06 outubro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 12: EletricEyes

O mês que passei em Vitória passou voando.

Sério.

Não sei se foi porque passei o mês inteirinho treinando e socando informações sobre meu mundo na minha cabeça ou o que quer que seja. Foi difícil. Ainda é.

Tipo... Acho que não guardei direito metade do que li e ouvi... Tipo assim, minha memória nunca foi muito com a cara de uma coisa chamada “História”.

Ok, ok... Eu explico. A história do meu mundo é muito complicada... Muitos fatos importantes – que meu cérebro faz questão de esquecer... Tipo assim... O que levou a queda da maioria dos líderes de cada raça – Quer dizer, só Aine e mais uns poucos ainda existem. Além de aprender pelo menos o básico sobre a cultura de cada raça – pra garantir que não vamos começar uma guerra entre raças por causa de um mal entendido por não ter conhecimento sobre seus costumes, algo assim... E sobre as cidades antigas que eram habitadas por aqueles do meu mundo, das quais hoje só restam lembranças e gravuras. Tipo Atlântida, Lemúria, Asgard, Olimpo... Lugares assim, destruídos nesse monte de guerras entre raças que existiam até uns milênios atrás – mais especificamente, até a Aranha Lunar Azul dar um jeito nisso tudo se mostrando a bã-bã-bã. Parece que ela era muito poderosa...

Ah sim, claro: e aprender uma língua que tem absolutamente nada à ver com o português – e eu sempre fui ruim em línguas estrangeiras...

Enfim, já da pra ter uma idéia de como minha vida ficou complicada.

Mas, claro, o mais difícil é controlar meus poderes... Parece que o pingente de treino não é forte o bastante pra mim – ou algo desse tipo... Num feitiço simples de cura pra um arranhão num cachorro de rua, quase explodi o pingente de treino e curei a sarna do bicho. Eu levei um susto da peste quando o bicho flutuou, latiu e saiu correndo feito o diabo fugindo da cruz! Acho que assustei ele...

Quando deixou a mim e a Devon no aeroporto, vovó me abraçou e sussurrou que tinha guardado alguns livros na minha mala que me ajudariam a dominar meus poderes – valeu, vovó! Agradeci, e então, eu e Devon fomos para a sala de embarque, aguardar.


São Paulo me pareceu tão... Estranha. Quer dizer... A maior parte das criaturas que vi não eram elementais nem ninfas, diferente de Vitória, onde eles são a maior parte da população não-humana. Mas, afinal... Do jeito que São Paulo é floresta de pedra, não estranho... Acho que é porque eu tinha me acostumado com todos aqueles elementais e ninfas andando por aí...

Mamãe estava estranha. Parecia... Fraca. Como se não se alimentasse há um bom tempo – o que é de se estranhar, já que ela sempre foi boa de garfo. E eu a via com outros olhos... Como se... Como se algo estivesse ocultan-do-a todo esse tempo. E eu tive medo. Ela parecia mais perigosa do que nun-ca. Me olhava de um jeito quase esfomeado. Mas, apesar disso, eu ainda confiava nela. Ainda a amava, afinal, ela era minha mãe, antes de tudo.

Acenei rapidamente para mamãe depois de abraçar papai, indo para o meu quarto, com Despertador atrás de mim. Eu não queria ficar mais tempo na mesma sala que mamãe... Sim, eu estava me borrando de medo. Não tanto como quando assisti Chuck com Devon – não assista filmes de terror com o Devon, ele gosta de fazer você ficar com mais medo ainda – mas, ainda assim, muito medo...


Mudei até que muito em um mês. Quer dizer... Minhas orelhas estão um tanto pontudas, não como as de Sammuel ou Eshe, mas não como antes. Eu via que as orelhas de Devon e de vovó também eram daquele jeito. O tom de minha pele estava mais uniforme e parecia que meu corpo estava deixando de ser tábua. Só um pouquinho. Mas muito para quem sempre foi tábua. A única coisa que continuava como fora minha vida inteira era o meu cabelo – ele é rebelde mesmo e gosta de mostrar todo o seu poder. Não tem jeito. É hora de eu me conformar...

E continuei a estudar. Estudei feito uma condenada. Estudei como nunca tinha estudado antes – sempre fui do tipo meio desligada na sala, sabe...

Devon me ajudava no que podia, e dizia que eu estava avançando rápido.

Rápido! Rá! Só em alguns casos. Tinha tipos de feitiços que eu ainda nem começara a praticar porque não tinha quem me ajudasse – eu não queria correr o risco de explodir tudo, sabe... E tinha outros... Bem, sou uma Fada da Floresta. Por consequência, sou ligada a Terra – mais especificamente, fazer crescer plantas... No entanto, eu tinha sérios problemas com feitiços do tipo Terra. Eu sei, é estranho, mas é sério.

Tentei fazer uma rosa desabrochar e acabei fazendo um arbusto de espinhos venenosos nascer no lugar. A coitada da rosa que estava pra desabrochar morreu na hora...

Parece que a Terra não gosta muito de mim...


Minha volta às aulas foi... Infernal. Sério. Thaíze estava mais insuportável do que nunca. Fiquei seriamente tentada em jogar uma maldição nela para que galhos crescessem em sua cabeça, mas, bem... Eu precisava praticar mais as maldições, era possível eu atingir outra pessoa ou ainda matar a Thaíze. E isso eu queria fazer com minhas próprias mãos! Oh, sim! Eu a enforcaria com essas mãos que Deus me deu! Hiahiaiahiahai!!! Okay, parei.

Mas, seriamente... Estou muito curiosa pra saber de qual criatura ela tem sangue. Quer dizer, nenhuma Fatum fica esvoaçando ao redor dela – talvez ela seja completamente humana, mas é tão loira que nem essência exala pras Fatuns se alimentarem... Além disso, tenho a impressão de que seus dentes são estranhamente afiados – não muito, mas um pouco –, e que sua pele tem uma coloração estranhamente azulada – não muito, mas era azulada... Ah, e os olhos agora eu via como se o tom deles fosse um tipo de azul-marinho, mas... Ah, sei lá que tom de azul era aquele. Tenho de ler logo o livro que vovó me deu falando sobre as raças de meu mundo. Acho que Thaíze não é tão humana como parece...

Meu lugar no colégio voltou a ser isolado, talvez mais do que antes – não, Sammuel não voltou, ainda estava muito ocupado com o Djin.

O estranho era o olhar que todos me dirigiam. Como se não me reconhecessem. Como se eu tivesse mudado muito. O que era estranho, porque a Teia de Seda cobria qualquer coisa muito chamativa para meu povo.

Ah, vai saber o que passa na cabeça do povo... Antes de tentar feitiços mentais, tenho de achar um Mago – não alguém que sabe magia, mas alguém da raça dos Magos – ou um Silfo para me ajudar, até lá, não sei nada de feitiços mentais...


Durante as aulas, eu ficava estudando a língua da Teia de Seda, o livro escondido debaixo das folhas de fichário. Treinava os símbolos que formavam os sons, treinava a dicção – não que eu precisasse muito, a única coisa que eu ia bem em línguas estrangeiras era a pronúncia... Tinha de ter cuidado para os professores não pegarem os papeis comigo treinando o alfabeto de uma língua completamente estranha. Vai saber o que eles são... – nem todo mundo gosta de Fadas...

Foi numa dessas, duas semanas depois que voltei de Vitória, que, contrariando a regra, o professor de Geometria apareceu, sendo que na noite anterior, tinha sido lua cheia – na verdade, um lobisomem se transformar na lua cheia é coincidência; a transformação ocorre porque a magia maligna de Kolshö escorre para a Terra nesses momentos. O motivo exato não sei, mas é relacionado à isso... Estranhei muito, pois, além de vir num dia que não costuma vir, ele estava todo machucado como se tivesse lutado contra alguém muito forte na noite passada.

Ele olhou diretamente para mim, no fundo da sala, e sorriu, não só com os lábios, mas com os olhos... Olhos azulados com um halo verde em volta. Lembravam Kolshö. Uma espécie de MoonEyes. Só naquele momento parei para reparar na aparência geral do meu professor. O cabelo era grisalho, uma barba que acho que nunca vi feita, pele... Sei lá, parda? Alto e magro, mas um tanto forte. Ele tinhas as características gerais de um lobisomem, de acordo com o livro sobre as raças do meu mundo que vovó me dera. Estranhamente, não me lembro dele irritado, nem com a sala em seus maiores momentos de algazarra. Sempre estava com um sorriso leve, às vezes um tanto triste, que ficava um tanto apagado quando olhava pra mim, mas naquele momento, era o sorriso mais radiante que eu vira nele.

Eu juro que não entendi. Mas como ficar matutando sobre isso não adianta nada, empurrei para pensar sobre isso mais tarde, quando fosse escrever em Teorias... E TENTEI prestar atenção à explicação sobre o que quer que fosse...

Matemática é um dos meus Karmas. Definitivamente.


Minha vida estava de cabeça para baixo. Eu dormia mal, ficava até tarde estudando e praticando magia, e acordava cedo para estudar e praticar mais, sem contar as tarefas e trabalhos do colégio. Olheiras enormes estavam debai-xo dos meus olhos, e ficava cada vez mais difícil encontrar uma roupa que não machucasse as asas que cresciam a cada dia, finas e semitransparentes em tom azulado, com veias de sangue correndo por elas.

Bem, ao menos uma roupa que esquentasse, porque tomara-que-caia, frente-única e costas do tipo nadador davam perfeitamente, mas Sampa é a terra da garoa. Eu passava frio pra não machucar minhas asas, esse era o problema.

Ok, nunca fui muito friorenta, mas ainda assim... É um saco.

Mamãe estava sendo estranhamente cortez e carinhosa, e parecia definhar a cada dia. E eu não gostava de vê-la daquele jeito. Mas também tinha medo de me aproximar... Sei lá, como eu disse, ela andava com um olhar esfomeado...

Papai também estava estranho. Mais calado, taciturno. Parecia ter envelhecido muito em pouco tempo.

Não contei nada sobre os meus poderes pra ele, porque vovó me pedira pra não contar ainda. Ela disse que tinha de verificar algumas coisas ainda...

Brr! Mas que essas ideias me dão calafrios, ah, isso dão!

Devon me ajudava quando e no que podia no meu treinamento, isso quando ele não estava treinando com sua mestra. E, creiam, sobrava muito pouco tempo para ele me ajudar... Pelo menos o Vento parece gostar mais de mim do que a Terra.

Tia Verônica estava bem. Melhor impossível. Era a única que continuava normal. E ela era completamente humana, eu via as Fatum esvoaçando rapidamente ao redor dela. E, sinceramente, era bom ouvi-la cantando os hinos da sua igreja e falar sobre os filhos que tinham a minha idade. É, ela era mãe... Devia ter uns trinta e poucos anos, nunca tinha parado pra pensar naquilo.

Não tive mais notícias de Eshe e Sammuel. Vovó ligava de vez em quando para perguntar como iam as coisas. Casualmente eu perguntava se o Djin já tinha sido pego, e a resposta era sempre a mesma: não. Saco.


Eu estava tentando fazer com que o Vento se transformasse num pe-queno furação em minha mão – e parece que eu ia conseguir, o Vento gosta de mim mesmo –, tarde da noite, quando Despertador ergueu a cabeça de seu sono e soltou uma espécie de ganido que indicava que ele estava com medo, preocupado, louco para fazer algo, mas com medo.

Senti um arrepio percorrer minha coluna. Ai ai ai... Será que aconteceu algo? Quase imediatamente lembrei dos olhares meio esfomeados de mamãe, e senti meu coração disparar ao pensar na possibilidade de algo ruim ter acontecido com ela.

Levantei da cama e andei na direção da porta, mas parei quando Despertador puxou a barra de minha calça com os dentes, como se não quisesse que eu saísse. Acariciei a cabeça de minha Mantícora e disse que ia ficar tudo bem, fazendo-o me soltar, enquanto saía do quarto, fechando a porta atrás de mim. O olhar que ele me deu antes que eu fechasse a porta quase me fez de-sistir de ir verificar, mas consegui coragem não sei exatamente onde. Acho que foi só falar pra mim mesma que “Chuck só existe se alguém com afinidade com invocações o invocar”. Meio estranho, mas me acalmou.

Havia um som... Diferente. Como... Alguém sugando algo. Vinha do quarto dos meus pais. Passei pelo quarto de Devon, a porta trancada. Ouvi ele recitando baixo alguns feitiços relacionados à Água. Ignorei e segui para o quarto dos meus pais.

A porta estava apenas encostada. Senti um calafrio e engoli em seco, juntando coragem para bater na porta, no entanto, meu sexto sentido me disse para apenas empurrá-la. Eu sei, é falta de educação entrar assim no quarto de alguém, mas confio muito mais no meu sexto sentido do que na minha razão... Por isso, empurrei a porta.

Segurei um grito de horror na minha garganta. Meu instinto de preservação é muito forte, sabe... Mas, bem... O que vi me fez saber o que eram EletricEyes. E mamãe definitivamente é uma. E minha teoria estava certa: mamãe é uma vampira, que naquele momento estava se alimentando do meu pai, ferrado numa espécie de sono mágico. Legal, não?


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