23 agosto 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 6: Debaixo da Pia Tinha Uma Garota

Ver Sammuel me fez prender a respiração de preocupação. Ele usava uma calça jeans, coturnos iguais ao do tal de Eshe – nominho estranho... – uma camiseta azul-marinho e um sobretudo jeans preto até os pés – sincera-mente, parecia que ele estava de luto por alguém. O cabelo dele parecia mais comprido – não tanto, mas não estavam mais tão espetados quanto antes –, e as olheiras que eu vira semana passada estavam mais profundas. A pele parecia até mais pálida, doentia, nada daquele tom moreno lindo. Ele não estava nada bem. Isso até fez minha raiva arrefecer. Eu disse que não costumo ficar muito tempo irritada com alguém... Ainda mais se esse alguém aparece diante de mim com uma aparência tão... Doente.

Ele se aproximou dos corpos, olhando-os de um jeito quase doloroso. Fechou os olhos e colocou as mãos em bolsos diferentes. De um, tirou o livro que eu o vira lendo. E do outro, uma corrente de prata com um amuleto estranho. Parecia ser feito de madeira, mas não sei que forma tinha. Estava muito longe pra eu conseguir distinguir – ainda mais considerando que eu o via através de uma fresta minúscula.

Abriu o livro onde o marcador de cetim estava e colocou a corrente no pescoço. Pude vê-lo respirar fundo e começar a ler algo que estava no livro. O que eu ouvi parecia quase como um canto fúnebre. A língua era estranha. Muitos l’s, n’s, h’s com som de r’s, s’s e vogais. E o ritmo, era triste demais e me arrancou algumas lágrimas pela família morta. E então, os corpos, o sangue e o vidro no chão dissolveram-se como se fossem jogados em ácido. Não sobrou nada. E então, Sammuel parou.

Eu tremia, assustada. O que era aquilo? Será que estou sonhando ou tendo ilusões?! Caramba, será que pirei de vez e minha próxima parada é o hospício?!

Vi Sammuel fechar o livro e tirar a corrente, guardando-os em bolsos separados. E eu ainda não tinha conseguido identificar a forma do amuleto.

− E então, Sammuel? – o de nome estranho perguntou, se aproximando com as mãos no bolso do macacão. – Ele fugiu de novo. E foi por pouco dessa vez... – não sei por que, mas as feições deles eram parecidas, como se fossem parentes.

Eu preocupada aqui se eles são parentes e eles discutindo algo importante! Eu não presto...

− É... Algo o fez fugir antes de completar o que estava fazendo... – Completar? Então ainda tinha mais coisa? Tipo me matar?

− Onde será que a Mantícora dessa família de Fadas está? – perguntou o outro.

Duas coisas:

=> Mantícora? Aquele bicho vermelho com rabo que cospe espinhos no Age of Mithology?

=> Família de Fadas? Até onde eu sei fadas são pequenas... Bem, exceto a Fada Rainha dos Celtas, mas isso não vem ao caso...

− Não sei. Pode ter sido morta, levada embora... Ter fugido em busca de ajuda... Muita coisa é possível. – Sammuel ergueu os ombros, meio com des-caso, meio com “Não tenho idéia”. O amigo dele balançou a cabeça afirmati-vamente uma vez.

Sammuel começou a andar de um lado pro outro, pensativo.

− Por que ele não botou fogo na casa, como fez das outras vezes? – ele murmurou, sério.

Flashs de notícias de incêndios inexplicáveis em diversos lugares do país, em casas de família onde ninguém ficava vivo se passaram em minha cabeça. Será que tinha relação com aquele... Aquela coisa que eu vi? Será que era isso que ele ia fazer?

− Algo o interrompeu. – o outro respondeu. Tive vontade de gritar “Eu o interrompi, quase morri, mas o impedi de botar fogo na casa, satisfeitos?”. Claro que eu não fiz isso. Queria ouvir mais. Além disso, ainda não estou tão louca.

− Mas o que? – Sammuel parou de andar e se aproximou da pia – no que eu prendi a respiração para que ele não a ouvisse – apoiando as mãos no mármore. Ouvi ele abrir a torneira e a água correndo – ao mesmo tempo que sentia meu joelho ficar molhado, maravilha, a pia tem vazamento. Quando pude ver seu rosto de novo, estava molhado. Sammuel tinha lavado a cara. Devia estar fritando muitos neurônios tentando resolver o mistério – e a resposta estava ali, debaixo da pia... Eu, claro.

Eshe estava com uma expressão séria como se sua vida dependesse da resposta daquele mistério – talvez dependesse mesmo, vai saber... E então, falou.

− Talvez a Mantícora tenha ido em busca de ajuda. A ajuda dos humanos não serviria de nada... Então, deve ter outra família de Fadas na cidade! Se tiver, eles correm perigo! – ele expressou-se de um jeito... Hum... Apressado e desesperado aos meus ouvidos.

Sammuel fez uma expressão séria, como que analisando a sugestão. Ele fica tão sexy sério...

Opa! Recaída não!

Belisquei meu braço e mordi a mão para não gemer de dor. O motivo do belisco? Pra eu acordar e deixar a recaída de lado e NÃO me apaixonar por Sammuel de novo – se é que eu consegui deixar de estar apaixonada por ele, mas isso não vem ao caso.

− Isso pode não ter acontecido... Mas é melhor verificar. Nunca se sabe. – ele disse, enquanto andava em direção à porta de saída, sinalizando para o outro segui-lo.

Ufa... Eles não me descobriram. Logo vou poder sair daqui.

− AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – Gritei quando senti garrinhas subindo pelas minhas costas. Eu saí feito um furacão debaixo do armário da pia, me balançando toda. Eu sabia que era um rato! – Tira esse bicho das minhas costas! – minha voz estava mais estridente do que jamais esteve. Sério. Eu tenho PAVOR de ratos! São nojentos e transmitem zilhões de doenças!

− Calma menina! – ouvi o mais novo falar e então não senti mais as garrinhas nas minhas costas. Me virei, ainda meio histérica, intentando sair correndo – eu queria sair dali rápido, não querendo encarar Sammuel –, mas tudo que consegui foi bater minha testa na testa de outro alguém e ir ao chão. A lei de Murphy me persegue, sem brincadeiras...

− Aiiiii... – murmurei esfregando minha testa e me ajoelhando rapida-mente. – Hoje é dia... – sussurrei, sentindo minhas nádegas doloridas. Como dizem, maior a altura, maior a queda... Isso é verdade. E devo acrescentar que mais dolorida também. Aiiiii...

− Stacy? – ouvi Sammuel dizer, incrédulo. Levantei a cabeça lentamente, olhando para ele. Dei um enorme sorriso amarelo típico de criança pega fazendo arte.

− Oi, Sammuel... – eu falei, sem graça. Devia estar pior que a Hinata quando perto do Naruto... Não sei como eu quebraria o recorde dela, mas acho que é isso que aconteceu.

Entenderam por que eu não queria encará-lo? Não importa o quanto eu diga que o detesto pelo que fez. Eu gostava demais daquele idiota.

Só digo que meu cupido particular fuma e está precisando de uns tabefes pra aprender a mirar...


Sammuel e o amigo de nome estranho me olhavam com cara de "O que vamos fazer com ela?". Despertador não quisera sair do armário debaixo da pia, parecia com medo ou algo assim. Eu ficava me balançando nos pés, e inclinei a cabeça quando percebi algo em meio aos cabelos dos dois. Rá! Orelhas pontudas! Eu SABIA que o Sammuel era um Elfo!

De repente eu ouvi meu celular tocando, acabando com o clima sério que estava naquela casa estranha. Meio estranho, mas é verdade.

Peguei meu celular, e pela música da Pink – Sober – eu sabia que era vovó que estava ligando. Dei pulinhos para o lado, atendendo o celular.

− STACY! Onde você está?! − ela berrou, e eu afastei o celular da ore-lha. Ela nunca gritou tanto. E antes que eu respondesse, ela já falou de novo. − Não importa, volta AGORA! − ela berrou de novo, me fazendo ver estrelas. Arre! Que que ela tá gritando tanto?!

− Mas, vovó... − comecei, mas ela não me deu chance de falar.

− SEM DESCULPAS, LEAVESEYES! Volte AGORA! − ela berrou de novo.

Juro que fiquei surda agora...

Acho que sei de quem puxei minha voz estridente agora.

Sammuel e o outro pareceram surpresos quando ela me chamou pelo meu apelido.

− LeavesEyes? − o outro Elfo murmurou, seus cabelos mesclados de prata e negro ficando totalmente prata num segundo.

Como é que ele fez isso?! Me ensina?! Muito útil, viu!

− Stacy? Quem está com você? − vovó falou baixo pela primeira vez naquele telefonema, seu tom de voz balançando do assustado para o surpreso. Hã? Só porque alguém repetiu o apelido que ela GRITOU no celular pra meio mundo ouvir?

− O Sammuel... E um garoto chamado... – olhei para eles, e devia ter uma enorme interrogação em minha face, pois ouvi o mais novo murmurar “Eshe”. – Eshe. – terminei a resposta.

Ouvi vovó suspirar, entre alívio e preocupação.

− Traga-os com você. E não saía de perto deles. – ela disse e desligou. Acho que a interrogação em minha cara ficou evidente e maior, pois eles me olhavam com interrogações brilhantes em néon em suas testas. Interrogações demais na minha opinião! Vovó só conseguiu me deixar mais preocupada e com mais perguntas ainda! Que droga!

− Ela disse para levá-los comigo até a casa dela... E pra não sair de perto de vocês. – eu respondi a pergunta muda, inclinando a cabeça pro lado e cruzando os braços, pensativa. Eles se encararam por um segundo. Sammuel arrastou Despertador para fora do armário da pia, enquanto – pausa para lem-brar o nome do mais novo – Eshe me arrastava para fora da casa.

Quando estávamos na rua – deserta – Sammuel me entregou a corrente de Despertador, e então viu todos os ferimentos que eu tinha. Eu juro que vi uma mistura de pavor e preocupação profundos em seu rosto – e já desisti de tentar não ter uma recaída, é impossível. Eu gosto mesmo desse Elfo idiota... Ele simplesmente deixou a corrente cair enquanto meu cachorro sentava paciente, olhando para Eshe como se quisesse arrancar-lhe a perna – o que fez o de cabelos prateados ficar uns bons três metros longe do meu cachorro.

− O que aconteceu? – ele perguntou com um tom calmo, pegando minha mão e delicadamente – eu sei, isso-é-estranho, embora eu tenha ido parar nas nuvens (mal de garota apaixonada... meu cupido particular ainda me paga) – e desamarrando a faixa de cabelo que fora usada como curativo. Ela estava manchada de vermelho, e o ferimento voltara a sangrar – provavelmente quando eu saí correndo do armário.

− Despertador – percebi Eshe abafar um riso, assim como Sammuel. Eu ignorei. – saiu correndo pra dentro da casa. A corrente estava enrolada no eu pulso... Ele me arrastou um pouco antes da corrente se soltar completamente. Ai! – gritei quando ele apertou o ferimento entre o indicador e o polegar, onde estava mais profundo porque fora por onde a corrente passara até o fim. Pô, dava pra tomar um pouquinho mais de cuidado? Está me fazendo voltar a ficar com raiva de você!

− Você lavou? – ele perguntou, e fiz uma cara de criança mal-criada ao responder.

− Muito mal. – respondi, segurando outro grito – de susto, dessa vez – quando ele pegou o amuleto de madeira – que agora eu consegui ver, tinha a forma de um pássaro, talvez uma fênix, não sei por que tive a ideia de que era uma fênix – e o tocou no ferimento. O amuleto esquentou, não à ponto de doer, mas muito.

− Rën... (Lê-se Rixn) – o ouvi falar. Devia ser algum xingamento naquela língua estranha... E, não sei porque, não estou curiosa pra saber o que significa. – O Löshé (Lê-se Lúsrre) do Djin te contaminou feio! – ele murmurou, e vi uma expressão de assombro passar pelo rosto de Eshe enquanto seus cabelos ficavam... Azul celeste. Ele tem que me falar o truque! Ok, mas eu não esqueci da palavra estranha... O que é esse tal de Löshé que me contaminou?

− É piada, né, Sammuel?! Se o Djin tivesse visto-a, teria matado-a, não se aproximado à ponto de contaminá-la e depois ido embora deixando-a viva! – ele meio que sussurrou meio que gritou. Minha cabeça já estava girando. E quando Eshe se aproximou muito, Despertador deu um latido de aviso. Ah, mas que droga! Não bastasse o mundo estar girando e virando de cabeça pra baixo, o Despertador ainda tem de inventar de ser o cachorro que avança em quem tocar no dono?! Pelo amor, né!

Sammuel ignorou Eshe, que bufou e cruzou os braços como uma criança brava, e me olhou de um jeito estranho. Eu não consegui definir o que seu olhar dizia. Talvez estivesse falando pra eu controlar melhor o meu cachorro, ou algo que tivesse nada haver com Despertador. Eu não sabia dizer. Não sou uma das melhores observadoras do mundo, sabe...

− Você viu alguém lá dentro? Se sim, o que sentiu e o que ele fez? – ele perguntou, enquanto pegava o livro do outro bolso depois de colocar a corrente no pescoço. O abriu meio a esmo, e parecia que tinha sido onde ele queria, considerando o sorrisinho.

Eu não queria falar daquilo. Me dava arrepios. Tipo assim, eu quase morri. Não era algo que eu quisesse lembrar tão cedo... Ele deve ter percebido, pois a mão que ainda segurava a minha a apertou levemente.

− Um homem muito alto, todo tatuado, vestido de preto, todo sujo de sangue... – engoli em seco – E os olhos... Aquele azul não era normal... Eu me senti estranha... Como se... Como se ele estivesse provocando dor na minha alma... – fechei os olhos longamente, a cena vindo à minha cabeça, tão vívida que era como se ocorresse naquele instante. – Ele se aproximou... Mas Despertador pulou na minha frente e ficou latindo pra ele, raivoso... Eu só tinha visto ele latir assim no dia que atacaram Tia Verônica, antes de eu ir para o colégio... – outro calafrio. – E então, ele fez um som estranho... E saiu correndo pela porta dos fundos... – Sammuel me olhava de um jeito carinhoso, quase piedoso. Eshe já não parecia bravo. Apenas olhava de Despertador pra mim de um jeito que não sei dizer o que era.

Ouvi Sammuel começar a murmurar as palavras que estavam no livro – ou porque ele iria abri-lo, hein? De algum jeito, me senti mais leve, como se algo que estava dentro de mim, me contaminando, tivesse sido expulso. Eu sequer percebera que havia algo me contaminando. Era sutil como um veneno que é introduzido devagar no organismo de alguém, uma pequena dose todo dia.

Respirei fundo, puxando meu braço. Minha mão doía menos agora. Sammuel sorriu enquanto guardava o amuleto e o livro.

− Melhor você levar a gente pra casa da sua vó, antes que ela apareça aqui atrás da gente. – Eshe falou, rindo, tentando fazer uma piada. Sim, tentou, porque não deu muito certo comigo que conheço minha vó.

− Pior que ela é capaz de aparecer aqui mesmo... – Eu murmurei, pensativa, depois de pegar a corrente de Despertador e começar a andar, deixan-do-o meio no vácuo... Às vezes eu faço isso. Talvez seja esse o motivo de nin-guém ser muito a fim de ser meu amigo: por causa da irritante mania de deixar os outros no vácuo.

Sammuel e Eshe me seguiam. E eu seguia Despertador. Estava perdida em divagações, distraída demais para prestar atenção no que estava acontecendo – eu sei que isso não é bom, mas eu não estava muito bem...

Porque a sensação que minha vida está virando de cabeça pra baixo só se intensifica?


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