02 janeiro 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 26: "Eu Te Amo"

Com a minha vitória, as provas estavam encerradas. Rashne me arrastou para sentar perto dele, e suspirei aliviada quando os olhares dos garotos e das garotas não demonstravam o mesmo de antes. Nada de ambição ou raiva. Apenas... Respeito?

Isabel foi até o centro da arena, e percebi ela sorrir para mim carinhosamente antes de começar a falar.

− Eu saúdo Stacy por ter tido a coragem de não tirar a vida nem a sanidade do Trol que enfrentou, pois bem sei que foi algo difícil para ela, considerando o sangue Vampiro que também corre por suas veias! – reparei os olhares surpresos que se dirigiram para mim, mas eu, cansada daquilo tudo, apenas me escondi nos ombros de Rashne, que me abraçou, embora meio surpreso. – E agora, o momento que todos nós aguardávamos... Aine de Knockaine, amada rainha, por favor, apresente-se para os mais jovens de nosso sangue!

Eu esperava que Aine saísse da plataforma, mas o que ocorreu surpreendeu todos os novatos.

A Fada da Cidade que eu vira fazer crescer aquela enorme árvore, levantou-se, e conforme andava em direção à arena, como que areia brilhante foi caindo de seu corpo, revelando uma mulher de aparência austera e sábia, com metade dos cabelos permanecendo cinza-chumbo e um dos olhos cinza-concreto, a outra metade do cabelo tal como o meu e o outro olho verde-folha, a pele tingida da cor das árvores, mais alta do que qualquer Fada presente, esguia e altiva, com grandes e delicadas asas avermelhadas saindo das omoplatas. Seus traços, agora que eu a via claramente, sem uma névoa típica das visões, eram uma mescla do delicado com o forte de forma equilibrada, dando-lhe o ar de alguém com milênios de vida e sabedoria, que já vira muito e estava preparada para quase tudo. E, ainda assim, havia carinho e doçura naqueles traços. Ela devia ter tomado alguma poção para alterar sua forma temporariamente.

Engoli em seco.

Ela me dera todos os meus poderes. Aine me fizera quem eu sou.


Vovó ria, enquanto falava que Aine sempre surpreendia a todos, fazendo-se passar por um dos novos Fadas. Para sentir-se mais perto de seus filhos, segundo ela.

A visão onde ela me chamava de filha fazia todo o sentido. Como sendo dela que as Fadas se originaram, todos nós devíamos ser como filhos para ela.

Meu coração parecia querer saltar do peito, mesmo com toda a energia de paz e calma que Rashne fazia se infiltrar em mim. Eu tinha medo do que ela falaria quando eu fosse chamada para ficar diante dela.

E eu sabia que eu seria a última a ser chamada. Éramos chamados pela ordem que foi feito o sorteio.


Quando Isabel me chamou, engoli em seco, antes de me levantar e andar até o meio da arena, onde Aine continuava de pé desde o início da cerimônia. O crepúsculo já coloria o céu, e ela dissera palavras carinhosas e encorajadoras a todos. Mas isso não me impedia de ter medo do que ela falaria.

Como a tradição mandava, me ajoelhei e me inclinei até a testa encostar no chão, erguendo as omoplatas para que minhas asas se destacassem. Para a maior parte desde que houvera a mescla de sangue humano e sangue de Fada, o gesto era apenas algo simbólico que dizia algo como “Minhas asas estão submissas à ti”, mas, para mim, era pra valer. Se Aine não me considerasse digna, ela tinha posição privilegiada para arrancar minhas asas. Vovó dissera que isso nunca fora feito, nem nos tempos mais remotos, quando asas ainda eram nossas marcas registradas, mas, nunca se sabe.

Primeiro, ela tocou no topo de minha cabeça, para que eu a olhasse. Então, ela me segurou pelos ombros e me fez levantar junto com ela. Sorria magnificamente com os lábios de cores que ficavam se alternando.

Então, ela começou a falar em alto e bom som. Eu torcia para que ela não o fizesse, mas, então me toquei que, se ela fizera com todos os demais, por que não comigo?

− Stacy Greeneyes! Filha de uma Vampira e de um homem do povo das Fadas! Provou grande coragem ao enfrentar um Trol, e mais coragem ainda ao, estando dentro de sua mente, não a destruiu! Mas antes mesmo mostrou coragem por enfrentar um Djin – nesse instante, percebi uma onda de espanto e alguns burburinhos – para salvar seus amigos! Foi morta por uma Gnomo Caçadora que não queria vê-la entre nós, mas seus amigos provaram que a amavam ao trazer seu espírito e sua alma da dimensão dos mortos antes que encontrasse seu caminho, porque ainda não era sua hora! E deixou Elfos de queixo caído ao ser convidada pela agora esposa de um de seus amigos para ser sua Juradora durante o casamento! Alguém aqui nega seu valor?! − ninguém falou nada. Apenas me olhavam de um jeito espantado. Olhei para meus pés, sentindo meu rosto ficar quente com tanta atenção. Não estou acostumada a ter tanta gente me olhando com algo que não seja raiva. Aine então me fez erguer o rosto, se inclinou e beijou minha testa, uma onda de energia, força, magia e, principalmente, essência ancestral se espalhou por mim. Era a benção de Aine. Fora assim que vovó chamara. E então, ela me olhou nos olhos, sorrindo suavemente. – Você me honra, filha minha. – ela disse, e eu engoli em seco mais uma vez.

Outra visão cumprida.


Me olhei no espelho mais uma vez, apertando os lábios numa fina linha. O vestido que vovó providenciara para as festas era muito bonito. Tinha os tons suaves de azul das minhas asas, com bordados verde-folha como meus olhos e broches laranja com brilhos vermelhos, que era como meu cabelo estava agora. O vermelho se transformara em ruivo, com algumas mechas vermelhas e laranjas intrusas. Mas continuava a mesma droga indomável, embora hoje ele tenha acalmado um pouco, me permitindo prendê-lo num firme e estranho rabo de cavalo.

Eu até que estava bonita. Algo como beleza típica das Fadas. Mas eu não conseguira arranjar coragem para sair do quarto.

Devon já saíra, para se encontrar com Alessa, mas eu não conseguira sair da frente do espelho. Tinha medo. Não que me coroassem a mais horrorosa da festa ou qualquer coisa do tipo. Mas medo da forma como me olhassem depois de tudo que Aine dissera a meu respeito durante a cerimônia que se encerrara durante o pôr-do-sol. Já devia ser lá pelas nove da noite e o som da festa que se desenrolava onde antes era a arena me alcançava: música e risos. Seria uma semana disso, até depois da virada do ano.

Puxa.

Falta mesmo só uma semana pro ano acabar?

Alguém bateu a porta, e franzi as sobrancelhas ao ir abri-la. E fiquei sinceramente surpresa ao encontrar Rashne.

Ele sorriu meio sem jeito, o rosto um pouco vermelho, me estendendo a mão como quando nos conhecemos: um convite mudo para acompanhá-lo até a festa e dançar com ele. E aquele gesto fez todo o medo sumir. Me fez sentir como se eu pudesse suportar tudo, desde que ele estivesse ali para me ajudar a me levantar se eu caísse.

Sorri, segurando sua mão e me deixando guiar para fora da casa, notando que ele usava apenas uma calça roxa de cetim com um cinto do mesmo tecido azul-marinho, braceletes dourados e uma corrente com o pingente de Grifo. E que, em suas costas, resplandecia a tatuagem de asas.


A música tinha ares celtas e irlandeses. Ares de nossa terra natal. E então, enquanto dançava com Rashne de um jeito que me lembrou quando nos conhecemos, eu notei algo sobre aqueles que habitam meu mundo.

Somos como os Judeus eram antes de Israel ser formada. Somos ovelhas desgarradas e espalhadas pelo mundo, longe de nossas raízes. E que, alguns poucos, ainda podem se reunir em algum lugar e lembrar dos tempos antigos, como fazíamos naquele momento.

Eu queria que durasse para sempre. Dançar com Rashne pelo resto de meus dias, sentindo seu cheiro adorável que eu nunca conseguiria associar à nada. Sentir o calor de seus braços quando me abraçava, aliada à sua aura de paz, que sempre me acalmavam, embalada pelas músicas de meu povo, sabendo que aqueles que eu amava estavam bem...

Eu queria que fosse para sempre aquela festa alegre.


O dia amanhecia quando a música começou a morrer e as Fadas a se dispersarem em grupos numerosos e que se apoiavam uns nos outros, cantando ainda, e bêbados por causa de uma bebida semelhante à Favrë, mas que não deixava ninguém com força de gorilas adultos ou qualquer coisa assim, o que era um alívio, além de nos deixar bêbados de uma forma diferente, porque não tinha álcool. Não tenho ideia de como ficávamos bêbados então.

Pulei nas costas de Rashne feito uma criança travessa, abraçando-o pelo pescoço e fazendo ele enrolar minhas pernas com os braços e me carregar nas costas para que eu não caísse – admito que eu era uma das que estava meio bêbada. Não é minha culpa se a bebida ainda tinha sabor de chocolate com hortelã! Rashne não reclamou, apenas riu enquanto me levava para o lugar onde meu quarto ficava.

Durante o caminho, não avistei ninguém do meu grupo incomum. Pensando bem, tudo que estava a mais de um metro de distância estava dobrado, triplicado, borrado... Um monte de “ados”. E ainda sorria de um jeito meio bobo, eu e o Fravartin que eu praticamente obrigara a me carregar, falando besteiras mútuas.

A casa estava vazia-vazia-vazia. Nem sinal de Fadas. Rashne me levou até o quarto onde eu estava, onde desci das costas dele. Abri a porta e vi que o quarto estava vazio – ok, Despertador estava lá, dormindo no canto dele. Sorri maliciosamente tentando imaginar onde Devon e Alessa tinham se escondido para alguns momentos a sós. E então, me virei para Rashne, para me despedir e agradecer pela carona, já que eu não acreditava que fosse chegar ali pelas minhas próprias pernas inteira... Provavelmente, chegaria pior do que depois da minha luta com o Trol.

Mas fiquei quieta ao ver que ele estava vermelho, e, aparentemente, nervoso, já que ficava mexendo no cabelo lindo dele a toda hora. Acho que ele queria me dizer alguma coisa... Já percebi esse tique dele. É uma de suas escorregadas em relação a demonstrar sentimentos!

− Bem... Stacy... Eu... – então ele colocou a mão nos bolsos e tirou dois colares. Um era uma corrente normal com um pingente que se completava com o pingente do outro colar, que era uma gargantilha. Os pingentes eram metades de um círculo liso e perfeito de safira – eu acho que era safira – preso num círculo perfeito de ouro, com os nossos nomes gravados no dourado, o meu no da corrente e o dele no da gargantilha. – Eu... Queria falar que... – pelo jeito, faltava coragem, então, decidi dar um empurrãozinho – que com certeza não teria sido dado se eu estivesse completamente sóbria...

Coloquei um dedo sobre os lábios dele, vendo-o ficar feito um tomate de tão vermelho, mas fazendo-o parar de gaguejar sem sentido também. E então, dei um selinho nele e o vi ficar pálido. E sorri de forma encorajadora. Eu nunca teria dado um selinho nele se estivesse sóbria... Mais por falta de coragem do que de vontade... Enquanto ele começava a falar, o rosto voltou a ficar vermelho, mas ele conseguiu manter a língua sob controle.

− Lembra de quando eu te ressuscitei? – até demais. Principalmente do beijo... Acenei com a cabeça. – Depois que eu te beijei... Eu não fugi porque não gostei do beijo ou qualquer coisa parecida... – huummm... Ok, então foi por quê? – É só que... Eu já sabia o que sentia por você, mas ainda não sabia se era sério ou apenas algo de momento... E eu queria ter certeza, pra não acabar machucando a mim ou, principalmente, você, como eu sei que Sammuel acabou fazendo. – Ok. Estava tão na cara que fiquei arrasada quando o convite pro casamento chegou? – Agora, tenho certeza do que sinto e do quero... E tenho que falar com você. E, por favor, seja sincera.

Ele ficou um tempo olhando para mim, os olhos brilhando de um jeito indecifrável para minha parca habilidade de observação – que estava ainda mais afetada por causa da bebedeira –, e colocou uma mecha rebelde que se soltara do rabo-de-cavalo atrás da minha orelha. Um de seus gestos fofos que entregam como ele se sente.

− Eu te amo, Stacy. E eu queria saber se você está disposta a dividir sua vida comigo, disposta a viver ao meu lado, por quanto tempo nossos corações mandarem.

Prendi a respiração inconscientemente.

Ok, Stacy, respira. Isso passa bem longe do que você esperava.

Aliás, o que você esperava, mesmo? Não faço ideia.

Ousei um pouquinho na hora de dar minha resposta. Efeito da bebida, deixo bem claro.

Mas minha resposta seria sincera. Desde que Thaíze falara aquilo antes de pegar o avião para Manaus, eu pensava comigo mesma se valia a pena continuar meio que sofrendo em silêncio por Sammuel. Não tive oportunidades de interrogar aquela Sereia maldita como eu queria, mas aquilo bastou para que eu refletisse sobre o que sentia sobre Rashne, principalmente as sensações que ele me despertava – isso inclusive rendeu uma página ou mais em Teorias, falando cada uma das qualidades e cada um dos defeitos dele e minhas reações quando olhava/falava/me aproximava dele.

O jeito como ele fazia meu coração disparar quando chegava perto demais para corrigir minha postura durante um treinamento de batalha. A forma como eu me arrepiava quando ele murmurava no meu ouvido a pronúncia correta de algum feitiço. Quando eu ficava louca de vontade de me atirar em seus braços e beijá-lo quando ele elogiava algum êxito meu. E quando eu olhava para aqueles olhos azuis de céu de verão, eu tinha certeza de que o amava. Eu amava tudo nele! Qualidades e defeitos!

E quem só pode chegar à conclusão que ele só tem qualidades, eu digo, ele tem sim defeitos. Eu que “enalteço” as qualidades...

E quais os defeitos?

Talvez o fato de ele adorar falar sobre carros. Ok, isso não é exatamente um defeito, mas eu prefiro motos. Carros são muito apertados na minha humilde opinião! E ficar ouvindo ele falar sobre carros é uma chatice... Ah sim, a mania de falar frases de duplo, triplo e etc sentidos... Sério, é um saco. E o que mais irrita mesmo é que ele VIVE falando coisas de duplo sentido, mas é só uma máscara pro fato de que ele não sabe falar dos próprios sentimentos... Ou não tinha ficado tão sem jeito pra me pedir em namoro. Simples assim.

Fiquei na ponta dos pés – posso ser alta, mas ele é mais ainda, lembrem-se disso – e o abracei pelo pescoço, o forçando a se inclinar na minha direção, enquanto sussurrava no seu ouvido.

− Aceito, Rashne. – ri suavemente quando senti ele ficar tenso e um arrepio percorrê-lo. Vingancinha por tudo que ele já me fez.

Deixei que ele soltasse meus braços dele, ficando de frente àquele Fravartin que eu gostava demais. Rashne então colocou a corrente em minhas mãos, enquanto colocava a gargantilha em mim – situação que eu me aproveitei para beijar o pescoço dele enquanto estava com seus braços rodeando meu pescoço para fechar o colar, e rindo maliciosamente quando ele ficou tenso. Eu ainda estava bêbada, lembre-se disso!

Assim que ele se afastou, como se alguém tivesse me dito que eu devia fazê-lo, passei a corrente ao redor do pescoço dele, mas ele não deixou que eu me afastasse, me abraçando pela cintura de modo que eu acho que era... Possessivo? É, acho que era isso mesmo, para então me beijar.

Outro defeito na lista: ele é possessivo. Mas não reclamo muito não... Como disse, eu amava tudo nele: das qualidades aos defeitos... Pra mim, amor é um sentimento que significa amar qualidades e defeitos. Não apenas qualidades. Senão, não é amor, mas uma forma deturpada... Enfim, o fato é que quando amamos de verdade – e eu via aquilo agora que tinha admitido meus próprios sentimentos pra mim mesma – os defeitos não importam muito, desde que saibamos que estão ali.

Rodeei seu pescoço e então me entreguei àquele beijo que era uma mescla de carinho e cuidado.

Tão diferente dos beijos que eu e Sammuel trocamos... E muito melhor, também.


No dia seguinte, acordei deitada em cima de Rashne, no meu quarto. Não, seu bando de pervertidos, não aconteceu nada demais. Eu podia estar bêbada, e apesar dos atos um pouco mais ousados, minha memória está perfeita e lembro bem de que estávamos ambos morrendo de sono e insisti para ele dormir ali, já que provavelmente nossos irmãos estariam ocupados no quarto dele – ou talvez não, mas meu argumento venceu e é isso que importa. De todo jeito, com Despertador ali por perto, Rashne não teria chance de tentar algo mais ousado que uns beijos – aquela Mantícora podia não ter tanto ciúmes com ele, mas não duvido que avançaria do mesmo jeito se fossemos além dos beijos.

Mesmo assim, não era isso que Devon achava, considerando a forma como nos acordou com seus berros. A nossa sorte é que Alessa estava ali para apontar para nossos colares e começar a explicar algo que meu cérebro ainda mais dormindo do que acordado não conseguiu entender direito – era algo como “prova de amor eterno” e “destinados um para o outro”. Não fiz muito esforço pra tentar entender. Só abracei o pescoço de Rashne e forcei ele a voltar a deitar, murmurando um quase ininteligível “Volta a dormir e esquece. Crise de ciúmes de irmão mais velho”.

Não durou muito. Os berros de Devon atraíram papai e a gente teve de acordar e levantar para enfrentar a crise de ciúmes do meu velho.

Que saco.


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