23 janeiro 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 27: Eu Odeio Djins e Gnomos, Definitivamente!

Devon já tinha saído, e eu estava expulsando Rashne do meu quarto para que pudesse me arrumar para as festas da noite – embora ele tentasse me convencer a deixá-lo ficar para me ajudar a me vestir, já que eu reclamava tanto daquelas roupas, mas não, obrigada.

Peguei Anoen e, no instante que o fechei em torno do meu pescoço, uma visão me arrastou.


O lugar parecia muito estranho. Não era como nenhum lugar que eu co-nhecia. O calor infernal me dizia que eu devia estar em algum lugar perto da linha do Equador.

Olhei ao redor, vendo uma espécie de cidade pequena. Percebi algumas crianças sorrindo enquanto mudavam cabelos, olhos, pele... Tudo. E eu soube que era uma cidade de Doppelgängers.

Comecei a andar, tentando entender o que Anoen queria que eu visse. E era estranho, porque raramente eu tinha essa liberdade de movimento numa visão...

Ouvi uma porta bater uma vez, e então de novo. Procurei a origem, e encontrei Sammuel andando rapidamente, com Eshe seguindo-o. Ou seja, es-tou na cidade onde o Clã Kamaria vive, antes de Sammuel e Eshe irem para o Brasil.

Aparentemente, Eshe estava curioso pra burro. Seu olhar delatava esse fato.

− Onde você vai? – ele falava na língua da Teia, os cabelos prata relu-zindo e colocando uma das mãos no ombro do mais velho.

− A Oráculo me chamou... Acho que pode ter relação com Hadassa. – ele parecia ansioso. Eu fiz o correto, empurrando-o para a Elfa, afinal. Olha só como ele fica só de pensar nela antes de me conhecer!

Eshe sorriu, falando então para ele ir logo. Segui Sammuel, certa de que a visão tinha relação com ele, embora a palavra “Oráculo” tenha me deixado atenta por causa da visão com o tio de Hadassa. Sei lá, tenho a impressão de que não vou com a cara dela...

Entramos numa casa de tamanho normal, por dentro e por fora. No exte-rior, era uma casa completamente comum, mas no interior, a história era outra. No instante que entrei, diversos cheiros enjoativos me atingiram, junto com uma sensação de divisão entre o mundo dos Vivos e dos Mortos quase inexis-tente de tão fina. Se eu já não estivesse numa visão, provavelmente teria sido levada pelas ondas do Mundo dos Mortos, presenciar alguma outra visão.

Dividindo a saleta de entrada do resto da casa, uma cortina de seixos de rio. Sammuel a atravessou e eu o segui.

Sentada no chão, em meio a almofadas de cores sóbrias e cercada de livros empoeirados, estava uma mulher de olhos cor de nada. Uma Doppelgänger, que pela pele enrugada, cabelo branco com algumas mechas de um vermelho quase apagado e muito baixa como se a gravidade a puxasse cada vez mais, a terra ansiosa por ter seus ossos entre ela, devia ser muito velha, ao ponto da idade interferir na aparência que ela tomava.

Ela apontou para as almofada a sua frente, e Sammuel sentou-se, es-tendendo-lhe as mãos com as palmas para cima. Quiromancia. Leitura de mãos. É necessário uma habilidade tremenda e um sangue mágico muito forte. Além de treinamento. Eu não me arrisco não, já me bastam as visões típicas...

A Doppelgänger seguiu as linhas com as longas unhas, murmurando consigo mesma.

− Vejo uma jovem na sua vida, rapaz. Uma Fada cujos poderes nunca irão despertar. – ela ergueu o rosto para Sammuel, sua expressão séria. – Ela correrá grande perigo. Você deve estar por perto e salvá-la, pois parte das li-nhas diz que vocês ficarão juntos. – ela sorriu levemente, de um jeito que me deu mais medo do que qualquer outra coisa.

− Se os poderes dela nunca vão despertar, ela nunca vai aprender a falar a língua da Teia, pois não poderão ensiná-la... Como poderei falar com ela? – ele parecia preocupado e muito, muito tristonho.

Mas vai te catar! Quer dizer que uma Doppelgänger caduca queria em-purrar o Sammuel pra mim?! Tenho certeza que tem mais mentiras que verda-des no que ela está falando!

− Não precisa ter pressa. Você ainda tem dois anos. Poderá aprender a língua dela antes.

Antes de Anoen me arrastar para algum outro lugar do passado, percebi Sammuel engolir em seco.


Devia ser o dia que Sammuel ia para o Brasil. As crianças Doppelgängers lhe abraçavam, despedindo-se dele. Pareciam ter carinho pelo Elfo.

Sammuel já ia entrar no carro que o levaria para o aeroporto mais pró-ximo, quando Eshe apareceu correndo, carregando uma mochila e uma mala de tamanho mediano. O Elfo parecia surpreso por ver o irmão caçula ali.

− Você não pode vir! A Oráculo foi clara! Eu devo ir sozinho! – Sammuel tentou impedir Eshe de colocar as coisas no carro, mas o Mestiço meteu o dedo no peito do Elfo.

− Eu vou, Sammuel. Há muito deixei de confiar na Oráculo.

− Mas...

− Sem mas, Irmão! – Eshe o olhou nos olhos, e vi uma sinceridade e força de vontade que eu raramente via – mais por ser ruim de observação que por qualquer outro motivo. Então, baixou a voz. – Eu tive uma visão, Sammuel. Não me pergunte por que, mas algo ou alguém queria me avisar do erro que é você ir sozinho. Essa Fada... Ela é importante. Não sei por que, mas é. E você não vai conseguir protegê-la sozinho. – Eshe apertou os lábios, a expressão num ultimato silencioso de que ia.

Sammuel suspirou.

− O que você viu? – perguntou, entrando no carro, seguido do irmão.

− Vi o Djin que vem matando Fadas preparando-se para matá-la. – ele olhava pela janela para a paisagem.

− Como tem certeza que era ela?

− Você estava morto aos pés da Fada. E ela chorava. Muito.

Eles ficaram em silêncio, e eu engoli em seco, enquanto os redemoinhos que tinham me levado até ali girassem no sentido contrário e me devolvessem ao quarto.


Pois é, o futuro mudou bastante com as minhas decisões...

Mas...

Eu tinha de falar com Sammuel e Eshe. Ter certeza que aquela visão era coisa da minha cabeça.

Afinal, Eshe nunca mentiria pra mim. É meu melhor amigo.


− Eshe! Sammuel! – os encontrei numa das mesas onde os que não estavam a fim de dançar se reuniam para jogar ou simplesmente conversar e comer. Exceto por Thaíze, só eles estavam ali.

− Tudo bem? – Eshe foi o primeiro a se levantar e já andava na minha direção, quando o parei com um sinal de mão.

− Tudo bem. Exceto que eu tenho uma pergunta... O que vocês vieram fazer no Brasil, antes do Djin começar a atacar aqui? – procurei dar a minha voz um tom sério, sóbrio e do tipo “Responde ou vai se arrepender”.

Percebi ele e Sammuel engolirem em seco, enquanto o último se levantava e respondia.

− Já dissemos. Rumores...

− ... de um Lobisomem. Já ouvi essa história. Se fosse verdade, vocês à essa hora estariam caçando meu antigo professor de Geometria, que, aliás, foi quem me deu os brincos que agora são de Hadassa, e Malë. – percebi Eshe prender a respiração. Ele já deve ter sacado que eu tive uma visão. – Eu tive uma visão. Uma visão onde uma Doppelgänger velha e caduca disse que as linhas nas mãos de Sammuel falavam que íamos ficar juntos. E outra onde Eshe falava que tinha tido uma visão onde Kai se preparava para me matar com Sammuel morto aos meus pés. – Eshe soltou a respiração e se deixou cair no chão, de um jeito tão desconsolado que me deu pena, mas logo Thaíze estava do lado dele, abraçando-o.

Sammuel respirou fundo várias vezes antes de responder.

− Desde que te vi, soube que, de algum jeito, você era importante. E eu comecei a gostar de você, mesmo me sentindo culpado por causa de Hadassa, mas eram as palavras da Oráculo. Eu devia respeitá-las. Mas quando seus poderes despertaram... – ele respirou fundo novamente e me olhou, de um jeito que me pareceu misturar assustado com extasiado. Meio estranho. – Você exalava poder. Ainda exala. Alguns capazes de ver as essências, como eu, podem ver sua essência te rodeando à trinta centímetros de distância da sua pele, brilhante e densa. No momento, fiquei assustado... Afinal, a Oráculo disse que você nunca ia despertar seus poderes... Mas percebi que realmente nunca teria despertado seus poderes se não fosse por mim e por Eshe. – ele se apoiou contra a mesa. – E então, quando eu estava começando a aceitar o que acontecera, você me deu aquele fora, e então conheceu Rashne... Eu percebi que não teria chance alguma, mas não entendia, afinal, a Oráculo dissera...

Nesse instante, eu explodi. Estava cansada dessas visões se metendo na minha vida. Cansada de Oráculos – e olha que só “conheci” uma. Cansada de, a cada passo, a cada piscar de olho, descobrir mais mentiras me rodeando. E todo esse cansaço me deixava com raiva.

− ESQUECE ESSA MALDITO ORÁCULO, SAMMUEL! – ele me olhou, os olhos arregalados. Talvez porque eu raramente gritava por estar com raiva... A música tinha parado, e todos nos olhavam, mas eu não ligava. Eu tinha sur-tado! – ELA FOI COMPRADA PELO TIO DA HADASSA PRA MANTER VO-CÊS AFASTADOS! NÃO ME PERGUNTE O MOTIVO, POR QUE NENHUM RAIO DE VISÃO ME MOSTRA OS PORQUES, SÓ O QUE OCORREU! – eu sabia que a Oráculo comprada era a mesma da visão do tio de Hadassa por-que Anoen me sussurrava isso, docemente. – A ÚNICA COISA QUE SEI É QUE ALGUÉM TEM MOTIVOS O BASTANTE PRA NÃO QUERER QUE MEUS PODERES DESPERTASSEM POR CAUSA DE ALGUM FILHO DA MÃE QUALQUER QUE VAI DESPERTAR E NÃO DEVERIA, MAS QUE EU SOU CAPAZ DE IMPEDIR! – parei por um instante, antes de voltar a falar, buscando colocar toda a raiva que sentia no momento nas minhas palavras. – Eu tinha o direito de saber a verdade! Apesar de tudo, somos amigos! Caram-ba, eu fui Juradora da Hadassa no seu casamento! – e então, me virei para Eshe, ainda dominada pela raiva. – Eshe... Você é o meu melhor amigo! Por que não me contou?! – dei as costas para eles. – AO INVÉS DISSO, TENHO QUE ESPERAR A BOA VONTADE DE ANOEN PRA SABER QUE TUDO QUE MEUS MELHORES AMIGOS FALARAM É MENTIRA! – virei o rosto para eles. – Não falem mais comigo até eu estar pronta pra perdoá-los. – procurei dar um tom gélido a minha voz tremida. Aliás... Eu toda tremia. Raiva corria em cada célula de meu ser.

Antes de começar a andar, olhei para eles com descrença. Sabiam o que eu era desde o início. Sabiam que eu era “importante”. E mesmo depois de descobrirem porque eu era importante – embora agora eu ache que tem mais coisa –, continuaram mentindo. Continuaram não me falando a verdade.

Por um instante, senti pena de Eshe, que chorava agarrado a Thaíze – ele era meu melhor amigo e eu tinha acabado de gritar com ele por que ele não me falara a verdade, talvez estivesse se sentindo culpado, e por um momento quis andar até ele e falar que o perdoava. Mas lembrar que ele era meu melhor amigo e ainda assim, mentira pra mim, me fez virar as costas e começar a andar, ignorando meus instintos de Fada.

Talvez eu esteja fazendo tempestade em copo d’água, mas tanto como odeio ser falsa, odeio que mintam pra mim. Prefiro verdades que machucam, a ser iludida por mentiras.

Respirei fundo, enquanto continuava a andar em direção às árvores. Mais senti do que vi meu namorado se aproximando. Ele notara meu estado de espírito e pretendia me acalmar com sua aura de paz – eu sentia isso –, mas apertei o passo.

− Não, Rashne. Dessa vez, tenho de me acalmar sozinha e enfrentar meus próprios demônios. – falei, percebendo ele respeitar meu desejo e me deixando seguir sozinha por entre as árvores.

Essa é uma de suas qualidades. Ele respeita aquilo que queremos. Sempre.


Andei sem rumo certo por muito tempo. E quanto mais andava por entre o meu ambiente natural, mais calma ficava.

Quando a névoa de raiva se dissipou de minha mente, achei o caminho familiar. Familiar demais.

Xinguei quando reconheci o caminho que eu percorrera em tantas vi-sões, sabendo que no final dele eu encontraria a Gnoma Caçadora que me matara.

Me virei para voltar por onde tinha vindo, mas ali estava Kai, me olhando de modo raivoso e impedindo o caminho. Olhei por sobre meu ombro e ali estava a Gnoma.

Definitivamente, odeio Djins e Gnomos.


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