27 setembro 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 11: Stacy Mais Poder Igual à Guerra?

Eu estava quaaaaase dormindo. Já mal ouvia a respiração pesada de Despertador, deitado no chão, quando um barulho leve na porta chamou minha atenção. Não acordei de fato – oiii, eu estava exausta! – mas ainda assim resmunguei um "entre" meio abafado pelo travesseiro e pelo meu cabelo – que devia estar uma maravilha... – enquanto tentava abrir os olhos para ver meu visitante.

Fiquei surpresa ao meio que reconhecer a silhueta de Sammuel. Tipo, ele me ignorou nos últimos dois dias, o que veio fazer aqui?!

Resmunguei algo ininteligível enquanto tentava sentar, com as costas apoiadas na cabeceira – mesmo que isso provocasse uma dor leve por causa do começo das minhas asas. Esfreguei o rosto numa falha tentativa de acordar melhor, enquanto fazia sinal para Sammuel se aproximar e sentar na minha cama, já que ele tinha parado perto da porta depois de entrar. Quase como se não soubesse se realmente devia estar ali... Afff.

Dei um bocejo longo que quase me deslocou a mandíbula – sério –, e quando Sammuel se aproximou consegui vê-lo melhor. Não sei se porque tinha acordado mais ou se porque estou precisando de óculos... Um dos dois, isso eu tenho certeza.

− Que que foi? – resmunguei, meio de mal humor, bocejando de novo. Era uma luta manter meus olhos abertos. – Não dava pra esperar até de ma-nhã, quando eu estaria mais apresentável e com menos sono? – apoiei a ca-beça numa mão, com o cotovelo num dos joelhos, tentada a me deitar de no-vo... Aaaai, que sono!

Sammuel, você só está acumulando créditos pra um dia eu me vingar. Sério, você vai me pagar por tudo isso: pelo beijo, por me fazer acordar quando eu tô quase dormindo... Você vai ver.

Ele parecia sem jeito. Ou talvez eu estivesse vendo coisas por causa do sono. Talvez aquilo nem estivesse acontecendo, eu devia estar sonhando...

− Bem... – ele começou, sussurrando. O resto da casa devia estar dor-mindo. E Despertador estava tranquilo. É, eu devo estar sonhando... Caso contrário, Sammuel sequer conseguiria chegar aqui. – Eu queria... Pedir desculpas... Pelo jeito como tenho te tratado. É que... – Eu estou sonhando... Sammuel é cabeça dura demais pra pedir desculpas. Sim, eu mal o conheço, mas pelas poucas ações e conversas, tenho certeza que ser cabeça dura é uma das partes principais de sua personalidade. – Foi um choque descobrir que você é uma Fada, que também pertence ao meu mundo... Entrou em conflito com muito do que acredito...

Não tenho certeza de que foi isso mesmo que ele falou. Sério. Mais um pouco e eu caía da cama, dormindo à meio caminho do chão! Eu estava com muuuuuito sono. E, sinceramente, acho que o motivo não é esse não... Mas não vou falar. O sono não deixa.

− Então... Eu queria me despedir antes de ir embora... Afinal, provavel-mente não nos veremos de novo. – ele sorriu de um jeito que me pareceu fraco e triste. Mas repito que devia estar vendo coisas...

Ele se movimentou para mais perto de mim, e levantou uma das mãos de forma a substituir a mão que sustentava minha cabeça. Epa! Que que esse idiota vai fazer?!

Eu quis recuar quando ele aproximou mais o rosto, depois de colocar a outra mão do outro lado do meu corpo, mas eu estava com sono demais pra conseguir reagir! E então, ele, se aproveitando do meu estado de zumbi – e eu de fato devia estar parecendo um zumbi, com enormes olheiras e o cabelo pior que de costume – me beijou. Não foi como meu primeiro beijo – que "por aca-so" tinha sido com ele, por iniciativa dele –; ele não forçou nada, só tocou mi-nha boca e pressionou de leve. Mas ainda me deixou sem fôlego... Afee, Sammuel me afeta demais!

Tão estranhamente como ele começou a me beijar, parou. Foi... Arre-pendimento... Que vi nos seus olhos? Ah, sei lá, eu COM CERTEZA estava deitada na minha cama, dormindo feito um anjo e sonhando com idiotas. Só pode.

− Adeus. – ele murmurou e levantou de repente. Parecia desesperado para ir embora, considerando como ele apressou o passo.

E então, abri os olhos. Estava deitada na minha cama, Despertador dormindo pesadamente no chão. Estava frio, e meu cobertor, por alguma razão sombria, estava no chão. Levantei lentamente, percebendo, através do vidro da janela, que a noite ia longe, a segunda lua mais brilhante do que eu já vira – como se eu tivesse visto-a muitas vezes – como um sinistro agouro. Não sei do que. Só sei que Kolshö me dá medo.

A porta do meu quarto estava entreaberta, como se alguém tivesse acabado de sair por ela com pressa. Levantei-me e fechei a porta direito, pensan-do se Sammuel realmente tinha estado no meu quarto ou se eu tinha sonhado. Mas tenho a sensação de que realmente aconteceu... Infelizmente.

Mais uma coisa na lista das quais tenho de me vingar com Sammuel!


Um vento frio soprava, as folhas das árvores intocadas mexendo-se inquietamente, como que sussurrando umas para as outras suas sensações e previsões, ansiosas por algo.

Abaixei a cabeça, e as mãos que vi não eram minhas. As unhas estavam cheias de desenhos de flores, a tatuagem de uma borboleta vermelha e roxa nas costas de uma das minhas mãos, anéis de folhas e flores em quase todos os dedos.

Alguém correu em minha direção. Seu rosto estava borrado, como que pintado com giz pastel ou carvão. E falou.

− Hadassa... Está quase na hora.

Senti meus lábios se abrirem num sorriso triste, enquanto uma voz som-bria que eu representaria com vermelho-sangue ecoava ao meu redor com de-sejos de sangue e morte.


Acordei no dia seguinte, encontrando Despertador com a cabeça apoia-da na minha cama, sua juba me fazendo cócegas, o sonho quase completa-mente esquecido – raramente lembro os sonhos que tenho. Parece que agora ele tem medo de me machucar com as presas – o que é estranho, julgando que antes as probabilidades de ele me machucar eram as mesmas. Engraçado como parece que mesmo que ele não possa falar – Mantícoras só falam quando completam lá por volta de seus trinta anos, e Despertador tem só dez – nós nos entendemos por causa da convivência. É, eu amo minha Mantícora e ela gosta demais de mim...

Bocejei loucamente enquanto levantava e pegava uma roupa qualquer no baú, indo para o banheiro. Eu ouvia vozes vindas da cozinha, Devon já devia ter preparado o café – ele é homem, mas cozinha melhor que muita mulher. Não, ele não é gay – e vovó devia estar tomando café. Eshe e Sammuel, ou estavam dormindo, ou já tinham ido embora – eu achava a segunda opção mais provável.

Tomei um banho rápido e desci com Despertador me seguindo. Parecia que eu tinha bebido todas na noite passada e estava com uma ressaca terrível – não que eu já tenha ficado de porre, deixo claro. Meus passos, pesados e descoordenados, quase me fizeram rolar escada abaixo duas ou três vezes. Sério. Mas, afinal, isso é típico comigo... Como eu disse, sou muito desastrada, então vivo rolando escadas abaixo, tropeçando nos próprios pés se estiver de salto – principalmente os mais finos... Coisas assim.

Entrei na cozinha bocejando, arrastando os pés, e deixei-me cair numa cadeira. Nem vi o que coloquei na xícara – acho que café puro, tava muito a-margo! – e nem no pão – acho que queijo e goiabada, já que cuspi o que mordi e deixei o pão em algum canto da mesa. Eu não gosto de goiabada...

− Nossa! Saiu pra balada escondida? – Devon brincou, me fazendo le-vantar a cabeça para tentar pentear meu cabelo com os dedos – imagino o estado que ele estava... De assustar zumbi. – Desisto... – ele murmurou desanimado quando seus dedos quase enroscaram na massa desordenada que saía da minha cabeça. E se tivessem enroscado, a única saída seria cortar o meu cabelo. E não to afim disso, ele fica horrível de qualquer jeito: curto ou comprido. Ok, comprido é pior, porque, apesar do peso, ele continua apontando pra todos os lados... Um dia faço um Black-power nele.

− Não... Mas fiquei conversando até tarde com o Eshe... – respondi, bo-cejando novamente. Vovó entrou pela porta dos fundos, trazendo ervas nas quais eu nunca reparara. E muitas... Fediam. Sério. – Que é isso? – resmun-guei, enfiando meu nariz na xícara pra sentir só o cheiro do café. Não gosto muito, mas o cheiro era melhor que aquele...

Devon sentou do meu lado e me olhou de um jeito complacente, quase que lamentando algo.

− Bem. – vovó começou, sorrindo-me de um jeito... Maníaco. Tipo assim, pra mim, ainda meio sonada, lembrava o sorriso maníaco do Chuck O Boneco Assassino – já falei que tenho pavor do Chuck? Devon... Tô com medo. – Cada um tem suas afinidades com determinados tipos de feitiço. Quero dizer... Algumas pessoas tem mais chance de acertar em feitiços relacionados à água do que com fogo e vice-versa. Depois que você expulsou o RedEyes – aparentemente é um vício chamar todo mundo pelo nome inglês... Não os culpo, ainda mais tendo de chamá-los assim sempre que tem humanos por perto. – está óbvio que você tem afinidade com feitiços relacionados à área clerical – eba! Vou virar clériga de Thyr! Ok, joguei muito NeverWinter Nights, admito... – mas existem outras áreas... E essas plantas vão nos ajudar a descobrir as outras áreas. Cada uma é relacionada à um tipo de feitiço. – ela sorriu, e juro que tive vontade de sair correndo. Tenho a terrível sensação de que vou me ferrar...


Depois que comi, vovó arrumou a sala igual quando liberaram minha Aëke, me fez sentar de pernas cruzadas e costas eretas no meio do aposento e começou a espalhar as ervas ao meu redor, num círculo.

− Feche os olhos e relaxe. – beleza. Se eu relaxar mais do que estou re-laxada, durmo de novo... Sem brincadeira. – Agora, concentre-se e libere a Aëke lentamente... – fiz o que vovó mandou, lutando contra o sono. Estranha-mente, senti outras energias ao meu redor, como que respondendo à minha essência. Ouvi o barulho de algo caindo e abri os olhos. Devon derrubara um vaso lindo de vovó; estava parado, o queixo caído e um olhar espantado. Vovó não estava muito diferente.

− O que foi? – antes de vovó responder, eu olhei ao meu redor e percebi que todas as plantas tremiam como se houvesse um som muito alto por perto, brilhando levemente em cores diversas.

− Impossível... Desde Anastásia que não existe algo assim... – beleza... Quem é Anastásia, o que exatamente aconteceu e porque isso aumentou a sensação de que vou me ferrar?

− Considerando que ela sobreviveu tanto tempo com um EletricEyes se alimentando dela, que seu primeiro feitiço era de alto nível, falou perfeitamente cada palavra, sendo que as ouvia pela primeira vez... Acho possível sim, vovó... – Devon disse, aproximando-se, sorrindo encorajadoramente. Não sei por que, mas esse sorriso assustou mais do que as caras aparvalhadas deles.

− Não entende, Devon? O problema não é ser ou não possível, é o que vai acontecer... – vovó parecia agoniada, mordendo o lábio inferior de um jei-to... Desesperado? Afeee, todo mundo anda meio desesperado ultimamente! Que saco...

− Alguém me explica o que está acontecendo?! – descontrolei-me, e vo-vó e meu mano me olharam de um jeito um tanto... Preocupado. Ultimamente ando despertando preocupação demais em que está ao meu redor...

− Bem... Acontece, Stacy... Que você tem afinidade com todos os tipos de feitiços, segundo a reação das ervas... Além disso, seus olhos são ótimos... Mesmo antes de seu poder ser liberado. A última Fada que teve tantas habili-dades foi Anastásia, uma GreyEyes, uma Fada da Cidade. Na época que ela existiu, eram conhecidas como "Fadas Humanas", pois só elas viviam entre eles. – Vovó começou, recolhendo as plantas, sendo ajudada por Devon. – Fora o fato que você provavelmente é a primeira Fada tão nova, com sangue misturado em muito tempo que tem asas crescendo...

Eu esperei que ela terminasse, mas ela só o fez depois de levar tudo para a cozinha, voltar e sentar na minha frente junto com Devon.

− Todos acharam uma benção do criador o poder que ela tinha. Mas... Era um presente de Aine para proteger os seus e manter o frágil equilíbrio do nosso mundo. Deus deu uma visão à rainha, avisando sobre o perigo que to-dos corríamos por causa de alguns seres que são tipicamente encrenqueiros desde antigamente. Ela deu poder à Anastásia para que ela conseguisse manter o equilíbrio... – vovó parou, e não disse mais nada. Mas meu sexto sentido diz que tem muito mais do que ela está me contando... Tipo... O que esses encrenqueiros pretendiam fazer?

Mas, mesmo assim, não precisava de mais nada... Caramba, quer dizer que uma guerra entre o mundo ao qual acabo de descobrir que pertenço pode estar perto de acontecer e a Fada Rainha me deu poder para ajudar nessa guerra?! Ou o que quer que seja?

Essa Anastásia... Tomara que ela tenha deixado livros de instruções...

− Então... O que vou ter de fazer? – perguntei depois de um tempo, per-cebendo que o clima estava tenso. Despertador apoiara a cabeça na minha perna, e eu comecei automaticamente a pentear sua juba com meus dedos.

Havia um brilho nos olhos de vovó que eu nunca vira. Era estranho. Como se... Ela temesse pelo futuro.

− Eu não posso te ensinar todos os tipos de feitiços... Alguns nem são típicos de Fadas... Eu devia ter ouvido seu pai e não ter insistido para você ter o nome que tem... – ela bufou, irritada consigo mesma. Mas não respondeu minha pergunta.

− Como assim? – eu perguntei, franzindo a sobrancelha. Para os dois: ela não poder me ensinar todos os tipos de feitiços e sobre o meu nome.

Por que tudo tem de ser complicado pra mim?

− Você tem afinidade com feitiços ilusórios, que são típicos de sereias... Entre outros tipos... E o seu nome, Stacy... É a versão americana de Anastá-sia... Eu queria que seu nome fosse Anastásia, mas seu pai achou melhor Stacy... – legal... Será que foi só por isso que Aine me escolheu pra dar tanto poder? E... Como e quando ela fez isso? – Vou te ensinar o que posso, mas no que não posso... Teremos de procurar quem possa te ensinar.

Maravilha. Então posso resumir tudo à equação Stacy mais poder é igual à Guerra...

Eu não disse que ia me ferrar?

Definitivamente, meu sexto sentido raramente falha... Deve ser essa história de ser uma Fada.


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