15 dezembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 22: Mais Estranha Que O Normal

Sentei num pulo assim que acordei, olhando ao redor, ainda com a visão fresca em meus olhos. Eu piscava e via a silhueta da cena da luta e o corpo da Fada no chão.

Em seguida, apalpei minha barriga, sentindo debaixo do tecido da roupa limpa cheirando a amaciante, gaze onde os ferimentos deviam estar. Mas não doía.

E então, percebi Rashne, ajoelhado ao lado da cama, as mãos apoiadas no colchão, os olhos firmemente fechados e murmurando algum feitiço incansavelmente. Não me dei ao trabalho de tentar traduzir.

− Rashne? – sussurrei, tocando um de seus ombros. Ele abriu os olhos imediatamente, e assim que me viu, soltou uma exclamação que presumi que era de felicidade, sentou na cama num pulo e me abraçou com força, apenas tomando cuidado com as minhas asas.

Uau. Sinceramente, não esperava essa reação.

− O que aconteceu? – Perguntei quando Rashne se afastou um pouco, me olhando de um jeito que me parecia quase fascinado. Sorria suavemente, mas o sorriso morreu quando ouviu minha pergunta.

Respirou fundo antes de responder.

− Você morreu, Stacy. Por duas horas, talvez mais. Quase não consegui chamar sua alma de volta para o corpo há tempo. Só Deus sabe o que você viu na dimensão dos Mortos enquanto esteve lá... – e então, ele me abraçou de novo.

Deixei que ele me abraçasse, um tanto surpresa, e só consegui ficar preocupada quando os papéis se inverteram. Ao invés de ser eu com o rosto escondido em seu pescoço, chorando e sendo consolada, era ele quem chorava. E de modo quase desesperado misturado com alívio, devo destacar.

− Shhh... Calma... – eu tentava fazer Rashne parar de chorar, mas parecia impossível – cadê meu instinto de Fada nessas horas? Até que o segurei pelos ombros e o afastei. Ver a face dele toda molhada, com o Kohol típico dos seus um tanto borrado – o que era meio estranho – me assustou um pouco... – Rashne... Tudo bem?

Ele sorriu levemente antes de responder.

− Melhor agora. – ele acariciou minha bochecha, me deixando muito vermelha e sem jeito. Caramba, porque homens me afetam tanto?! Ou melhor: por que ELE me afeta tanto? – Pensei que sua alma já tivesse encontrado um caminho que seguir...

E então, pra me deixar mais sem jeito do que nunca – não sei se isso era possível, mas vai saber – Rashne prendeu meu rosto entre suas mãos e me beijou. Devo ter ficado tão vermelha quanto Eshe quando faço insinuações sobre a Lobisomem chamada Phelan, sentindo o gosto salgado de lágrimas se intensificar. Rashne voltara a chorar.

Ele se afastou e então me abraçou com força, como se quisesse ter certeza de que eu não sumiria de repente. Percebi também ele aspirar com força, como que querendo guardar o meu cheiro ou ter certeza de que sempre estaria com ele. Alguma coisa desse tipo.

− Achei que tinha te perdido pra sempre... Que... – ele se afastou e ficou me olhando, mudo, como se as palavras tivessem entalado na garganta. Então foi a vez dele ficar vermelho, enquanto se levantava correndo. − ... E... Fico feliz que tenha ouvido meu chamado. Vou falar pros outros que eles podem vir ver você... Estão bem preocupados. – ele saiu, me deixando no vácuo, limpando o rosto com a manga da blusa preta.

Será que eu tô tão feia assim depois de ressuscitar e ele se assustou? É a única explicação razoável que encontro pra ele ter ficado desse jeito... Ok, mesmo assim, ele ter me beijado foi estranho...

O estranho mesmo é que, apesar do beijo ter um quê de desespero e tristeza por causa das lágrimas, foi muito melhor do que os beijos que eu e Sammuel trocamos. Como se... Ah, sei lá.

Não demorou muito, Despertador irrompeu pelo quarto, feliz e saltitante, pulando em cima de mim e lambendo minha cara, me fazendo rir. Thaíze entrou em seguida, me abraçando pelo pescoço e quase me enforcando.

− Sua Fada Maldita! Nunca mais me assuste desse jeito! – eu percebia em sua voz estridente e afinada de Sereia a preocupação. Ela saíra do litoral e chegara aqui rapidamente pra vir me ver? Uau. Embora provavelmente alguém tenha ido buscá-la, litoral pra Sampa em duas horas é impossível... Achei que ela fosse era ficar feliz com isso, sem uma Fada desafinada pra atrapalhar a vida dela.

Mas retribui o abraço.

Mesmo que ela fosse uma Sereia Patricinha e vagabunda, eu me afeiçoara a Thaíze. Ela é legal quando quer. Ela ter ido me ver me deixou feliz.

Sinceramente, era minha única amiga. Sério. De todos aqueles que considero meus amigos, é a única que é uma garota e tem a mesma faixa de idade – pode não parecer, mas Alessa tem por volta de cinqüenta anos. Não consigo conversar normalmente com ela, mesmo que ela venha a se tornar minha cunhada... Sei lá, acabo vendo uma senhora de idade, daquelas velhinhas legais que a gente vê em filmes... É estranho, porque o mesmo não acontece com o Rashne que tem mais ou menos cem anos... Talvez porque ele seja muito gato.

Assim que Thaíze me soltou, secando delicadamente e disfarçadamente uma lágrima que insistia em querer cair do seu olho, tomando o devido cuidado pra não borrar a maquiagem, Devon e vovó me sufocaram. Sério! Eu não sabia como era a sensação de ter ar em meus pulmões por alguns instantes!

− Stacy?! Você está bem?! Pelo amor de Deus, diga que sim! Diga que toda a sua alma está de volta, que não ficou pedacinho nenhum perdido! – vovó olhava meu rosto, apalpava minhas mãos, meu pescoço, enfim fez uma inspeção geral, enquanto lágrimas que presumi serem de alegria escorriam por seu rosto. – Ah, minha neta! – em seguida, ela me abraçou com força, junto com Devon. Hei! Acabei de ressuscitar, já tão querendo me matar de novo?!

− Nunca mais nos assuste desse jeito, sua... Sua... – Devon sequer conseguia pensar em algum nome-piadinha para mim no momento. Eu só percebia a emoção e a força que ele fazia para não chorar através de sua voz.

Ahhh...

Por um instante, achei que nunca mais fosse sentir todo esse calor hu-mano que sinto do lado da minha família.

Uma pena que a mamãe não tenha como estar aqui e papai ainda esteja na Irlanda... E Eshe e Sammuel. Só faltam eles pra esse momento ficar melhor do que já está.


Fiquei uma semana parada, Teorias. Não porque queria – eu queria manejar logo minhas lindas adagas! – mas Rashne me proibiu de levantar da cama − segundo ele, porque, apesar de parecer tudo bem, meu corpo ainda estava meio instável por culpa do tempo em que minha alma ficou vagando.

Mas pelo menos eu pude aproveitar pra praticar minha gramática da Língua da Teia, estudar mais um pouco da história de meu mundo, tentar a-prender mais sobre os seres e decorar fórmulas de feitiços, e símbolos e movimentos, dependendo do tipo de feitiço.

Só algumas notas do que descobri lendo e interrogando a Alessa – já que o Rashne tem evitado falar muito comigo depois da ceninha quando res-suscitei:

=> Nunca, jamais, devo fazer um trato com um Dragão. Eles até podem estar extintos – ao que tudo indica – mas aquela história de que eles gostam de garotas virgens é real. E não sei se é coincidência, mas parece que eles têm preferência pelas Fadas ou pelo menos com ascendência do meu povo...

=> Ahriman é tão fdp quanto Prince of Persia Prodigy mostra. Ele até pode estar aprisionado junto com a maioria de seus Azuras, Daevas, Djins e Efreets, mas é por culpa dele que Ahura-Mazda está adormecido. Aliás, o Kai deve ser velho pra burro, porque faz milênios que Ahriman foi aprisionado, só um Djin ou outro conseguiu se livrar e os Daevas não se deixam enganar tão facilmente faz tempo. Aliás, Efreets também já foram pessoas normais tipo eu. Eles surgem quando um Elemental é possuído por um Daeva. Elementais e Daevas são poderosos por natureza, e quando um Elemental é possuído, o resultado é um ser muito powerful. Além disso, os corpos dos Elementais são mais fechados que os dos demais seres, o que faz com que as tatuagens para impedir o Daeva de sair não sejam necessárias. E pronto! Temos um Efreet! Poderoso pra burro e que domina a consciência Daeva, a do Elemental sendo destruída! Com Djins, as consciências se mesclam, mas o Daeva geralmente quer sair... É meio confuso, mas, enfim...

=> Ahura mais Ahura igual à Ahura. Ahura mais Fravartin igual à Fravar-tin. Fravartin mais humano igual à Fravartin ou meio-Fravartin. Ou seja: o gene de Ahura é Recessivo e o de Fravartin é Dominante. Por isso temos tão poucos Ahuras! E não, não temos meio-Ahuras.

=> Fravashis controlam o espaço. Ahuras, o tempo. Ahura-Mazda, os dois. Quando criou os Ahuras e Fravashis, deve ter pensado “Melhor dividir de forma igual... Tanto poder pra uma criança só não daria certo...”. Realmente, porque filhos de Ahura e Fravartin só controlam um ou outro, nunca os dois. Sei disso porque Alessa disse que o pai do Rashne é um Ahura, e a mãe deles é uma Fravartin.

=> Por incrível que possa parecer, já existiram Salamandras – Elemen-tais do Fogo – e outros seres relacionados com o Fogo com capacidade de controlar a Água, e seres e Elementais relacionados à Água com capacidade de controlar o Fogo. Todos eram muito pirados e loucos das idéias segundo os livros.

=> A variedade de demônios que existem é enorme, tanto que não tem nomes em inglês o suficiente para todos. Aliás, a maioria nem nome tem. Qua-se como com os Duendes, mas isso é um caso à parte...

=> A maior parte dos Antigos caíram por causa de armadilhas armadas por outros seres e seus líderes, e alguns poucos por humanos. Fenrir, o primei-ro Lobisomem, é um exemplo. Ao contrário do que foi difundido para proteger a reputação dele, não foram os “deuses” nórdicos que o aprisionaram. Aliás, não tinha nada com nada essa de que ele devoraria Odin – o pai das Valkírias, a raça de mulheres guerreiras e que p uma das mais próximas da humana. Foi um grupo de Vampiros e Súcubos enxeridos que o aprisionou – parece que Lilith e Drácula queriam acabar com a origem dos Lobisomens, mas não deu muito certo... Ninguém conseguiu soltar ele ainda. Aliás, sequer sabem direito onde ele foi aprisionado... Parece que a ilha é encantada e fica mudando de lugar... Se é que é uma ilha.

=> Loki, o primeiro Doppelgänger, nunca foi aprisionado. Ele só tomou um chá de sumiço quando começaram os rumores de conspiração por parte dele. Ninguém tem idéia de onde ele está, se é que ainda está vivo... E os ru-mores de conspiração nunca foram confirmados.

=> E essas agora são umas perguntas minhas: Se Ahuras controlam o Tempo, Fravashis o espaço... Será que alguém controla as dimensões – e eu sei que tem mais de uma por causa da Dimensão dos Mortos? Quem foi o pri-meiro Dragão? Dragões foram realmente extintos? Tenho minhas dúvidas... E por que cargas d’água a Thaíze tem me perguntado tanto sobre o Eshe depois de ver uma foto dele que tava no meu quarto?!

Ganhei mais um pingente! De Ankh, cruz egípcia. Ideal para feitiços de cura! Mas nenhum passa meu Olho-Que-Tudo-Vê. É o meu favorito. Ok, só tenho dois pingentes até agora...

Meus sonhos com o índio estão mais freqüentes. E mais violentos. Nun-ca apareço neles, mas eu vejo uma Fada da Cidade com ele sempre, mane-jando Fëna e Savën e com Anoen no pescoço. Muito bonita e poderosa, com longas asas de tons de marrom saindo das costas. Será que ela é Anastásia?

Só sei que eles pareciam extremamente próximos e, porque não, apai-xonados? Ao menos é o que seus olhares mostram.

Esses sonhos possuem um ar de antiguidade, quase como se tivesse se passado muito tempo e eu contemplasse as memórias de alguém. Eles enfren-tam tudo: gente possuída pelos mais diversos demônios sem matá-las, Djins, seres que acho que são Efreets... Tudo, percorrendo um corredor tomado por plantas trepadeiras, pó e insetos mortos e vivos que parece não ter fim, e mesmo com tudo isso, as paredes são de um branco imaculado.

Mas além desses sonhos, apareceram outros... Parece que minha apti-dão para visões por ser Fada se intensificou depois que morri e voltei a viver.

Estou caminhando por um lugar que parece ser a rua da minha casa. Mas na casa ao lado não vive Thaíze, e onde devia ser a minha casa, os muros são brancos e não salmão. Paro na frente do vidro da porta-balcão da varanda e observo o quarto. E então, uma garota pára na minha frente, de uns dezesseis anos. Uns quinze centímetros mais baixa, cabelos compridos e castanho-médio e olhos castanho-escuro, muito branca e fofa. Ela sorri para mim, com os olhos e com os lábios.

E então, acordo.

Não sei por que, mas apesar de eu e a garota sermos completamente di-ferentes, tenho a impressão de que somos muito parecidas. Estranho, eu sei.

Tenho a impressão até mesmo que ela me conhece melhor do que qual-quer outra pessoa.


Parei de escrever quando Thaíze irrompeu no quarto feito um tsunami, agitando um envelope preto com desenhos e letras em tons metálicos feito uma criança. Ai! Pára de pular e girar, tá me deixando tonta...

− Que raios aconteceu, Thaíze?! – berrei quando percebi que ela não falaria sem um “pequeno” incentivo. A Sereia parou na hora, respirando rápido. É, estou aprendendo a controlar minha voz. Agora não temos mais danos cerebrais permanentes quando grito...

− Acabou de chegar esse convite do Sammuel! – ela realmente estava histérica – aliás, quando ela não fica histérica, afinal, é uma Sereia Patty? – quando me estendeu o envelope.

Assim que o abri, senti uma ponta de vertigem. Ainda bem que estava sentada na cama.

Ali estava, o convite para o casamento de Sammuel e Hadassa, dali a dois meses, em primeiro de Dezembro.

Oh shit... Pensei que esse fantasma já tivesse desaparecido.

− Me leva, por favorzinho?! – Thaíze se ajoelhou em cima da cama e fi-cou com as mãos juntas como se estivesse orando. Ergui uma sobrancelha com a cena. Thaíze não orava. Estava entre as criaturas mais descrentes que já conheci.

− Por que você quer tanto ir? –meu tom de voz não negava que eu esta-va muito desconfiada com aquela história.

Thaíze ficou mexendo no cabelo por um tempo. Lambeu os lábios. O-lhou pra cada canto do meu quarto. E só então ela respondeu.

− Sua vó tava contando que a gente tem de chegar um mês antes do encontro com Aine por causa de algumas tradições... – ela disse “a gente” por-que faz parte da tradição nossos mestres se apresentarem junto. Ou algo as-sim, vovó não explicou nada direito. – E como o casamento é primeiro de De-zembro... Pensei que pudéssemos ir ao casamento e de lá para onde vão ser as festas...

Ela tinha razão. Podia estar muito estranha, mas tinha razão. Valia a pe-na fazer o que ela sugerira. Economia de tempo.

− Tá bem, Thaíze, eu te levo... – girei os olhos, e Thaíze me agarrou pelo pescoço.

− Eu te amo, Stacy! – Ela gritou com sua voz aguda de Sereia, bem perto do meu ouvido – acho que agora sei como as pessoas se sentem quando berro – e então deu um beijo estalado na minha bochecha.

− Larga! – depois de brigar um pouco, consegui fazer Thaíze me soltar – ela estava me sufocando! Estava vermelha, mas sorria demais.

Essa Sereia está me escondendo alguma coisa... Ela tá mais estranha que o normal...

Tenho de pensar num presente de casamento pro Sammuel e pra Hadassa...

Ah, dane-se! Tenho dois meses ainda!


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