20 março 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 34: Parikhan

Parei somente uma vez mais antes de chegar ao galpão. Para preparar algo que me ajudaria.

Ergui minha blusa e toquei minha barriga com o indicador. Murmurei um encanto simples e engoli a dor ao sentir minha pele ser marcada como que com fogo, o símbolo para teleporte aparecendo.

Quando gravado em algo móvel, o símbolo só pode ser utilizado uma vez. Eu só poderia teleportar-me uma vez.

E uma vez bastava para lutar contra o Djin.


Kai me esperava do lado de fora do galpão, apoiado contra uma árvore e fumando. Ele não me viu, e eu, estando irritada ao máximo, usei um feitiço para lançar uma lâmina de vento e cortar o cigarro. O vento me obedece mais do que a Terra, sabe...

Ele sorriu de um jeito irônico, endireitando-se.

− Você demorou. – jogou o toco do cigarro no chão, rodou os ombros e avançou na minha direção, ficando à uns dez metros.

Girei Fëna e Savën em minhas mãos, olhando para Despertador de um modo sugestivo: praticar batalha em conjunto por insistência de Rashne fora muito útil. Era quase como se soubéssemos o que o outro pensava apenas por causa de um olhar.

− Problemas com visões. E juramentos de sangue. – até mesmo Kai es-tranhou meu tom de voz, como sua expressão declarou. Até eu estranhei.

Estava mais... Séria. Um tanto sangrenta. Como se não fosse eu, mas alguém sedento de sangue.

O que não deixava de ser verdade.

Eu estava sedenta de sangue. Sedenta de vingança.

Afinal, esses desgraçados mataram minha vó.


Mal demos tempo para Kai pensar no que fazer.

Despertador avançou correndo, desviando para a direita e pulando em seu ombro, com a boca aberta, tencionando prendê-lo com suas presas e rasgá-lo com as garras.

Kai, por algum milagre, conseguiu fazer sua espada de Palavra de Poder e a usou para se defender, cortando a boca de minha Mantícora.

Percebi isso nos poucos segundos que levei para avançar pela esquerda do Djin e usar Fëna para tentar cortar seu pescoço. Mas ele conseguiu pular para trás antes que minha adaga lhe arrancasse a cabeça, conseguindo apenas um corte raso e que não representava grande perigo. Droga.

Aproximei-me de Despertador e, sem tirar os olhos de Kai, recitei o encanto de cura. O ferimento estava sangrando demais. Além disso, Kai poderia contaminá-lo.

− Melhorou bastante no controle de Essência, pelo que vejo. – ele disse sarcasticamente.

Apenas o olhei friamente, antes de me erguer novamente.

Dei um novo olhar para Despertador. Ele usou seus dons de Mantícora e lançou uma rajada de espinhos na direção do Djin.

Kai girou para a esquerda, achando que seria mais fácil se tivesse de lutar contra mim, e não contra meu eterno companheiro.

Aquilo estava escrito na cara dele.

Sorri sarcástica, percebendo Despertador usar a própria essência para usar um feitiço de invisibilidade – Mantícoras podem usar feitiços sem precisar de fala. Quando ele aprender a falar, vou pedir pra ensinar como. E ele não precisa de mais do que invisibilidade. Despertador sabe andar muito silencio-samente. E, enquanto ele convocava a invisibilidade, eu convoquei uma névoa. Tudo isso durante o tempo que o Djin levou para se desviar. A distração tinha dado certo.

Fechei os olhos.

E esperei o Djin vir até mim.


Quando ele veio em minha direção, ouvi uma sequência de rosnados de Despertador. E pelo número e intervalo entre os rosnados, eu sabia de onde o Djin vinha.

Não treinamos tanto tempo à toa. Tínhamos um código só nosso.

Quase imediatamente, num sussurro apressado, ergui uma barreira de galhos de onde o ataque vinha, segurei-me num que agüentaria meu peso, dei impulso e girei como numa barra, dando a volta pela lateral da barreira e sentindo meu pé direito – metido num lindo coturno de salto de madeira e muito, muito pesado – encontrar o rosto do Djin.

Aquilo foi inesperado para ele. Muito inesperado.

Tanto que caiu como uma fruta madura, comigo em cima.

Sorri sarcasticamente, saindo de cima do Djin em um segundo. Logo em seguida, vi um enorme ferimento abrir-se em seu braço, Despertador aparecendo e arrancando parte do braço do Djin quando este gritou um feitiço que agia como um soco no oponente. O grito estava cheio de dor.

Pergunto-me como ele conseguiu gritar certo estando com tanta dor...

Despertador jogou o braço longe, para então fazer um som como um riso sarcástico, enquanto eu fazia a névoa sumir.

Eu te amo, Despertador.

À menos que o Djin seja ambidestro, ele agora só tem a magia para nos enfrentar, porque você acabou de arrancar seu braço direito. Supondo que ele não morra por perda de sangue.

Esquece. Enquanto o Daeva estiver nele, apesar de toda a perda de sangue, ele não vai morrer.

Foi a minha vez de rosnar – de raiva! – quando o desgraçado usou um feitiço para parar o sangramento e outro para materializar energia e controlá-la para socar Despertador e tentar me socar..

Mas, bem, enfrentar um Trol faz a gente treinar mais os reflexos. Por is-so saltei para o lado, a energia atingindo uma árvore e a arrancando do chão.

Me ergui rapidamente, vendo o Djin fincar uma agulha em Despertador, que estava caído, desacordado. Ok, essa energia foi forte. E ver o desgraçado do Djin fazendo aquilo – o que quer que fosse – com minha Mantícora me deixou louca de raiva.

Literalmente, voei numa linda voadora na direção de Kai, atingindo o to-co do braço direito com o salto do meu coturno, sentindo um prazer mórbido quando ele urrou de dor e correu para longe.

Ergui uma barreira, me agachando ao lado da minha Mantícora e sentindo sua pulsação. Ele respirava.

− O que fez com ele, seu maldito? – o olhei de forma assassina. Kai massageava o toco do braço como se só aquilo importasse no momento. – O QUE FEZ COM ELE?! – berrei, conquistando sua atenção. Ele me olhou de um modo que me pareceu assustado, antes de falar com um tom louco.

− O adormeci profundamente. Ele não vai acordar por no mínimo três horas. – ele riu sarcasticamente. – Agora não tem a Mantícora pra te ajudar. Como vai se sair? – ele riu de novo.

Levantei-me e comecei a andar na direção dele, sentindo que minha essência implorava para ser liberada num feitiço poderoso. Mas eu a controlei.

Kai não merecia ser morto por minha essência. Nenhuma das vítimas de minha vingança merecia.

Não eram dignos.

− Estou curiosa, Kai... Quanto tempo faz que você invocou o Daeva e o aprisionou em seu corpo? – minha voz saiu fria. Ele me olhou surpreso, antes de responder com palpável orgulho.

− Antes mesmo de Jesus Cristo, Fadinha.

− E é tão fraco assim? – ele me olhou surpreso, mas logo eu não estava mais à frente dele.

Murmurei o feitiço de teleporte, e agora estava atrás do Djin.

Usei Savën para furar sua bochecha e dificultar a fala – por conseqüên-cia, sem feitiços –, enquanto estendia Fëna para que seus olhos se refletissem.

Vi o horror em sua face, enquanto fechava os olhos com força antes mesmo que fosse possível refletir os olhos. Mas não mesmo, seu desgraçado.

− Acha mesmo que vou te dar a chance de se reconstituir, seu desgraçado, depois de todos aqueles do meu povo que matou? Acha mesmo? – murmurei no seu ouvido, apertando Savën contra seu pescoço. – Se não quer abrir os olhos agora, tudo bem. Talvez eu possa praticar tortura com você até que a dor te force a abri-los. E vai ter algo que os reflita nesse momento.

E eu falava sério. Muito sério.


Primeiro, perfurei os lugares onde Adriane tinha me perfurado.

− Tá sentindo essa dor? Foi a mesma que senti quando Adriane me matou! – em seguida, perfurei bem em seu coração, fumaça com cheiro fétido se erguendo de cada um de seus ferimentos.

Ele gritou.

E, por alguma razão, aquilo me dava uma espécie de prazer. E me assustava.

Aquela não era eu. Mas, ao mesmo tempo, era eu. Duas “Eu” compartilhando a mesma mente, o mesmo corpo. Uma delas sangrenta e dominando naquele instante, enquanto a outra estava encolhida, com medo daquele lado que pedia por sangue.

− É muito fácil acabar com a dor, Kai. Basta abrir os olhos.

Ele não abriu.

E aquilo estava me deixando irritada.

Comecei a cantar um feitiço que o forçou a deitar-se e então convoquei galhos que o prenderam contra o chão. Coloquei Savën em sua boca, para não deixá-lo falar, e usei Fëna para cortar suas pálpebras.

Provavelmente, não fosse a adaga em sua boca, ele teria gritado e muito.

Joguei as pálpebras fora, e ele me olhava com terror.

Tirei Savën de sua boca, vendo meu sorriso macabro refletido na lâmina.

− Você não é uma Fada... É um demônio. – ele murmurou, assustado.

− Como você? Não. Sou apenas uma garota querendo vingança pela vó e por todas as Fadas que vocês mataram. – respondi, antes de colocar minha adaga em posição que refletisse seus olhos.

Kai berrou como eu nunca imaginei ouvi alguém berrar.

Percebi que as tatuagens sumiam, fazendo um barulho como que algo sendo dissolvido por ácido. Ele começava a transformar-se em pó.

Ergui-me e limpei minhas adagas nas roupas dele, observando enquanto restavam apenas cinzas ao vento.

Senti algo tocar meu ombro, e virei-me pronta para lutar, mas fiquei sur-presa ao reparar numa jovem que parecia quase imaterial, como um espírito, uma sombra ao redor dela.

E surpreendentemente parecida com Rashne, com os mesmos olhos azuis, mas que pareciam possuir uma sombra de tristeza, mágoa e ódio, fa-zendo com que se tornassem olhos de um Djin. E então, começou a falar na Língua da Teia.

− Ah, garota, valeu mesmo. Eu não agüentava mais ter de aturar os de-sejos desse Mago maldito. Dois mil e quinhentos anos obedecendo um idiota não é mole... – ela mexia os braços imateriais como se fossem materiais. Era... Assustador. Percebi que ela parecia chorar lágrimas vermelhas, mas não tenho certeza... Tipo assim... Eu não tinha muita certeza de nada nela porque ela era imaterial.

− Quem... O que... ? – não, eu não dava conta de completar a frase. Es-tranho, porque eu acabei de torturar alguém.

− Eu sou a Daeva que o idiota do Kai tinha invocado e aprisionado. – ela pegou minha mão. Foi bem estranho segurar algo imaterial. – Huriye Mahtab, ao seu dispor, Parikhan. – HÃ?

Mahtab? Mahtab é o sobrenome do Rashne e da Alessa.

Que, até onde sei, vem do pai deles. Um Ahura. Um dos primeiros Ahuras, criado por Ahura-Mazda.

Pqp. Estou cara a cara com uma irmã bem mais velha do meu namorado, que caiu e virou uma Daeva.

Aliás... O que cargas d’água quer dizer Parikhan?

Ela tocou o colar que Rashne me dera, e, num instinto, afastei a mão dela e envolvi o pingente com força, afastando-me um passo.

− Mahtab... – ela murmurou. Balancei a cabeça afirmativamente. – Bem que achei familiar aquele cara que usou o feitiço de expulsão no dia que Adriane te matou... Ele lembra o papai... – ela chutou uma pedra. Parecia deprimida ou era impressão minha? – Ele não caiu... Quantos anos têm?

− Cem e uns quebrados.

Ela sorriu.

− Cuide para que ele não caia. E não fale sobre mim. Eu não tenho co-mo ascender de novo, e sei que ele tentaria me salvar se soubesse que existo. É instinto de Fravartin tentar salvar a família. – sorriu de novo. – Conte sempre comigo. Serei sua agente dupla. A aliada atrás das linhas inimigas. É assim que vou pagar por me livrar da servidão, Parikhan.

Ela começou a andar e se deixar ir, indo para outro lugar, mas antes eu tinha de perguntar uma coisa...

− O que significa Parikhan? – ela apenas virou o rosto. Sorrindo.

− Rainha das Fadas. – E sumiu.

Mas eu não sou a Rainha das Fadas. Aliás...

Sequer sou sangue-puro.


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