18 outubro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 13: Santos de Vidro e Papel

Era mais do que óbvio que minha mãe se alimentou de meu sangue anos à fio. Era óbvio que meu pai também era sua vítima, ultimamente definhava mais que de costume – embora talvez fosse voluntário, vai saber. Devon talvez não fosse sua vítima. Mas qual o sentido disso?

Eu não sabia o que falar. Afinal, falar o que? Minha mãe é uma vampira! E não é uma vampira do tipo Crepúsculo, definitivamente...

Num dado momento, provavelmente por ter percebido que o quarto estava mais claro, ela ergueu a cabeça do ombro do meu pai e me olhou. O que eu via em seus olhos era... Vergonha? Medo? Eu jamais pensei em ver tais coisas nos olhos de minha mãe. Não Diane, a mãe Sargento mais linha-dura que já conheci. Apesar de que ela tem sido toda carinhosa comigo, mesmo com um olhar esfomeado de vez em quando...

Ela se levantou lentamente de cima da cama e de meu pai, o ferimento já fechado e muito vermelho. Ela limpou o sangue que escorria da boca e deu a volta na cama, ficando de frente para mim, olhando sempre para baixo. Depois de um tempo, ela ergueu os olhos e me olhou. Era um olhar estranho. Como se ela esperasse que eu a censurasse por algo.

− E então? O que vai fazer agora? – eu realmente ouvia medo na voz dela? Minha mãe tinha medo de mim?

Eu não sabia o que responder. O que eu faria? Eu nem sabia a história toda... Vovó me ensinou a não julgar aqueles que amo apressadamente. Apesar de tudo, eu amo a minha mãe; ela me trouxe ao mundo e cuidou de mim todos esses anos, mesmo que ela quisesse que eu fosse como a Thaíze e não me aceitasse da forma como sou. Ao menos era essa a impressão que eu tinha.

− Eu não sei. – o olhar dela era surpreso. Será que ela esperava que eu a condenasse? Que eu recuasse ou avançasse chamando-a de monstro? Eu jamais faria isso. Monstros são aqueles que matam conscientemente, que abusam de crianças e de outros. Não. O que eu conhecia de mamãe, ela não era um monstro. Era só rígida na nossa criação. – Que tal me contar tudo para que eu decida? – inclinei a cabeça para um lado, falando baixo. Tive vontade de sorrir, mas não consegui.

Mamãe ofegou. Com certeza ela não esperava aquilo. Qualé... Ser previsível é chato!

− Vamos descer. Seu pai precisa descansar. – ela disse suavemente, enquanto seguíamos para a cozinha. E somente com aquelas palavras percebi que ela o amava e muito.


Eu acho que nunca passei por cena mais estranha. Eu e mamãe estávamos sentadas frente a frente na mesa circular, com um pote com bolachas wafers recheadas com morango – minha favorita! – e chá de camomila em canecas coloridas. Eu e mamãe não ficamos à sós assim desde... Sei lá, acho que meus dez anos, no máximo!

Ela começou falando sobre coisas banais, como o quanto eu tinha crescido, com um tom de voz melancólico. Depois de uns dez minutos nisso, ela fez uma pausa longa, suspirou e começou a falar.

− Não nego o que sou, Stacy. Não nego que me alimentei de você por tanto tempo. Mas fiz isso por medo.

− Medo do quê, mãe? – afinal, que medo tão grande era esse à ponto de se alimentar de mim? Vi um sorriso tristonho se abrir nos lábios dela quando a chamei de mãe. Sinceramente, foram poucas as vezes que a chamei assim... Era sempre “Diane”. Ok, lembrava um pouco uma situação tipo “Samara” – O Chamado, lembram?. Algo assim.

− Medo que você fosse como eu. – duh. Legal, explica direito! – Eu mor-di Devon quando ele era pequeno para saber que lado ele tinha puxado: o meu ou o do seu pai. Dá pra saber pelo sabor do sangue.. Fiquei aliviada quando constatei que ele era como seu pai. No entanto, com você, foi diferente... Eu não consegui definir pelo sabor do seu sangue a quem você pertenceria. Tive medo que você se transformasse em alguém como eu, dependente de sangue, e continuei a me alimentar de você. Sabia que, assim, você não seria nem do nosso mundo nem do dos humanos e não poderia realizar magia, mas eu preferia te ver assim do que uma viciada como eu.

Eu fiquei sinceramente impressionada. Sério, minha mãe tinha uma face que eu nem sonhava em conhecer...

− E porque me tratava tão friamente como se me odiasse antes de meu poder despertar? Aliás, como soube que meu poder tinha despertado? – eu tinha de perguntar. Oieee, ela tinha de ter uma justificativa!

− Era uma tentativa de esquecer o que eu fazia... Achava que se tratas-se você com indiferença, não seria tão ruim... Acho que foi uma das maiores besteiras que já pensei... – ela riu de um jeito amargo. – E eu sabia porque antes você não exalava essência, como alguém com poderes adormecidos. Mas quando voltou, eu pude sentir a essência emanando de você. Tão forte... – sorriu entre triste e orgulhosa, e então ficamos em silêncio por mais um longo tempo.

Mamãe abriu a boca para falar algo, no entanto, eu cortei-a.

− Mas... Meus olhos sempre foram verde-folha! Os olhos dos Vampiros não são azul-elétrico?

Mamãe suspirou antes de responder.

− Quando se trata de mestiços de duas raças que já são bem mescladas, não se pode confiar na cor dos olhos... Se eu fosse humana, não teríamos com o que nos preocupar. Mas não sou, então... Você poderia ter a aparência das Fadas, mas a natureza dos Vampiros. – Fala sério! Quer dizer que eu podia ser uma sanguinária ao invés de uma... Fada?!

− Mas nesse caso eu não teria olhos bicolores? – falei me lembrando de Eshe. Mamãe ergueu os ombros.

− Talvez... Genética é algo estranho e não muito confiável às vezes... – ela sorriu, e eu sorri junto. – Você talvez esteja se perguntando se seu pai sabe ou não... – balancei a cabeça lentamente. – Sim, ele sabe... Estamos juntos há mais de cinqüenta anos, Stacy, embora sua vó só saiba há vinte. E ele me deu permissão para me alimentar de seu sangue, pouco depois que você nasceu.

Franzi as sobrancelhas. Se mamãe se alimentava dele há tanto tempo, porque agora eles estão nesse estado tão... Lastimável?

− Por que você e papai estão tão... Fracos? – a pergunta escapou sem controle. Mamãe sorriu tristemente antes de responder.

− Meu corpo se acostumou a ter uma quantidade de sangue ao qual não tenho mais acesso desde que ficou evidente que você é uma Fada. Não posso tomar mais do que tomo do seu pai, que é mais do que tomava antes, mas não é o suficiente para mim. – mamãe pegou uma mecha do cabelo e começou a trançá-la frouxamente, desfazer o que tinha feito e voltar a trançar, incessantemente. – Além disso, já fiz seu pai não poder mais usar magia por ter trancado completamente a Aëke dele após tanto tempo, mas ele permitiu que eu o fizesse. Você acabou de começar a viver... Não é certo.

Isso me fez começar a pensar. Eu não queria que meus pais morressem. E se as coisas continuassem daquele jeito, era o que ia acontecer. OU pelo menos um deles morreria. Então, o que fazer para ajudar minha mãe?

− Antes disso, de se alimentar de mim... Como você sobrevivia, mãe? – eu diria que ela esperava aquela pergunta, mas seu rosto ficou muito sombrio. Fiquei meio incerta se devia ou não ter perguntado...

− Eu tinha um clã antes de tentar descobrir se você seria Fada ou Vampiro... Eles possuem um banco de sangue, e ele fornece sangue para os membros do clã. Mas, quando não consegui definir o que você seria e continuei me alimentando de você, fui expulsa e perdi o acesso a esse sangue. Foi então que seu pai insistiu para que eu me alimentasse do sangue dele também... O clã ao qual eu pertencia não aceita que nós impeçamos nossos filhos de seguir o seu caminho... – ela parou de trançar o cabelo e levantou-se. – Está tarde. É melhor irmos dormir... – mamãe começou a juntar a louça que tínhamos sujado, mas percebi sua mão tremer e ela quase derrubar uma das canecas. Ela estava mais fraca do que pensei.

Levantei-me e tomei as coisas das mãos de mamãe, sorrindo, levando-as para a pia. Ela sorriu de volta, e percebi que, apesar de tudo, do modo como me tratava até algum tempo atrás, mamãe me amava. Sempre me amou. Apenas não demonstrava.

− E então, Stacy? Imagino que sua vó já tenha feito o teste para desco-brir suas afinidades... Quais são? – ela perguntou sorrindo, apoiada na parede enquanto eu lavava a louça. Parecia realmente interessada. Querendo partici-par da minha vida.

Ah, o que fazer para ajudar mamãe? O que? O que?!

− Aaah... Tenho todas as afinidades... – eu esperava que mamãe dissesse para eu não brincar, mas tudo que ela fez foi me olhar de modo preocupado antes de falar.

− Amanhã eu começo a te ajudar no treinamento. Deve estar sendo a maior barra... – em seguida, ela começou a guardar a louça.

E antes de eu subir para o meu quarto, ela me abraçou. De um jeito que eu não me lembro de ter sido abraçada pela minha mãe. Com carinho – sério, ela realmente me tratava friamente desde pequena. Aquilo me fez sorrir de um jeito meio bobo.

Eu tenho de descobrir um jeito de ajudar mamãe...


Entrei no meu quarto e me joguei na cama e olhei para Despertador. Ele me olhava de um jeito culpado. Antes de eu entrar no quarto, mamãe me dissera para não culpar Despertador, porque Mantícoras tinham medo de Vampiros naturalmente.

Sorri para minha Mantícora. Desde que meu poder despertou, ele não dorme mais comigo. Não porque eu não quero, mas antes ele é que tomava a iniciativa, e ele parou depois do episódio em Vitória.

− Tá esperando o que, Despertador? Você sabe que pode dormir comi-go... – a boca cheia de presas de Despertador rasgou-se num sorriso enquanto ele deitava ao meu lado na cama.

Sorri feito criança enquanto o abraçava como se ele fosse um bichinho de pelúcia – danem-se as presas e as garras. Ah, eu tava com saudade de fazer isso!


Por dois dias, mamãe tentou me ensinar, sem sucesso, um dos encantos favoritos dos Vampiros: caminhar pelos sonhos das pessoas. Os Vamps usavam muito na antiguidade para seduzir as vítimas. Bem, alguns clãs ainda o fazem, mas são poucos... Não sei no que isso vai me ser útil, mas tenho de aprender! Está classificado como feitiços indutórios ou hipnóticos, especialida-de de Vampiros e alguns outros por aí – mas não de Magos, apesar de serem relacionados à mente. Magos preferem apagar e alterar memórias e ler men-tes, não iludir ou induzir –, e tenho de aprender... Ai, que saco! E depois, ainda tenho os escudos que os Vampiros usam. Como vocês acham que eles andam por aí durante o dia?! Sol é fatal sim; se não fosse seus escudos mágicos que refletem a radiação solar, adeus, Vampiros!

Enfim, no sábado à noite, eu já estava morrendo de fome – acreditem, treinar magia dá MUITA fome –, Devon ainda estava treinando com a mestra meio-Fravartin, papai já tinha ido dormir e tia Verônica tinha ido embora quando joguei o livro de feitiços com muitas páginas em branco − porque eu ia completá-las conforme fosse aprendendo com as diversas raças de meu mundo – para o alto. Aaaaaah, CANSEI!

− DESISTO! Nunca vou conseguir decorar essa fórmula! – sério, cansei! A fórmula pra caminhar nos sonhos é complicada demais! De todas que já vi até agora, é a pior! E é do tipo "Melhor ter na ponta da língua!". Ou seja, ferrou. E o pior é que sei que só vai piorar... Droga!

− Tente mais uma vez, Stacy. – mamãe disse, vindo sorrindo em minha direção. Eu estava sentada nos fundos da casa, aproveitando a luz da lua, não de Kolshö, a da outra; Kolshö brilhava ameaçadora acima de minha cabeça. Eu já disse antes, mas vou dizer de novo: não vou muito com a cara dela.

Mamãe pegara o livro no ar, como nunca tinha visto alguém fazendo, só ela naquele momento, para me entregá-lo em seguida. Ela parecia ainda pior do que quando descobri a verdade, e ainda não cheguei numa solução para o problema... Sinceramente, ela estava tão magra que parecia aquelas modelos de TV que dá pra ver a coluna, as costelas, tudo, sem esforço algum.

− Mas... Então, me dê uma dica, mãe! – exclamei impaciente. Mamãe sorriu de um jeito contrário ao meu estado de humor – como só ela consegue ser... – antes de falar.

Por favor, Deus, permita que eu descubra a solução. Não quero perder mamãe agora que começamos a nos conhecer de verdade.

− Experimente... Relaxar. Como se estivesse indo dormir. E lembre de escolher uma pessoa perto e que você saiba o endereço e o nome completo. – ah sim... Tinha isso. Além da fórmula do feitiço, eu tinha de falar o nome com-pleto da pessoa e o endereço de onde ela estava... Maravilha, não?

− E se eu errar alguma letra ou algo assim do nome ou do endereço? – perguntei enquanto minha mãe me fazia deitar no concreto, sorrindo sempre.

− Vai saber... Pode visitar o sonho de um inseto perto de você ou de uma pessoa do outro lado do mundo... O fato é que vai acabar sabendo de algo que preferiria não saber... – ela riu ruidosamente antes de voltar a falar. – Foi assim que eu e seu pai nos conhecemos... Eu queria fazer minha mãe esquecer de um castigo que tinha me dado, mas troquei um S por T... O nome da sua vó era muito complicado... E acabei conhecendo seu pai... Acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida... – ela parecia ter voltado para um tempo antigo, antes de ela sequer sonhar comigo e com Devon, e eu não interrompi. Ela parecia ter ficado mais... Leve. Mais viva.

Ela voltou de seu mundo antigo, ainda sorrindo, enquanto recitava para mim as palavras do encanto. Eu repeti cada uma com perfeição. Até que chegou a hora do nome e da localização.

Eu ia usar o meu pai. Ele sabia que eu vinha treinando para entrar nos sonhos dos outros e tinha dito que podia entrar nos sonhos dele sem problema. No entanto... Não sei o que me levou a trocar uma das letras do nome dele... Não sei, acho que me pareceu errado invadir o sonho do meu pai...


Sabe quando você acorda e não se lembra de ter dormido? Foi essa a sensação que tive quando me encontrei em um belo jardim, à sombra da maior árvore que poderia existir, um tronco com a grossura de uma catedral e uma copa maior ainda, cercado por todos os lados com um deserto que terminava em um abismo e então, mar.

Entranhada nas raízes – cada uma do tamanho da minha casa – percebi a porta de um templo. E à frente dessa porta, alguém alto e esguio usando uma longa capa de um branco celestial cobrindo-lhe o rosto.

Aproximei-me, acariciando as flores com a ponta dos meus dedos.

− Pensei que Fadas não invadissem os sonhos alheios... – a pessoa disse, e pela voz, eu diria se tratar de um homem. Disse aquilo no tom de al-guém que está fazendo piada. Provavelmente, eu estava no sonho de alguém do meu mundo que sabia vigiar os próprios sonhos, algo impossível pra mim... Pelo menos por enquanto.

− Bem... Acho que eu não devia estar aqui... Desculpe. – eu tinha outra coisa pra falar? Tinha?! Acho que não...

O homem riu, sentando num nó da raiz.

− Sabe onde está, Fada? – ele perguntou, ao que eu balancei a cabeça em negativa. Eu não tinha a menor ideia de onde estava. Aquele lugar não se parecia com nenhum lugar dos livros de vovó. – Esta árvore é o templo de Ahu-ra-Mazda, nosso líder; ele está lá dentro, adormecido há milênios por causa de Ahriman... Acho que todos os meus sonham com aqui alguma vez, devido à nossa vontade de tirar Ahura-Mazda desse sono sem fim...

Olhei para o templo com um olhar diferente. Será que tinha algum da-queles que Ahura-Mazda lidera entre os desenvolvedores do Prince of Persia Prodigy? A árvore era muito parecida com a que tinha em cima do templo onde Ahriman estava aprisionado no jogo – apesar de ser bem maior... Ah sim, Ahu-ra-Mazda e Ahriman seriam "deuses" persas; o primeiro o do bem, e o outro, o do mal. Na verdade, eram os primeiros de algumas raças: Ahura-Mazda dos Celestiais, e Ahriman de alguns tipos de Demônios – não me pergunte como os demônios se dividem porque ainda estou descobrindo.

Era um lugar muito bonito e tranquilo. Eu gostaria de sonhar com aquilo tudo mais vezes...

− Quer um conselho, Fada? – olhei para o homem, seu rosto ainda en-coberto pelo manto. – Alguns Santos são de Vidro e outros são de Papel. Am-bos, uma hora quebram ou rasgam e precisam ser transformados para que se façam inteiros de novo. A diferença é que um deles te corta quando quebrado... E o outro é facilmente manipulável.

E, naquele exato instante, fui puxada para a realidade.


Preciso dizer que acordei de supetão, o estômago nas costas e toda suada? Talvez não. Só sei que eu estava no meu quarto, o dia amanhecendo, Despertador roncando no chão.

Que sentido esse "conselho" que o cara me dera tinha?


Eu olhava desoladamente para o Vampiro que fechava a porta de metal após empurrar mamãe por ela.

Ela se fora.

Eu não pensara numa solução e agora, eu a perdera. Nenhuma luz me tinha vindo para ajudá-la. Nada.

E agora, eu a tinha perdido...

Porque me sinto tão responsável pela morte de mamãe, como se ela confiasse em mim para que eu a salvasse, mas eu não consegui atender às suas expectativas?

Uma semana. Esse foi o tempo que tive para conhecer e aprender com minha mãe. Doía muito.

Doía demais. Meu coração parecia que ia explodir em meu peito, por-que, cada vez que batia, eu sentia meu peito doer, como se pregos me perfu-rassem de dentro pra fora. As lágrimas queriam se libertar, mas, por alguma razão, elas não caíam. Continuavam presas, e eu me sentia feita só de água por dentro. Água que lutava para se libertar.

Eu usava roupas quentes – eu conseguira me virar com minhas asas – mas ainda assim, eu me sentia gelada como se fosse feita de mármore. Ela fazia falta. Muita falta. Mesmo que por quase toda a minha vida tenha me tratado como se eu fosse nada.

A falta de sangue a consumira lentamente. E, ainda assim, ela morrera sorrindo. Parecia tão em paz...

Levando com ela a nossa paz. Essa era a verdade.

E, agora, aqui estou eu, sentindo vagamente a mão de vovó – ela viera de Vitória apenas para isso – em meu ombro, o meu braço enlaçando o de Devon, que chorava por nós dois. Tia Verônica não pôde vir. Ela é humana, não sabe o que somos. Tive de deixar Despertador com ela, sabe... Ele também não poderia entrar aqui. Vampiros não gostam de Mantícoras e vice-versa.

Vovó não chorava, mas também demonstrava respeito, afinal, Diane fora esposa de seu filho e mãe de seus netos.

E falando no papai... Ele estava quebrado, com as lágrimas escorrendo abundantemente parecia chorar por todos que não estavam ali ou não estavam chorando.

Observou à distância o Vampiro ligar o fogo que cremaria o corpo magro de mamãe, a fumaça se erguendo lentamente, camuflando-se ao céu escuro. Vampiros são cremados quando morrem por falta de sangue, e existem os crematórios especiais, como o que estamos agora. Para garantir que nada de ruim aconteça.

De alguma forma, o conselho que o estranho me dera agora fazia senti-do, ainda mais depois do jeito violento com o qual papai tratou vovó...

Sério. Ela chegou e tentou consolá-lo como mãe – abraçá-lo, oferecer um ombro para chorar, coisas assim –, mas ele a empurrou e então se trancou no quarto. Parecia um adolescente... Ok, comentário infeliz. Papai está sofrendo muito.

Ele é um Santo de Vidro. Um Santo de Vidro que se quebrou e que pre-cisará passar por uma grande transformação até se fazer inteiro, e até lá, irá ferir os outros.

E mamãe... Manipulada facilmente pelo seu clã até que se rasgou como um Santo de Papel.

Mas saber não fazia a dor ser menor...

Ah, mamãe... Tivemos tão pouco tempo...


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