar o ar e voar na direção de Adriane, tentando atingi-la.
E consegui. A atingi na altura do ombro esquerdo, que não estava revestido de metal. Ela estava mais lenta para se desviar – era pra eu ter atingido o peito dela.
Demorei um segundo a mais para recuar, antes que o braço revestido de metal atingisse meu rosto.
O fato é que fui parar uns três metros mais longe.
Senti um fio de sangue escorrer da minha boca, e depois de passar as costas da mão para limpar o queixo, me virei para Adriane, sorrindo de forma sarcástica enquanto ela pegava a espada.
− Está tão lenta... Sentindo falta do Arquidemônio? – notei, quase em câmera lenta, que ela precisou apertar o cabo da espada com mais força para que ela não caísse.
O ferimento em sua barriga continuava a sangrar. Ela não usara um feitiço de cura. Economizava o máximo de essência possível por causa do metal que revestia seu braço.
− Mas ainda sou mais rápida que você. – ela sorriu sarcasticamente, me apontando a espada.
A visão me arrastou de forma súbita. E eu me surpreendi por estar em casa. Eu não tinha nem ideia de o que me levara àquela visão.
Era dia, e ouvi as risadas minha e de Devon vindo da cozinha, enquanto mamãe entrava no meu quarto. A visão então me levou para ver o que acontecia no quarto.
Despertador tinha se escondido debaixo da cama por ordem de mamãe, enquanto alguém entrava pela porta-balcão. Alguém com uma máscara, segurando uma espada e um escudo, com cabelos cor de goiabeira e olhos dourados. Adriane.
− O que deseja, Gnoma? – minha mãe perguntou de forma polida. Percebi o olhar intrigado da outra.
− Aqui é a casa de Eurídice Greeneyes? – ela perguntou, avançando um passo e observando o meu quarto com certo interesse.
− Quem é essa? – mamãe ergueu uma sobrancelha, se fazendo de desentendida.
− Uma Fada da Floresta.
Mamãe riu levemente.
− Por acaso tenho cara de Fada da Floresta? – Diane apontou para os próprios olhos e então para o cabelo.
− Não. Mas a casa está empesteada com cheiro de Fada da Floresta. – seu olhar tinha algo de ameaçador. Mamãe suspirou.
− Cinco minutos, nos fundos. Agora, saia do quarto da minha filha, por favor. – assim que Adriane saiu, mamãe chamou Despertador, que foi, hesitante. – Espere um pouco e então desça, provocando algo que me leve a mandar Stacy para cima. Pelo bem dela, Despertador. Por favor.
Só posso dizer que fiquei abismada quando minha Mantícora mordeu a mão dela de forma carinhosa. Como se entendesse. E, de fato, entendia. Aquilo me fez de novo sentir um peso no coração pela ausência dela.
A visão então me levou para a cozinha. Eu arrastava Despertador comigo para meu quarto, e mamãe pediu para Devon e papai irem comer nos fundos com ela enquanto Tia Verônica limpava a cozinha. Mamãe até se ofereceu para ajudar, mas tia Verônica riu e disse que não se preocupasse.
A visão me fez acompanhar mamãe até o momento que ela encontrou Adriane.
− Esse é meu marido e esse é meu filho. Fadas da Floresta. Satisfeita? – mamãe não gostava dela, estava escrito na sua cara, e queria que ela saísse dali e rápido.
− E a sua filha?
− Nasceu humana. – mamãe afastou uma mecha de cabelo que caiu em seu rosto. – Poderia ir embora agora, por favor, e não voltar mais?
Adriane balançou a cabeça afirmativamente e, assim que meus pais e meu irmão se viraram, ela tocou rapidamente suas cabeças, murmurando um feitiço que pelo que percebi era para apagar ela das memórias deles – não exatamente apagar, mas selar a parte referente à ela –, antes de sumir. Tenho certeza que esse feitiço é obra do Arquidemônio, assim como a capacidade de se teleportar.
Filha da mãe. Desgraçada. Fdp.
Prometeu nos deixar em paz, mas no dia seguinte Kai atacou tia Verônica. E sabe-se mais quem ia atacar.
A visão acabou de forma que vi a espada de Adriane vindo em minha direção, só tendo tempo de me abaixar e tentar atingi-la no pescoço de baixo para cima, mas aquele maldito braço envolto em metal entrou no meio da trajetória, dando tempo daquela desgraçada recuar.
− Sua desgraçada! PROMETEU NÃO VOLTAR MAIS, MAS ENVIOU KAI PARA ACABAR COM A GENTE! – não dei muito espaço pra ela, começando uma série de ataques. Agora ela realmente me irritou. Vou acabar com essa fdp, nem que quase morra pra isso. – E AINDA APAGOU A MEMÓRIA DE PAPAI, DE MAMÃE E DE DEVON! – Adriane correu de costas e conseguiu abrir uma boa distância entre nós. – Eu vou acabar com você, Gnoma maldita.
Liberei minha essência – que tinha se acumulado involuntariamente – de uma vez, berrando um feitiço que provocaria um vendaval.
Enquanto o vento começava a se agitar dentro do galpão como se estivéssemos num furacão, o corpo de vovó apareceu, o feitiço que Adriane vinha sustentando para mantê-lo oculto sendo quebrado. Quebrado porque a concentração dela se quebrara com todo aquele vento. Não apenas a ocultação do corpo de vovó se fora, mas o metal que recobria seu braço também.
Ela mal conseguia se manter de pé. Já deixara a espada cair, tentando proteger os olhos com os braços, porque a máscara quebrada não o fazia.
Eu, por outro lado, me sentia imponente no meio daquela tempestade. Como se o vento se abrisse para mim devido às asas que saíam de minhas omoplatas. Como se eu fosse senhora dele. Como se... Eu fosse parte dele.
Talvez eu fosse mesmo, já que quem o chamara fora eu.
Andei na direção dela lentamente, saboreando seu sofrimento.
Era estranho. Mais uma vez eu não me sentia eu mesma. Como se eu estivesse me perdendo. Mas eu não ligava. Eu queria vingança.
E notei algo naquela cena. A semelhança com duas visões minhas. Quase igual, na verdade. Diferente quem matara vovó, todo aquele vendaval e o fato de que Adriane já deixara a espada cair. E minhas asas estavam inteiras. Ninguém as tocara depois que as Aranhas a curaram. E não haveria mais luta.
Mas eu me sentia compelida a cumpri-las.
− Tudo culpa sua. – murmurei, olhando para Adriane fixamente. E então, sorri maleficamente, sentindo que não era eu e não dando a mínima. Eu queria o sangue de Adriane. Eu queria vê-la e fazê-la sangrar. – Te vejo no Inferno, Adriane.
E então a chutei no pescoço, derrubando-a. Deixei Fëna no chão e então sentei na barriga da Gnoma, segurando seu pescoço com a mão livre, enquanto a ponta de Savën ameaçava-a. O vendaval se acalmou, enquanto eu chorava e olhava-a com raiva.
− Você a matou, maldita. – murmurei, pressionando mais a adaga. Ela riu de um modo louco, a mão tocando o cabo da espada, mas não tentando pegá-la.
− Ela pediu por isso ao vir sozinha atrás de mim.
Respirei fundo, controlando aquela voz na minha cabeça que berrava para matá-la naquele instante. Ainda não. Tinha mais uma coisa que me atormentava, e eu não queria esperar a boa vontade das visões de novo.
− Como sabia que eu tinha sobrevivido e acabado de voltar? – ela riu de novo de um modo mais louco ainda.
− Seu irmão, Fadinha! Ele foi uma preciosa aquisição! – Mentira. Mentira. Devon jamais me trairia. – Nunca vi alguém com tanta inveja. Só porque você é mais poderosa que ele. Tsc tsc... Nem o sangue impede mais as pessoas hoje...
− Pára de falar do Devon... O Devon nunca me trairia... Ele é meu irmão mais velho... Meu primeiro amigo... MEU IRMÃO NUNCA ME TRAIRIA, SUA VÍBORA MENTIROSA! – eu podia ter acabado com ela com Savën. Mas não. Ela não merecia essa honra.
Larguei minha adaga e arranquei o que restara da máscara de Adriane, contemplando seu rosto ensanguentado.
− DEVON JAMAIS ME TRAIRIA, ADRIANE! ELE NÃO É COMO O MALDITO ÍNCUBUS QUE TE USOU E DEPOIS USOU VOVÓ! ELE NÃO É UM TRAIDOR!
E não me controlei mais.
A voz em minha cabeça assumiu o controle de meus atos, de minha boca, de meu corpo.
Soquei o rosto da Gnoma infinitas vezes, xingando-a, em português e na Língua da Teia, de nomes que vovó teria me beliscado a orelha e mamãe me teria feito lavar a boca com sabão, literalmente.
Não importava que ela já não respirasse há muito. Não importava que seu rosto já estivesse deformado e que meus punhos estivessem ensanguentados com o meu sangue e com o dela.
Minha mente chutara a dor física para longe. Só o que me tomava era a dor psicológica por tudo que Adriane me fez. Pela pessoa tão querida que ela me arrancou.
Eu sequer pensava em outras coisas. Só o que importava era socá-la mais e mais.
Esperneei de raiva quando senti alguém me abraçar pelas costas e me tirar de cima do corpo sem vida da Gnoma.
Ainda tentei gritar uma maldição para a alma de Adriane, mas a mesma pessoa que me tirara de cima dela me tampou a boca. Falava algo como “Fadas não foram feitas para amaldiçoar”, enquanto uma maldita aura de paz tentava se infiltrar para meu corpo.
Eu só queria externar meu ódio por Adriane, por isso mordi com força a mão que tampara minha boca, sinalizando que eu queria que tirasse aquela maldita mão dali. Mas a pessoa não obedeceu, e o sangue escorreu para dentro da minha boca.
E eu gostei.
E comecei a querer mais.
Eu já provara sangue outras vezes... Cortes no dedo e ralados nos joelhos após um tombo. Mas nunca gostei.
Mas, naquele momento, me pareceu a coisa mais deliciosa do mundo. Segurei a mão de quem quer que fosse contra a minha boca, querendo mais.
Uma voz longínqua gritava algo, mas eu não entendia.
Era o meu nome?
E a voz me parecia tão familiar...
A voz de repente conseguiu perfurar a névoa de ódio e raiva que me nublava os sentidos, e entendi meu nome.
Ao mesmo tempo, eu começava a acordar.
Acordar para me perguntar por que minha boca estava cheia de algo de gosto tão horrível. Era... Sangue? Minha boca estava cheia de sangue?
E eu tinha certeza que não era meu sangue. Nem Kai nem Adriane me atingiram de forma a ferir minha boca por dentro ou fazer verter sangue pela minha garganta. Não mesmo. Só um corte no lábio que já não sangrava.
Era da mão que eu ainda segurava contra a minha boca.
Soltei-a e fiquei estática por um instante, sentindo que lágrimas escorriam por meu rosto e o abraço afrouxar.
Alguém me virou lentamente, e vi os olhos preocupados de Rashne. Ele segurou meu rosto entre suas mãos, enquanto eu lentamente sentia que havia mais pessoas atrás dele.
− Não deixe ninguém ver seu rosto. – Ele disse carinhosamente, como se eu não tivesse acabado de sugar o seu sangue, me abraçando e me fazendo encostar a cabeça em seu peito.
E eu me deixei levar, escondendo meu rosto em sua blusa, abraçando-o pela cintura e chorando. Chorando tudo que aquela voz na minha cabeça não me deixara chorar.
Ouvi vagamente Rashne pedir para que nos abrissem caminho, enquanto ele me guiava para fora do galpão, mantendo meu rosto escondido em sua blusa. Porque ele não quer que vejam meu rosto?
E então notei do que o lugar estava cheio. Fadas. Muitas Fadas.
Pensando bem, não quero que elas me vejam com a boca toda suja com o sangue do meu namorado...
Já do lado de fora, meu namorado me fez olhá-lo, depois de ele apoiar as costas na parede. Beijou levemente meus lábios como se eles não estivessem sujos com o sangue dele, antes de me abraçar com força. Eu o abracei de volta, escondendo meu rosto em sua blusa. A aura de paz me invadiu, e agora que era completamente eu, não houve resistência.
− Sinto muito por Eurídice. – ele murmurou no meu ouvido, e me entreguei a chorar.
De novo.
Por que quase sempre que nos abraçamos um chora no peito do outro?


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