18 outubro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 14: Olho Que Tudo Vê

Estávamos saindo do local, papai carregando a ânfora com as cinzas de mamãe – ele não deixara mais ninguém se aproximar – quando o grupo apareceu. Eu não gostei deles. Definitivamente. Eu nunca conheci gente que eu odiasse mais do que odeio a Thaíze. E isso é um prodígio, realmente.

Nós os reconhecemos porque tínhamos descoberto o que mamãe era. Caso contrário, jamais saberíamos o que eram. Devon disse que Vampiros estão entre as raças mais difíceis de se reconhecer. Apenas papai sabia quem ela era, de fato, e nunca contara a vovó. E eu, bem, eu só desconfiava... E sin-ceramente, a impressão que tive é que papai queria sair correndo quando os viu aparecerem.

Eram cinco, todos de olhos azul-elétrico e cabelos negros e lisos como os de mamãe. Vestiam-se de forma elegante com roupas de grife – um tipo do qual eu não gosto, prefiro ir fazer compras no Lojão do Brás. O do meio parecia ser o mais velho e o líder. Parecia ter uns quarenta anos, mas com certeza é mais velho. Mamãe tinha cem anos, mas parecia ter no máximo trinta. E papai... Nem sei quantos anos ele tem de fato!

Vovó avançou alguns passos, irritada, Devon me abraçou pelos ombros de um jeito preocupado e papai abraçou a ânfora com mais força, recuando um pouco. Parecia ter medo de que a tirassem dele. E eu sutilmente fui para o lado, puxando Devon comigo para ficar na frente de papai. Eu não deixaria ele perder o que sobrara de mamãe. Jamais. Se não pude impedir a morte dela, não vou deixar isso acontecer.

− O que vocês querem? – vovó perguntou, um tom ferino e selvagem em sua voz que eu nunca ouvira. E então, eu percebi que Devon e ela estavam com seus pingentes pendurados no pescoço, como se eles esperassem por aquilo.

− Ora, Eurídice... Vim apenas dar meus pêsames pela sua perda. Afinal, Diane era do nosso clã... – ele CONHECIA vovó? De onde? Ah, tanto faz... Afinal, vovó é BEM velha...

Mas, peraí... Então, foram VOCÊS que expulsaram minha mãe, seus crápulas?! Aaaah, vou encher vocês de bala de prata! – sim, segundo mamãe, prata funciona com Vampiros.

− Se vocês a expulsaram, então, ela não era do clã de vocês. – Aaaaah, o que eu tenho na cabeça?! Por que raios não fiquei quieta?! Só sei que falei séria, com a voz sombria. Devon apertou meu ombro como que com medo por mim. Ai! Você tá me machucando!

O mais velho deixou de olhar para vovó, deslizando seus olhos para mim. Eu vi desdém nos olhos dele. Grrrrr, deixa eu espancar esse desgraçado, Devon! Ele veio só pra zombar de nós!

− Ah... Então, foi por sua causa que ela se deixou morrer? – ele disse num tom debochado, ao que os outros Vampiros riram disfarçadamente. Como se me achassem menos que nada. Difícil, eu sei, mas a sensação foi essa.

Semicerrei os olhos, balancei os ombros para que Devon me soltasse e deixei de ficar na minha costumeira pose relaxada.

− Não. Foi à mim que ela deu a própria vida ao não se alimentar de mim depois que meus poderes despertaram. E no que me consta, vocês nunca er-gueram um dedo para ajudá-la só porque ela não queria que eu fosse como vocês. Então, vocês não são bem-vindos. Por favor, saiam antes que aconteça algo que vocês não vão gostar.

Eu tentei soar imponente e dar o tom mais ameaçador possível. Se tive sucesso, não sei. Só sei que ele me olhou mais sério, enquanto eu sentia mi-nha Aëke escorrendo por mim mais rapidamente. Eu estava perdendo o controle, seriamente. Meus lábios já deviam estar escuros.

Um dos Vampiros aparentemente mais novos olhava para mim de um jeito que eu realmente não gostei. E desviei minha atenção do mais velho para ele, querendo mais do que nunca que eu já tivesse ganho meu primeiro pingente para jogar um feitiço que fizesse o chão onde eles pisavam virar areia movediça! Rá! Seria tããããão bom fazer isso!

− Tio... Não estrague os olhos dela... Vão ficar perfeitos na minha cole-ção. A peça principal. – ecaaaaaa! Ele coleciona OLHOS! Que nojento! Vampi-ros são muito estranhos.

Sem ofensas, mamãe.

E quer meus lindos olhinhos na sua bizarra coleção de olhos?! Nem que Kolshö caísse na Terra!

Só sei que aquilo me deixou muito atenta. Eles tinham vindo por outro motivo além de debochar de nós. E saber disso me deixou muito mais irritada.

− O que vocês querem, realmente? – Devon perguntou, avançando até ficar lado a lado comigo e com vovó – eu não percebi que tinha avançado, sé-rio. Eu tenho mania de fazer as coisas e não lembrar que fiz.

O mais velho fez uma careta, olhando de um modo que pra mim dizia que o mais novo ia levar o pior castigo da vida dele depois daquilo, e eu perce-bi o que colecionava olhos se encolher. Rá! Quem manda?! Provavelmente ele ficou irritado porque eu acho que ele ia tentar fazer tudo pacificamente, mas o mais novo devia ter estragado isso... Tanto faz, não aceito oferta nenhuma desse cara.

− Queremos as cinzas de Diane. Você sabe, Eurídice, que cinzas de Vampiro são o principal ingrediente de nossas poções... – Ele semicerrou os olhos, e eu entendi porque meu pai protegia a ânfora com tanto afinco. Ele não queria que as cinzas de mamãe fossem profanadas. E eu também não! Apesar de ser estranho um Vampiro usar as cinzas de outro Vampiro para fazer suas poções... – ainda mais porque Alquimia é coisa típica dos humanos.

− Não. – fui a primeira a falar. Ah! Pro Inferno que eu não tenho um pingente! Esses desgraçados não vão usar as cinzas de minha mãe numa maldita poção! Nunca! Nem por cima do meu cadáver!

− Você acabou de descobrir o que é. Nem tem um pingente próprio ainda. Acha que pode com a gente? – o Vampiro abriu os braços, mostrando ele e os demais.

− Como... Quer saber? Não interessa como você sabe essas coisas. – eu disse entre dentes, já sentindo o ar mais frio. Eu disse que os pingentes servem para conduzir melhor nossas essências e ter maior controle sobre os feitiços, não disse? E eu disse que é possível realizar magia sem eles, embora seja mais arriscado? Não? Achei que não...

Eu queria congelá-los pra depois quebrá-los em mil pedacinhos. No melhor estilo de videogame. Ia ser tããããoooo legal...

No entanto, eu perdi o foco quando vi Eshe correndo na minha direção. Os cabelos podiam estar verde-fluorescente e a pele mais clara, mas eu reco-nheci seus olhos. Eu lembro que mandei uma mensagem pro celular dele – trocamos números durante a despedida mais de um mês atrás – falando que minha mãe tinha morrido. Ele respondeu dizendo que ia ver se conseguia ir nem que fosse pra dizer pessoalmente que sentia muito. Sinceramente, eu já tinha perdido as esperanças de que ele viria. E não o culparia se não tivesse vindo. Eles tão caçando um Djin e coisa e tal...

Sammuel vinha mais atrás, andando de um jeito que me dizia que ele não queria estar ali. Ele tinha cortado o cabelo, mas arrumado de um jeito que as pontas das orelhas não apareciam. E, sinceramente? Parecia mais idiota que de costume... E ainda assim mexia comigo. Cupido idiota...

Eshe parou de correr ao chegar na minha frente. Parou, ofegou, pegou fôlego e então endireitou a coluna.

− Sinto muito, Stacy. – ele disse, uma das mãos no meu ombro. Sorri tristemente para ele, para em seguida olhar para os Vampiros de novo, com uma expressão séria. Percebi o mais velho olhar para Sammuel de um jeito apreensivo, enquanto ele ia para o lado de Eshe.

− O que eles querem? – Sammuel perguntou com aquela falta de tato que só vi nele, o que me fez girar os olhos.

− Minha mãe morreu, obrigada por sentir muito. – eu comecei sarcasti-camente, o que fez ele olhar para mim como se eu fosse um ET. Talvez eu seja mesmo. – Eles querem as cinzas da minha mãe.

Voltei novamente minha atenção ao Vampiro mais velho, que apenas olhava para Sammuel de um jeito curioso.

− Então, dê as cinzas para ele. – eu vou fingir que não ouvi Sammuel dizer isso...

OK! EU OUVI SIM!

Empurrei Eshe para o lado, olhando para Sammuel como se ele tivesse galhos na cabeça. Ele ergueu uma sobrancelha ao meu olhar assassino. E, sem medo de retaliação mais tarde, dei um tapa na cara dele, que ficou verme-lha imediatamente com meus dedos e a palma da minha mão marcados. Mas não foi um tapa comum. Foi um tapa do tipo que acaba com a moral, fingindo antes acariciar o rosto dele. Hiahiahiahia!

Em seguida, segurei os dois lados da gola do sobretudo dele e o puxei, ficando cara a cara com ele.

− Você ficou louco, Sammuel?! EU NÃO VOU ENTREGAR AS CINZAS DA MINHA MÃE PRA UM BANDO DE VAMPIROS NOJENTOS! – sim, eu ber-rei! Já sei como minha voz atordoa! – ELES A EXPULSARAM DO CLÃ! NÃO VÃO CONSEGUIR NADA DELA!

E não atordoou só ele e Eshe, atordoou os Vampiros também.

Soltei Sammuel, que balançou um pouco antes de se firmar – acho que afetei o senso de equilíbrio dele – enquanto arrumava uma mecha do meu cabelo que se soltara do pente-tiara enquanto eu gritava com o Elfo idiota à minha frente.

− Ok, ok, sugestão infeliz... – ele murmurou, coçando a orelha, perce-bendo, talvez pela primeira vez, que eu era teimosa. Em seguida, ele ficou pensativo. – Se ela não era mais do clã, eles não tem direito às cinzas dela...

− Ah, faça-me o favor! – o Vampiro mais velho disse de forma exaspera-da, avançando na nossa direção. Automaticamente, eu assumi uma posição defensiva. – Não importa se ela era ou não do nosso clã, importa que nós vie-mos pegar as cinzas dela e vamos pegar, nem que tenhamos de deixar mais seis mortos! – em seguida, percebi ele começar a concentrar-se num feitiço.

Aaaah, mas você não vai fazer nada com a gente!

Eu pensei em me concentrar como antes de Sammuel e Eshe chega-rem, mas Sammuel me empurrou, colocando rapidamente uma corrente com um pingente de Fênix – as Hamadríades deviam ter reposto o perdido... – enquanto Eshe sacou o que me parecia apenas um cabo de adaga sem lâmina, mas a lâmina de uma faca longa de caça – muito suja de sangue, por sinal – logo apareceu, assim, do nada. Vovó e Devon revelaram os pingentes escon-didos sobre as camisas, e logo já estavam recitando feitiços e encantos de proteção antes dos de ataque.

Senti uma mão em meu ombro, e ao olhar, vi papai me oferecendo a ânfora com as cinzas de mamãe para eu segurar. Ele sorria, então, aceitei, mesmo estranhando. Ele parecia disposto a não se separar dela por nada no mundo.

− O que vai fazer, pai? Sua Aëke está completamente trancada... – eu murmurei, mas então ele tirou uma faca muito afiada de dentro do casaco.

− Eu não dependo só de magia, sabe? Proteja as cinzas da sua mãe. – ele disse, ficando ao lado de vovó. Percebi ela sorrir, assim como eu. Papai parecia ter superado uma fase ruim. Ou começado a superar.

− Bom ter você de volta, Dwight. – ela disse, ao que ele sorriu do modo que alguém pede desculpas sem palavras. Ele parecia determinado a acabar com aqueles Vampiros.

E então, começou.


Eu fiquei longe da batalha, fazendo o que papai pedira: proteger as cinzas de mamãe. No entanto, o Vampiro que disse para não estragar meus olhos ignorou a batalha de feitiços e armas e veio direto em minha direção.

− Você não tem como se proteger, e todos que poderiam estão ocupados... – ele disse de modo sarcástico, um pingente de pentagrama preso no guarda-mão de uma espada semelhante à uma cimitarra, uma espada árabe de lâmina curva afiada só de um lado. Ele girava a arma com facilidade, pare-cendo louco para usá-la. – Já disse que seus olhos vão ser a peça principal na minha coleção? – ele riu e avançou para me atingir.

Eu me encolhi instintivamente, preparada para correr à qualquer mo-mento – oieeeeee, eu não tenho nada para me defender e o instinto de preser-vação fala alto – no entanto, quando ele estava à um metro e meio de mim, ele parou, não conseguiu mais avançar. Como quando eu enfrentara o RedEyes.

− O que... – ele começou, mas logo parou, olhando de forma assassina para mim. – Malditos brincos élficos... Com certeza ganhou eles de seus ami-guinhos... – ele ainda tentou avançar, murmurou inúmeros feitiços, mas sem sucesso. Os feitiços eram rechaçados pelo que quer que fosse. Acho que são os brincos mesmo...

E eu, que não sou boba, me aproximei lentamente da batalha. Talvez se meus aliados ficassem dentro do raio de ação dos brincos, eles também fossem protegidos... Os Vampiros começaram a ser arrastados quando eu fiquei à um metro e meio de distância deles, feitiços começaram a ser rechaçados. O mais velho olhou com raiva para mim, ao que eu sorri de forma... Hmmmm... Insolente? Ooooh, sim, insolente!

− Acha que esse feitiço vai durar muito tempo? – ele disse com um sorriso sinistro que me deu uma pontinha de medo. Em seguida, calmamente, ele começou a murmurar uma série de feitiços. Conforme ele mudava de feitiço, sua face ficava ainda mais irritada. – Por Drácula! Que tipo de escudo você está usando?! – sua voz era a mais irritada possível – acho que, se ele pudesse, estaria bebendo do meu sangue de tanta raiva – e seus olhos estavam levemente avermelhados. Vampiro com olhos avermelhados? Xiiii, a coisa tá feia.

Eu fiquei séria, e tentei fazer minha voz soar confiante.

− Isso não importa. Importa que vocês não vão conseguir pegar as cinzas de minha mãe, então, desistam. – eu percebi papai se aproximar de mim, a faca estendida perigosamente à frente dele. O Vampiro recuou um passo ao olhá-la, em seguida, bufou e nos deu as costas, balançando as mãos para ser seguido.

− Dane-se. Temos mais cinzas para ir atrás, uma ânfora à mais ou à menos não faz diferença. – eu percebia a raiva em sua voz. Para ele, fazia diferença sim, embora eu não saiba o motivo. Assim que eles sumirem, juro que deixo minhas pernas cederem... Eu sei, pernas, vocês não se aguentam mais de tanto desespero.

O Vampiro que queria meus olhos – que podia ser muito bonito para al-gumas garotas, mas pra mim era mais um na multidão – me olhou de um jeito maníaco e sorriu sacana.

− Uma hora a gente vai se encontrar de novo, Fadinha... E seus olhos vão parar na minha coleção.

Infantilmente, eu lhe mostrei a língua como uma criança birrenta. Qualé, ele merecia isso! Ele bufou e seguiu atrás dos outros Vampiros. Como quem diz “Quanta criancice numa só pessoa”.

Assim que eles sumiram, eu entreguei a ânfora a meu pai e deixei mi-nhas pernas cederem, caindo de joelhos no chão. Aaaahh! Nunca mais enfrento um Vampiro que tem sabe-se lá Deus quantos anos de vida!

Eu só queria relaxar e deixar meu desespero contido escapar por um ri-so do tipo falso e desesperado. Mas nem todo mundo queria deixar que o desespero contido se esvaísse. Sammuel me levantou com violência, apertando meus ombros e me encarando. Sabe... Se eu tivesse morrido, nunca mais teria nem uma remota chance de ver esses lindos olhos de novo – embora o dono desses olhos seja um idiota... Ficar perto da morte te faz pensar, sabe...

− Você protegida por um feitiço de alto escalão digno dos Antigos, e a gente aqui, se matando?! – ele estava muito irritado. Eu já via raios nos olhos cinza-tempestade...

− Você está me machucando, não precisa me soltar, só afrouxar o aperto... Se me soltar, eu vou cair... – eu disse com a voz fraca, ainda com um sor-riso nervoso na cara, as pernas bambas... Deus, você existe e é pai!

Sammuel afrouxou o aperto nos meus ombros, mas não me soltou – ainda bem! – mas eu sentia o olhar de todos em mim.

− E então? O que tem a dizer em sua defesa? – ele perguntou novamente, já mais calmo.

− Eu não sei... Lembro que quando enfrentei o RedEyes, ele tentou se aproximar para me impedir de terminar de recitar o encanto, mas ele não con-seguia... E hoje, quando aquele lá que quer meus olhos na coleção dele veio pra me matar, não conseguiu se aproximar... Ele tentou um monte de feitiços mas não conseguiu... Achei então que, se eu me aproximasse de vocês, talvez eu conseguisse rechaçar os Vampiros... Eu não sei como... – minha voz tremia. Sério. Minha cabeça estava à mil por minuto, tentando descobrir uma solução para o mistério... – Ele disse algo sobre meus brincos serem élficos, mas eu estava mais preocupada em me aproximar de vocês...

Sammuel me soltou, ao que Devon me abraçou, me fazendo apoiar a cabeça no ombro dele, murmurando muitos "calma" e "já passou" no meu ouvido. Só então eu percebi que tremia de nervosismo...

− Você não comprou esses brincos com suas economias, comprou, Stacy? – Vovó perguntou com um tom cínico. Ela já sabia a resposta. Mas eu tinha de responder.

− Não. No dia que conheci o Sammuel, alguém jogou uma caixinha na minha varanda com os brincos e um recado dizendo pra usá-los porque combinavam com meus olhos. Gostei deles então usei. – eu usei minha melhor cara-de-pau. Vovó e todos bufaram de frustração.

− Quantas vezes vamos ter de falar pra não usar presentes de estranhos? – Devon murmurou, mas em seguida me abraçou. – No entanto... Se descobrir quem te deu esse presente... Me lembre de agradecer. – eu percebi o riso na voz dele, e eu também ri. Minhas pernas estavam mais firmes, então aproveitei para virar-me e abraçar Devon com força!

Bom ter sobrevivido pra poder abraçar meu irmão mais vezes!


Quem me deu esses brincos? Agora eu estou determinada a descobrir! Sério!

Quem que não fosse da minha família – excluindo os parentes que não conheço por parte de vovó que moram na Irlanda – teria um motivo tão forte para me proteger? Quer dizer... Antes de Sammuel e Eshe voltarem a ir atrás do Djin, eles olharam melhor os brincos e constataram que tinham sido feitos por NightEyes, que são Elfos que vivem no topo das montanhas mais altas desde a época da Inquisição, isolados do resto mundo. São chamados NightE-yes por que seus olhos são escuros com pontos brancos como o céu à noite. E é estranho esses brincos estarem aqui, comigo, afinal, eles não descem das montanhas há muuuuuuuuito tempo.

Enfim...

Melhor dormir, amanhã tenho um dia cheio...

Mamãe... Espero que você esteja num lugar melhor. E cuida do papai. Ele tá se mostrando forte, mas dá pra perceber que ele queria ter ido com vo-cê... Até vovó já desistiu de tentar consolá-lo. Continua ajudando-o a sair do poço.


A mulher de olhos escuros com pontos brancos o amava, eu percebia no sorriso suave. Os cabelos claros dançavam ao sabor da brisa de início de ma-nhã. Eu percebia que ele a amava também pelo gesto delicado ao colocar uma mecha do cabelo atrás das orelhas pontudas. Uma elfa. Uma NightEyes. Mas eu não via os olhos do homem. O cabelo grisalho mais comprido do que era o costume os ocultavam de mim.

Por alguma razão, me senti intrusa naquela felicidade.

Uma menina de cabelos claros e olhos de um vermelho-rubi profundo com riscos azul-fogo, com pupilas quase inexistentes de tão mescladas ao vermelho, brilhantes como chamas vivas, aproximou-se correndo, e tive um sobressalto ao ver os brincos de folha em suas orelhas pontudas. Ela atirou-se nos braços do homem, a elfa rindo.

Então, eu vi o homem. Apesar dos olhos iguais aos da menina – embora estivessem completamente sem pupilas – e do rosto ligeiramente novo, era impossível não reconhecer meu professor de Geometria, Aaron. E seus olhos me diziam que ele não era Humano.

− Cuidado! Você sabe que Ana Clara nos enforca! – ela disse rindo, a-proximando-se e abraçando o homem. Ele riu, dando um beijo no rosto da me-nina com olhos iguais ao dele e então, um beijo leve nos lábios da elfa. Pareciam tão felizes...


Havia sangue. Eu não apenas o via no chão, mas também era capaz de sentir o cheiro. Por alguma razão, minhas mãos também estavam manchadas de sangue.

A visão me levou a andar um pouco, saindo da escuridão, e vi. Não ha-via mais felicidade.

O homem de cabelos grisalhos chorava sobre os corpos destroçados da mulher e da filha. A menina não usava os brincos. E percebi um talho enorme no braço de Aaron, lembrando a mordida de um animal gigantesco, um talho do qual não ficara cicatrizes.

Ele gritou devido a uma dor que eu sabia que não era física, era mental, e percebi seus olhos. Não eram mais daquele vermelho-rubi com riscos azuis e sem pupilas.

Eram os olhos que eu conhecia. Azulados com um halo verde ao redor.

MoonEyes. Olhos de Lobisomem.


− Aaaai! – gritei ao acordar. Qualé, acordei caindo da cama e batendo a cabeça no chão!

Sentei no chão, massageando o local dolorido – quase minha cabeça toda – quando Despertador se aproximou e esfregou um tanto desajeitadamente uma das patas onde o galo ficaria.

− Achei que sua tarefa era impedir coisas desse tipo... – eu murmurei de mau humor, mas logo o abracei pedindo desculpas ao ver seu olhar triste. Eu não consigo ficar brava com ele por muito tempo! É IMPOSSÍVEL!

− Stacy! Tudo bem?! – ouvi Devon batendo na porta, o som um tanto es-tranho, como se estivesse escovando os dentes.

− Tudo! Só cai da cama e bati a cabeça! – gritei de volta, levantando do chão e trocando de roupa.

Agora eu sabia por onde começar.

Por alguma razão meu professor me dera os brincos. Não sei por que, mas tenho de descobrir. O que ele era antes de ser transformado não importa. É a vida pessoal dele. Se ele não quiser me contar, que não conte. Aliás, vovó comentou que quem foi transformado não gosta de falar sobre o que era antes, pois geralmente é doloroso lembrar.

Eu já ia sair pra tomar café, quando ouvi Despertador choramingar.

− O que foi? – me aproximei dele, acariciando sua juba vermelha. Ele empurrava meu travesseiro, como que querendo que eu visse algo. – Tá bom, tá bom...

Eu levantei meu travesseiro, e acho que eu estava radiando Aëke pra todos os lados com força total!

Ali estava, um Olho Que Tudo Vê na madeira dos pingentes! Meu pri-meiro pingente!

− DEVOOOOOOOOOOOON! CONSEGUI MEU PRIMEIRO PINGENTE! – eu berrei! Eu tinha de berrar!

Afinal, eu estava explodindo de felicidade!

Mamãe, espero que esteja feliz! Essa foi por você!


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