30 agosto 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 7: Teia de Seda Da Aranha Lunar Azul

A rua estava vazia. A igreja protestante estava com as luzes acesas e eu ouvia vozes de lá. Devia estar havendo um culto.

Paramos em frente ao portão branco e toquei a campainha. Devia ser umas sete e meia da noite.

− A avó dela sabe das coisas... – ouvi Eshe comentar com Sammuel num sussurro. Apurei os ouvidos para ouvir melhor – modo mexeriqueira onli-ne. – Uma casa ao lado de terreno sagrado... Dificulta para que Demônios no geral a encontrem... – me virei para ele enquanto esperava vovó vir abrir o por-tão – Não, eu não tenho uma cópia da chave. Como vovó quase não sai de casa, nem eu e nem Devon precisamos.

− Que história é essa de Demônios? – perguntei, cruzando os braços. Demônios até podem existir, mas até onde sei, se manifestam como espíritos que possuem pessoas – mais ou menos. Despertador continuava olhando para o mais novo como se quisesse arrancar um pedaço dele – eu não sei o que deu nesse cachorro...

− Explicamos lá dentro. – Sammuel disse assim que Eshe abriu a boca para me responder. Fiz cara feia – e Eshe também, pelo que percebi – e lhe dei as costas. Vovó vinha apressada abrir o portão.

− Entrem, rápido. – foi o que vovó disse assim que abriu o portão, e an-tes de fechá-lo depois que entramos na garagem, colocou a cabeça pra fora e olhou para todos os lados. É impressão minha ou vovó está mais paranóica que eu? Ela nunca foi do tipo que briga com a gente... – Vamos, vão logo pra sala! – ela também nunca foi do tipo que fica apressando...

Antes de entrar, soltei a corrente da coleira de Despertador, que dispa-rou para dentro da casa assim que eu não podia controlá-lo mais. Uni as so-brancelhas num V, intrigada; ele não costuma agir assim... To falando que minha vida tá virando de cabeça pra baixo, mas ninguém acredita...

Na sala, Devon estava sentado no chão, com as costas apoiadas no so-fá. Estava sério, e do outro lado da sala, do lado da estante da TV, estava um labrador cinza, deitado e parecendo tristonho. Despertador tinha sentado ao lado de Devon, e olhava para o labrador com a cabeça levemente inclinada, como se estivesse curioso.

− Vó, que cachorro é esse? – perguntei, apontando para o labrador, sen-tando do lado de Despertador e coçando atrás da orelha dele, ouvindo-o res-mungar por gostar do carinho. Cachorro safado...

Vovó trancou bem a porta antes de responder. Ela está muito paranóica, definitivamente...

− É de uma família amiga minha... – ela respondeu com um tom meio vago. Estraaaaaanho... Vovó NUNCA responde algo com tom vago... – Vamos, acomodem-se... – ela empurrou Sammuel e Eshe para que sentassem em algum lugar na pequena sala. Eshe passou bem longe tanto de Despertador como do labrador, quase como se estivesse com medo, sentando num canto perto da janela, enquanto Sammuel se jogou de qualquer jeito no sofá vazio, de um jeito que me lembrou o L de Death Note. Sério. – Tire os pés do meu sofá, Elfo! Seja educado como o outro! – vovó disse, dando um tapa no joelho de Sammuel, indo para a cozinha pegar não sei o que. Sammuel só deixou os pés caírem no chão, girando os olhos. Concordo com vovó. Colocar essas botas com solados imundos sobre seu lindo sofá? Por favor, você é um ELFO, Sammuel; supostamente, devia ter educação.

Ela voltou trazendo uma caixa de primeiros socorros. Tinha o símbolo da cruz vermelha. Vovó ajoelhou na minha frente e pegou a mão com o pano de prato enrolado, o tirou e começou a limpar o ferimento. Vovó sempre foi carinhosa desse jeito.

− Ai! – gritei quando vovó despejou a água oxigenada no machucado. Isso dói!

− Você já teve machucados piores quando pequena e não reclamava tanto. – ela falou com um tom brincalhão, me fazendo girar os olhos. Por que ela sempre está certa? Ah, esquece, ela é minha vó, me conhece desde sempre... Além disso, avós como a minha SEMPRE estão certas.

Vovó limpou o machucado e fez um curativo de mestre depois de molhar folhas que, pelo cheiro, parecia ser hortelã, em água fria, e colocar no corte antes de enfaixar com gaze e prender com esparadrapo. Não, nunca ouvi falar que hortelã é bom pra cortes. Talvez seja sabedoria popular que eu desconheça... O que importa é que doía bem menos. Vovó sempre teve mão pra fazer curativos.

− Brigada, vó. – disse, sorrindo; Despertador lambeu minha cara en-quanto vovó olhava os outros arranhões que eu tinha ganhado.

Vovó levantou-se, enquanto suspirava e deixava o kit de primeiros so-corros num canto da estante. Aparentemente, nenhum ferimento merecia atenção, não como o do meu braço, que agora só latejava de leve.

Vovó sentou ao lado do labrador e começou a acariciar lentamente o to-po de sua cabeça distraidamente, e juro que o silêncio que se seguiu era muito, muito incômodo. Aparentemente, ninguém sabia por onde começar. Decidi dar um tempo à eles. Tipo, oi, quase morri e vi muito sangue hoje, Sammuel está aqui e com orelhas pontudas, mereço uma explicação!

Eu esperei.

E esperei...

E esperei...

Eu estou ficando cansada de esperar... Já to com as nádegas quadradas de tanto tempo sentada e ficando com dor de cabeça por ficar com as sobrancelhas franzidas. Eu vou estourar... Não reclamem que ficaram surdos depois, falou?

− Qualé, já tô cansada de esperar! Vão ou não vão me explicar o que está acontecendo?! – berrei, assustando todo mundo; até mesmo quem convi-ve comigo e sabe dos meus rompantes quando estão escondendo algo de mim e deixam isso claro, por acidente ou não, se assustou. Provavelmente meu timbre de voz...

Vovó me olhou de um jeito que queria dizer que já esperava aquilo – ela me conhece desde sempre, sabe como sou. Devon balançou a cabeça, como quem não sabe como resolver uma conta que envolva fração e raiz – eu detesto contas que contenham as duas e faço aquela mesmíssima cara diante de uma numa prova –, Eshe ficou com os cabelos literalmente brancos – eu juro que vou encurralá-lo num beco e obrigá-lo a me contar o segredo! – e Sammuel pulou no sofá. Os dois últimos pareciam particularmente assustados... Acho que exagerei... Ah, não importa! É minha vingança pelo beijo que Sammuel me deu!

− Ela, por algum acaso, tem sangue de Banshee?! – Sammuel pergun-tou com um tom assustado, os olhos arregalados na direção de vovó, que ba-lançou a cabeça negativamente de um jeito meio desolado. E... O que raios é Banshee?!

− Pois grita como uma... Deve ser o parentesco com elas... – Eshe murmurou, os olhos girando feito os de um animê. Era muito cômico! Mas por algum acaso isso foi um insulto?! E, repito: o que raios é Banshee?!

Cruzei os braços e fiz cara feia para vovó, e tomara que ela não demore à começar! Sabe, depois de quase morrer, não estou num dos meus melhores dias...

Não demorou e vovó começou a falar, de um jeito lento, como que querendo ter certeza do terreno em que estava pisando. E garanto que ela nunca fala desse jeito. Ela é meio desbocada – principalmente comigo... É, eu tenho à quem puxar.

− Stacy... – ela começou, e percebi o labrador bater de leve com a cabeça na mão dela que estava ao alcance, como que incentivando-a. Minhas so-brancelhas arquearam. Eis algo que eu nunca vi na vida, nem com Despertador. Animais nunca gostaram muito de vovó, apesar dela gostar deles... É, eu sei, é muito estranho. – Você tem sangue de Fada.

Eu não deixei vovó continuar. Eu comecei a rir, mas rir pra valer, como nunca tinha rido antes!

Tipo, uma Fada?! Oieee! Isso não existe! Além disso, Fadas possuem asas. Eu não tenho asas – mas o sonho comigo e a criança chamada Esperança me veio à cabeça na hora. Além disso, Fadas são pequenas! Eu, tipo assim... Tenho altura pra ser modelo! – mas não tenho a beleza necessária, felizmente. Vida de modelo não é pra mim...

− Vovó... Eu não sabia que a senhora era comediante! – eu zombei, mas mesmo assim, alguma coisa em mim, bem lá no fundo, me fazia ter medo daquilo ser verdade. Caramba, lembrei de mais um motivo pra eu não ser uma Fada! Fadas são bonitas. Eu sou... Estranha. É, mesmo sendo uma Fada, eu sou uma aberração...

Vovó estava séria. Devon estava sério. Todo mundo estava sério, até Despertador e o outro cachorro estavam sérios, e lentamente eu parei de rir.

Uma dica: se todo mundo continuar sério enquanto você ri, pare de rir. A sensação de estar no vácuo é tremenda e muito, muito ruim...

− Parou? – ela perguntou, e recomeçou a falar depois que acenei que ela podia ir em frente. – Eu sou muito mais velha do que falo e aparento, Lea-vesEyes... Eu já tinha idade para ser bisavó quando a Primeira Guerra come-çou. – um arrepio percorreu minha coluna. Faz tempo. De repente eu passei a ver vovó como uma múmia... Ok, nem tanto, mas pelo menos como uma da-quelas velhinhas caquéticas de filmes que dão com a bengala na cabeça dos outros. Sério. – Sou um dos seres que Deus criou e colocou nesta terra, capa-zes de atravessar o tempo. Sou uma Fada, Stacy. Uma Fada das Árvores, uma LeavesEyes, como nós nos chamamos para que os humanos não percebam. E você, por ser minha neta, também é uma Fada. Embora já tenha passado da idade que costumamos despertar nossos poderes... – Rá! Mais um motivo pra eu ser aberração! E eu estava certa. Vovó é uma Fada. De repente, o medo que eu estivesse certa em mais coisas me alcançou e fez um arrepio percorrer minha coluna... Afinal, acertei o que Sammuel e vovó são... Tomara que eu não esteja certa sobre mamãe. Isso seria um golpe por demais... Doloroso.

Vovó continuou a falar. Descobri que existiam dois tipos de Fadas: Fadas da Floresta, a que eu e vovó pertencíamos, e Fadas da Cidade, que eu nunca vira. Sammuel ajudou-a a explicar-me sobre o tal Djin. Eu acertara quando o chamei de PeinEyes, pois era assim que os chamávamos na frente dos humanos comuns. Aparentemente, o Djin vinha atacando famílias de Fa-das da Floresta e da Cidade, matando-as, espantando suas Mantícoras – que eu estava para descobrir o que eram – e colocando fogo em suas casas depois de quebrar toda coisa capaz de refletir algo da casa. Sammuel me explicou que qualquer superfície reflexiva refletia o Daeva – um tipo de demônio persa – que estava dentro do Djin contra a própria vontade, que era o que lhe dava poder; através do reflexo, o Daeva poderia libertar-se. Não sabiam por que estava atrás das famílias de Fadas, mas sabiam que praticamente todas em São Paulo já tinham sido mortas ou tinham fugido para outros lugares. E, pelo jeito, agora ele estava subindo o país atrás de mais famílias de Fadas...

− Como tantas coisas se ocultam das pessoas? Pelo que me falaram, tem muita coisa que ninguém compreenderia! – exclamei, abrindo os braços e quase esbofeteando Devon. – Desculpe. – murmurei de modo culpado para meu irmão. Porque eu tenho a terrível mania de quase esbofetear os outros por acidente?

Vovó suspirou, chamando Despertador com um aceno de dedo. Ele saiu do meu lado e foi até Eurídice. Vovó fechou os olhos, colocando as mãos na cabeça de Despertador. Suspirou e abriu os olhos. Dei um berro, pulando para cima do sofá, empurrando Sammuel para o lado.

Como se seda estivesse se rasgando, a pele de cachorro caiu, deixando exposta uma estranha criatura. Era vermelha, com um rabo longo cheio de espinhos na ponta, corpo de leão, com uma juba espessa com mechas negras rodeando a face semelhante a de um humano, de olhos totalmente negros, pele vermelha e presas longas saindo da mandíbula. Seu tamanho não se alterara.

− O que... O que é... Isso? – murmurei, me encolhendo no sofá, agarrando o braço de Sammuel e escondendo minha cara atrás do ombro do rapaz. Sério, eu fiquei MORRENDO de medo. NUNCA tinha visto algo daquele tipo.

Despertador olhou para mim de um jeito como que magoado pelo jeito como eu agira. E sabe que não o culpo?

− “Isso” – começou Sammuel – é uma Mantícora. Na verdade, um filho da maior de todas. – ele terminou, forçando-me a soltar seu braço quando per-cebeu o olhar assassino de Devon. Arre! Eu não sabia que meu irmão era tão ciumento!

− Mantícoras protegem as famílias de Fadas. Essa ainda é Despertador. Apenas sem sua máscara. – vovó sorria, coçando o pescoço da Mantícora, que ainda me olhava, como que suplicando para que eu me aproximasse. – Ele estava disposto a dar sua vida para te salvar do Djin. Mas poucos ousam en-frentar uma Mantícora, mesmo uma que seja um filhote. – respirei fundo, des-cendo do sofá para o chão, incerta e com medo. Ainda não sabia o que pensar direito sobre a verdadeira forma de Despertador.

Vovó incitou Despertador para que ele viesse até mim. Ele deitou ao meu lado, e eu comecei a acariciar sua juba. Era muito estranho. Tipo assim, os pêlos eram ásperos, e eu nunca tocara algo que possuísse aquela textura. E então, a boca cheia de presas de Despertador se rasgou num sorriso. E acabei por reconhecer meu cachorro louco na Mantícora. A aparência mudara, mas eu sabia que o jeito de ser e a vontade de me proteger continuavam iguais. Continuavam fortes como quando nos conhecemos, quando eu tinha... Quatro anos? É, acho que eu tinha essa idade quando vovó me deu ele.

Olhei então para o labrador, e não foi preciso vovó fazer nada, vi o que quer que fosse que o cobria cair e vi a Mantícora, e ela chorava enquanto nos via. Como se estivesse se lembrando de algo, e a lembrança lhe causasse dor. Como uma flecha, sua tristeza me atingiu, enquanto eu lembrava da família de Fadas destroçada, lembrando vagamente da cor de seus cabelos, semelhantes aos meus – era uma família de Fadas da Floresta – e compreendi que aquela Mantícora era daquela família. Sua tristeza devia ser imensa.

Forcei-me a engolir as lágrimas que tinham me inundado os olhos em complacência à Mantícora, olhando para vovó.

− Vovó... O que vai acontecer com essa Mantícora? – perguntei, sentin-do Despertador se aconchegar melhor à mim. Os olhos de todos se viraram para mim, surpresos.

− Já conseguiu ver a outra sem ser necessário alguém tirar a máscara? – foi Eshe quem falou, tão surpreso como era possível. Acenei afirmativamen-te, e vovó sorriu.

− Seus poderes estão despertando rápido, Stacy. – ela constatou. – Pa-rece que o atraso está sendo tirado... – Riu então levemente, enquanto tentava confortar a outra Mantícora, antes de falar novamente, em tom triste. – Ela será mandada para junto de sua família, para onde Sammuel a mandou. – ela disse, e eu percebi Sammuel suspirar enquanto tirava a corrente com a fênix e o livro dos bolsos.

− Não! – berrei, levantando-me e indo em direção à outra Mantícora, a-braçando-a pelo pescoço. Surpreendi a todos, menos Despertador. Meu eterno companheiro sorria, como que dizendo “Te conheço desde sempre. Sabia que iria fazê-lo...” e não duvido que estivesse se passando isso em sua cabeça, considerando o quão bem ele me conhecia. Mas, afinal, até eu me surpreendi – nem tanto, sempre tive um fraco por animais desolados, independente de que animal se trate... – Ela não pode ficar conosco, Vó?! – perguntei com tom desesperado.

Vovó olhava-me de um jeito que dizia “Tanto para aprender... Tanto para compreender...” que me fez derramar lágrimas. A culpa não é minha se só agora resolveram me contar tudo! Ela acariciou meu rosto, antes de falar.

− Stacy... Mantícoras estão ligadas com as famílias as quais foram des-tinadas a proteger... Mesmo que a deixássemos ficar conosco, ela ficaria infe-liz, pois não está ligada à nós. – Senti meu irmão segurar meus braços doce-mente, me fazendo soltar a Mantícora. Ela sorriu-me, como que agradecendo por eu ter compartilhado de sua tristeza e me compadecido dela, enquanto eu ouvia Sammuel começar a falar, enquanto acontecia com a Mantícora o mes-mo que eu vira acontecer com sua família.

Devon abraçou-me e Despertador descansou a cabeça em minhas per-nas. A Mantícora acenou-me um adeus com a cabeça, e eu respondi com a cabeça também. Aguentei até o fim, até vê-la sumir por completo. Eu não era mais uma menininha que escondia o rosto quando via algo forte. Eu já tinha quinze anos.

Suspirei, deixando minha cabeça descansar no ombro de Devon quando ela sumiu por completo, me perguntando para onde ela teria sido enviada. Parecia tão jovem... Talvez tivesse a idade de Despertador. Talvez só um pouco mais velha. Talvez mais nova. Tão pouco tempo ao lado de sua família...

Preparei-me para fazer mais uma pergunta de todas que rodavam em minha cabeça.

− Devon... Você sabia de tudo isso? – perguntei-lhe, erguendo os olhos para poder enxergar os dele. Ele sorriu-me.

− Sim, mana... Há muito tempo. Estava ansioso que você despertasse seus poderes. Queria muito conversar com você sobre tudo isso. – seu sorriso pareceu aumentar. – Tenho treinado muito para dominar os meus poderes... – Ele riu e eu também ri, enquanto me virava para vovó novamente. De repente, ficou claro para mim a história da garota com quem ele vinha saindo... Devia ser pretexto para treinar. Obviamente, com alguém. Uma hora eu descobriria. Sim, eu o atormentaria até que me contasse. Provavelmente, usaria meu dom de pentelhar... Hohoho.

− Vovó... O que foi aquilo que caiu de Despertador? – eu perguntei, e quase pude ouvir Despertador meio que bufar de um jeito estranho. Afe. Se não quer responder, falasse que não queria que eu perguntasse...

− Aquilo... Era a Teia de Seda da Aranha Lunar Azul. – vovó respondeu, parecendo não ter gostado muito da pergunta. Aparentemente, ficaria por isso mesmo, mas devia haver uma enorme interrogação em minha face, porque Eshe completou a explicação, com um enorme sorriso, devo destacar.

− A Aranha Lunar Azul existiu na época que tudo que foge à realidade humana podia ser visto pelos homens. – ele começou com um tom que com certeza me lembrava um contador de histórias. – Ela era uma belíssima mulher da cintura para cima, de cabelos cor de lua e olhos negros, mas da cintura para baixo, uma aranha, oito pernas, toda azul. Ela percebeu que ver tantas coisas destruiria à nós e aos homens, e então começou a tecer uma teia de seda com seus próprios cabelos com a qual pretendia proteger-nos. Alguns não concordavam com isso, pois gostavam de incutir medo nos humanos, e se aproveitaram. Enquanto ela tecia, mataram-na. Mas não contavam que sua vontade fosse de fogo, e então, a teia, que era tal que podia ser pega, desfez-se e nos cobriu, de forma que somente os olhos daqueles que não são humanos podem ver através, apesar dos dons de alguns permitirem ver. E, mesmo assim, se a Teia é muito grossa, nem nós, não-humanos, podemos ver através dela. Somente aqueles que possuem os olhos mais aguçados são capazes de ver tudo. – ele sorriu ao terminar de contar a história. E então, tirou algo do bolso do macacão, e juro que quase vomitei. Era um rato – provavelmente o que estava em minhas costas mais cedo – morto. E então, o colocou todo na boca. Ouvi os ossos se quebrando enquanto ele mastigava e percebi ele engolir.

Meu-Deus-do-céu! Acabo de encontrar o ser mais nojento do mundo!

− Ecaaaaaa!!!!!! – berrei, escondendo minha cara no braço de Devon. – Você pirou, Eshe?! Esse bicho pode ter alguma doença! – gritei, minha voz saindo abafada por causa da blusa do meu mano. Ouvi Sammuel se mexer no sofá e o som de um tapa.

− Eshe! Seja mais educado! Saísse da sala pra não traumatizar a Stacy! – ouvi a voz de Sammuel dizer. Ele estava bravo com o outro rapaz.

− Mas... Mas eu tava com fome! – a voz de Eshe era chorosa como a de uma criança que não entende o que fez de errado – eu realmente acho que ele ainda não tinha entendido mesmo o que tinha feito de errado. Ouvi Sammuel bufar, e então Devon me fez olhar ao meu redor.

Eshe tinha um enorme galo na testa, e estava com os braços cruzados, com uma expressão de criança brava para Sammuel, que estava jogado no sofá com uma expressão de “Deus, daí-me paciência...”.

− Por que Eshe comeu aquele rato?! Isso é nojento demais! – perguntei com um arrepio de nojo ao lembrar da cena do rapaz colocando o rato na boca. Ecaecaeca! Isso foi nojento demais! Ainda se estivesse frito ou algo assim... Mas não. Estava CRU! Com todos os pêlos, entranhas e etc. Como alguém pode comer ratos desse jeito?!

− Porque ele também tem sangue de Doppelgänger... Ou NothingEyes. Eles gostam de comer ratos. É o seu alimento favorito. – Sammuel respondeu, olhando para Eshe com um olhar que eu juro que ele só não o estava afogando na privada por um motivo muito forte. Eshe, por outro lado, olhava para cima de um jeito culpado, como que só agora percebendo o que tinha feito.

NothingEyes... Um dos olhos do Eshe tinha cor de nada... É, faz sentido.

− Por isso que um dos olhos dele não tem cor, não é?! Porque ele é me-tade Doppelgänger! – exclamei de um jeito meio infantil. Oieeee, meu nome é Stacy e sou louca de pedra, prazer! E essa sensação de que sou louca só au-mentou quando todos me olharam de um jeito tipo “Ela é louca?”. Só vocês não perceberam isso ainda?

− Mas... Mas eu me transformei para que os dois olhos ficassem iguais... Sammuel, eu esqueci de fazer isso?! – Eshe perguntou desesperado para Sammuel que balançou a cabeça em negativo. Devon sorriu.

− Parece que apesar de o poder da Stacy não estar totalmente desperto, ela tem uns olhos capazes de verem através da transformação de um Doppelgänger. Pelo menos em parte. – Devon apertou meus ombros contra ele. – E olha que a forma real de um Doppelgänger é coberta com muita Teia... – isso quer dizer que meus olhos estão entre os mais aguçados e capazes de ver através de Teia mais grossa? Legal!

Vovó, então, levantou-se, sorrindo para mim e indo para a cozinha.

− Devem estar todos famintos... Vou trazer algo para comermos. Não quero Eshe tirando mais ratos dos bolsos. – ela riu, e vi o rosto de Eshe ficar parecendo um pimentão. Literalmente. Devia ser aquela história de ser um Doppelgänger...

Ouvi não apenas o meu estômago, mas o estômago de todos nós que ficamos da sala roncar. Rimos então, enquanto Sammuel descia do sofá para sentar ao meu lado no chão. Não sem um olhar assassino de Devon e um rosnado ameaçador de Despertador. Arre! Agora até minha Mantícora tem ciúmes de mim!

Povo doido...


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