23 janeiro 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 29: Tudo Culpa de Um Íncubus Idiota!

Fiquei por dois dias entre os Botos, mais meditando para ver se alcan-çava o Nirvana – mais pra ver se esquecia aquele monte de homem lindo ao meu redor do que por questões espirituais – do que praticando os feitiços de transformação em animais que Cairu tentava me ensinar. Pelo que entendi, os Botos podem se transformar em qualquer animal. Mas, preferem o boto cor-de-rosa, porque é mais fácil de ir até as cidades à beira do rio e conquistar jovens humanas de sangue puro e levá-las até suas tribos sem deixarem rastro, e a-cabou pegando o nome Boto Cor-de-rosa – bem, ao menos aqui no Brasil. Ne-nhuma mulher é obrigada a ficar. Pode ir embora quando quiser. Mas que mu-lher vai querer ir embora com tanto homem lindo ao redor, tratando-a como se fosse uma rainha?

Aliás, eles não são nativos daqui. Parece que os primeiros vieram lá das bandas de Israel – eles são nômades e lá eram chamados Mazikeen –, e passaram por vários lugares. Em cada lugar, eles ganhavam um nome diferente. E também tinham uma forma diferente. Mas sempre os mesmos olhos.


No segundo dia, perguntei sobre a existência de mulheres-boto. Cairu suspirou de um jeito entediado antes de me explicar.

− Houve um tempo em que houveram sim as mulheres que podiam se transformar em animais. Eram poucas, e eram belíssimas. Ocorriam guerras entre nós pelo direito de se casar com uma delas, isso supondo que ela escolhesse o vencedor. Um dia, enquanto estávamos na região hoje chamada França e nos chamavam Lutin, cansadas de viverem cercadas por guerras, elas se reuniram, pegaram as meninas pequenas e partiram para ninguém sabe onde. – ele deitou na grama e ficou brincando com um besouro que tinha pousado em sua mão. – Os humanos ainda não tinham descoberto as Américas, por isso achamos que elas estariam por aqui. Viemos, mas não encontramos nada. Procuramos muito, até que cansamos e decidimos viver por aqui mesmo; nos misturamos com os outros índios, e o que você vê hoje é o que sobrou de nós. Talvez tenha alguma outra tribo no mais profundo da floresta ou em outro lugar do mundo, mas não mantemos contato.

− E essa de raptar mulheres? – perguntei com bom humor, indicando que eu não os condenava, estava apenas curiosa.

− No começo, raptávamos qualquer humana bela que andava muito distraída, mas as crianças que tínhamos com elas não sobreviviam. Começamos a entrar em desespero conforme os mais velhos iam morrendo e não havia jovens para tomarem seu lugar, mesmo que nós vivamos muito mais tempo que os humanos. Houve casamentos com outras raças, mas acontecia a mesma coisa: ou ocorria um aborto espontâneo, ou a criança não passava do sexto mês de vida. – ele deu uma pausa e voltou a sentar. – Até que Anastásia chegou, muito tempo antes dos colonos. Ela era tão bonita... Sorria como a Lua refletida no rio, e os olhos brilhavam como folhas iluminadas pelo Sol... E tinha tanta bondade em seu coração... Ela nos ajudou. Suas visões lhe disseram que devíamos nos casar com mulheres completamente humanas, e sem forçá-las. E, por alguma razão que não entendemos, os meninos nascem completamente Botos, e as meninas, completamente humanas... – percebi que, ao falar de Anastásia, seus olhos brilhavam de lágrimas que lutavam para cair, mas que ele não deixou.

Eu sentia como se alguém me pressionasse a falar de minhas visões. Eu não queria, mas quando percebi, já desatara a falar.

− Eu tive visões suas e de Anastásia. Vocês lutavam contra vários seres de nosso mundo. E eu percebi os olhares que vocês trocavam... – dei uma pausa, e percebi que ele me olhava com certo assombro. – Vocês se amavam, não é? – aquilo soou mais como uma afirmação do que como uma pergunta, e quando percebi, Cairu já chorava e eu abraçara seus ombros, seguindo meus instintos de Fada, enquanto ele murmurava claramente em meio às lágrimas.

− Mesmo com o que ela falara, eu queria me casar com ela. Queria viver ao seu lado. Mas ela disse que não seria possível com a missão que ela tinha pela frente. Então, eu me juntei a ela e a ajudei em sua missão... Mas no final... Ela ainda morreu. Ela sabia que morreria no fim daquela missão, pois nenhuma das outras que nascera para ajudá-la conseguira sobreviver até o momento de se unirem... E ela precisou dar todo o seu sangue para impedi-lo... Eu ofereci o meu sangue, mas ela recusou. Disse que eu devia voltar e guiar os meus... Ela usou magia para me convencer disso... E quanto o feitiço deixou de ter controle sobre mim, já era tarde... Ela já tinha partido... – aquilo era mais do que eu esperava. Muito mais.

O que Anastásia enfrentara?

O que quer que fosse, a matou. Aquilo era muito mais do que os “E ela morreu” dos livros, mesmo que não explicasse muito bem. Só estava óbvio que ela enfrentara alguém e que, para vencer esse alguém, usou todo o seu sangue... Não sei se figurativamente ou não.

Quando Cairu se acalmou, eu o levei até a oca dele e o coloquei para dormir com um feitiço leve. Ele precisava descansar um pouco depois daquilo. Falar de Anastásia o abalou muito.

Assim que sai da oca, tive uma surpresa que por um instante eu não sabia dizer se era boa ou ruim.

Ver Rashne, Devon, Sammuel, Eshe, Papai, Vovó, Thaíze e Desperta-dor era muito bom. Mas ver a falta de paciência deles, agredindo com palavras os Botos – inclusive Vovó, para minha surpresa – passei a detestar que tivessem me achado.

Andei na direção do tumulto – pelo que percebi, eles estavam irritados porque os Botos não queriam falar onde eu estava – e, quando cheguei, as vozes se calaram. Notei alguns dos mais velhos – muito mais velhos, aliás –murmurarem algo e fazer algum sinal com as mãos que eu tive a sensação de que era um sinal de benção. Na minha direção.

− Tudo bem, Caeté! É a minha família, meus amigos e o meu namorado! – Caeté, agora eu sabia, era o irmão mais novo de Cairu e não chegou a conhecer Anastásia. Ele e os demais habitantes da tribo abriram espaço para que eu passasse, embora eu tenha percebido seu olhar ficar meio raivoso quando falei “namorado”. Ah neeem, ele TAMBÉM tá afim de mim? Que saco! Só pode ter relação com a história de Cairu e Anastásia! Pow, Botos e Fadas não têm atração natural um pelo outro! Aliás... Botos SEQUER aparecem nos livros, nem mesmo com os seus outros nomes... Talvez porque eles costumam se isolar dos demais... Ah, tanto faz.

Rashne se jogou para me abraçar, sorrindo de um jeito aliviado, mas eu recuei um passo, franzindo as sobrancelhas.

− Qual o problema? A gente veio te levar de volta. – ele perguntou, com um olhar interrogativo que me dizia claramente “Crise de Ciúmes” – eis um defeito, vive tendo as crises de ciúmes. Provavelmente ele só não me jogou nos ombros dele e me arrastou pra longe dali porque sabia que eu não ia deixar barato.

− Que jeito ignorante de agir é esse? – perguntei de forma neutra e géli-da. Papai tomou a frente.

− Eles são Botos, Stacy. Seqüestram mulheres para poderem continuar existindo. E eles te seqüestraram, mas nós viemos te levar, mesmo que te-nhamos de fazer isso por cima de cadáveres.

Olhei para meu pai com incompreensão, franzindo os lábios. Eu sabia que os Botos viviam em isolamento comparado aos outros povos, mas isso era ignorância demais.

− Eles merecem ser tratados com respeito como qualquer um. Se nós tratamos a Thaíze, que é uma Sereia, com respeito, e ainda demos a ela a nossa amizade, os Botos também merecem tal. – cruzei os braços e semicerrei os olhos. Eu sentia o poder queimando dentro de mim. É estranho, de uns tempos pra cá, ando tendo dificuldades de controlar minha essência. E também o meu gênio... Deve ser toda essa pressão com Aine e etc.

− Está vendo?! Eles já conseguiram te seduzir, LeavesEyes! Mas não se preocupe, quando te levarmos para longe, você vai ficar livre de sua influência! – Vovó tentou colocar a mão em meu ombro, mas afastei-a com um tapa.

− Eles não me seduziram, vovó. Salvaram a minha vida. – eu estava cansada de tanta ignorância. E sentia que, assim como quando eu descobrira a verdade por trás de Sammuel e Eshe virem para o Brasil, eu me sentia perdendo o controle e precisando gritar. Murmurei para Caeté avisar aos seus para tampar os ouvidos. Eles não mereciam me ouvir surtando. – DOIS DIAS ATRÁS, QUEM IMPEDIU A GNOMA DE CORTAR A MINHA GARGANTAR FORAM ELES! QUEM CUROU AS MINHAS ASAS QUEBRADAS, FORAM ELES! E NADA DISSO SERIA NECESSÁRIO PARA ME FAZER CONFIAR NELES, PORQUE HÁ TEMPOS TENHO VISÕES DE ANASTÁSIA LUTANDO AO LADO DE UM DE SEUS LÍDERES! ENQUANTO EU ENFRENTAVA A GNOMA E O DJIN APENAS COM A MINHA MAGIA E BERRAVA DE DOR, VOCÊS CONTINUARAM NAS CELEBRAÇÕES, COMPLETAMENTE BÊBADOS! – eu sabia disso porque tivera visões enquanto dormia que me mostravam eles bêbados. Infelizmente, parece que, como ninguém me conta porcaria nenhuma, tenho de ter visões pra saber o que está acontecendo e o que aconteceu. Ok, Rashne não estava bêbado, estava era morrendo de preocupação pela minha demora, mas ninguém ouviu ele, por isso eu falava pra todo mundo. – E NÃO ADIANTA NEGAR, PORQUE FORAM AS MINHAS VISÕES QUE ME CONTARAM! E agora, com licença, mas deixei um amigo dormindo sob efeito de um feitiço. – virei as costas pra eles e fui na direção da oca.

Pelo jeito, os berros surtiram efeito, porque eles se acalmaram imedia-tamente. Afinal, acho que ter voz de Banshee ajuda em algo...

Quando entrei na oca, tinha um velho ali, sentado ao lado de onde Cairu dormia. E, apesar da idade, ele era um velho bonito. Efeitos de ser um Boto, com certeza. Ainda assim, havia algo nele... Era como se aquela não fosse a forma real. Senti-me olhando para um Doppelgänger, mas não importava o quanto eu tentava descortinar a ilusão que era a transformação dos Doppelgängers, eu não conseguia.

Ele sorriu pra mim enquanto eu sentava do outro lado.

− Você lembra muito Anastásia, jovem. – ele falou, com um tom que me fazia pensar em avôs contando histórias para os netos.

− Mas eu sou uma Fada da Floresta, e ela era uma Fada da Cidade... – respondi suavemente, balançando a cabeça de leve, e ele sorriu mais ainda.

− Falo da personalidade. Ela também não suportava que agissem com ignorância para com os outros. E buscava aceitar todos como seus amigos. Como você, ela também teria berrado até que eles parassem de agir feito tolos aos seus olhos. – alguém entrou na oca, e quando olhei, eram aqueles que tinham vindo atrás de mim.

O velho Boto sorriu-me antes de sair com uma expressão neutra ao passar por minha família. Murmurei o contra-feitiço para fazer Cairu acordar, e falei para ele ir ver como os dele estavam depois do escarcéu. Ele sorriu-me tristonho e disse que os Botos estavam acostumados a serem tratados com tanta ignorância. Eu não concordo com isso. É errado. Ignorância não devia ser sinônimo de má educação.

Acomodei-me e fiz minha melhor carranca de mal humor. Eu estava de-terminada a não ser a primeira a falar algo. E não ia ser.

Primeiro, papai me pediu desculpas pelo modo como tinha agido. Ele sentou do meu lado e começou a falar.

− Desculpe, filha... Eu... Eu... preciso aprender a não ter preconceitos. Sua mãe não tinha, porque eu deveria ter? – ele sorriu de um jeito cansado, e eu aceitei as desculpas. Ao menos, ele admite seu erro. Mas lembrar de mamãe me fez sentir uma dor no peito provocada pela saudade. Ela com certeza saberia como agir melhor que eu.

Em seguida, Rashne me abraçou pelos ombros, mas continuei imóvel – o que era muito difícil, considerando a proximidade dele e o quanto eu o amava e estava com saudades.

− Desculpa, Stacy. Mesmo. Caramba, a gente ainda tá na primeira semana de namoro e eu já estou tendo crise de ciúmes! Desculpa, prometo que vou me controlar. – suspirei de modo derrotado. Eu sabia que não ficaria muito tempo irritada com ele. Na verdade, vai contra a minha natureza ficar irritada com alguém por muito tempo. Ao menos na maioria das vezes.

Abracei-o e então o beijei na bochecha.

− É bom se controlar mesmo. Homem ciumento só é fofo quando não estamos no meio de uma guerra. – o soltei, deixando-o sem entender muito – nem eu entendi direito o que falei, mas eu sentia que estávamos no meio de uma guerra, que acabara de começar e ainda duraria muito – e quase imedia-tamente Eshe estava sentado do meu lado, atropelando as palavras, até que Thaíze sentou do lado dele e segurou na sua mão. Eshe parou, respirou e falou.

− Me desculpe por não ter te contado o real motivo de estarmos no Bra-sil. Eu devia ter contado, afinal, você é uma das minhas melhores amigas. Es-pero que possa perdoar eu e Sammuel. – percebi que, apesar de estar afasta-do e aparentar não ligar para aquela comoção, Sammuel me observava atento e, se meus olhos e minha interpretação não me enganam, ele realmente estava arrependido por não ter falado a verdade.

Suspirei e abracei Eshe.

− Tudo bem. Só não faz mais isso comigo. É horrível ficar sabendo as coisas através de visões. – ele sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. – O mesmo vale pra você, ô criatura... – sorri para Sammuel, e admito que ver ele sorrir de leve quando falei fez eu me sentir mais leve.

Devon então se ajoelhou na minha frente e pegou as minhas mãos.

− Não vou me desculpar pela crise de ciúmes, afinal, você é, sempre foi e sempre será a irmãzinha que protejo com unhas e dentes. – aquilo me arrancou risos. Acho que não esperava nada diferente. – Mas peço desculpas por ter agido com tanta ignorância para com os Botos. Eles te salvaram e eu achando que tinham te seqüestrado... – ele sorriu de canto e então me abraçou.

Despertador se impôs para atravessar aquele tanto gente e me alcançar. Ele me cheirou por um tempo e espirrou quando cheirou as minhas asas, por causa do remédio que Caeté aplicou nelas, o que me fez rir e abraçar seu pes-coço com força, afundando minha cara em sua juba. Eu estava com saudades desse cheiro de casa e sensação de segurança que só minha Mantícora sabe passar.

Olhei então na direção de vovó. Ela apertou os lábios e saiu da oca, com uma expressão de desagrado. E acho que minha expressão era a mais surpresa possível.

Aliás, não só a minha, mas de todos, exceto papai, que suspirou.

− Sinto por isso, filha... – ele apertou minha mão, e então me virei para ele e perguntei de um jeito que provavelmente dava pena.

− Por que ela fez isso?

− Lembra que eu contei que fiquei muito tempo sem falar com sua avó, pouco depois que meu pai morreu? – eu balancei a cabeça afirmativamente. – Isso foi porque arranjei uma namorada Sereia, e sua vó nunca gostou dos não-humanos sedutores... Por isso dou graças à Deus que ela só descobriu que sua mãe era uma Vampira depois de morta. Essa Sereia era a bisavó de Thaíze, mas fiquem tranquilas por que não há chances de vocês serem parentes. – ele disse isso com um risinho, e eu e Thaíze suspiramos aliviadas quando ele disse que não tinha como sermos parentes. Thaíze seria o que minha? Sobrinha-neta? Muito estranho... Papai então voltou a ficar sério. – Como não gosta desses sedutores, ela tende a brigar com aqueles que lhe são queridos e “simpatizam” com eles.

Franzi a sobrancelha com a revelação. Eu nunca diria que vovó é desse jeito. Ela nunca agiu assim.

Mas, talvez, tenha acontecido algo com ela quando jovem que a faz ser desse jeito... Não sei o que, mas alguma coisa.

− Mas e a Alessa? – perguntei depois de alguns segundos, querendo desviar o assunto.

Devon sorriu antes de responder.

− Ela tecnicamente não é mais minha mestra agora que já passei pela prova, mas já arranjou uma Fada que tem aptidão para feitiços de teleporte, só que não teve a oportunidade de aprendê-los. Ficou pra convencer os pais da Fada para que deixem que aprenda com ela. – ele parecia orgulhoso da namorada.

Não sei por que, agora ela vai ter menos tempo pra ele... É, sou meio egoísta de vez em quando.


Voltamos para a clareira no mesmo dia. Vovó foi na frente, e não me olhou em momento algum.

Cairu anotou num pergaminho à parte os encantos de transformação – que depois iam para o meu livro de feitiços – me abraçou e desejou sorte no meu caminho, e eu desejei que um dia eles encontrassem as mulheres de seu povo. Mesmo. Eles merecem encontrá-las. Já Caeté apenas acenou de longe. Acho que ele estava chateado por eu não falar que tinha namorado... Ora, ele também não perguntou!

Os demais integrantes da tribo se despediram de mim com um carinho que eu não esperava de pessoas que eu mal conhecia. E os mais velhos continuavam fazendo aqueles sinais de benção em minha direção.

E achei estranho não ver de novo o Boto que estava na oca quando fui acordar Cairu...


Quando chegamos à clareira, vovó se afastou provavelmente para o próprio quarto e nos ignorou, me fazendo engolir em seco.

Uma hora eu teria de confrontá-la.


Ela tinha os olhos dourados, o cabelo cor de goiabeira, orelhas muito longas e feições delicadas e elegantes. Algo em seu olhar – talvez a luz ou o carinho – me fez perceber que se tratava da Gnomo Caçadora que me matara. Ela parecia... Feliz. Mesmo que suas roupas de uns dois ou três séculos atrás parecessem não deixá-la respirar direito...

Ao lado dela, estava um homem. Não, não era um homem. Algo nele di-zia que não era um homem normal, não apenas pelas ausentes Fatum – ok, isso só indicava que ele não era sangue-puro. Parecia... Quase como alguém que as mulheres sabem que não podem se aproximar, mas se aproximam as-sim mesmo, não por falta de aviso, mas porque é como se ele tivesse um ímã que atrai o sexo feminino, como mel atrai abelhas.

Constatei isso quando percebi que, mesmo se tratando de uma visão, o homem me atraia e muito. Dá pra acreditar?!

O tom dos olhos um tanto puxados como os olhos de um indígena era um castanho escuro e avermelhado e que, dependendo de como a luz batia, ficava de fato vermelho, acrescentando um jeito meio diabólico no sorriso. O cabelo curto e espetado conseguia ser mais escuro que o de mamãe. Talvez porque suas pontas brilhavam muito, como se fossem pontas de prata, criando uma espécie de halo brilhante ao redor da cabeça dele e intensificando onde era escuro. Tinha a pele morena de alguém do litoral, e apesar da camisa ser de manga comprida, era de seda branca e dava pra perceber que ele tinha músculos delineados. Não sei por que, mas ao olhar para seus olhos, me veio a denominação HoneyEyes. A cor nada tinha haver com mel, mas pareciam tão atraentes naquele rosto de traços que conseguiam ser suaves e fortes ao mesmo tempo, que era quase como o mel para as abelhas: irresistível.

Em suma: conseguia ser um mau caminho inteiro ainda pior que meu ir-mão, meu namorado e meus amigos.

− Adriane... Você é a minha vida. – ele disse e a beijou. E a Gnoma, com a face em chamas, apenas correspondeu, enlevada pela sensualidade da figura.

Chamas azuis se ergueram à minha frente e, quando abaixaram, pude ver de novo o estranho homem. Mas não era a Gnoma que o acompanhava.

Era minha avó! Mais nova, mas continuava sendo ela!

E parecia muito sem jeito com a insistência do homem. Tentava mover-se rapidamente para longe dele, mas as vestes do fim do século XVIII que tinha de usar para se camuflar entre os humanos não permitia que se afastasse ra-pidamente. O que o homem obviamente agradecia.

Fiquei possessa – assim como Eurídice – quando o homem a beijou a força. Mas aparentemente bastou para que ele a beijasse e minha vó ficasse mais calma. Quase como que anestesiada.

Franzi o cenho. O que esse homem é?


Quando a cena girou em remoinhos à minha frente, achei que fosse a-cordar, mas só o que apareceu foi minha vó e a Gnoma frente a frente.

− Sua maldita raça o tirou de mim! – Adriane berrou, praticamente cus-pindo na cara de vovó, que continuou impassiva.

Afe. Naquela época ela já era séria desse jeito...

− Ele a abandonou porque é um cafajeste. Todo Íncubus é, e você devia saber disso. – Opa... Íncubus?

É por isso que vovó tem tanta raiva dos não-humanos sedutores! Pudera, cair nas garras de um Íncubus...

− MENTIRA! Gustavo me amava! Não me abandonaria! Nunca! Mas a sua maldita raça tinha de me roubá-lo! – ela estava... Possessa. Não tinha pa-lavra que melhor descrevesse os olhos vermelhos de ódio e a carranca onde já tinha estado uma bela face. Era realmente a Gnoma tão alegre que eu vira? – Mas as malditas Fadas não perdem por esperar! Vou me vingar de todas! As malditas Fadas nunca mais vão roubar nada dos Gnomos! Gustavo foi a última coisa que vocês roubaram de nós! – com uma Palavra de Poder, Adriane sacou uma espada feita de ossos de suas costas – sinceramente, a cena me lembrou o Kimimaro de Naruto... – A COMEÇAR POR VOCÊ! – mas, sério, não sei o que as Fadas roubaram dos Gnomos. Foram ELES que começaram a briga com as Fadas com aquela história de Oberon e de Titânia, a primeira Banshee e irmã caçula de Aine.

Adriane avançou na direção de vovó, mas, cega de raiva como estava, não percebeu a intenção que vovó tinha de abaixar, desviando da lâmina e preparando um feitiço.

A espada cortou apenas ar. E quando a Gnoma percebeu, vovó já tinha lançado um jato de ácido na direção de seu rosto – vovó tem afinidade com um tipo de feitiço que não sei dizer exatamente o que é, mas está relacionado à lançar jatos de ácidos e etc.

Adriane foi ao chão, berrando de dor, a espada caindo ao seu lado e vi-rando pó sem essência que a sustentasse.

Vovó parou a sua frente, altiva e séria. Sinceramente...

Ela me dava medo.

− Ele te abandonou porque quis. E logo em seguida me abandonou, quando conseguiu o que queria. Não sofra por quem não merece seu sofrimen-to. – e então, virou as costas e partiu, deixando a Gnoma chorando de dor em silêncio.


Definitivamente, essa é a visão mais longa que já me acometeu. O lugar parecia não ter mudado – não que eu houvesse reparado ao cenário da visão antes. A Gnoma estava encolhida, o rosto escondido atrás das pernas, mas eu ouvia-a murmurando maldições, impropérios e xingamentos. Tudo mandado às Fadas.

Um homem aproximou-se pela escuridão e, quando saiu à luz, reconheci Kai. Continuava igual.

Ele se abaixou ao lado dela e colocou uma mão em seu ombro.

− O que se passa? Gnomas Caçadoras são as mais selvagens. Não choram por nada. – ele disse, e ela ergueu o rosto desfigurado pelo ácido. Ex-ceto pelos olhos, nada permanecera intacto. A pele estava repuxada, retorcida, cheia de fios de cicatrizes. E o ódio queimava no dourado.

− Não estou chorando. Estou amaldiçoando as Fadas. Estou cansada delas roubando tudo que nós, Gnomos, temos. Quero acabar com elas. Com todas elas. E para garantir que não voltem, vou acabar com Aine também. – ódio se derramava de sua voz como um veneno que volta a penetrar em você, não importa o quanto expulse. E a cada vez, ele fica mais forte e mais te enve-nena, num eterno ciclo vicioso. Ela só se contaminava mais ainda com o ódio ao nos maldizer. Ela me inspirava pena.

− Como pretende fazê-lo? – ele perguntou de forma doce. Estranhamen-te doce.

− Não importa como. Importa que vou fazê-lo. – ela disse, e ele balançou a cabeça negativamente.

− Você precisa de um plano, ou será esmagada, mesmo com todos os seus dons. – ela parecia incerta agora, uma dúvida em seus olhos.

− O que você quer? – perguntou desconfiada, e ele lhe estendeu a mão.

− Lhe ajudar. Afinal, as Fadas aprisionaram alguém que importa muito para os meus milênios atrás, e vem mantendo-o aprisionado ao longo desse tempo. Também tenho vinganças à realizar. – ele sorriu de um jeito diabólico, ao que ela retribuiu enquanto pegava a mão do Djin.


Dessa vez, quando fui jogada na realidade, os redemoinhos eram de Fogo e me queimaram.

Acordei prestes a berrar de dor, mas percebi que fora apenas mais uma visão – mais dolorosa que outras – e que o calor que minha cabeça interpretou como fogo vinha de Despertador, que apoiara as patas dianteiras no colchão e a cabeça em minhas pernas, a juba se espalhando desde meus pés até minha cintura, de tão comprida. Eu chutara o cobertor para fora durante a noite, e como minha Mantícora me conhece melhor que ninguém e sabe que eu acabaria acordando com dor nas pernas por causa do frio, viera esquentá-las.

Me sentei com cuidado, e acariciei Despertador até ele acordar. Ele me olhou com olhos sonolentos. Sorri-lhe e indiquei que podia ir dormir no canto do quarto preparado especialmente para ele, com cobertores, lençóis e uma enorme almofada de veludo.

Ele se afastou e eu puxei a coberta do chão para cima de mim e deitei, determinada a confrontar vovó no dia seguinte, dia 30, antes do Rito de Passagem.

Mas que droga! Vovó só agiu como agiu por causa de um Íncubus idiota que a magoou! Ah, se eu pego o fdp...


Capítulo Anterior                                    Próximo Capítulo