26 outubro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 15: Caixa do Tempo

Eu, Devon e Despertador olhávamos para o sobrado de classe média com calçada de pedra, uma das poucas coisas que o diferenciava das outras casas ao redor, tão iguais.

Era noite de lua cheia, e eu via a energia maligna de Kolshö es-correndo em direção à terra, esverdeada em tom venenoso. Tínhamos apenas até a meia-noite. Aproximadamente uma hora.

Eu e Devon fizemos pedra-papel-tesoura para ver quem tocaria a campainha da casa do meu professor de Geometria. E eu perdi. Droga! Eu devia saber que sempre perco em pedra-papel-tesoura...


Respirei fundo enquanto tocava a campainha, e acho que nunca levei um susto tão grande como quando meu professor abriu o portão menor de repente.

− Stacy? – ele parecia muito surpreso. Olhou para Devon e então para Despertador, que, sem cerimônias, abriu caminho para entrar na garagem, ameaçando Aaron com os espinhos da cauda. Eu aproveitei e entrei atrás da minha Mantícora. E Devon entrou logo depois de mim.

Ele trancou o portão e então olhou para a gente, um tanto as-sustado talvez.

− Então, professor... Acho que está na hora de explicar algumas coisas... – eu disse, calma, sorrindo um pouco. Ele se acalmou e sorriu também. Talvez percebendo que tínhamos ido apenas para conversar. Sem brigas.

− Sabia que uma hora você ia descobrir... Como? – ele pergun-tou, estendendo os braços em sinal para que a gente entrasse.

− Uma visão... Fadas as têm às vezes... – eu disse a verdade. Para que mentir? Afinal, assim como gosto que me falem a verdade, também detesto mentir.

Ele sorriu, e antes de falar, pediu que nos acomodássemos no sofá vermelho. Despertador deitou perto da porta, balançando o rabo de um jeito felino e ameaçador. Parecia estar vigiando para que nin-guém entrasse e nos atacasse. Eu já tinha percebido que ele tinha esse costume... Vovó disse que é o instinto de proteção.

Aaron puxou uma cadeira da mesa de jantar e sentou de frente para nós.

− Bem... Podem perguntar. – ele abriu os braços, com um tom de voz de quem não tem nada à esconder.

Eu olhei para Devon, insegura. Eu contara o sonho que tivera e tínhamos discutido muito se devíamos ou não vir ver o professor. E, quando decidimos que sim, que viríamos, foi outra briga para decidir o que perguntar. E no final, não tínhamos chegado num consenso de o que perguntar. É, com a gente é sempre assim... Discutimos muito e raramente chegamos num acordo.

Respirei fundo antes de começar.

− Por que me deu esses brincos? – eu perguntei, apontando para os brincos em minhas orelhas.

Meu professor riu.

− Quem disse que eu lhe dei esses brincos? – ele perguntou, colocando as mãos atrás da cabeça e ficando mais relaxado na cadeira, como que querendo comprovar que eu realmente tivera uma visão. Como que me desafiando a prova.

Eu suspirei antes de responder, mas querendo ter deixado aquele assunto pra depois. Sério. Eu tinha ideia de como ele se sentiria se eu mencionasse a menina.

− Na minha visão, uma criança de cabelos claros, olhos verme-lho-rubi e orelhas pontudas usava-os. – vi meu professor prender a respiração, os olhos marejados. Mas ele fez força para não deixar aquelas lágrimas caírem. E a sua postura mudou, para algo como se eu já tivesse dado provas suficientes.

− Ana Clara... – ele murmurou, cruzando os braços e deixando a cabeça cair para frente, o cabelo cobrindo seu rosto. Droga! Eu queria deixar isso pro final! Não suporto ver gente chorando! Me sinto compelida a consolar – mau de Fada querer ajudar os outros... Ok, não mau, mas que é um saco dependendo da situação, é... Droga!

Fiz menção de me aproximar, mas Aaron ergueu uma mão e si-nalizou para eu ficar onde estava. E eu não neguei... Ok, eu não queria sair de onde estava, apesar do meu instinto falar pra eu ir até ele.

Ele ergueu a cabeça, e eu diria que ele tinha envelhecido uns cinco anos naqueles poucos minutos, apesar de não haver sinais de lágrimas. É, a coisa foi ruim...

− Ana Clara era minha filha, como você pode imaginar pela vi-são... Esses brincos eram dela, mas antes foram de Medéia, minha mu-lher, e vinha vindo de gerações da família dela... O encanto de proteção foi feito pela rainha dos NightEyes, filha de Freyr, viva até hoje... Decidi dá-los à você... Bem... – ele parou por um momento. Parecia refletir o que dizer... Afff! Fala logo, caramba! – Eu fiquei sabendo do que houve com o seu material no colégio... – senti o olhar inquisidor de Devon sobre mim... Acho que esqueci de falar sobre esse episódio... – E percebi que, de alguma forma, você corria perigo... E achei que devia ajudar de algum jeito... – ele desviava demais o olhar. Acho que ele não estava falando toda a verdade... Tipo assim, quem contou o que houve com meu material pra ele?

Afinal, porque adultos quase nunca acham que nós, adolescen-tes e crianças, sabemos que eles estão mentindo ou não estão falando toda a verdade?

Franzi as sobrancelhas, pensando em como fazer as coisas irem em frente, qual a pergunta a fazer... Aaaaah! Não levo jeito pra ser investigadora!

− Professor...

− Aaron.

− Ok... Aaron... – era estranho chamá-lo só pelo nome depois de chamá-lo de professor por tanto tempo... Muito estranho. – Por que você chegou à conclusão de que eu corria perigo? Quer dizer... Qualquer um podia ter destruído o meu material... Ninguém naquele colégio gosta de mim. – sorri de um jeito nervoso, ao que ele sorriu de um jeito tristonho. Afe, esse povo não tem sorrisos felizes pra dar não?!

Ele se levantou de um jeito como se não quisesse fazer aquilo.

− Vou trazer algo para vocês beberem. E então, eu respondo a sua pergunta. – ele sorriu e foi até a cozinha.

Ele está fugindo! O nome disso é retirada estratégica! Aaaaah! Odeio pessoas que fazem retiradas estratégicas! Bem... Como se eu não fizesse retiradas estratégicas... Mas isso não vem ao caso!

Nós esperamos sentados, a casa silenciosa. Graças à Deus, o professor não demorou pra voltar. E, sinceramente, não sei o que tinha naquele copo. Só sei que o cheiro lembrava um outono que já está quase virando inverno e o sabor era fresco, mas eu não conseguia associá-lo à nada! Só sei que era muito gostoso!

− O que é? – ouvi Devon perguntar, ao que Aaron sorriu. Pelo jeito, o Devon também gostou demais.

− Uma de minhas experiências de Alquimia... – franzi a sobrancelha quando ele disse "Alquimia". Pelo que li nos livros de vovó, Alquimia é algo que os humanos fazem. Como eles não possuem controle sobre a essência deles, não podem realizar magia, então, se utilizam da Alquimia. Bem, isso aqueles que se arriscam... Embora os químicos possam ser chamados de Alquimistas.

− Pensei que só os humanos praticassem Alquimia... − quem disse foi eu, e Aaron suspirou antes de responder.

− Humanos e aqueles que foram mordidos por Vampiros ou Lobisomens e se transformaram. – sinceramente, essa história de mordida é meio furada, é falado assim só pra facilitar. O que realmente causa a transformação é um ferimento seu entrar em contato com o sangue de um Vampiro ou de um Lobisomem – embora que no caso de Lobisomem só há riscos reais se eles estiverem em sua forma natural. Bem, do Tio Lobi acho que você já conheciam, mas, enfim... – Os que passam por isso poderiam controlar a magia, mas suas essências são bloqueadas, já que não há como convertê-las, então... Nada de magia. – ele disse, um pouco tristonho. E eu sei que ele está tristonho porque antes de ser mordido ele podia realizar magia. Tenho certeza disso.

Eu sorri, mas logo fiquei séria.

− O senhor ainda não respondeu a minha pergunta... – eu disse, um tom calmo. Oieeee, tipo, não é obrigação dele responder as minhas perguntas, ele está fazendo isso de livre e espontânea vontade. Mas eu agradeceria se ele respondesse as perguntas feitas, sabe...

A expressão do meu professor ficou séria antes dele responder.

− Eu conheço os sinais de que tem um GoldenEyes por perto. Eu sabia que você seria um alvo para esse GoldenEyes se ele te encontrasse. – eu percebi Devon ficar tenso. Eu lembro que Gol-denEyes é como os Gnomos Caçadores – uma raça de Gnomos que gostam de caçar gente de todas as raças por diversão ou quando estão dando problemas – são chamados, e pelo jeito que os outros falam, são tenebrosos... – Encontrei um GoldenEyes quando eu ainda era um Lobisomem fora de controle, ele foi legal em me ajudar a ser mais civilizado, mas vi um Vampiro que não teve essa sorte... Gnomos Caçadores podem ser muito cruéis quando querem... E eu não quero encontrar outro.

Eu senti um arrepio. Arre! Já estão me contaminando pra ter medo desses Gnomos Caçadores! E olha que nunca encontrei um!

− Mas... O clã não te ensinou a se controlar? – Devon per-guntou, deixando o copo no chão. O professor riu.

− Ah, é mesmo! Quando alguém é transformado, o clã que o transformou o acolhe... Bem, como era um caso de vingança contra a família da minha mulher, eu nem devia estar vivo... Se estou aqui, é porque Medéia usou suas últimas forças para me curar. Ela dizia que... Alguém tinha de completar a missão da família dela. – ele sorriu triste-mente. Parecia perdido em lembranças.

E, então, a sala caiu num silêncio incomodo. Aaaaagh! Por que sempre que estão respondendo as minhas perguntas, a gente tem de cair num silêncio incômodo?!

Eu queria saber como meu professor e a elfa tinham se conhecido, mas... Sei lá... Acho que estaria invadindo demais a priva-cidade de Aaron... O mesmo tanto se perguntasse o que ele era antes de ser transformado.

Mas, bem, não precisei perguntar. Um bom tempo depois, ele mesmo começou a falar, ainda com um olhar meio perdido.

− Sabe... Ela sempre disse que nunca se arrependeu de ter abandonado as montanhas e o clã para ver como o mundo ficara... Não apenas por esse motivo, mas... Ela dizia que ter me conhecido fora a maior benção de Deus em sua vida... Ela só... Não contava que o clã com o qual sua família tivera uma rixa antes de irem para as montanhas ainda tivesse o mesmo líder e guardassem os mesmo ódios... Quando nos descobriram... Bem... Acho que você sabe o que aconteceu... – ele sorriu, o olhar triste, triste... Aaaaah! Que vontade de consolar meu professor! Droga! Maldito instinto protetor de Fada! – Quais são suas afinidades, Stacy? – ele perguntou. Deve ter percebido que era melhor mudar um pouco de assunto... O clima estava ficando um “pouco” pe-sado.

− Todas. – minha voz saiu num sussurro.

Eu senti meu rosto esquentar enquanto olhava para o chão. Sério, eu não gosto de ficar espalhando por aí que tenho afinidade com todos os tipos de feitiços! Me olham como se eu fosse uma mártir...

E com meu professor não foi muito diferente.

− Nas vezes que queriam te atacar e não conseguiram por causa dos brincos... Qual a distância que eles não conseguiam mais avançar? – havia um tom urgente em sua voz. Oxe... Qual a importância disso?

− Um metro e meio, mais ou menos, por quê? – perguntei, cru-zando os braços e semicerrando os olhos quando o meu professor se levantou e começou a andar de um lado pro outro.

− Era pra eles ficarem cinco metros longe de você, no mínimo... O encanto enfraqueceu... – ele parecia preocupado com algo. Não sei com o que. Se eu já tivesse aprendido a ler mentes, saberia. Mas antes tenho de conhecer um Mago.

Devon parecia inquieto, consultando o relógio. Aaron percebeu e olhou para o relógio de parede. E eu também, obviamente. Faltavam quinze minutos para a meia-noite. O que?! Ficamos tanto tempo assim aqui?! Impossível!

Aaron pareceu ficar ainda mais nervoso.

− Está tarde... É melhor vocês irem! – ele parou por um momento, enquanto eu e Devon nos levantávamos e Despertador vinha se colocar de guarda do meu lado. Já parecia preparado para o que quer que fosse. – Espere um pouco. Tem algo que Medéia deixou para que eu entregasse a quem precisasse. E acho que é você. – ele sumiu pela escada estreita, mas voltou menos de dois minutos depois com um embrulho em veludo vermelho, amarrado com uma corda também de veludo, prata. Parecia uma caixa. Ele entregou-me o pacote, e, caramba! Pesava muito! – Abram quando estiverem em segurança. Foi para entregar isso que ela abandonou as montanhas. – ele disse, e nos acompanhou até o portão.

Eu sabia que "em segurança" significava "fora da casa do lobi-somem que vai se transformar daqui a pouco". Sem problemas. Também acho mais seguro ficar lá fora... Ainda não estou pronta pra ver um Lobisomem ao vivo e em cores.

Mas antes eu achei que devia perguntar algo.

− Aaron... Tem alguma criatura ou feitiço capaz de atravessar as proteções dos brincos?

− Criaturas feitas de dor e atormentadas por ela. – ele disse an-tes de fechar o portão na nossa cara.

Num tindi o que ele quis dizer... Mania de falar por enigmas que esse povo tem, viu...


Já estávamos perto de casa e a meia-noite tinha passado fazia tempo quando decidi abrir o embrulho.

− Stacy, não é melhor abrirmos em casa? – Devon me per-guntou quando eu o fiz segurar a caixa pra poder desfazer o nó. E, caramba! Parecia nó de marinheiro de tão difícil! Ou melhor: o nó maçaroca, o nó de quem não sabe dar nó. Tipo eu...

− Estou com um pressentimento. Acho melhor abrirmos logo. – Devon franziu os lábios e não falou nada. Depois das visões que tive, ele leva muito a sério qualquer pressentimento que eu tenho. Eu não gosto, afinal, pode ser só coisa da minha cabeça, mas ele não me ouve... Fazer o que, né?

Despertador sentou de guarda, vigiando a rua atentamente.

Eu acertara ao achar que era uma caixa. Era de uma madeira es-cura, lisa, com uma inscrição na tampa, feita dos símbolos que representam os sons da língua da Teia de Seda, com Dragões, Corujas e Fênix em baixo-relevo por toda a superfície.

− Malë (Lê-se Malix)... Tempo... Nome estranho. – murmurei, enquanto levantava a tampa. Não havia cadeado nem qualquer tipo de tranca.

Haviam três objetos, pousados em veludo de um branco imacu-lado. Um colar e duas adagas embainhadas.

Olhei primeiro para o colar. Havia uma opala no meio, brilhante e cristalina. Fios de prata se enrolavam nela, prendendo-a como as patas de um inseto à uma espécie de placa pequena e azulada com uma cabeça de dragão pintada de cada lado, uma corrente de prata presa nas extremidades da placa. Estendi a mão para pegá-lo e poder observar melhor.

Mas, no momento em que o toquei, senti uma visão chegar.


Eu a reconheci de imediato. Era a mulher da visão que eu tivera no dia em que meu poder despertou, que me chamou de filha e disse que eu a honrava. No entanto, eu podia perceber que ela era alta, mais alta que Devon. Tipo, a cabeça dela quase encostava no teto! E longas, grandes e delicadas asas avermelhadas saíam das omoplatas em suas costas. Era uma Fada.

O quarto, por outro lado, levei algum tempo para reconhecer, mas percebi que era o meu quarto. Quinze anos atrás, mais organizado e todo rosa. Cor que desapareceu dele quando fiz dez anos.

Estava escuro e silencioso. Então, a mulher se aproximou do berço onde eu sabia que estava eu, um bebê recém nascido. Ela se inclinou sobre ele e então, quando ficou reta novamente, lá estava eu, de cabelos de anjinho parecendo fogo, pequena e gorducha – porque não continuei bonitinha desse jeito? – nos braços dela. Ela sorria, e parecia feliz.

− Então, pequena Stacy... Quem diria, não? – ela começou a andar pelo quarto, balançando o bebê – eu – suavemente. – Eu tinha de escolher. Tinha de escolher para evitar muita da dor que virá. Não queria colocar essa carga numa de minhas filhas, mas preciso. Sempre preciso. Sempre tem de ser uma das minhas filhas. Tudo porque alguém foi enganado, se desencantou, e enlouqueceu. E tem de ser você. Você é quem mais tem chances de aprender o que precisa para evitar essa dor por causa de quem vai conhecer ao longo da vida. – ela suspirou de um jeito que me pareceu cansado, mas então sorriu, e juro que vi flores se derramando de seus olhos. Uma coisa assim, meio mística. – Então, jovem Fada... Que você receba todas as afinidades e sua mãe não descubra o que você é pelo sabor do seu sangue. Isso te dará mais tempo. Tempo precioso. Só é necessário que você faça as escolhas certas... – ela voltou a colocar o bebê no berço, e então, de uma das dobras do vestido de tecido fino, tirou um pergaminho e o colocou sobre a cômoda.


Ofeguei quando me senti ser jogada para o presente novamen-te. Devon me olhava de um jeito estranho.

− Tudo bem? – ele perguntou, uma sobrancelha erguida sutilmente.

− Ahn... Sim. Eu acho. – peguei o colar e revirei-o na minha mão, até encontrar uma inscrição na parte de trás da placa prateada. Ahá! Aposto meu box de Death Note que o colar E as adagas são encantados! – Anoen... Passado. Muuuito conveniente... – murmurei, colocando o colar de volta no veludo.

− O que quer dizer com isso, Stacy? – percebi a preocupação leve de Devon, mas ignorei. Tô mais preocupada com esse presente do meu professor.

Voltei minha atenção para uma das adagas, cuja bainha era vermelha, com um pássaro vermelho-fogo na lateral, feito de algum metal, a asa estendida até a ponta. O cabo começava no mesmo pássaro com as asas estendidas formando o guarda-mão, a cabeça invadindo um pedaço da lâmina, curvada de modo que a cabeça se enrolava num rubi cujo brilho queria me tragar para ele, e então, o cabo em si formado de um jeito que lembrava penas longas da cauda do pássaro. Reconheci o pássaro como uma Fênix. Dei um sorrisinho saca-na e segurei o cabo.

E, de novo, fui tragada para uma visão.


Era uma clareira, muito bonita, mas não parecia pertencer ao meu mundo. Colunas brancas, verdes e cinza-tempestade se erguiam ao redor, flores entalhadas de forma suave. No centro, um pequeno pavilhão circular, ao redor do qual diversas pessoas de orelhas pontudas e pele morena estavam reunidas.

Eu não via direito o que se passava mais perto do pavilhão, e como parecia importante – pra ter tanto Elfo reunido... – a visão fez eu me aproximar. Obviamente, ninguém me percebeu. No entanto, havia uma atmosfera um tanto sombria no rosto dos Elfos.

Primeiro, vi a mim mesma, o rosto sombrio, as asas bem maiores do que atualmente, sendo possível vê-las me emoldurando, azul-claro translúcido, alguns olhos de coruja na parte de cima em tons de azul um pouco mais escuro, veios mais escuros por onde o sangue com certeza passava. Meu braço estava enlaçado no de Sammuel, que olhava para baixo de um jeito que eu jurei que ele estava muito envergonhado. Percebi Devon distante, parecendo cansado e querendo parar tudo aquilo. E papai estava ao lado dele, os lábios apertados numa carranca de quem não gosta nada do que está vendo.

Olhei então para as outras figuras em cima do pavilhão. Uma jovem elfa, muito bonita, de cabelos negros e cacheados presos com muitas peças de prata em forma de flores e olhos cinza-tempestade, tristonhos, que toda hora desviavam para Sammuel, usando roupas coloridas. Reconheci a tatuagem de borboleta vermelha e roxa em uma de suas mãos e os anéis de folhas e flores, e fiquei surpresa. E Eshe à sua frente, os cabelos em um tom avermelhado como numa pintura Expressionista – angustiante e estranho, devo dizer, afinal, ele odeia vermelho – e o rosto tão triste que eu jurava que ele só não saiu correndo por um motivo muito forte.

E então, o Elfo à frente deles, cujo rosto era impassível, com a sombra de um sorriso – aquele Elfo me inspirou antipatia, sério – falou de um jeito que me deu vontade de vomitar.

− E em nome das Valkírias, de Freyr e de Deus, eu declaro reali-zada a união entre clãs através de Eshe e Hadassa. – e então, ele amar-rou uma corrente de prata em torno dos pulsos dos dois.

E eu juro que os Elfos presentes só não choraram por respeito. E a mesma voz com desejos de sangue e morte ecoou, sussurrando, sem parar, na língua da Teia de Seda, maldições. Senti-me sufocada.


Voltei ao presente, mas instantaneamente outra visão me arrastou.


Era eu. Eu não acreditava que encarava a mim mesma, mas a-quele cabelo era inconfundível. Eu estava muito diferente.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto silenciosamente. Havia san-gue no meu cabelo e nas adagas que eu empunhava, uma delas sendo a que eu segurava naquele instante, reconheci o guarda-mão, o colar Anoen e uma corrente com um pingente de Olho de Hórus pendurados no meu pescoço; vários "arranhões" sérios no meu rosto e nos meus braços como se garras tivessem tentado arrancar meus braços ou minha cabeça. Eu percebia minhas asas, sangrando, rasgadas, aparecendo apenas levemente detrás de mim. E o olhar que eu exibia era um misto de tristeza, raiva e ódio. Mas a raiva que eu via, reconheci. Eu já me olhara assim no espelho muitas vezes. Era raiva de mim mesma. Além disso, eu via traços de azul-elétrico se espalhando pelas íris de meus olhos. Era estranho.

Eu fizera algo muito errado, e agora estava com raiva, ódio e muito triste.

E então, como se meu eu do futuro me enxergasse, falou.

− Tudo culpa sua.


Fui jogada para o presente de novo. Com certeza, eu vira o futuro. E não gostei dele. Nem um pouco.

Aquele casamento mais parecia um enterro, pelo amor de Deus! Como posso ficar feliz?! Além disso, aquele sangue todo e aquele olhar... Brrr!!! Não era eu! Me recuso a acreditar que realmente era eu!

Devon me olhava de um jeito preocupado.

− Por tudo que é sagrado, Stacy! O que houve?! A última vez que te vi tensa desse jeito foi quando você expulsou aquele RedEyes da casa da vovó! – sua voz tinha um tom desesperado.

− Já te conto... Só preciso confirmar mais uma coisa...

Desembainhei a adaga, e estava gravado Savën (Lê-se Savixn), que significa Futuro. Justo como pensei.

Embainhei a adaga novamente, deixando-a sobre o veludo, e o-lhei para a outra adaga. Olhos de Coruja estavam pintados na bainha de couro marrom. O guarda-mão não guardava tanto assim, eram como asas que se abriam em direção a lâmina com as penas para fora, unidas, a beira quase completamente rente à lâmina e ao cabo, com uma pedra rajada de preto e marrom de um jeito assustador. No fim do cabo, um olho de coruja estava pintado. Tudo em tons de marrom. Eu também a empunhava na minha visão.

− Passado e Futuro já foram... Só falta Fëna (Lê-se Fixna), Pre-sente. – murmurei para mim mesma, e estendi a mão, segurando a adaga.

A sensação familiar da visão me invadiu.


Eu estava em frente à Catedral da Sé. Olhei ao redor, e enxer-guei. Senti um arrepio percorrer meu corpo e uma lágrima de medo escorrer pelo meu rosto.

Vi quando o Djin pressionou seu rosto contra o chão, socando com força o outro que tentou se aproximar, murmurando feitiços incontáveis.

Sammuel e Eshe enfrentavam o Djin. E estavam levando a pior.


Eu estava de novo em frente a Devon, e percebi que eu realmente derramava lágrimas. Ignorei minha visão levemente em-baçada e o olhar preocupado de Devon e o fato de que ele estava mordendo os lábios tão forte que logo começaria a sangrar e de-sembainhei a adaga, para ter certeza. E ali estava. Fëna. Presente.

Senti vertigem. Sammuel e Eshe precisavam de ajuda.

− Stacy, por favor, conta o que aconteceu. – Devon pediu de modo suplicante. Acho que, se não tivesse de segurar a caixa, estaria de joelhos...

− Tive visões. Passado, Futuro, e agora, Presente. Temos de ir pra Catedral da Sé, e rápido. – embainhei a adaga e comecei a fechar a caixa rapidamente. Como chegar lá em pouco tempo?! De busão, nem pensar a essa hora...

− Por quê?

− Sammuel e Eshe estão enfrentando o Djin e levando a pior.

Eu vi Devon ficar pálido, mas logo a cor voltou ao seu rosto junto de uma expressão de quem tem uma ideia e está determinado a segui-la.

− A casa da minha mestra fica aqui perto. Ela tem afinidade com feitiços de teleporte, típico dos Fravashis. Ela vai nos ajudar.

− Vamos logo. – eu disse, e aguardei Devon me guiar.

Passado, Presente e Futuro. Dragão, Coruja e Fênix, os animais que os representam segundo os livros que vovó me deu – embora Dra-gões não sejam exatamente animais, mas desapareceram há tanto e já eram tão velhos quando desapareceram que viraram os representantes do passado. As corujas e seus olhos representam perfeitamente o observar do presente, do que ocorre. E a Fênix e sua capacidade de renascer é ideal para o futuro, porque ele está sempre se renovando a cada nova escolha nossa.

Tempo é um nome apropriado pra essa caixa...

Caixa do Tempo.

Onde ficam guardados os artefatos que mostram o Tempo...


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