12 setembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 9: Falsa

Minha mente estava nublada, cheia de sonhos, pesadelos e pensamentos enevoados.

Eu não distinguia nada muito bem. Mapas, cidades distantes e antigas que eu não vira em lugar nenhum, pessoas que não eram pessoas, monstros dos confins da terra, tudo isso e muito mais passava diante de meus olhos, através da névoa espessa que não me deixava ver direito.

E então, formando-se na névoa, de frente para mim, uma moça, com um sorriso doce nos lábios que pareciam brilhar em tons de verde e cinza. Seus olhos eram bicolores, um verde-folha como o meu, o outro cinza-concreto. Os cabelos revoltos eram longos e cacheados, uma parte da cor dos meus, e a outra parte, cinza-chumbo. Sua pele parecia ser feita de porcelana tingida da cor das árvores que eu amava.

− Você me honra, filha minha. – ela sussurrou, como o vento por entre as folhas de uma árvore frondosa.

E então, ela voltou a se transformar em névoa, e eu comecei a cair rumo ao infinito até que senti calor, tanto calor que a névoa que ainda me rodeava se transformou em água e empapou minhas roupas e cabelos.

Um jato de fogo veio em minha direção. E então, acordei.


Mesmo acordada, eu sentia meu corpo quente, suado. Era como se eu estivesse em uma fornalha.

Alguém – algo – tocou meu ombro. Ao invés de abrir os olhos, fiz o que qualquer garota normal faria: gritei, com toda a força dos meus pulmões.

− Calma, Stacy, calma! Sou eu! – Ouvi Devon falar depois de um es-trondo, indicando que ele devia ter caído quando o assustei com meu grito, enquanto ele voltava a segurar meus ombros.

Abri os olhos, a vista ainda enevoada, e vi o rosto de meu irmão, preo-cupado e com olheiras profundas, o rosto pálido – algo muito estranho, afinal, eu estava acostumada com seu tom moreno de sol – e o cabelo desgrenhado. Não liguei para como me sentia e nem para as dores que assolavam minhas costas, simplesmente o abracei pelo pescoço com todas as minhas forças e comecei a chorar – não sei por que, talvez efeito retardado por ter enfrentado um demônio.

− Calma, LeavesEyes... Já passou... – Ele murmurou ao meu ouvido, me fazendo voltar a deitar, soltar seu pescoço e, então, me cobriu com o edredom. Segurou uma de minhas mãos, enquanto afagava meu cabelo úmido de suor. De repente, soltou minha mão e encostou alguma coisa nos meus lábios, e eu definitivamente não gostei do cheiro.

− Que que é isso? – murmurei de um jeito patético. A voz quase não sa-iu. Sede. Tenho muita sede.

− Não vai querer saber o nome... Mas beba, vai te ajudar a se recuperar. – ele murmurou, e juro que ele não queria me dar aquilo, mas dava porque tinha que dar. Fiz uma careta, torci o nariz, prendi a respiração e sinalizei para ele virar o vidrinho.

Nunca provei algo tão... Horrível. Parecia uma mistura de erva-doce com alguma coisa extremamente amarga como pepino. E o amargo estava em mai-or quantidade, para minha infelicidade.

Depois que engoli aquele treco, Devon continuou a afagar minha cabe-ça, voltou a segurar a minha mão e começou a cantarolar Meadows of Heaven, do Nightwish.

Lembrei-me de quando era pequena, depois que vovó veio para Vitória e nós ficamos em São Paulo. Quando tinha pesadelos, ao invés de ir pro quarto dos meus pais como as outras crianças, eu ia pro quarto de Devon. Ele é só dois anos mais velho que eu, mas aceitava tranquilamente que eu o acordasse. Me fazia deitar com ele, ficava acariciando meu cabelo e cantarolava uma música qualquer, até eu dormir. E, como naquela época, eu dormi.


O musgo se estendia feito um tapete verde por todo o caminho. Acariciava meus pés descalços suavemente. As laterais estavam floridas com as mais diversas flores, desde às menores e delicadas, até as grandes e frondosas. Orquídeas, rosas, lírios, as mais variadas cores. Árvores frondosas estavam ao meu redor, mas espaçadas. Havia uma luz na minha frente, suave e esverdea-da, lá no fim do caminho, e era em direção à ela que eu andava.

Mas alguma coisa naquilo tudo me era ameaçador, apesar de ser lindo. Eu queria parar de andar, me virar e ir na direção contrária, mas eu não contro-lava meus pés.

Eu não vestia as roupas que costumava usar. Sentia que eram tecidos finos e, de certa forma, esvoaçantes. Sentia que haviam jóias pesadas em meus pulsos, em meu pescoço, nas minhas orelhas e nos meus tornozelos.

De repente, contra a luz esverdeada, recortou-se uma silhueta, e diminui a velocidade de meus passos. A silhueta tinha orelhas pontudas e muito longas, diferente das orelhas de um Elfo. Eu percebia que tinha cabelos curtos e volumosos que esvoaçavam em torno do rosto da silhueta, e pontas como chi-fres se sobressaíam nas laterais do rosto. A silhueta do corpo me dizia que era, o que quer que fosse, feminina. Um braço estava com algo grande e longo e em forma de folha, e a outra segurava uma estranha espada de lâmina curva, semelhante as dos egípcios que vemos em filmes.

− Onde pensa que vai, fadinha? – a voz alcançou-me, vinda da silhueta, escarnecedora, sádica, girando a lâmina, como que testando seu equilíbrio.

Eu sabia que não devia ter seguido aquele caminho. Mas eu não conse-guia controlar meus passos. Não controlava meu corpo.

− Quem é você? – minha voz soou, insegura, recuando lentamente um passo. Agora eu conseguia controlar meu próprio corpo. Eu acho.

Uma risada sarcástica e desumana soou, vinda do ser à minha frente. Ela avançou um passo despreocupado. E eu virei-me e comecei a correr.

Vi de relance a silhueta começar a correr atrás de mim, sua risada sar-cástica acompanhava-me.

As roupas de tecidos finos eram longas, cheia de partes independentes da parte principal, e aquilo me atrapalhava para correr.

Um pedaço da manga enroscou-se numa roseira e eu fui ao chão, arrancando musgos verdes.

Virei-me a tempo de ver a lâmina descer, fatal, em direção à minha cabeça.


Acordei, ainda sentindo-me coberta de suor, mas não mais queimava como se estivesse em uma fornalha. A dor em minhas costas diminuíra consi-deravelmente, mas ainda pinicava. Devon estava esticado em cima de um edredom no chão. Dormia profundamente, e eu percebi que ele não estava mais tão pálido como antes, e as olheiras estavam mais suaves.

Levantei e passei por cima de Devon com cuidado para não acordá-lo. Puxei o edredom que estava em cima da minha cama e o usei para cobrir meu irmão. Sorri suavemente enquanto o fazia. Geralmente, era o contrário que acontecia.

Peguei uma muda de roupas no baú aos pés da minha cama, sai sem fazer barulho e fui até o banheiro. Eu precisava urgentemente de um banho! Estou mais fedida que cachorro molhado!


Sai do banheiro com o cabelo ainda molhado e escorrendo um pouco – mas ainda aquela juba indomável –, já vestida com uma leging e um camisetão do Garfield. Bem melhor!

Tentei descobrir se havia algo em minhas costas, mas, sem sucesso. Eu não tinha ângulo para enxergar minhas costas – e digamos que o cabelo também atrapalhava um bocado, e a falta de um espelho no banheiro também dificultava. Não, eu não tenho ideia de porque haveria a falta de um espelho num banheiro, mas, enfim...

Vou pedir pra vovó olhar e me falar como que tá.

Passei em frente ao quarto de Devon, onde vi Sammuel e Eshe. Sammuel estava esparramado na cama de Devon, parecia uma criança. E Eshe estava encolhido feito um gato em cima de um cobertor, todo embolado ao redor dele. Comédia!

Encostei a porta, para garantir que nada os incomodaria. Sammuel pa-recia estar se recuperando de um longo tempo sem dormir. As olheiras estavam menos visíveis, e a pele já ganhara mais cor. Quanto tempo eu fiquei apagada?

Desci a escada, encontrando vovó sentada no sofá, Despertador aos seus pés. Ela fazia ponto-cruz num tecido fino, parecia-me ser alguma roupa. Ela sorriu-me e me convidou a sentar ao lado dela. Pela janela, entrava a luz do sol. Eu diria que era por volta de três da tarde.

Sentei-me ao lado de vovó, e minha Mantícora apoiou a cabeça em cima de meus pés. Apoiei minha cabeça no ombro de vovó, observando o desenho do bordado. Orquídeas coloridas com folhas diversas entrelaçando-as. Era muito bonito, e combinava com o tecido fino de suave cor verde.

− Quanto tempo fiquei apagada? – perguntei, sentindo meu estômago doer ligeiramente de fome. Acho que fiquei apagada um dia... Mais ou menos.

− Três dias. – ARRE! TRÊS DIAS?! É por isso que me sinto como se uma jamanta tivesse me atropelado... Três dias sem comer... Como uma pessoa que acorda do coma de não sei quanto tempo se sente? Igual a mim... Ou pior?

Eu devo ter ficado verde, porque vovó parou de bordar e me olhou preocupada.

− Como está se sentindo? – ela perguntou docemente, colocando a mão em minha testa para ver se eu estava com febre.

− Só terrivelmente fraca... – respondi, minha visão embaçando um pouco. Eu não estou bem... Estou há três dias sem colocar um pedacinho de cho-colate na boca... Acho que estou com hipoglicemia! Tenho que comer! E cho-colate! Acho que não mencionei que sou chocólatra – ou mencionei, sei lá...

− Vem, vou fazer algo para você comer. – Vovó deixou de lado o que es-tava bordando e me ajudou a levantar. Senti vertigem, o chão ondulou feito água sob meus pés e quase deixei-me cair no sofá de novo. Arre! Nunca mais fico três dias sem comer! Como é que aquelas modelos que dá pra ver as cos-telas aguentam?! – não posso falar muito sobre o ver as costelas, já que dependendo do que eu faço, pra ver as minhas costelas... E o que leva uma pessoa anoréxica e bulímica a acatar essa sensação?! O estômago nas costas, o chão ondulante, a vertigem, a visão embaçada... Não vale sofrer isso pra ficar magra! Não mesmo!

Vovó me levou até a cozinha e me fez sentar à mesa.

Eu não sentei, me joguei na cadeira. Não aguentaria muito mais em pé. Vovó riu um pouco enquanto empurrava pro lado um armário que eu sempre achei que não se encaixava na cozinha!

Havia um compartimento secreto, de onde ela tirara tudo que servira três dias atrás. E havia mais. Muito mais... Uhu! Acabo de encontrar um lugar para surrupiar comida à noite! – sim, eu tenho mania de levantar a noite pra comer. E continuo magra feio pau de vira-tripa... Deve ser essa coisa de ser Fada, sei lá...

Ela pegou o tal de Favrë e serviu num copo médio para mim. Enquanto eu bebericava a bebida quente – e olha que vovó não esquentou, só tirou do compartimento secreto e me deu –, vovó colocou o armário no lugar, piscou pra mim de um jeito maroto e colocou um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate com coco ralado na minha frente! Maravilha! O céu desceu pra me receber quando acordei! Uhu!

Ataquei o bolo, enquanto vovó sentava na minha frente e ficava me o-lhando comer, com um sorriso meio bobo. Fiquei cantarolando o refrão de Teorema de Carlão do Pedra Letícia enquanto comia. – Pegue uma baranga, diga que a ama, chama pra assistir DVD; detona Juliana Paes, critica Aline Moraes, no céu você guardou seu lugar... Qualé, me acalma! Além disso, é muito engraçado!

Depois que comi, a sensação de estômago nas costas sumiu assim co-mo a fome. E me senti muito melhor por causa do Favrë! Abençoada seja vovó e o fato dela me conhecer como ninguém!

Empurrei o copo e o prato e esperei vovó colocá-los na pia, junto com algumas vasilhas.

Ela voltou a sentar na minha frente, e parecia esperar que eu perguntasse algo. Eu não a decepcionei!

− O que aconteceu nesses três dias? – perguntei, apoiando o queixo nas mãos e o cotovelo na mesa.

− Bom... – vovó começou, enrolando uma mecha do cabelo cacheado nos dedos. – Devon ficou aqui comigo, me ajudando a cuidar de você... E Sammuel e Eshe investigaram a cidade pra verificar que não tinha mais ne-nhuma família de Fadas ou rastros do Djin. Voltaram ontem à tarde, comeram algo e caíram na cama... – ela riu suavemente, e voltou a me olhar como que esperando mais perguntas.

Parei e pensei um pouco. O que acontecera, exatamente, pra eu des-maiar e ficar de tal jeito?

− O que aconteceu comigo, exatamente? – perguntei, curiosa, e meus olhos deviam brilhar de curiosidade!

Vovó parou um instante, olhou para todos os lados, pensando em como me explicar, e então voltou a me olhar.

− Primeiro, você ficou exausta por mandar o demônio pro fundo do mar... Mas, como sua Aëke foi liberada, você passou pelo que é chamado pela gente de "ganhar asas", que hoje em dia não é nada mais do que seu corpo se acostumar com a magia. Como foi tudo de uma vez, você ficou com muita febre... Chegou perto da fronteira do outro mundo. – vovó terminou e puxou uma de minhas mãos, apertando-a entre as suas, sorrindo de um jeito aliviado.

Talvez isso explicasse os sonhos estranhos, ainda frescos em minha memória.

Ouvi um barulho de gente descendo a escada como se estivesse bêbado, e Sammuel apareceu na porta da cozinha. O olhei e ele me olhou. Seu olhar era... Estranho. Parecia... Pasmo. Surpreso. Sei lá o que!

− Descansado? – perguntei sorrindo, soltando minha mão das de vovó e levantando da cadeira. Vovó parecia apreensiva. Por que será?

− Sim. – ele respondeu, e percebi seu olhar se entristecer. Aquilo me in-trigou. O que eu fiz pra ele me olhar desse jeito? – E você, recuperada? – ele perguntou, mas percebi que fora mais por educação do que qualquer outra coisa.

− Melhor impossível! – exclamei num tom falso de exaltação. É impossí-vel ficar exaltada quando alguém te pergunta algo por educação depois de te olhar como se estivesse lamentando algo.

Eu fui falsa. Eu não estava tão bem depois daquilo.

E eu odeio ser falsa.


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