02 janeiro 2012

Teorias de Conspiração - Capítulo 24: Amigas, Amigas, Melhores Amigos À Parte

Pouco depois que Hadassa terminou de me ajudar com a roupa, Thaíze saiu do boxe, vovó logo depois, entregando-nos nossas armas – a de Thaíze é um facão que parece de açougueiro feito de oricalco, com o punho de prata, e a lâmina só aparece quando ela vai lutar: ideal pra andar por aí. Prendi as bainhas das minhas adagas por baixo da saia, embainhando as adagas e pendurando Anoen no pescoço, e então observei as duas.

Thaíze usava uma saia verde−água de um tecido vaporoso e semitransparente que ia até o joelho, com muitas conchas penduradas em correntes de prata, com um top de tecido semelhante, mas menos transparente, com alças feitas de conchas coloridas, colares e pulseiras de oricalco, o cabelo com cor-rentinhas de conchas penduradas. Ela estava muito bonita, apenas destacando mais sua natureza de Sereia. Já vovó usava um vestido frente única avermelhado, com uma capa mais escura caindo da alça, e jóias de prata com pingentes de esmeralda. Ia até os pés, com caimento suave, leve e solto. Ela também estava muito bonita.

Comparei eu, com minha juba e meu corpo tábua, com as outras três, e me senti uma batata entre rosas. Sou uma ameba comparada à elas... Cheia dos poderes, mas feia. Algo assim.

Vovó saiu, falando que ia ver se precisavam de ajuda na cozinha, e Thaíze falou que ia ajudar na decoração – embora eu achasse que ela ia atrás de Elfos para “laçar” alguns. Eu também já ia sair pra ver se podia ajudar em algo, mas Hadassa segurou meu ombro.

− Por favor, Stacy. Me faça companhia. – sorri amarelo, enquanto nos sentávamos em meio às almofadas coloridas do pavilhão. Eu não tava afim de pegar no batente, mesmo... – Ainda falta meia hora para o casamento começar, e se eu ficar sozinha, sei que meu tio vai voltar pra tentar me convencer a não casar com o Sammuel. – ela realmente parecia preocupada com isso.

Vovó me disse que é o homem mais velho da família da noiva que celebra o casamento entre os Elfos. Ou seja, o tio da Hadassa. Pelo que percebi, ele não ficou feliz com a decisão dela, embora eu ainda não tenha entendido a minha visão. Tenho a sensação de que ele é capaz de fazer qualquer coisa pra tentar impedir esse casamento se deixarem.

Mas eu não vou deixar. Não vou deixar um cara qualquer estragar a felicidade do Sammuel. E nem da Hadassa, porque ela é uma pessoa muito legal, saquei isso no pouco tempo que nos conhecemos.

Começamos a conversar, e descobri muita coisa sobre Hadassa e Elfos no geral – mais do que com Sammuel, aquele idiota que foge de tudo que pergunto. Por exemplo: as Elfas preferem lutar com armas e acrobacias do que com feitiços e encantos, que os Elfos preferem. Ela até me deu umas dicas de como manejar melhor minhas adagas, inclusive a idéia de colocar contrapesos nos punhos! E que as Elfas mais velhas medem habilidades entre si numa luta para decidir quem possui o direito de liderar a família! É meio complicado a sociedade élfica, então vou parar por aqui, já que nem eu entendi direito...

Fiquei muito surpresa quando ela disse que entendia porque Sammuel se sentiu atraído por mim, independente de eu ser ou não uma Fada, porque, segundo ela, eu era bonita do meu jeito.

A meia hora voou enquanto conversávamos, até que uma Elfa entrou no pavilhão, sorrindo e falando que o casamento ia começar.


Rashne estava do meu lado, como na visão, e segurava minha mão levemente, mais para sinalizar que estava ali do meu lado do que qualquer outra coisa. Ele estava muito gato, usando roupas típicas de Fravashis: uma calça roxo-forte um palmo abaixo do joelho e meio larga , uma cimitarra – que eu enfrentara em treinamento com minhas adagas – presa por um cinto de tecido azul-crepúsculo que também prendia a camisa verde-água de mangas abertas desde os ombros, presas por braceletes dourados, e um tipo de “colete” de couro aberto. A camisa fechava num estilo tipo kimono, e deixava boa parte do peito dele exposto. Contra a pele levemente morena, se destacava o pingente de grifo, o favorito dele. Ooooo lá em casa... Por que que eu ainda fico sofrendo pelo Sammuel?

Eu e o resto de minha família estávamos ao redor da plataforma circular, exceto vovó, que como uma das pessoas mais velhas no casamento, tinha lugar de honra na plataforma – como na minha visão –, junto com os parentes mais velhos dos noivos. Da parte de Sammuel, só havia Eshe no casamento. Parece que a mãe dele acabou de dar a luz – mais um “Heavenlost” pra me encher a paciência – e não poderia viajar. Não, eu não sabia que ela estava grávida até Eshe falar que tinha ganhado um irmãozinho, hoje, no carro.

Aliás, falando no Eshe, ele estava do outro lado, com Thaíze do lado grudada nele feito um carrapato. Ele usava uma calça comprida azul-marinho com um manto aberto preto que ia até o chão. E, detalhe, estava sem camisa – o que para uma Sereia feito a Thaíze já basta como afrodisíaco.

Devon, Alessa e papai estavam alguns metros distantes de mim e de Rashne. Ela usava uma saia aberta dos dois lados roxa, com uma camisa se-melhante a de Rashne, só que bem menos decotada, mas ainda mostrando as tatuagens de símbolos mágicos que cobriam seu tronco. Devon estava do seu lado, usando calças azuladas e largas com um tipo de túnica que eu não saberia descrever nos mesmos tons. Papai usava uma roupa similar, mas de tons de areia.

Cada qual usava roupas típica de seu povo. E eu achava fascinante isso.

E então, pássaros diversos começaram a cantar, não uma canção específica, apenas cantar, como quando acordamos junto com o nascer do sol. Os Elfos – que sorriam muito – abriram dois caminhos que ficavam um de frente para o outro e iam até a plataforma.

E então, Hadassa veio andando por um dos caminhos, com passos leves, a voz de bem-te-vi acompanhando os pássaros, um andar de guerreira graciosa tal qual o que as Elfas aprendem. E pelo outro caminho, vinha Sammuel, com porte imponente e guerreiro, mas com um olhar de feiticeiro, sereno e calmo, com um profundo brilho de felicidade, com uma túnica azul-celeste com diversas faixas penduradas na túnica e no cinto de tons diversos de azul e que, conforme ele andava, a impressão era de que ele “chovia”.

E então, quando eles ficaram frente à frente na plataforma, os pássaros pararam de cantar, a noite caiu por completo e chamas encantadas acende-ram-se por toda a clareira. Os noivos fizeram uma reverência um para o outro e então para os convidados que estavam na plataforma.

E então o tio de Hadassa começou a falar, na língua da Teia.

− Meus caros Elfos, Fravashis, Fadas, Sereias, Ninfas e Mestiços. É com grande prazer – ele NÃO tentou esconder o desagrado por estar fazendo aquilo. Tanto no jeito de falar como na expressão em sua face isso ficou claro. – que nos reunimos aqui para honrar essa união que, mais do que a união de duas almas que se amam, representa a aliança entre os clãs de ambos. Como nenhum ancião do clã do noivo está aqui para honrá-lo... – nesse instante, vovó o interrompeu.

− Eu estou aqui para honrá-lo. Sua madrasta é uma de minhas amigas mais antigas e à quem considero uma irmã de sangue. Tenho certeza de que ela estaria aqui se pudesse, mas, em sua ausência, considere-me como membro de seu clã. – uau. Por ESSA eu não esperava. Por isso ela ficou tão tran-quila no dia em que descobri o que sou, quando eu disse com quem estava comigo. Ela SABIA quem eles eram e que podia confiar neles. E, pelo jeito, tirando meu pai, não fui a única a ficar surpresa.

E para o tio de Hadassa, parecia que ele tinha levado um tapa. Ele a olhou de canto de olho com um jeito cuja sua intenção era repreendê-la por interrompê-lo, mas o olhar que ela devolveu foi tão gélido que pude perceber ele engolir em seco lentamente, como se algo muito amargo escorresse por sua garganta.

Me lembrem de NUNCA irritar vovó de verdade.

− Pois bem, temos alguém de seu clã para honrá-lo. Hadassa, Sammuel, podem chamar aqueles que vocês julgam serem dignos e capazes de fala-rem as palavras certas que digam aquilo que vocês sentem e seus juramentos um para o outro. – Hadassa comentou comigo sobre essa parte. Os noivos escolhem alguém – geralmente um parente muito próximo e amigo – que irá falar aquilo que eles juram um para o outro. Essas palavras devem, ao mesmo tempo, dizer o que o noivo sente pelo outro. Pelo que entendi, os Elfos julgam que dessa forma o juramento é o mais sincero possível. Eles se chamam Juradores ou algo assim.

Sammuel chamou Eshe quase imediatamente, o que não me surpreendeu. Já Hadassa, parecia indecisa.

Seu olhar passeou por entre os convidados de honra, pelos demais convidados e então, parou em mim. Ela sorriu abertamente e me apontou.

− Stacy Greeneyes, Fada da Floresta. Por favor, me dá a honra de ter você como minha Juradora?

A surpresa foi geral. Eu mesma fiquei meio “Hã? Como? Quando?” quando ela disse essas palavras. Primeiro, que muito raramente os noivos chamam alguém que não seja parente, ainda mais de outra raça. Segundo, isso definitivamente não estava em nenhuma de minhas visões. Era algo completamente novo. Eu fiz alguma coisa que mudou o futuro, que agora é presente, e não sei o que foi.

Depois de alguns segundos em estado catatônico, senti Rashne me enviar um pouco de sua calma, apertando minhas mãos levemente para me passar coragem. Realmente, me enchi de coragem, respirei fundo e sorri.

− Será uma honra ser sua Juradora, Hadassa. – e então, subi para a plataforma e parei ao lado da noiva.

Como a tradição mandava, o Jurador do noivo começou. Eshe falava calmamente, mas pelas poucas vezes que enrolava a língua, era possível perceber que não fora ensaiado.

− Hadassa, Elfa Sangue-puro do clã Harahel. À você, meu irmão jura que jamais deixará de amar, não importa quantas Fadas apareçam à sua frente – trocamos um olhar divertido, apesar de nossas faces continuarem compenetradas – pois o que surgiria não seria tão forte e sublime como o sentimento que os une há tanto. Jura que, assim como a salvou da morte por um Elemental irritado, continuará salvando-a, não importa do que. – informação nova: Sammuel salvou a vida da Hadassa. – E, acima de tudo, que nunca irá desampará-la ou abandoná-la, não importa que tempos virão.

− Eu aceito seu juramento. – Hadassa disse, e então, Eshe beijou-a no rosto como a tradição élfica ditava.

E então, era a minha vez. Todos me olhavam com expectativa, e fiquei meio minuto calada, pensando, completamente sem inspiração.

E então, vi o olhar do Elfo que celebrava o casamento: um olhar de quem torcia muito para eu tropeçar.

Sorri suavemente e com confiança antes de falar, mais inspirada que nunca.

− Sammuel, Elfo Puro-sangue do clã Kamaria. – lembrei-me de uma conversa com Eshe. Ele dissera que era esse o nome de seu clã de Doppelgängers. Percebi vovó, Eshe e Sammuel sorrirem por eu me lembrar. – À você, minha amiga jura que será fiel e que jamais o abandonará, não importa o quanto lhe insistam para fazê-lo, justamente porque o que sente por você é algo que Deus colocou em seu coração e que Freyr, o pai dos Elfos, fez que se tornasse ainda mais forte. Acima de tudo, jura que permanecerá ao seu lado não importa quantos séculos se passem, e que, por honrar aquilo que sentem um pelo outro, continuará não deixando que interfiram na vida que irão partilhar, como não deixou que interferissem até hoje. Porque o que Deus uniu, ninguém na Terra pode separar. – fiz questão de olhar para o tio de Hadassa nessa parte, e percebi ele engolir em seco mais uma vez.

Mexe com quem tá quieto pra você ver o que é bom pra tosse.

Sammuel ficou mudo por um momento, antes de sorrir e falar.

− Eu aceito seu juramento. – Hadassa cochichou rapidamente que eu deveria abraçá-lo, ao que fiz imediatamente. Aproveitei para sussurrar algo no ouvido dele.

− Vê se não deixa outra Fada turvar sua cabeça. Vocês foram feitos uma para o outro. – percebi ele rir de leve antes de nos afastarmos.

E então, todas as atenções se viraram para aquele que celebrava o casamento. Ele não fazia questão de esconder seu desgosto, e então começou a falar, tentando – inutilmente – disfarçar a raiva.

− Se ambos aceitam os juramentos, e que não exista viva alma presente que acredite haver motivo para tais juramentos serem falsos... – o silêncio era palpável, e os Elfos sorriam. Pareciam aguardar o que viria depois com ansiedade. − Em nome das Valkírias, de Freyr e de Deus, eu declaro realizada a união entre clãs através de Sammuel e Hadassa. – ele amarrou uma corrente de prata em torno dos pulsos dos dois.

Sammuel e Hadassa se abraçaram com força, e então, os Elfos ao redor atiraram um pó brilhante, fino e gélido nos noivos.

− Pó de diamante. Para abençoar a união com a dureza e a beleza desse mineral. – Eshe sorriu, antes de descer da plataforma.

Rashne logo estava ao meu lado, rindo e elogiando o meu “discurso” antes de me puxar para baixo, para que nos uníssemos aos Elfos na festa, afinal, música começara a tocar e Ninfas a servir comida e bebida.

Percebi o tio de Hadassa se afastar da celebração, e fiquei imaginando se ia encontrar o Elemental estranho da minha visão.


Eu já tinha dançado um bocado. A maior parte das músicas, Rashne e Devon me tiraram pra dançar. Foi engraçado ficar intercalando os dois e reparar no olhar enciumado de Devon e de papai enquanto eu dançava com Rashne.

Mas estranhei que não vi Thaíze “catando” uns Elfos por aí – o que é típico dela – nem Eshe.

Ok, eu sei que ela estava um carrapato com ele desde que os apresentei... Mas isso está muito suspeito.

− Vou atrás do Eshe e da Thaíze, ok? Esse sumiço dos dois está me preocupando... – me virei para vovó, que estava – para minha total surpresa e alarde – sendo cantada por um Elfo do time dos “anciães” e flertando junto. Ela só acenou um positivo.

Ok, festas de Elfos mexem com os neurônios de todo mundo, à ponto da minha avó estar flertando.


Enquanto buscava o “casal desaparecido”, encontrei Despertador. Ele estava sentado bem onde a floresta começava, observando a escuridão que estava logo ali do lado. E percebi que fora naquela direção que o tio de Hadas-sa fora. Me abaixei ao lado de minha Mantícora, olhando a escuridão com ela.

− Você está percebendo algo, não está? – perguntei para Despertador, e ele me olhou, uma espécie de sorriso se rasgando em sua face. – Não deixe os monstros interromperem esse momento de felicidade. – falei brincando, beijando a ponta de seu nariz, para então voltar a caçar Eshe e Thaíze.


Alguém-me-mate. Eu não acredito no que estou vendo!

Argh! Tenho de furar os meus olhos depois dessa!

Thaíze e Eshe ocultos por uma árvore grande pra burro num lugar bem afastado da festa. Se agarrando. Eu não sei dizer onde está um e onde está o outro. É... Nojento vendo daqui. Falo daqui porque sei que o dia que arranjar um namorado provavelmente vou ficar do mesmo jeito. Mas mesmo assim... Nojento.

O que aquela Sereia desgraçada pensa que está fazendo, CORROMPENDO meu melhor amigo?!

− THAÍZEEEEEEEEE!!!!!! – eu realmente assustei os dois quando me joguei para separá-los, gritando o nome da Sereia. Resultado: fomos os três parar no chão, numa confusão de braços e pernas. – O que você PENSA que está fazendo com o meu MELHOR AMIGO?! – fiz questão de segurá-la por um de seus colares e puxá-la para me encarar.

Thaíze parecia sinceramente atordoada e meio perdida. Pra falar a ver-dade, acho que ela estava realmente gostando daquele amasso com o Eshe. E Sereias nunca gostam de algo de fato. É mais fácil o mundo acabar.

− Calma, Stacy... – Eshe murmurou com um tom assustado, tentando me acalmar. COMO ME ACALMAR QUANDO TINHA UMA SEREIA TE A-GARRANDO PARA DESPEDAÇAR O CORAÇÃO DO MEU MELHOR AMIGO EM SEGUIDA?!

Eshe colocou uma das mãos no meu ombro enquanto me fazia soltar o colar de Thaíze e me levantar.

− Por isso você estava tão interessada em saber sobre o Eshe quando viu aquela foto na minha casa... Queria corrompê-lo. – murmurei, raiva escor-rendo pelas minhas palavras. Eshe ajudou Thaíze a se levantar, enquanto eu os encarava com uma expressão de “Expliquem-se.”

A Sereia suspirou antes de falar.

− Tem uma imagem tão ruim assim ao meu respeito, Stacy? – ela per-guntou, um tom magoado na voz.

− Você nunca me deu motivos para achar outra coisa. – respondi. – E a sua raça também não. – complementei, fazendo-a fechar os olhos e suspirar de novo.

− Sereias não são tão más e corações de gelo como as lendas dizem. Nós também amamos. – ergui uma sobrancelha, descrente. Qualquer coisa relacionada a “amar” não estavam entre as que eu esperava ouvir Thaíze dizer. Não se tratando dela mesma. – Eu sei que você sempre me viu pegando tudo quando é homem bonito... – cruzei os braços, esperando a conclusão. Eshe nem falava. Provavelmente não tinha ideia do que falar para defender Thaíze, embora ficasse ao lado dela de forma protetora. – Eu realmente gosto do Eshe. Além disso... – mas não foi ela que completou. Foi Eshe. E eu juro que vou furar meus tímpanos!

− Nós estamos namorando, Stacy. – meu melhor amigo disse de forma pausada e clara. Ele e Thaíze entrelaçaram os dedos das mãos.

Meu Deus do céu...

O mundo virou de cabeça pra baixo.

Só pode.

Thaíze namorando, e o meu melhor amigo! Isso porque eles se conheceram HOJE!

Não to me sentindo bem...

Emoções demais para um único dia. Definitivamente.


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