28 novembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 19: Sereias São Legais!

Ai meu Deus eterno! Teorias, juro que vou enlouquecer! Jurojurojurojuro!

Por algum acaso você tem a resposta de por que um ser – porque ele não é “apenas” um cara, isso é óbvio – como o Rashne iria, sem eu ter que ameaçá-lo, ser tão prestativo e me ajudar com feitiços de teleporte e, ainda por cima, me ajudar a manejar as adagas decentemente? – coisa que, aliás, é bem mais difícil do que parece quando não deixo a magia nelas se manifestar...

Eu juro que piro se ele entrar de novo pela porta da minha casa pra me ajudar! – mais do que já pirei, detalhe.

E o pior é que parece que EU NÃO PROGRIDO MAIS!

Não desde a primeira vez que tentei teleportar uma caneta de dentro do meu quarto pra minha varanda... De primeira, fiz a caneta ficar presa no vidro, como se tivesse sido colocada ali enquanto ele era feito. Ficou muito... Estra-nho, sério. Mas Rashne começou a rir e me abraçou pelos ombros – tive uma vontade danada de agarrar seu pescoço e beijar aquela boca linda de tom pró-ximo ao da pele, mas me agüentei –, falando que eu era promissora, já que a maioria não consegue fazer a caneta se afastar nem dez centímetros do sím-bolo na primeira vez.

E acho que ele mexe muito mais comigo do que o Sammuel fazia – já deu pra perceber pelo tanto de taradices que penso com ele por perto...

Não vejo aquele idiota sangue-puro desde que ele e o Eshe voltaram a ir atrás do Djin, cerca de um mês atrás – três meses desde que meus poderes despertaram... Ai meu Pai... Eu tentei, juro que tentei arrancar deles o motivo real de eles terem vindo para o Brasil, mas não consegui. É óbvio que não foi por causa de um Lobisomem. Eu sentia isso quando pegava Anoen, mas ele não me mostrava nada! Colar idiota!

Enfim, Rashne mexe MUITO comigo. Quer alguns exemplos?

=> Quando ele se aproxima pra corrigir minha postura durante o treina-mento com as adagas, ele faz QUESTÃO – tenho certeza de que ele GOSTA de mexer comigo – de corrigir o alinhamento dos meus braços – mesmo que esteja correto, detalhe – meio que me abraçando como se eu estivesse com um arco na mão e não puxo a corda direito, apoiando o queixo no meu ombro. Sentir todo aquele corpo tão perto do meu me faz querer deixar os braços caí-rem e me entregar no seu abraço. O engraçado é que às vezes sinto seu cora-ção bater de tão perto, e tenho a sensação de que nossos corações batem no mesmo ritmo.

=> Se treinamos lutando um contra o outro, seja com armas, seja corpo a corpo, quando termina, ele me puxa pelo pescoço e beija minha bochecha – antes de tomarmos banho, depois de suarmos horrores nos enfrentando –, fa-lando que eu estou melhorando, a vontade que tenho é de virar o rosto e beijá-lo num lugar que não o rosto.

=> Quando estou pronunciando os feitiços e erro alguma coisa, ele faz questão de respirar no meu pescoço – um dos meus pontos críticos – enquanto fala a pronúncia correta no meu ouvido – embora eu tenha certeza de que seja igual ao que eu estava falando... Mas depois disso, erro tudo porque perco o foco e só consigo pensar em me jogar nos braços dele.

Acho que tá bom. E só não fiz nada – AINDA – porque Despertador está sempre ali, quase sorrindo de um jeito irônico como se soubesse o que se pas-sa na minha cabeça. E eu definitivamente não consigo fazer nada assim quan-do ele está me olhando.

E não duvido nada de que ele saiba. Aquela Mantícora me conhece me-lhor do que qualquer um nesse mundo. E isso me deixa com raiva, às vezes. Já disse que ele morria de ciúmes do Sammuel, mas com o Rashne, o Desper-tador fica todo-todo. Ah, quando ele aprender a falar, vai ter de me contar tudo...

Ah, claro, fora o Rashne mexendo com meus neurônios e sei lá mais o que que tenha no meu cérebro, tem uma pressão dos infernos pra eu controlar todos os feitiços e encantos que preciso, só porque, cada vez que pego minhas adagas, uma sensação de urgência me invade, como se eu tivesse pouco tempo.

Eu não sei mais direito o que é sonhar enquanto durmo. Porque eu praticamente não durmo. Por conseqüência, não sonho. Muito dez, não?

Acho que nunca recebi tanta advertência por dormir em sala de aula, embora – estranhamente – Thaíze venha me acobertando, e pedindo pras a-migas pattys dela fazerem o mesmo, na maioria das vezes. E, quando não durmo no meio da aula, fico tentando decorar fórmulas de feitiços.

Eu juro que estou ficando muito estressada. Juro que ainda vou ser internada, seja porque fiquei louca, seja por ter uma crise aguda de stress. Mas que vou parar num hospital – provavelmente psiquiátrico – eu vou!

Vovó, assim, do nada, resolveu voltar a morar com a gente, vendendo a casa em Vitória. Perguntei pra ela se ela sabia que mamãe era uma vampira, e ela disse que não. Que a época que ela e o meu pai se conheceram, papis e vovó estavam brigados. Parece que tinha relação com alguma outra namorada que o papai teve, mas sei lá...

Só sei que eles só fizeram as pazes não muito tempo antes de Devon nascer, e foi quando vovó e mamãe se conheceram. Então, minha vó não achou nada de anormal nela – mas ela não quis me contar de onde conhecia o Vampiro que foi atrás das cinzas de mamãe.

Tia Verônica, minha vó achou melhor demitir. Ainda mantemos contato com ela e fizemos boas recomendações, mas ela e papai acharam melhor que ela se afastasse, porque, venhamos e convenhamos, não queremos que ela me pegue “por acidente” fazendo uma planta qualquer crescer no jardim ou alguma coisa assim – mesmo com a Teia, às vezes os humanos vêem as coi-sas. Ela ia achar que tinha enlouquecido! E eu não quero que Tia Verônica a-credite que enlouqueceu.

Enfim, se fosse “só” isso, eu estaria feliz. Sério, sem brincadeira.

O problema é um carinha – que eu acho que é um índio! – que fica a-tormentando os meus – poucos – sonhos – ou melhor, pesadelos. Sempre que ele está lá, alguma coisa ruim acontece. Acho que ele é um índio porque ele SEMPRE está no meio de uma floresta, seminu e com o corpo todo pintado com tinta de semente de urucum e etc, além de ter a pele e o cabelo bem como se fossem indígenas, e carregar um arco com uma aljava cheia de flechas nas costas. A única coisa que foge completamente à regra são os olhos. São... Como posso falar? De um violeta que oscila do claro para o escuro como uma ametista bem polida, de muitas facetas, brilhante e hipnotizante. E não brinco quando falo “hipnotizante”. Toda vez que olho nos olhos do carinha durante um sonho, eu tenho de lutar pra conseguir desviar o olhar! Já cheguei à conclusão de que ele NÃO É HUMANO! Mas também não sei o que ele é. Não achei nada sobre olhos cor de ametista no livro que vovó me deu, e ela também não soube me informar.

Ou seja, ele vai continuar no anonimato.

E esse cara me deixa MUITO encucada. Caramba, não me basta Sam-muel – que ainda está meio estranho, embora não pareçamos mais tão afeta-dos perto um do outro – e o Rashne, agora mais um carinha pra me deixar con-fusa? Afeeeeee...


Parei de escrever, fechando Teorias e colocando-o debaixo de uma revista qualquer da mesa de centro quando alguém tocou a campainha. Como só estávamos eu e Despertador em casa, tive de abrir a porta. Quão grande não foi minha surpresa ao ver Thaíze, com uma expressão meio “de saco cheio”, meio prestativa? Sério. Ela era o último ser que eu imaginava vindo na minha casa.

− Ah, que bom que você está em casa, Fada irresponsável! – ela disse, e, peraí, ela me chamou de Fada?! Como raios ela sabe?!

Eu não consegui falar nada, enquanto ela entrava, e eu olhava para ela com cara de boba.

− Que foi? Por que ta me olhando com essa cara de Édipo? – No meu mundo, falar que alguém ta com cara de Édipo é um pequeno trocadilho com o episódio que ele decifrou o enigma da Esfinge. Tipo assim, uma cara de quem entendeu bulhufas. Capice?

− Como... Como... – fechei a porta e comecei a apontar para ela, não conseguindo terminar a frase. O choque ainda era recente. Ela suspirou de um jeito enfadado antes de responder.

− Eu sou uma Sereia. Sempre soube que você é uma Fada, mas Serei-as não gostam muito de Fadas – nada tão sério como com os Gnomos –, além disso, você não tinha poderes, então, pra que virar sua amiga? – ela ergueu os ombros como quem diz “tanto faz”, e então cheguei à uma conclusão: Toda Sereia é Patty, mas nem toda Patty é Sereia. E as Pattys que não são Sereias são piores que as que são Sereias. E, portanto, Sereias Pattys são mais legais que Pattys que não são Sereias. Confuso? Muito. Mas foi o que me guiou na conversa com Thaíze. Alguma teoria maluca tinha de me ajudar a conversar com ela civilizadamente.

− Então... O que veio fazer aqui e por que tem me acobertado no colé-gio? – sinalizei para ela vir comigo para a cozinha. Ela sentou à mesa, Desper-tador ficou deitado ao pé do fogão e eu fui à cata de algo doce. Essa revelação de que Thaíze era uma Sereia e sabia que eu era uma Fada fez meu pâncreas trabalhar relativamente mais rápido e queimar toda a glicose do almoço. Eu precisava de algo doce! De preferência, brigadeiro com morango ou doce de leite com chocolate ou ainda doce de banana com chocolate! Pavê, bolo de chocolate e torta de limão também fariam bem... Argh, onde está a Tia Verônica quando precisamos dela?! Por que tínhamos de demiti-la?!

Thaíze sorriu discretamente quando eu encontrei o compartimento se-creto da cozinha onde tinha Favrë escondido, e eu sorri enormemente enquanto servia a bebida em dois copos. Favrë ser viciante!

− Bem... As respostas estão ligadas: você precisa de ajuda. Não está conseguindo organizar os horários para praticar, por isso está sendo tão des-gastante. – ela bebeu um golinho da bebida como se estivesse... Sei lá, na presença da Rainha Elizabeth. Eu, por outro lado, parecia um daqueles farofeiros típicos de praia no auge do verão... Aliás! Eu SOU farofeira e não tenho porque me envergonhar disso!

− Está tão na cara assim? – franzi a sobrancelha, ao que ela fez uma expressão séria.

− Stacy... Seus olhos estão da cor do Despertador e você está com os olhos tão fundos quanto o do L. Sim, está bem na cara. – ok, pára tudo. Ela gosta de Death Note? Mas, legal! Agora dá pra fazer um cosplay de L perfeito!

− E como pretende me ajudar? – eu me servi de mais Favrë, e o sorrisi-nho de Thaíze me fez ter um arrepio na espinha.

− Primeiramente, cronograma de treinamento com os horários bem defi-nidos. Você precisa dormir melhor. Depois, um tratamento de beleza feito pelas Sereias... Então, vamos ver se conseguimos fazer sua voz soar mais afinada ao menos quando canta... E aí, começaremos com os feitiços ilusórios. – não gostei. Principalmente da parte da voz... Eu canto tão mal assim? E por que raios tudo isso?

Despertador soltou um som que juro que era um riso. Ele estava achan-do minha situação muito engraçada. Essa Mantícora não perde por esperar! Olhei de forma fuziladora para Despertador. Ele parou de rir, mas continuava com o ar zombador. Argh!

− Ok... Quantos meses nisso? – perguntei com um tom levemente irônico, e Thaíze pareceu horrorizada. E quando falou, a voz mais aguda que o normal quase me estourou os tímpanos, aí ficou óbvio: sim, ela estava horrorizada.

− Meses?! Pirou, Fada?! No máximo duas semanas! Você vai conhecer Aine de Knockaine em Dezembro! Precisa estar nos trinques! – ok, agora eu lembrei de uma coisa. E eu tenho de perguntar.

− Como você sabe que preciso de ajuda com feitiços ilusórios? – franzi o cenho, e desta vez eu estava realmente séria – umas das raras ocasiões que consigo isso. Thaíze suspirou e olhou para o teto antes de responder num murmúrio.

− Sua vó falou com a minha mãe. Sabe, pra gente não estranhar se algo explodisse de repente, já que você tem afinidade com tudo... Fiquei com pena de você, essa é a verdade... – ela parecia ter dificuldade em se expressar. Como se não estivesse acostumada a ajudar os outros. Não duvido nada, é só lembrar das lendas gregas sobre as Sereias... – Quer dizer, eu cresci pratican-do magia, minha raça é uma das muitas em que a magia nasce desperta conosco. Tive tempo. Mas você acabou de despertar seus poderes e tem pouco tempo pra aprender ao menos o básico de uma pequena parcela do tanto que tem de aprender. Dá pra ver que é esgotante. Então... Decidi te ajudar. – ergui uma sobrancelha, meio incrédula.

Essa é a mesma Thaíze que desde sempre é minha vizinha, a mesma Patty que ama me humilhar? No lo creo...

− Você foi abduzida recentemente? – tanta coisa pra falar, e eu falo is-so... Meus neurônios fritaram de tanto fazer magia, só pode...

Incrivelmente, a Sereia começou a rir.

− Você sempre foi uma figura, Stacy... – ela enxugava lágrimas dos o-lhos sem borrar a maquiagem perfeita quando a campainha tocou – de novo. Hoje é dia.

− Licencinha. – eu murmurei e fui atender a porta. Sabe, até que a Thaíze não é má pessoa...

Ok, agora eu viajei legal. Ela é uma PATRICINHA! 1001 Formas de Ma-tar uma Patty já está em produção. Não posso interrompê-lo porque uma Patty se dispôs a me ajudar! Outros vão precisar de ajuda com Pattys que não são tão... Tão... Civilizadas?

Abri a porta e, ok, Stacy, respira. É só o Rashne que veio te ajudar mais uma vez.

− Olá. – eu só acenei quando ele me cumprimentou, abrindo espaço para ele entrar, e então voltei a fechar a porta. – Tem uma essência diferente por aqui... Visitas? – ele perguntou, enquanto íamos para a cozinha. Sabe, Fravashis, assim como algumas outras raças, podem sentir nossas essências sem necessidade de um pingente – mas não vê-las, exatamente. É legal para emergências, embora só os com mais habilidade consigam definir a raça e a localização exata.

− Bem... Sim. – Thaíze e Rashne se encararam por alguns segundos.

Tenho a sensação que eles já se conhecem...

− Olá, Fravartin... – Thaíze disse com jeito debochado, cruzando os braços e as pernas.

− Olá, Sereia... – Rashne respondeu no mesmo tom, inclinando um pouco a cabeça e com as mãos nos bolsos.

− Ahn... Já se conheciam? – eu juro que devia estar parecendo um ani-me, com uma enorme gota na testa!

Quem respondeu foi Thaíze.

− Ah, só levei um bolo desse aí... – ela balançou os ombros como se aquilo não fosse nada. O Fravartin só ergueu uma sobrancelha como quem diz “Como é que é?”.

− Pelo que me lembro, você me ligou cancelando, falando que seria triste me fazer virar um Daeva... – ah sim, eu nunca disse – mesmo porque não tive momento – mas é possível um Fravartin virar um Daeva e vice-versa. Não me pergunte como porque ainda não descobri. Mas quando descobrir te conto!

− Era brincadeira! – Thaíze fez biquinho, e aquilo começou a me en-cher... Sério. Não sei se por ciúmes ou o que quer que fosse.

Rashne ia responder, mas eu me meti entre os dois.

− Ok, adorável reencontro, mas até onde sei, vocês estão aqui para me ajudarem de livre e espontânea vontade. Se querem resolver a relação, façam isso lá fora. – Era impressão minha ou EU estava com uma pontada de ciúme na voz? Tipo, não achei que eu realmente estivesse com ciúmes do Rashne...

Os dois arquearam as sobrancelhas como quem diz “hã?”.

Acho que não era impressão. Eu simplesmente não gostava da idéia de que, um dia, eles quase saíram juntos. Ok, estou muito estranha até mesmo pra mim. Culpa dos hormônios! Eles sempre me metem em furadas...

− Ok... Por onde começamos? – Rashne perguntou, puxando uma ca-deira para ele. Bem longe de Thaíze. Ufa.

Afe, por que esse alívio meu?

− Por um cronograma! Do jeito que está, não vou ficar surpresa se ela ti-ver uma crise de stress! – Thaíze falou, puxando um bloco de papel e uma ca-neta da bolsa a tiracolo.

Só tenho uma coisa a falar.

Até que Sereias são legais.


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