09 março 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 33: Pelo Sangue que Corre Em Minhas Veias

Ficamos ainda mais dois dias em Kolshö, antes de Rashne nos levar de volta para a Terra. Mais porque as Aranhas o obrigaram a descansar e recupe-rar-se de toda a peregrinação pelo universo e que gastara sua essência numa velocidade maior do que a que seu corpo era capaz de repor.

Galagöa me dispensou do meu treino, alegando que eu devia passar um tempo com meu namorado agora que tinha como, porque depois que voltasse para a Terra, não teria tempo até acabar com Adriane e Kai.

Além disso, ela me fez prometer que não me perderia mais em visões, nem tentaria tecer o Destino até ela me dar permissão para tal.


− O que é que você estava fazendo quando te encontrei? – ele me per-guntou no mesmo dia que chegou, num momento em que deitamos numa cratera, observando as estrelas, distantes das Aranhas que se preparavam para reforçar a Teia na próxima noite. Rashne ficava penteando meu cabelo com os dedos. Sem enroscá-los. Eu já disse que amo quando ele faz isso?

Me estiquei para me apoiar em seu peito e poder olhá-lo nos olhos. Olhar para aqueles olhos azuis de céu de verão que me encantaram na primeira vez que os vi. Não vou falar que o Rashne é perfeito porque ninguém é, mas ainda assim, é o melhor namorado que eu poderia pedir. Além disso, aqueles olhos... Eles representavam a cor que eu mais amava no mundo.

E tê-lo ali comigo me fez lembrar de novo da menina chamada Esperança. Eu faria o possível para continuarmos juntos e ela estar entre nós. Mas não lhe contaria sobre ela.

− Estava olhando o Tempo. Galagöa me ensinou. – ele franziu as sobrancelhas.

− Para mim, você estava tocando uma teia de aranha. – assoprei uma mecha que insistia em cair em cima do meu olho, mas ela caiu de novo. Argh! Que saco!

− Eu estava tocando A Teia, Rashne. – ele arregalou os olhos. – Ela guarda nossas memórias, sabe o que está acontecendo, sabe todas as possibilidades do futuro, todas as nossas ligações com aqueles que nos rodeiam e que amamos ou odiamos. – beijei-o, e então apontei para o lado esquerdo do peito dele e então para o meu. – Há um fio da Teia que liga nossos corações, Rashne. Eu vi, e Galagöa também. Minha mestra disse que significa um laço de amor muito mais forte do que o que costuma se formar. – Sorri bobamente e o beijei de novo, sentindo um sorriso nos lábios dele.

O abracei pelo pescoço e relaxei, fechando os olhos. Senti ele passar um dos braços pela minha cintura e ficar passando a mão pelas minhas costas expostas.

− E depois? Você parecia desesperada, como que tecendo... – suspirei antes de responder.

− Vi a morte de vovó pela mão do Djin. Estava tecendo o Destino, mudando essa visão, mas Galagöa não me deixou terminar. Espero que o que consegui tecer valha de alguma forma... – ele segurou meu queixo e o ergueu.

− Independente do que acontecer, lembre-se: eu sempre vou estar aqui pra você. Sempre que precisar, eu vou estar lá, do seu lado. – ele sorriu, e sorri de volta, me inclinando para beijá-lo.

Obrigada pelo namorado que me arranjou, Deus. Eu não teria escolhido melhor.


Rashne nos levou de volta para a Terra. Despedi-me das Aranhas Lunares, prometendo voltar quando possível para aprender mais sobre a Teia. Minha mestra deixou bem claro que eu estava proibida de Olhar o Tempo e de Tecer o Destino até que eu retornasse, e fez Rashne prometer que ficaria de olho em mim.

Suspirei derrotada quando ambos se uniram para falar dos perigos de se entregar às visões da Teia. Tá, tá, já entendi!


Meu namorado nos levou para o atual esconderijo das Fadas – em al-gum canto perto de Goiânia, pelo que ele falou – e Devon apareceu correndo. Me abraçou e deixou que suas lágrimas molhassem meu cabelo.

Devolvi o abraço e também deixei que minha saudade ficasse clara através do choro. Caramba, eu tava morrendo de saudades do meu irmão!

Quando nos soltamos, não houve palavras. Ele apenas me estendeu minhas adagas, meu colar e meus pingentes.

Mas, quando toquei o cabo de Fëna, uma visão me invadiu. E eu queria sair dela, mas não podia.


Vovó andava altiva pelo galpão. As roupas leves e que lhe permitiam mover-se rapidamente, independente do movimento que quisesse realizar, lhe caiam bem e mostravam que era uma Fada que estava, apesar de tudo, na flor da idade – estranho, afinal ela tem mais de dois séculos de idade...

Adriane e o Djin saíram detrás de uma parede. Percebi Adriane falar pa-ra o Djin me esperar do lado de fora. Como naquilo que teci.

Mas eu acabei de voltar! Como ela já sabe?! Aposto que tem dedo daquele maldito Arquidemônio!

Kai saiu por uma porta nos fundos, e Adriane andou na direção de vovó.

− Pedi que Aine viesse até mim. – a Gnoma disse, irritada, apontando com a espada para vovó. – Não você, Eurídice. – Vovó a olhou friamente, con-centrando essência. Bateu com o pé no chão, um estrondo ribombando quando um imenso mogno cortou o concreto.

Vovó enfiou a mão por entre a madeira, que abriu-se sem resistência. Ela então puxou a mão, trazendo consigo uma espada longa feita da árvore. Vovó passou o indicador e o dedo médio pela superfície do Mogno e sussurrou algo, e então ele voltou para as profundezas da terra, deixando uma fenda aberta no concreto e na terra.

− Agora estamos em pé de igualdade, Adriane. – vovó limitou-se a dizer e a se colocar em posição de luta.

Percebi que Adriane franzira as sobrancelhas, antes de testar o peso do escudo.

− Então, quer terminar o que começamos, Eurídice? – a Gnoma analisou a lâmina da espada. Parecia tentar encontrar um defeito na nova lâmina que brilhava em tom avermelhado.

− O que você começou, Adriane. A única coisa que quero é paz. – Vovó estendeu a mão livre para o buraco e murmurou algo. A terra agitou-se por um instante, antes de recobrir ambos os braços, mas formar também um escudo no braço livre. – Vamos ou você está com medo?

Adriane berrou um impropério qualquer que não me darei o trabalho de transcrever e então avançou na direção de vovó, a espada em riste.

A Golden Eyes tentou cortar vovó na altura dos joelhos, mas ela foi rápida para desviar-se e golpear a espada de Adriane com o escudo.

Naquele momento, percebi que vovó não era apenas uma especialista em magia. Ela também era uma excelente lutadora. Infelizmente, Adriane era tão boa quanto, melhorada pelo pacto com o Arquidemônio.

Sempre que suas espadas se encontravam, a defesa de uma das duas acabava se abrindo, e a outra aproveitava para golpeá-la com o escudo. Vovó já estava com o rosto cheio de manchas de sangue, e a máscara de Adriane se partira, deixando a parte inferior do rosto exposta, junto com um monte de san-gue que escorrera dos ferimentos que os golpes tinham aberto, apesar da máscara.

No começo, estranhei vovó só ter usado magia para fazer a espada e o escudo, mas então percebi que, se estivesse usando magia também, se cansaria mais rápido.

E então, reparei algo que a Gnomo ignorara.

Vovó a levava para uma armadilha.

O cimento erguia-se do buraco aberto pela árvore, e vovó guiava Adriane para lá.

Quando faltavam apenas alguns passos, vovó se escondeu atrás do escudo e avançou na direção de Adriane com tudo. Tipo nos RPG onde o personagem que é guerreiro de espada-escudo sai tankando os inimigos e derruba todo mundo!

Adriane balançou os braços de forma desesperada, deixando o escudo e a espada caírem, quando as pedras a fizeram perder o equilíbrio.

Mal tocou a terra, já começou a levantar-se, mas a espada de vovó em seu pescoço a fez parar.

− Adeus, Adriane. Até nunca mais. – vovó murmurou, e, quando ia fincar a espada na Gnoma, algo aconteceu.

Eu, vendo a cena do ângulo que via as costas de vovó, vi um buraco se abrir na carne onde ficaria o coração, o sangue vertendo loucamente.

Gritei e senti ódio aflorar em meu interior quando o Arquidemônio dei-xou-se ser visível. A visão me levou para que eu pudesse vê-lo de frente.

O corpo de vovó caiu para o lado, e a mão ensangüentada do Arquide-mônio ficou à vista. Com o coração de vovó ainda pulsando em suas mãos. Berrei de desespero, ou ao menos tive essa sensação, ainda mais quando ele começou a comer o coração de vovó.

Estranhamente, Adriane parecia ficar mais fraca, até que gritou.

− O Pacto ainda não acabou! Minha vingança não está completa! – berrou, ao que o Arquidemônio sorriu, mastigando os últimos pedaços como se estivesse delicioso.

Eu vou te matar, Arquidemônio. Eu vou.

− Ah, está completa sim... Eurídice está morta, como você queria, e recebi meu pagamento: coração de uma Fada poderosa. Poderosíssima. Todo o poder dela vindo para mim... Ah, que lanche delicioso... – ele sorriu macabramente, e vi por um instante enquanto ele cortava a Teia que os ligava com um movimento de braço. – Tenho outros pactuantes com os quais me preocupar agora... Mas não ache que se livrou. Vou voltar cedo ou tarde para pegar sua alma... – ele virou-se e, antes de sumir, ainda riu-se – Isso se a família dela não te matar antes!

E sumiu.

E eu acordei.


Num reflexo automático pelo treinamento com Rashne naqueles meses, quando senti a mão de alguém se aproximar de minha cabeça, segurei seu pulso com força antes de olhar.

E, ao olhar, ali estava alguém que não me deixava dúvidas se tratar de uma Ninfa da Terra: uma Hamadríade, com um cabelo longo e cor de outono, olhos cujo tom era de folhas secas. A pele era castanha. Não morena, castanha mesmo, algo como o tom de pele dos Bolivianos. Traços suaves, imparci-ais e andrógenos, que me sorriram ao me verem acordar.

− Olá, jovem Fada. – ela abriu a mão cujo pulso eu segurava, e me deixou ver um pingente: o Olho de Hórus. Soltei seu pulso e peguei o pingente. – Você devia ter continuado a dormir.

− Eu não dormia. Via a morte da minha avó em algum outro lugar. – respondi, amarga. Mesmo comigo tecendo o Destino, vovó morreu. O único ponto positivo era que o pacto entre Adriane e o Arquidemônio estava completo até que ele reclamasse a sua alma. Mas eu daria isso e muito mais para ter vovó de volta.

− Sinto muito. – ela disse simplesmente, beijando minha testa, e então, sumindo de uma forma que não sei especificar, me deixando sozinha com minha angústia e o peso da responsabilidade pela morte de vovó.


Levantei-me pouco depois que a Hamadríade sumira, tentando reconhecer onde eu estava. Minhas coisas estavam em cima de um baú simples de madeira, e que dentro estava uma muda de roupas que me parecia ideal para lutar. Mas ignorei-a: eu lutaria com o vestido que as Aranhas me fizeram.

Peguei minhas adagas e meu colar, pendurando o Olho de Hórus no pescoço. Ele é ideal para batalhas. E eu sei que vou passar não por uma, mas várias. No mínimo duas.

Sai do quarto simples, encontrando um corredor comprido. Havia um ar de chácara no lugar, não sei por quê.

Segui pelo corredor, chegando à uma sala relativamente ampla. Estavam ali meu irmão e Despertador.

Corri em direção a Despertador e afundei meu rosto em sua juba, cho-rando silenciosamente, matando a saudade e amargando a perda.

Então, abracei Devon. Ele estranhou no início, mas devolveu o abraço

− Me desculpe, mas preciso ir sozinha. – beijei-o no rosto e então sussurrei um canto para fazê-lo dormir, antes que ele falasse qualquer coisa. O acomodei no sofá o melhor que pude. – Quer me ajudar a acabar com a vadia e com os malditos que mataram Vovó e tantas outras Fadas? – olhei para Despertador.

Seus olhos negros estavam sérios, e ele apenas levantou-se e andou na direção da porta.

Eu não precisava perguntar nada para ninguém. Despertador saberia para onde ir. E íamos acabar com os dois.


De fato, estávamos numa chácara. Um terreno de tamanho médio e de-fensível. Por precaução, cantei um encanto que deixou eu e Despertador imperceptíveis a qualquer possível vigia.

Depois de pegar certa distância da casa, parei numa planta que tinha três flores, abertas e viçosas, e saquei Savën.

Cortei a palma de minha mão e a estendi sobre as raízes da planta, apertando a mão de forma que o sangue escorresse e pingasse.

− Eu juro: pelo sangue de Aine, pelo sangue de minha avó, pelo sangue de meu pai, pelo sangue de minha mãe, pelo sangue de meu irmão, pelo sangue de todas as Fadas mortas, pelo sangue que corre em minhas veias: Adriane, Kai e o Arquidemônio morrerão pelas minhas mãos e vão pagar pelo que fizeram.

Tudo o que falei, falei na língua da Teia.

E quando terminei, as flores brilharam prata por um instante e o sangue sumiu, até mesmo o do corte, e as flores murcharam.

O juramento estava feito. Feito com magia.

Adriane ia me pagar por provocar a morte de vovó. E o Arquidemônio, por absorver seus poderes. E o Djin, por todas as Fadas que matara.

E eu saberia que minha vingança estaria completa quando as três flores renascessem.


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