04 novembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 16: Elfos Puros São Grandes Idiotas

Realmente, a casa da meio-Fravartin mestra do Devon não ficava muito longe. Era uma casa simples que não chamava atenção entre casas de gente mais abastada. Uma batata entre rosas, quase posso ouvir Eshe falando. Ugh! Temos que correr! Só Deus sabe como eles estão agora!

Toquei a campainha, e, nem dez segundos depois, já a tocava de novo. Qualé! To desesperada! Meus melhores amigos tão em perigo!

Uma mulher com o cabelo loiro e muito, muito claro, cortado todo repicado com mechas mais compridas na frente abriu a porta. Os olhos eram de um azul muito claro, como o céu de verão em Vitória, e estavam contornados de preto como se ela fosse egípcia ou pelo menos daquela região. A pele era levemente morena, e ela era magra e alta – da minha altura, mas um tanto mais musculosa, algo entre a anorexia e o fisiculturismo, meio estranho, eu sei. Ela era bonita, e eu percebia uma espécie de aura de paz e quase celestial nela.

− Devon? O que aconteceu? – ela olhou para meu irmão, sorrindo, mas perceber a expressão séria e preocupada dele fez o sorriso morrer.

− Precisamos da sua ajuda, Alessa. Precisamos de alguém capaz de teleportar a gente para frente da Catedral da Sé o mais rápido possível. – ela abriu espaço, e Devon me arrastou para dentro da casa, Despertador entrou logo em seguida.

A sala me lembrou a de vovó. Não era muito grande.Uma estante ocupando toda uma parede, com uma TV colorida de no máximo 20 polegadas, muitos livros e duas gavetas. Um sofá de dois lugares e uma poltrona, ambos azuis.

− O que houve? – ela fechou a porta e já começou a remexer nas gavetas da estante, enquanto Devon afastava a poltrona e enrolava o tapete que, pelo que percebi, era persa e bem antigo. E tomei a liberdade de responder a pergunta.

− Dois amigos nossos estão lutando contra o Djin que tem matado Fadas e estão levando a pior. – ela fechou as gavetas, com um pingente que me parecia a cabeça de um grifo numa das mãos e um livro grosso e com capa de veludo branca na outra. Ela torceu o nariz, enquanto Devon me arrastava pro meio da sala. Fravashis odeiam Djins e toda essa sorte de demônios e companhia.

E só então eu olhei pro chão. Um símbolo feito de linhas que se entrecruzavam várias vezes estava desenhado com fogo no piso de madeira. Eu já lera sobre feitiços e encantos que precisavam de símbolos para serem realiza-dos. Eram muito complicados e exigiam muito de nossas essências e uma concentração dos infernos. E eu sei que vou ter de aprender teleporte... Geralmente, decoramos feitiços que vão ser usados numa luta. Os demais, bem... Pra que existem nossos livros de feitiços?

− Não vou com vocês porque seriam muitas pessoas para trazer de volta. Já não vou poder mandar a Mantícora com vocês. E eu não tenho tanta essência assim. Morreria no meio do processo e você ficariam no meio do cami-nho na hora de trazê-los de volta... Se meu irmão mais velho estivesse aqui, ele iria mandá-los comigo junto, mas ele não está... Não sou tão poderosa quanto ele... – ela mordeu os lábios de um jeito preocupado.

Será que o irmão dela é completamente Fravartin? Pelo que sei, eles é que costumam serem mais poderosos com Teleporte...

Despertador estava com uma cara triste. O chamei e disse que não se preocupasse, porque eu ficaria bem, e então, o abracei pelo pescoço, afundando meu rosto na sua juba vermelha.

Percebi Alessa recitar algo com quatro folhas finas na mão, e o mesmo símbolo que estava no chão ilustrava-as agora. Ela entregou-as a Devon, que guardou-as num bolso interno da blusa.

− Cada um deve segurar um desses na volta. Vocês têm meia hora. E nem pergunto como sabem a situação desses amigos agora. Na volta, quando tiverem mais tempo. – ela sorriu meio maniacamente, como quem diz que não nos deixaria ir embora sem que explicássemos o que aconteceu.

Ok, Devon, vamos logo, o sorriso da sua mestra tá me dando medo...


Peguei as adagas que Aaron tinha me dado, prendendo-as com as bainhas no cinto da minha calça, de forma que eu poderia desembainhá-las rapidamente. Ainda sou horrível com feitiços, não arriscaria lugar contra o Djin sem armas... Eu gosto de viver, sabe...


Alessa e Despertador ficaram fora do símbolo, e ela começou a recitar o encanto. Devon me preveniu para fechar os olhos, e fiz isso.

Eu juro que quase botei tudo que tinha comido ao longo do dia pra fora. Foram alguns segundos em que senti meu corpo ser puxado em todas as dire-ções, como se cordas de couro estivessem amarradas em meus pulsos e tor-nozelos e a outra ponta era puxada por cavalos ferozes em direções diferentes. Não havia chão nem ar. Apenas vácuo. E aquilo me dava uma terrível sensação, como se eu estivesse prestes à morrer. Credo!


Quando senti que não havia mais vácuo – paradoxal, eu sei – ao meu redor, abri os olhos. Eu e Devon tínhamos parado no topo da escadaria que levava da praça à Catedral da Sé. Procurei com o olhar Sammuel e Eshe, e senti uma vontade louca de fechar os olhos bem forte quando os vi.

Sammuel estava colocando um joelho no lugar – pelo que percebi ele apenas deslocara, mas vai saber... – escondido atrás de um dos coqueiros, com vários cortes e escoriações. Eshe, por outro lado, estava por um fio, lite-ralmente, todo ensangüentado por causa dos ferimentos. O Djin estava tentando enforcá-lo, os pés de Eshe balançando à um metro do chão – ele nunca foi muito alto pelo que me disse –, tentando soltar a mão do Djin de seu pescoço. E o Djin sorria macabramente.

Tirei as adagas das bainhas, segurando-as firmemente e engolindo o medo e o choro misturados que queriam me subir pela garganta de tristeza e raiva por ver meus amigos daquele jeito, e então me virei para Devon.

− Vou distrair o Djin. Quando ele vier atrás de mim, você leva o Eshe pra junto do Sammuel. E esperem ali até eu chegar. Vamos ter de achar um lugar seguro pra esperar até a Alessa chamar a gente. – minha voz saiu mais firme até mesmo do que eu pretendia. E percebi horror no rosto de Devon.

− Ficou louca?! Você não vai ter chance! – ele estava mais histérico do que eu. Sério.

Suspirei antes de começar a me justificar.

− Ele com certeza está com muita raiva de mim porque eu escapei dele. Mesmo que invertamos os papeis, assim que ele me perceber, vai te ignorar e vai vir atrás de mim. – aquilo parecia certo pra mim, de algum jeito. Era como se Savën me sussurrasse as possibilidades certas do futuro. Não sei como eu tinha certeza de que era Savën que o fazia, mas eu tinha.

Devon torceu o nariz e a boca, como quem quer contestar mas não tem como.

− Ok... Se demorar muito, vou atrás de você. – ele disse e ficou preparado para sair correndo no momento em que o Djin fosse atrás de mim.

Cinco minutos já tinham se passado.


Eu desci as escadas e corri na direção do Djin. Parei há alguns metros dele, respirei fundo e gritei.

− Ei, seu Djin idiota! – ok, coisa besta, mas eu tinha de chamar a atenção dele DE ALGUM JEITO! Ele virou o rosto para mim, e percebi uma careta de fúria em seu rosto. – Lembra de mim?! Espero que sim, afinal, foi um mo-mento tão especial o nosso... – eu fui EXTREMAMENTE irônica. E minha tentativa de provocá-lo deu certo!

Ele soltou o pescoço de Eshe, que caiu no chão com um baque, e então, o Djin começou a avançar em minha direção.

E eu, claro, não perdi tempo. Só pude ver Eshe fazer uma careta de dor por cair de mal jeito.

Comecei a correr, atraindo o Djin para lugar nenhum, apenas me concentrando em salvar Eshe e Sammuel.


Meu senso de direção é horrível. Não acredito que vim parar num beco! Não acredito! Aliás, eu nem sabia que existiam becos no centro... É o que dá correr sem rumo...

Sim, eu vim parar num beco e, à menos que esteja planejando morrer, vou ter de lutar contra o Djin e vencer.

E só tenho mais quinze minutos...

Maravilha.


O Djin sorria de modo satisfeito enquanto se aproximava. Acho que ele está louco para me matar, sem brincadeira.

Apertei o cabo das adagas, e me preparei para lutar. Mas ele não estava afim disso não, porque eu senti ele começar a concentrar o Löshé dele e começar a murmurar um feitiço.

Ah, mas não mesmo!

Não sei o que o professor quis dizer, mas não vou arriscar, né! Afinal, se os olhos deles provocam dor na alma se ele conseguir nos prender em seu olhar...

Corri em direção ao Djin e tentei cortá-lo na altura do peito com Fëna, na mão direita. Acho que o surpreendi pela expressão no rosto dele, mas ainda assim ele conseguiu desviar, mas por um triz.

Ele não foi arrastado ao ficar há um metro e meio de mim. Criaturas feitas de dor e atormentadas por ela. É. Como seus olhos provocam dor, eles também devem ser perturbados por ela...

Não dei descanso para ele, e tentei cortá-lo com Savën, manejando-a de baixo para cima, arranhando o ombro dele e cortando o manto. Uma fumaça com cheiro podre se ergueu do arranhão.

Ele deu um pulo para trás, numa posição semi agachada, a face em fúria. Ele já havia parado de tentar recitar um feitiço. Ele murmurou algo que, pelo que entendi, significava “Dor” – Palavra de Poder, droga –, e uma espada curvada formou-se em sua mão, de coloração avermelhada e brilhante, como que feita de luz.

Preparei minhas adagas para a batalha que seria difícil, mas que devia ser breve. Só mais treze minutos...


O Djin me atacou com fúria. Acho que agora ele queria ter o prazer de cortar minha garganta. Deus meu, dá uma forcinha aí!

Estranhamente, eu consegui desviar ou bloquear quase todos os ataques. Eu via os ataques acontecendo e era sempre Savën que defendia ou Fëna que desviava os ataques, quase como se elas se movessem sozinhas! Tipo, eu mal pensava que tinha de defender de um lado, e elas já estavam ali, e eu nunca treinei pra ter uma reação tão rápida! E quando eu pretendia atacá-lo com uma delas, eu via a trajetória de meu ataque antes que ele se realizasse, e sabia se seria efetivo ou não, e caso não fosse, eu o mudava. Amei essas adagas encantadas!

Eu consegui arranhá-lo diversas vezes, e feito alguns cortes mais profundos. Ele já não pensava antes de atacar e a defesa estava aberta. Ele estava com muita raiva.

Eu já ia dar um golpe que lhe cortaria a garganta, eu vi em minha cabeça o golpe, e seria perfeito. Provavelmente não seria efetivo considerando que ele estava possuído, mas, enfim... Pelo menos atrasaria.

Parece estranho eu falar com tanta frieza que lhe cortaria a garganta, mas era a minha vida e de outras Fadas que estava em jogo! Talvez fosse por causa dele que Aine me dera todas as afinidades, embora eu não compreendesse direito a necessidade de tudo isso...

Mas então uma silhueta feminina de orelhas muito longas e pontudas e com uma longa espada curvada pousou sobre os ombros do Djin após um salto. Percebi também que a altura era abaixo da média.

Ele parou de me atacar e me senti ser repelida por uma força invisível. Como o golpe de um escudo. A silhueta feminina sentou nos ombros do Djin confortavelmente, e então, sumiram como se não existissem.


Eu só tinha mais cinco minutos e corria desesperada atrás de Devon e dos outros.

Quando os avistei, corri mais rápido ainda, e percebi Devon me estendendo um dos papeis com o símbolo. Me atirei no pescoço dele enquanto agarrava o papel com força.

E nesse instante, senti o efeito do feitiço de Teleporte agir em mim.


Eu não tive tempo de fechar os olhos, e dessa vez pude ver que parei girando e que um monte de coisas passou girando em redemoinhos ao meu redor, e me senti extremamente enjoada. Quando tudo estava normal, me aga-chei, apoiando os cotovelos nas pernas, quase botando tudo o que havia den-tro de mim para fora, mas procurando respirar para me acalmar.

Quando me senti melhor, senti que Despertador lambia cuidadosamente alguns dos cortes que o Djin tinha feito. Sorri, me ajoelhei e o abracei, deixando meus dedos se perderem na juba vermelha dele.

− Fica tranquilo, Despertador... São só arranhões. – falei ao perceber que o coração dele estava disparado, mas acho que o som da minha voz o tranquilizou. Mesmo que sejam só arranhões, tenho de fazer um feitiço de desintoxicação...

Soltei-o e olhei ao redor. Eshe quebrara um braço quando o Djin o soltara. Ele caíra de mau jeito – foi esse o motivo da careta de dor que eu vi. Ambos estavam cheios de corte e sangue, mas não pareciam graves. Exceto alguns de Sammuel.

Alessa estava vindo correndo com uma caixa cheia de coisas para fazer curativos. Ajoelhou-se ao lado de Eshe, que chorava de dor, pegando o braço e examinando-o com cuidado.

− Quebrou em duas partes, rapaz. Não tenho afinidade com a cura, mas vou fazer o que posso... – em seguida, ela pegou algo para imobilizar o braço e separou, enquanto usava a força bruta para colocar o braço no lugar.

Sammuel tinha abraçado Eshe como um irmão, e deu o próprio braço para ele morder enquanto Alessa colocava os ossos no lugar. Já quebrei a perna quando pequena, e mesmo com a anestesia local na hora de colocar os ossos no lugar, lembro que vovó me deu um pano para morder, e ainda bem, porque doeu pra caramba! Sammuel realmente gosta demais do Eshe pra usar o próprio braço nisso. E percebi ele contorcer a face de modo quase imperceptível pela dor quando o braço dele abafou o grito de Eshe.

Afinidade com a cura... Que sensação de culpa... Tô sem meu livro e sem meu pingente... Poderia evitar muito sofrimento se estivesse com eles...

Mas, de tanto recitar o encantamento, eu me lembrava com clareza das palavras para curar. Palavras que curavam cortes e ossos quebrados. Vovó insistiu muito pra eu aprendê-las. Ela também tinha afinidade com a cura, em-bora não costumasse usá-la...

Me levantei e aproximei-me, e falei com Sammuel, depois que Eshe já se acalmara quando a tala estava sendo amarrada.

− Me empreste o seu pingente. – eu falei séria, quase uma ordem. Ele ergueu uma sobrancelha e me olhou como se eu fosse um ET – de novo. Ele não se cansa de me olhar assim. – Me lembro do feitiço de cura necessário. Não vou ficar parada enquanto Eshe sofre horrores com esse braço quebrado.

Ainda me olhando de modo desconfiado, Sammuel tirou a corrente com a fênix do pescoço e me passou. A coloquei e pedi gentilmente a Alessa que me deixasse ajoelhar ao lado de Eshe. Ela me sorriu de um modo que eu acho que era orgulhoso, e foi olhar os cortes de Sammuel.

Segurei com cuidado o braço daquele mestiço que eu queria tanto que ficasse bem, e sorri para ele de forma encorajadora. Ele me devolveu o sorriso.

Fechei os olhos, respirei fundo e me concentrei. Minha Aëke fluiu de mim para Eshe através do pingente, enquanto as palavras saíam de minha boca de forma suave, sussurradas, quase uma prece, enquanto o significado das palavras dançavam à frente de meus olhos, brilhando fracamente.

“Certa vez o filho de Deus disse para o morto se levantar de sua tumba. Sou apenas uma criação do Altíssimo, e jamais possuirei poder e autoridade sobre a Morte, mas peço apenas que cure o ferimento de meu Amigo, Deus meu.”

Eram essas as palavras do feitiço de cura em minha família desde que Jesus Cristo nasceu. Pelo que sei, um ancestral meu vivia em Jerusalém na época e viu suas pregações.

Não apenas uma, mas várias vezes eu repeti aquelas palavras, sentindo que não apenas o braço estava se arrumando, mas todos os ferimentos de Eshe e de Sammuel. O encanto, sem que eu pedisse, estava se estendendo aos ferimentos do outro. Mas os meus continuaram intactos. Eu pedia que os ferimentos do meu amigo fossem curados, não os meus. E era assim que devia ser a magia boa que nós, Fadas, usamos: doar, e não receber, foi isso que vovó me ensinou antes de tudo. Era essa a base dos nossos encantos e feitiços.

De repente, me senti esgotada. O encanto chegara ao fim. Todos os ferimentos de Eshe e Sammuel tinham sido curados, e eu estava esgotada, simplesmente.

Eu estava balançando, de um lado pro outro, enquanto ajoelhada, e só então percebi que Sammuel estava do meu lado. Eu esperava que Devon estivesse ali, e não ele.

Aquele Elfo idiota me apoiou enquanto eu ficava de pé, e ouvi vagamente Alessa falar sobre um quarto em algum lugar da casa, enquanto ele me conduzia por um corredor que parecia muito longo para meus olhos. Fala sério, até meus olhos ficaram cansados!

Sammuel abriu uma porta, e enxerguei uma cama muito confortável com um edredom azul dobrado aos pés dela. Me joguei de bruços na cama, garantindo que minhas ainda pequenas asas não sofressem.

Senti Sammuel me cobrir com o edredom e beijar minha testa, para então murmurar contra o meu ouvido – e me fazendo ter arrepios, arre!

− Obrigado.

E então, apaguei.


Eu via a jovem elfa chamada Hadassa. Ela me olhava com ódio, e seus olhos estavam vermelhos. Ela estava possuída, eu sabia instintivamente.

Mas de onde vinha tanto ódio? Não era apenas do demônio dentro dela. Vinha dela mesma. Eu percebia isso

E então, percebi que havia um braço ao redor dos meus ombros.

Olhei para o lado e vi Sammuel, me sorrindo de um jeito quase doloroso aos meus olhos.

Aquilo não estava certo. Não era certo Sammuel estar daquele jeito comigo, como se fossemos namorados.

Não. Algo estava errado.

Uma voz ecoou ao meu redor, e a reconheci. Era da Fada que me pegara quando bebê em minha visão do passado.

“Só é necessário que você faça as escolhas certas...”


Acordei de repente, sentando na cama. Eu usava um vestido de costas abertas, branco com flores azuis, sem sinal dos ferimentos que o Djin fizera em mim. Despertador estava sentado, atento, aos pés da cama, e pareceu muito feliz ao me ver acordar. Aquele vestido não era meu. Devia ser de Alessa.

Pelo que percebi, eu ainda estava na casa da mestra do meu irmão. Me levantei devagar e fui até a porta. Quando eu ia abri-la, alguém a abriu antes. Era Devon, que me abraçou fortemente.

− Que bom que acordou! Já estávamos ficando loucos de preocupação! – ele me soltou, me olhou, segurou meu rosto e beijou várias vezes o topo de minha testa, como eu nunca o vira fazer. – Nunca mais use tanto de sua es-sência num único feitiço! É muito perigoso! – ele finalmente me soltou e me deixou falar.

− Você e mais quem ficando louco de preocupação? – eu perguntei, sentindo um frio na espinha.

− Eu, Sammuel, Eshe, Alessa, Vovó e papai! Eles vieram assim que liguei pra eles e disse onde estávamos e o que tinha acontecido! – ele começou a praticamente me arrastar para a sala.

Nãonãonãonão... Eu não quero encarar Sammuel! Não agora! Não sei o que fazer! Não sei! Não sei!

Caramba, e vovó?! Elavaimematar! Ela me disse pra que fosse direto pra casa depois de ir ver meu professor! E eu NÃO FIZ ISSO!

E papai... Nem sei o que esperar por parte dele!

Mããããããeeeeeeee, me dê forças!


Assim que entrei na sala, papai me abraçou com força, e percebi que ele chorava. Ouvi ele murmurar, e mais do que nunca me senti culpada por tudo que fizera. Eu não devia preocupá-lo tanto assim.

− Já perdi sua mãe, e perder você também em tão pouco tempo... Stacy, por favor, não faça isso comigo. – abracei meu pai de volta, e afundei meu rosto no pescoço dele. Meu pai não merecia isso. Não mesmo. Eu o amava de-mais e só queria o seu bem, mas só o que conseguia era matá-lo de preocupação... Bela filha eu sou...

Ele me soltou depois de um tempo, sorrindo de forma triste para mim. E então olhei para vovó.

Ela me olhava de modo sério, mas sorriu de modo quase imperceptível.

− Você é teimosa, insistente, resistente e segue seus instintos e seu coração como seu avô. É, você me lembra ele... – puxa. Vovó nunca falou de vovô. Eu não o conheci, e nem tem como. Pelo que sei, vovó e ele foram casados por volta de mil oitocentos e bolinha. Ou seja, meu pai é muito mais velho do que parece...

Ouvir ela falar daquele jeito me deixou encabulada. Sério, nunca imagi-nei ela falando daquele jeito sobre mim.

Outro par de braços me enrolou o pescoço, e reconheci o jeito animado de Eshe. Ele dobrava o braço que tinha quebrado a minha frente, tagarelando.

− Você vai ser uma grande curadora, Stacy! Meu braço está melhor do que nunca esteve! Sério, você nasceu para curar!

Então, inexplicavelmente, comecei a rir, enquanto abraçava Eshe pelo pescoço com força. Eu o tinha visto ficar por um triz, quase morrer, mas saber que eu o salvara, e que se ele correspondera meu abraço, me erguendo pela cintura, só porque eu curara os ossos quebrados dele, fez a sensação de culpa que me assolava sumir.

Eu fizera o certo. Quase matei meu pai de preocupação e medo de me perder, mas salvei um dos meus melhores amigos. Tudo valia à pena.

Eu ouvi os demais me acompanharem em meu riso, e percebi Sammuel me olhar sorrindo de leve e Devon abraçado com Alessa. Afinal, acho que não são apenas mestra e aprendiz... Mas não importa. Gostei da Alessa.

Namorada aprovada!


Eu tinha ficado apagada só por uma noite. Quase morri, é verdade, porque usei quase todas as reservas da minha essência, e isso é extremamente perigoso. Era quase meio-dia, e Alessa e vovó estavam terminando de fazer o almoço.

Nos reunimos na cozinha e conversei um pouco com Eshe, perguntando o que acontecera desde a última vez que tínhamos nos visto. Aparentemente, tinham perdido o rastro do Djin – parece que ele tinha acalmado, porque não havia mais notícias de incêndios inexplicáveis –, e tinham reencontrado apenas há alguns dias, e tinham sido pegos de surpresa na Catedral da Sé. Aparentemente, o Djin armara uma armadilha para eles. Devon me entregara as adagas com as quais eu lutara, junto com o colar e o cinto que eu usava na noite anterior e os coloquei.

No entanto antes do almoço ser servido, senti minha mente pesar com o sonho que eu tivera. Eu tinha de conversar com Sammuel. Eu tinha a sensação de que algo ficaria errado se eu não falasse com ele o mais breve possível. E por isso fui até a sala, séria, e fiz um sinal discreto de que queria falar com Sammuel. Ele me seguiu, mas antes de sair da cozinha, percebi um olhar um tanto malicioso mesclado com preocupação de Eshe e um ciumento de Devon. E de papai também. Irmão e pai corujas, fazer o quê...


Eu cruzei os braços e esperei que Sammuel fechasse a porta que dava para a cozinha. Ele se aproximou e tencionou tocar meu rosto, mas eu não deixei.

− Precisamos ter uma conversa séria. – eu falei e sentei na poltrona, obviamente indicando que seria uma conversa sem contatos físicos. Ele percebeu e sentou do sofá, aguardando que eu falasse.

Eu pensei por alguns instantes. Por onde começaria? Eu nem sabia direito o que dizer... Só sabia que algo na nossa relação estava terrivelmente errado.

Suspirei quando achei o ponto de início, e percebi que não seria nada fácil.

− Quem é Hadassa? – a expressão que ele fez foi de pura surpresa. Ele com certeza não esperava aquilo. Ele ensaiou algumas palavras, mas não disse nada por um tempo.

− A conhece? – ele finalmente falou, depois de se levantar e começar a andar de um lado pro outro.

− Não. Mas tive três visões com ela. Em duas eu e você estávamos. Nas três havia uma sensação de maldade emanando dela. E em uma ela estava possuída por um RedEyes, como os olhos deixavam expostos. – ele parecia quase desesperado, enquanto andava de um lado pro outro. – E em uma das visões, ela se casava com Eshe. – ele parou de andar e me olhou como se ele fosse um fanático religioso e eu tivesse dito uma heresia. Ouvi ele murmurar um “isso nunca” – mas por pouco não ouvi. – E nenhum dos dois parecia muito feliz. – os ombros tensos abaixaram quase com alívio. Isso me fez erguer as sobrancelhas.

Duas perguntas estavam pinicando minha língua para serem feitas, mas não sei se devo...

Meu cotovelo esbarrou no cabo de Savën, e senti que deveria perguntar.

− O que você sente por mim? – ele deixou-se cair no sofá e me olhou, mas não disse nada. Parecia pensar as palavras com cuidado.

− Você sabe o que sinto. – ele disse, mas até eu percebi a insegurança em sua voz.

Me empertiguei na poltrona e fiquei séria.

− Não, não sei. Você me beijou duas vezes. Mas antes de me beijar a segunda vez, agiu comigo como se eu não merecesse sua atenção, pediu desculpas porque descobrir que eu era uma Fada entrava em conflito com muito do que você acreditava; agiu com indiferença na última vez que nos vimos e ontem me ajudou a ir até a cama e beijou minha testa falando “obrigado”. Não, eu não sei o que você sente por mim. – eu estava perdendo o controle. Só esse Elfo idiota sabe como me fazer perder o controle. Ok, não só ele, mas é o que melhor o faz...

Ele suspirou e olhou para todo lugar, menos para mim. Mas não falou nada.

− E Hadassa? O que sente por ela? – ele me olhou e suspirou antes de responder.

− Eu não sei... – foi um sussurro, que eu tive de me esforçar pra ouvir.

E então ele se levantou e foi até a cozinha, me deixando sozinha na sala. E acho que não saí do lugar quanto à resolver a nossa relação.

Mas descobri uma coisa: Elfos puros são grandes idiotas.


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